Blogs de Ciência

Blogs de Ciência – Divulgação de todos os blogs em Português que versam a ciência. Parte do Projecto Divulgar a Ciência(.com)

Archive for the teoria do conhecimento

O que é então o criacionismo?

Este artigo é uma resposta ao: “o que o criacionismo não é?” (1).

Durante conversas com um colega, foi feita a sugestão que eu fizesse uma leitura do referido artigo de Michelson. A leitura serviria como uma permuta de análise de artigos.

O artigo O que o criacionismo não é, escrito por Michelson Borges, estabelece que no ano de Darwin (2009) a teoria da evolução estaria sofrendo ataques, alguns bem fundamentados e outros não. Embora não exponha largamente no artigo quais seriam todas as supostas críticas bem fundamentadas ao evolucionismo  – o foco do artigo não é falar sobre evolucionismo, mas sobre o que o criacionismo não pode ser considerado. O autor diz o seguinte:

Todos sairiam ganhando se se deixassem de lado motivações ideológicas e fossem verificados – sob o melhor rigor científico – os fatos e em que aspectos eles favorecem esse ou aquele modelo. (Borges, M. In: o que o criacionismo não é?)

Concordando com suas palavras acerca da suspensão dos valores ideológicos, efetuando uma espécie de suspensão aos meus valores creditados tentarei ser o mais analítico possível quanto ao artigo e alguns comentários acerca do mesmo.

O autor do artigo, logo deixa claro qual será sua abordagem. Irá mostrar o que, supostamente, o criacionismo não é:

Por isso, é necessário desfazer alguns mal entendidos repetidos por gente que adora uma boa polêmica. Eis alguns deles: (idem)

O autor, portanto inicia suas explicações, clareando melhor acerca do que não é criacionismo, sob sua visão.

Coloco que é sob sua visão pois lendo com cuidado notei que certas explicações não são totalmente eficazes para salvar o criacionismo como teoria plenamente científica. De um âmbito geral o artigo é bem escrito, tem um espírito que não me parece enganatório, pois parece esclarecer sobre o criacionismo, mas efetivamente está envolto numa visão de mundo determinado.

O autor lista alguns mal entendidos sobre o criacionismo (segundo o mesmo) e esclarece sobre cada um. O primeiro deles é o que diz que o “criacionismo é anticientífico”. Acompanhe as palavras de Michelson:

Para Earl Aagaard, professor de Biologia da Universidade Adventista do Sul, em Collegedale, Tennessee, EUA, a fonte de discórdia reside em especulação histórica. “Os cristãos em geral, e os adventistas em particular, têm muito pouca dificuldade com os resultados empíricos da ciência”, diz Aagaard. “As disputas (…) se manifestam no lado histórico das coisas – em Arqueologia, Paleontologia,

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A heurística da suspensão é mais uma cosmovisão?

Ao escrever o ensaio “A suspensão do juízo como heurística” havia me perguntado sobre a possibilidade desta suspensão (inclusive a religiosa) ser possível e se ela poderia ser elencada como uma outra cosmovisão. Por este motivo, afirmei que deveria ser feito dentro da possibilidade do que for humanamente possível. E esse é o ponto. Mesmo assim ainda com certas dúvidas e precisando dialogar, cheguei como quem nada queria e comecei expor minhas dúvidas à minha esposa a fim de perceber seu viés acerca do assunto; uma visão diferente da minha. De certa forma, ela chegou justamente no ponto de minha dúvida e conversamos o possível no prelúdio de minha ida ao trabalho.

Também mantive conversa com Vanessa Meira, uma blogueira que estou tratando o assunto. E com base nas seguintes conversas, notei certas objeções ao método heurístico que comentei na postagem supracitada:

1) Suspender juízos de forma completa é impossível. Somos humanos e sempre estamos sujeitos a cosmovisões.

2) O ato de suspender juízos para investigar o mundo é uma cosmovisão. Portanto seria uma cosmovisão que tentaria sobressair-se as demais.

Pois bem, ao escrever originalmente o ensaio supracitado, deixei bem claro que a suspensão deve ser feita, se for feita, “dentro dos limites humanos”. E que esta suspensão não tem em si a consequência de uma “traição” à sua cosmovisão.

Existe uma diferença muito grande em supor uma suspensão de seus valores religiosos (e outros se necessário, para uma investigação) dentro do limite em que você puder e pedir uma suspensão total. Sim, total é impossível, por isto mesmo já estava implicito no meu artigo citado quando dito “humanamente possível”.

Quanto ao ato da suspensão ser uma cosmovisão não se tem muito para fugir, pois toda empreitada humana é tomada por imagens tácitas assumidas. A ciência, como já abordamos em outros ensaios é tomada por imagens de natureza.

Entretanto é difícil determinar se a “suspensão dos juízos” é de fato uma cosmovisão ou se ela precisamente apenas participa de uma. Há diferenças neste quesito.

