Archive for the winnicott
Winnicott e o cristianismo V – o arrependimento e a capacidade de se preocupar
Winnicott e o cristianismo IV – a mente e a teologia
Winnicott e o cristianismo III – a confiança no ambiente e a fé
Winnicott e o cristianismo I – A kénosis e o devotamento materno
O amor como afeto e o amor como ação: Freud com Winnicott (final)
O amor como afeto e o amor como ação: Freud com Winnicott (parte 1)
Há cerca de uma semana atrás, caiu-me nas mãos uma obra cuja leitura muitos dos que me conhecem e até eu mesmo há duas semanas não recomendaria sequer como companhia para as noites de revolução intestinal, em que nos transformamos dum salto em reis. Trata-se de um best-seller traduzido para diversas línguas e lido por alguns dos maiores empresários do mundo: “O Monge e o Executivo: uma História sobre a Essência da Liderança” da autoria do administrador de empresas James Hunter. É bom que se diga que as razões de minha não-indicação à leitura do livro não eram de fato razões, uma vez que não se fundavam nem em uma mera leitura rápida do texto, mas apenas na temática geral da obra: a tal liderança, assunto que geralmente se encontra no rol dos tópicos trabalhados nos chamados “treinamentos” de psicólogos organizacionais ou administradores de empresas, o cúmulo da mediocridade intelectual em minha opinião. Além disso, o opúsculo era catalogado nas livrarias juntamente com escritos chamados comumente de “auto-ajuda”, cuja ineficácia foi tão bem comentada em um post recente pelo amigo e psicólogo behaviorista Igor Madeira.
Nota-se, portanto, que minha não-recomendação se baseava unicamente em preconceitos. Esses, como bem se sabe, podem tornar-se conceitos se seu conteúdo for efetivamente confirmado após um empreendimento analítico ou empírico, ou refutados caso tal confirmação não ocorra. Foi essa última possibilidade a que se concretizou a partir de minha leitura de “O Monge e o Executivo”. A princípio relutante, devorei o livro em uma semana tão clara era a articulação das idéias do autor e tão saborosa sua originalidade. Não vou me deter aqui nos diversos aspectos que me fizeram considerar a obra de boa qualidade, mas apenas em um ponto em que o autor me fez pensar em alguns vínculos com a teoria psicanalítica.
Em determinado momento, Hunter, inspirado pelos Evangelhos, discute a importância do mandamento do amor cristão expresso em máximas como “ama ao próximo como a ti mesmo” e “ama a teu inimigo” para o bom exercício da liderança. Segundo ele, o cristianismo radicaliza uma concepção de amor que encontra suas raízes no vocábulo grego “ágape” – uma das quatro acepções do amor na língua grega; as demais, como muita gente sabe, são storge (geralmente associado à amizade), filos (o amor que faz o bem, altruísta) e eros (amor da paixão romântica, relacionado também à sensualidade e ao…
Continue a ler O amor como afeto e o amor como ação: Freud com Winnicott (parte 1)O que é falo? (final)
Encerramos o post anterior com uma afirmação que, após uma segunda leitura, julguei que poderia levar a um mal-entendido: a afirmação de que há dois tipos de seres humanos: os que têm o falo (os homens) e os que não têm o falo (as mulheres). Essa pode ser a fantasia de muitos homens mas, na verdade, ninguém tem o falo! E isso se deve ao fato de que uma das formas que temos de pensar o falo é tendo em mente a possibilidade de não tê-lo. Sim: é só se lembrar do menininho e da menininha. O menino morre de medo de ser castrado e a menina tem inveja do menino porque já nasceu castrada.
É por isso que o Lacan quando vai falar desse falo que figura na nossa imaginação ele utiliza a letra grega “fi” acompanhada de um sinal minúsculo: (-φ), ou seja, o falo é sempre algo “real” ou virtualmente faltoso (não se tem ou se pode perder).
Mas o leitor pode estar pensando: “Pô, mas se o que o menino sente é um medo de perder o pênis e a menina um desejo de ter um pênis, por que Freud não fala só de pênis em vez de usar o termo falo?” Porque, caro leitor, o pênis é só o ponto de partida dessa representação chamada falo. Sem pênis não haveria a idéia de falo, mas o falo NÃO é o pênis.
O falo, prestem atenção, é a representação simbólica do pênis. Ou seja, qualquer coisa que tenha para uma pessoa a mesma significação que o pênis para a criancinha no complexo de castração. E qual é essa significação? É só se lembrar dos posts anteriores: para a criança recém-confrontada com a visão do órgão genital feminino, o pênis significa o órgão da completude. É por isso que o menino tem tanto medo de perdê-lo e é por isso que a menina o deseja tanto.
