Archive for the valor
Não goste apenas do amor
Haiti 2: É possível um mundo para além do capitalismo?
Por Atanásio Mykonios¹
O Haiti parece nos mostrar ainda de forma cabal o fato de que o país deve ser reconstruído com a única referência que nos é possível – o capitalismo. Seria possível outra experiência, justamente em um país arruinado em todos os aspectos? O atual contexto parece negar isto. Imediatamente, todos os esforços se voltam para dois grandes intentos, a saber, o primeiro, humanitário, óbvio, na medida em que todo mundo não irá negar essa ajuda, salvar vidas, oferecer conforto, comida, medicamentos, tratamento médico, cuidar dos feridos e especialmente dos desvalidos sem abrigo. O outro objetivo é mais profundo e neste sentido, especialmente os EUA que mostraram empenho imediato em oferecer ajuda, especialmente, um tratamento de choque, ocupando os pontos estratégicos no que concerne à logística: porto, aeroporto, vias de acesso, etc. A reconstrução do Haiti terá como motivação a inserção do capitalismo em sua face moderna. É necessário que a reconstrução atenda às relações fundamentais do sistema, o país, neste aspecto, está fechado, sequer um Estado com feições comuns ao que encontramos entre nós existe.
Por outro lado, a destruição do Haiti, por meio de décadas de ditaduras, exploração, abandono, indiferença e violência, não foram capazes de gerar entre os haitianos outro modo de vida. Isto pode nos revelar, afinal, que os empobrecidos e os explorados não encontram condições para criarem novas formas de relação social econômicas. Não quer dizer com isto que não haja experiências que tentam enfrentar a mercantilização, no entanto, a energia para superar o capitalismo foi extremamente sugada pelo próprio sistema. A reconstrução estrutural e material do Haiti requererá investimentos e anos de trabalho. Os haitianos serão explorados e mantidos sob controle rígido, contudo, serão empregados para serem submetidos a trabalhos pesados e receberão em troca um punhado de dólares, talvez mais do que recebiam até antes do terremoto. Ironicamente, serão mais felizes, terão comida à mesa e poderão levar os filhos à escola primária e com tudo isto, o mundo se orgulhará de reconstruir o Haiti sem os radicais islâmicos, os talibãs, os xiitas, e outros grupos de terroristas, até porque um povo absolutamente vergado receberá qualquer forma de ajuda com muito bons olhos. Assim, as gangues e os traficantes poderão ser controlados pelas forças de mercado ou até mesmo pelas massas de trabalhadores empregadas que exercerão mecanismos de compensação e controle social legitimando a…
Haiti 2: É possível um mundo para além do capitalismo?
Por Atanásio Mykonios¹
O Haiti parece nos mostrar ainda de forma cabal o fato de que o país deve ser reconstruído com a única referência que nos é possível – o capitalismo. Seria possível outra experiência, justamente em um país arruinado em todos os aspectos? O atual contexto parece negar isto. Imediatamente, todos os esforços se voltam para dois grandes intentos, a saber, o primeiro, humanitário, óbvio, na medida em que todo mundo não irá negar essa ajuda, salvar vidas, oferecer conforto, comida, medicamentos, tratamento médico, cuidar dos feridos e especialmente dos desvalidos sem abrigo. O outro objetivo é mais profundo e neste sentido, especialmente os EUA que mostraram empenho imediato em oferecer ajuda, especialmente, um tratamento de choque, ocupando os pontos estratégicos no que concerne à logística: porto, aeroporto, vias de acesso, etc. A reconstrução do Haiti terá como motivação a inserção do capitalismo em sua face moderna. É necessário que a reconstrução atenda às relações fundamentais do sistema, o país, neste aspecto, está fechado, sequer um Estado com feições comuns ao que encontramos entre nós existe.
Por outro lado, a destruição do Haiti, por meio de décadas de ditaduras, exploração, abandono, indiferença e violência, não foram capazes de gerar entre os haitianos outro modo de vida. Isto pode nos revelar, afinal, que os empobrecidos e os explorados não encontram condições para criarem novas formas de relação social econômicas. Não quer dizer com isto que não haja experiências que tentam enfrentar a mercantilização, no entanto, a energia para superar o capitalismo foi extremamente sugada pelo próprio sistema. A reconstrução estrutural e material do Haiti requererá investimentos e anos de trabalho. Os haitianos serão explorados e mantidos sob controle rígido, contudo, serão empregados para serem submetidos a trabalhos pesados e receberão em troca um punhado de dólares, talvez mais do que recebiam até antes do terremoto. Ironicamente, serão mais felizes, terão comida à mesa e poderão levar os filhos à escola primária e com tudo isto, o mundo se orgulhará de reconstruir o Haiti sem os radicais islâmicos, os talibãs, os xiitas, e outros grupos de terroristas, até porque um povo absolutamente vergado receberá qualquer forma de ajuda com muito bons olhos. Assim, as gangues e os traficantes poderão ser controlados pelas forças de mercado ou até mesmo pelas massas de trabalhadores empregadas que exercerão mecanismos de compensação e controle social legitimando a…
Diplomas são necessários?
Artigo assinado pelo jornalista Gilberto Dimenstein, “Honra ao Mérito”, publicado no jornal Folha de S. Paulo (edição de domingo 28/06/09), discute a necessidade de diploma para exercer profissões.
Honra ao mérito
A partir de agora, para você ganhar um título de mestre não será mais necessário entregar aquelas gigantescas dissertações, repletas de citações, rodapés, tudo isso embrulhado na hermética linguagem universitária. Basta um produto: música, pintura, reportagem, software ou artigo. Muitos de seus professores não ostentarão títulos acadêmicos, alguns deles talvez nem mesmo tenham diploma de ensino superior. Mas, necessariamente, precisa demonstrar reconhecida experiência no mercado de trabalho. Essa é a consequência de uma portaria anunciada na semana passada, propondo uma nova avaliação para os mestrados profissionalizantes, destinados a pessoas que não querem dar aula nem fazer pesquisa, mas se aprimorar na sua profissão. A residência médica ou um MBA, por exemplo, já valeriam o mestrado.
O ministro Fernando Haddad me diz que, com essas mudanças, será mais fácil colocar nas universidades os talentos do mercado de trabalho, compartilhando sua experiência com os alunos. “É exatamente o que muitos estudantes esperam de seus cursos, depois que terminam a graduação”, explica. A chance de um sofisticado marceneiro, com seu diploma de ensino médio, dar aula num mestrado de arquitetura de uma USP indica que estamos metidos num interessante debate sobre méritos e talentos.
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, voltou a sinalizar, na semana passada, que, além do jornalismo, mais diplomas poderão deixar de ser obrigatórios – arquitetura, administração, educação, economia, e por aí vai. Se um advogado, devidamente treinado em comunicação, pode trabalhar em jornal, por que um aluno de engenharia não poderia dar aula de física ou matemática numa escola pública? Bastaria que tivesse uma ajuda para saber transmitir seu conhecimento.
Para melhorar as escolas públicas, a cidade de Nova York chama os talentos da sociedade e oferece um curso de didática em apoio – são mandados para os piores lugares. Os resultados são bons, claro. Os alunos gostam de professores que adoram fazer coisas, sejam elas quais forem. Esse tipo de questionamento pode parecer estranho agora num país elitista dominado por cartórios e corporações. Mas é apenas consequência da velocidade do conhecimento.
O debate sobre o mérito profissional e acadêmico aparece das mais diversas formas – e ocorre, em boa parte, porque estamos buscando novas formas de
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Continue a ler Diplomas são necessários?Ontologia do Valor
Tanto o empirismo quanto o racionalismo, paradoxalmente, comungam de uma precedência causal necessária para se analisar um fenômeno que se nos apresenta à percepção. O método fenomenológico nos indica, porém, que é possível que a própria faticidade do fenômeno possa ser sua causa, isto é, sua razão de existir está em sua própria existência, e seus sentidos, significados e seus componentes essenciais podem apenas representar os afetos e intencionalidades de um sujeito em relação com o fenômeno.Marx ontologiza o valor colocando como substância do mesmo, isto é, sua causa, o trabalho contido na elaboração do produto. E o tempo despendido nele é a forma capitalista de medir esse trabalho. Só enquanto mercadoria, o tempo pode ser medida do trabalho, mas apenas como método arbitrário de medição. O próprio trabalho, ou a capacidade de fazê-lo, requer tempos despendidos de estudo, dedicação, treinamento, preparação e etc. Logo, cada trabalho parece ter seu próprio valor, ainda sim, atribuído arbitrariamente por um sistema de mercado que precisa de medidas padrão para comparação e equivalência de valor entre as mercadorias a serem mediadas por unidades monetárias. Isto é, existe uma consciência intencional por traz do sentido existencial do tempo como medida do trabalho.
A questão é que, segundo minha percepção, não se segue da necessidade de se dividir o tempo de produção em unidades controladas, o fato de que é o trabalho que substancializa o valor de um produto. Essa relação de causalidade pode ser necessária mas não suficiente para se explicar a forma como um produto possa ser valorizado ou valorado.O grande problema é que escolheu-se, arbitrariamente, uma linha de pensamento que à época de Marx era a vigente; colocando-se uma relação causal necessária à definição de um fenômeno. Curioso é notar, que após o Livro I, Marx aborda a história e a práxis de forma dialética, quando antes estabelece os postulados teóricos de suas idéias de forma ontológica.
Se Marx tivesse abordado seus postulados considerando o método dialético com que vê a história, sua noção de Valor poderia ter mudado radicalmente, e ele poderia ter dado outro rumo às idéias fisiocratas de Adam Smith e David Ricardo. Se seus pressupostos ontológicos do Valor levassem em consideração a dialética existencial entre a própria faticidade e àquilo que lhe dá essência e sentido, ele poderia chegar à conclusão de que o Valor de um produto não é dado ontologicamente pelo trabalho nele
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Continue a ler Ontologia do ValorO signo saussuriano.