A razão disso é o fato mais do que óbvio de que não gostamos de nos sentir incompletos, faltosos, isso gera angústia. É por isso que os homens geralmente gostam tanto de competições e se gabam tanto entre si de suas conquistas: desde ter conseguido pegar a garota mais bonita da escola até a compra de um carro novo. Tanto a garota quanto o carro funcionam na economia psíquica deles como falos. É preciso mostrá-los, como crianças disputando para ver
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Continue a ler O que é falo? (final)O que é falo? (parte 1)
Desde o final do século XIX quando Freud inventou essa coisa chamada Psicanálise – que em termos de conhecimento sobre o que é o humano só é superada pela religião - os termos psicanalíticos vêm gradativamente se incorporando ao senso comum, ao falatório cotidiano, a esse blábláblá característico de um ônibus lotado.
Isso só trouxe efeitos deletérios tanto para a prática quanto para a difusão da teoria freudiana. Em primeiro lugar porque se acaba com o efeito-surpresa da intervenção do psicanalista: hoje qualquer pessoa com um mínimo de cultura geral sabe como funciona a versão tradicional do complexo de Édipo, o que faz com que ele traga pra análise sua vida interpretada edipianamente de antemão, fazendo o analista ficar com cara de tacho.
Por outro lado, um monte de conceitos psicanalíticos passam a ser utilizados no dia-a-dia (como o próprio conceito de Édipo) sem que as pessoas compreendam uma vírgula a seu respeito. Esse é o caso do conceito de falo. Poucos conceitos têm tanta frequência na boca, principalmente dos profissionais “psi” quanto o conceito de falo. É só ficar dois minutos num corredor de um curso de Psicologia para ouvir volta-e-meia o termo falo quer boca dos estudantes quer na boca dos professores. Quando você pergunta a eles o que entendem por falo, eles não titubeiam em falar (com orgulho): “Falo significa poder!”
O interessante a notar é que nem Freud, nem Lacan, nem Melanie Klein, nem Andre Green, nem Winnicott nunca disseram isso!
Feita essa ressalva, veremos, então, nos próximos posts, o que significa o termo falo em Psicanálise. No entanto, desde já podemos fazer algumas considerações que serão destrinchadas no decorrer da explicação:
Primeiro: o falo não existe na realidade, quer dizer, a gente não pode pegar num falo (embora muitos o quisessem), não podemos ter nenhuma experiência sensível com ele. O falo é uma representação, algo que só existe na nossa cabeça.
Segundo: o falo é uma criação humana cuja função é dar conta do grande problema humano que é a inexistência da fórmula do amor.
Terceiro: só foi possível ao homem criar o falo porque os órgãos genitais de homens e mulheres são como são.
Tudo isso será pormenorizadamente explicado nos próximos posts.

A mente em Winnicott (final)
No último post vimos que a concepção winnicottiana de mente é revolucionária em muitos aspectos. O primeiro deles refere-se ao fato de que, se para a grande maioria dos psicólogos e filósofos, a mente é algo já dado, já presente na constituição inata do homem, para Winnicott a mente surge fundamentalmente como uma reação. Reação, em primeiro lugar, à mãe que não se comporta de acordo com os desejos da criança e, em última instância, ao acaso do mundo.
Uma segunda implicação dessa concepção é a de que eu posso fazer da mente tanto um instrumento de compreensão do mundo quanto uma defesa contra o mundo. Uma vez que a mãe falha e a mente emerge como uma função que dará asas à imaginação do bebê para buscar compreender por que a mãe falha, a mente então pode ser utilizada como o instrumento que possibilitará essa compreensão. Por outro lado, o sujeito pode fazer uso dessa mesma função para afogar-se em um mar de explicações, transformando aquilo que serviria para compreender, numa forma de intelectualização que só serve para que o sujeito se defensa de sua incapacidade de compreender.
Pois bem, senhoras e senhores, não é exatamente essa última alternativa a da Filosofia, da Teologia e da Psicologia tal como nós as conhecemos? Com seus conceitos afastados do mundo real, imersos nas categorias do metafísico e do metapsicologia, buscam uma compreensão do mundo, de Deus e do psiquismo que se perde numa imensidão de abstrações (Exceção feita a Nietzsche, Spinoza, os pragmáticos e alguns outros filósofos).
Os teólogos, principalmente, são os maiores representantes desse uso inadequado da mente (como intelectualização): por não compreenderem a vontade divina (mistérios insondáveis, já dizia a Bíblia), inserem Deus e tudo o que se relaciona a ele nas categorias da razão, esterilizando a Revelação.
Por mais que eu aprecie a teoria lacaniana da Psicanálise, também não posso deixar de incluí-la no conjunto daqueles que preferiam o conforto do mundo das idéias. Façamos justiça: a ética lacaniana, o tempo lógico, o estádio do espelho e o destaque dado à função do significante no psiquismo, foram contribuições extraordinárias de Jacques Lacan. Porém, a ênfase dada à topologia, à teoria dos nós e à matemática, são coisas absolutamente desnecessárias à Psicanálise. Só servem para fazer o campo analítico ficar parado no tempo, masturbando-se intelectualmente em torno das ilustrações lacanianas.
Na outra ponta do barbante, encontram-se aqueles nos quais
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