A análise dos principais aspectos do signo saussuriano será feita a partir das colocações CLG e dos ELG. Apesar de considerar o fato de o primeiro livro ter vindo à tona desde o início do século passado e definido os fundamentos da lingüística saussuriana até o presente momento, tomaremos as considerações do livro atual, elucidando de forma mais profunda os seus pensamentos a cerca da lingüística e seu objeto. Dessa forma, não seria de mais solicitar do leitor a atenção devida quanto a esta fusão de conteúdos porque, provavelmente, em muitos cursos de Letras, as considerações sobre os ELG não estão, ainda, sendo consideradas e, portanto, essas informações não são vigentes para a fundamentação teórica do curso. Porém, que fique claro que, o objetivo maior desse blog é buscar esclarecer um pouco sobre o pensamento saussuriano no que diz respeito à linguagem, e para isso estaremos sempre abordando o CLG, os ELG e seus ensaios sobre fonética do indo europeu. Espera-se, a partir de tal abordagem, que possamos fornecer elementos que auxiliem na compreensão dos fundamentos lingüísticos e da genialidade do mestre de Genebra.
É importante, antes de tudo, compreender que considerou Saussure o signo como uma entidade dicotômica e psicológica . Dicotômica por dividir-se em duas faces; significado e significante. Psicolígica por unir essas duas faces mentalmente. O termo dicotômico advém do grego dichotomía que significa divisão em duas partes, o que desfaz as concepções anteriores para as quais o signo era diático ou triádico. O signo, a partir de Saussure, deixou de ser uma soma de dois ou três termos para se tornar uma divisão de um único e mesmo termo em dois.
Quando postulou o signo como uma entidade puramente psicológica (CLG, 40 e ELG, 24 e 117) que só existe dentro de nossa cabeça (ELG, 117) sendo ele uma operação de ordem psicológica simples (ELG, 117) e, ainda, que não é o pensamento quem cria o signo, mas o signo que determina, primordialmente, o pensamento (ELG, 45), foi além, o gênio de Genebra porque rompeu com o que havia de vigente, a esse respeito, até então e lançou novas bases que redefiniram os pensamentos filosófico e psicológico de seu tempo.
A compreensão do signo como uma entidade psíquica, cuja existência é mental, trouxe a conclusão de que o mesmo deixou de ser nominalista, como pretendia Platão, porque passa a inexistir na essência do objeto nomeado.…
Continue a ler O signo saussuriano.Definições de uma ciência moderna da linguagem
O Cours de Linguistique Générale de 1916 consiste na leitura que alguns dos alunos de Saussure fizeram daquilo que fora por ele postulado. Já os Escritos de Lingüística Geral são compostos por anotações feitas pelo próprio mestre e que, aparentemente, comporiam um esboço do que poderia vir a ser a sua própria publicação de um Curso de lingüística geral e, ainda, por textos contemporâneos de outros discípulos seus. Tanto em um quanto outro, está retratada sua grande preocupação em definir qual seria, exatamente, o objeto de estudo da Lingüística, e qual o melhor método de abordagem deveria ser adotado pela nova ciência.
Como um membro da corrente histórico-comparatista, Saussure acompanhou o desenvolvimento do estudo da linguagem de seu tempo. Foram de suma importância os estudos realizados até então. Elucidou-se muito a cerca da pluralidade dos idiomas e da semelhança entre alguns deles. A descoberta das semelhanças fonológicas apontou para comunidades de fala que poderiam ter sido uma só no passado, e que, posteriormente, se espalhariam pelos continentes europeu e asiático. Porém, tais descobertas mostraram-se mais significativas para os estudos antropológicos que para os estudos lingüísticos. Aliás, esse era um dos problemas da Lingüística de então, servir-se de condutor informativo para ciências paralelas. Para Saussure a razão para a existência autônoma da Lingüística ainda estava por ser apresentada. Enquanto questionava sobre os possíveis porquês de ainda não se haver determinado objeto e metodologia da ciência da linguagem até então, lançava, aos alicerces dos estudos contemporâneos da linguagem, sua pedra angular. Ocupou-se com a necessidade de se separar os fenômenos interno e externo da língua, definindo seu caráter dual; psicológico e físico. Defendeu a análise do fenômeno lingüístico a partir de um instante específico de ocorrência de fala (sincrônico); de um dado estático, e não mais do ponto de vista de sua evolução no tempo (diacrônico), como faziam os comparatistas. Considerou as ocorrências dos fatos lingüísticos de forma encadeada, funcional e estrutural, como em um sistema, em que um elemento é interdepende do outro para realizar sua própria função e colaborar na função de todo o sistema. Afirmando, ainda, que cada “peça” ou elemento dessa cadeia de relações só é igual si mesma em função e posição e a nenhum outro elemento nesta relação. Teorizou sobre a arbitrariedade e a dupla face psicológica do signo - em que um signo e sua significação fazem parte do domínio psíquico interno e um
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