De qualquer forma se for uma cosmovisão, poderíamos indagar se não estamos trocando uma cosmovisão por outra, e assim neste argumento há uma alegação de falta de efeito por trocar duas coisas de uma mesma categoria.

Vamos supor um exemplo bem infantil, mas bastante alusivo: imaginemos que precisamos, por algum motivo, recolher amostras de uma água. Seja de rio, de mar, …

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A suspensão do juízo como heurística

Diversas vezes tenho esbarrado em alguns blogs (alguns de cunho religioso) [*]com pessoas usando de suas crenças para pensarem e analisarem acerca de diversos temas.

Muitas vezes pedi a suspensão dos juízos (religiosos incluídos) e nem sempre fui muito bem compreendido. Um dos argumentos apresentados é que se tal pessoa crê fielmente em algo deve inundar-se completamente a ponto de poder fazer-se um bom crente.

Entretanto, argumento que a suspensão dos juízos é uma boa heurística para se fazer pensar diversos temas que, dentro de cosmovisões determinadas, estaríamos limitados. Lógico que existe o limite do que é humanamente possível fazer de suspensão.

Há um argumento escondido, por parte dos que não aceitam uma suspensão, de como se ao suspender juízos fossemos nos tornar traídores em uma determinada classe de pensamentos (seja religiosa, científica ou filosófica).

Uma boa maneira que encontrei é tentar pensar em diversas hipóteses. O artigo que utilizei o exemplo de Sagan do “dragão em minha garagem” foi um exemplo. Mas houve quem leu de forma teológica, enquanto eu tratava apenas de uma situação hipotética, para depois poder analisar os resultados e trazê-los a tona.

Fazer isso não é deixar o pensamento em compartimentos estanques. Não é, pois o que deixa o pensamento estanque e engessado é justamente trancá-lo em cosmovisões, que cada vez mais pedem que apertemos nossas faculdades do entendimento, a fim de não representar uma suposta “traição”.

Fazer esta suspensão é pensar que cosmovisões podem estar relacionadas, também, com a nossa falibilidade e atuar neste exercício (de suspendê-las) é crucial para que possamos romper os límites que engessam e compartimentam nossos pensares. É aumentar a possibilidade de compreender o mundo que nos está dado fenomenicamente e possibilitando uma investigação mais profunda, que ultrapasse a mera opinião, doxa e assuma um viés mais compromissado com saber com mais verossimilhança o mundo em que vivemos.

E essa suspensão é válida em todos os campos: religiosos, científicos e filosóficos. Alguém que faça isso não estará despedaçando-se.

Devemos pensar seriamente nisto. Pois se o que tenho como verdadeiro é realmente verdadeiro e se o que há no mundo for de uma possível cognoscibilidade, é possível que, ao fazer a suspensão, eu possa permitir a um pensamento mais livre chegar a um nível mais verossimilhante; esta pesquisa mais verossimilhante, que irá confirmar, negar ou retificar (dentre várias hipóteses) possivelmente as cosmovisões que trago em mim mesmo.

Portanto,…

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A garantia social da ciência (Série pseudociências – Parte 6#)

Olhando amplamente todo o leque de pseudociências, pergunto-me “o que fez com que um tipo de explicação não-científica tente se passar por ciência?”.

É claro, como muitos ja apontaram, como Carl Sagan, citado no início de nossa série de ensaios sobre pseudociências, existe uma séria deficiência na alfabetização científica.

Essa deficiência permite que explicações não-científicas passem como científicas; assim como também é possível encontrar pessoas com uma certa fobia ao que e científico. Por que?

Os fóbicos da ciência relacionam os maus usos dos produtos da ciência e tecnologia como se fosse a própria ciência.  Esquecem que ela é um instrumento, assim como outras áreas plenamente humanas. O uso dos produtos científicos e tecnológicos beiram a instrumentalidade: usar um martelo para lesar uma pessoa não significa dizer que o martelo é “mau”.

O valor maléfico ou benéfico é dado aos produtos dela e não a si mesma.  A confusão entre empregos lesatórios, dos produtos de uma ciência e a própria ciência, é uma das fontes de fobia científica.

Claro que a coisa não é tão simples assim, alguns ainda podem argumentar que o procedimento científico pode empreender resultados que lesariam. O estudo de drogas em animais, por exemplo, podem ser uma lesão a animais.

Mas este é um caso centrado na ética da conduta de pesquisa. O fóbico da ciência, quando admite sua maleficidade, a admite por geral. A generalisa. E pega casos centrados na ética da conduta de pesquisa e generalisa como um todo. Por este motivo deve existir o estudo ético na ciência. Entretanto o argumento do fóbico parece ser truncado: não encontramos em todo o tempo atos que poderiam ser considerados lesatórios num estudo científico. Caso um fóbico da ciência ainda afirme que, em última instância, todo ato de estudo científico leva ou pode levar a lesões a outrém, posso ainda imaginar que este argumento não é muito forte: poderia ser extendido para toda capacidade de raciocínio, não só à ciência, e por último ao ser humano e suas decisões diárias (não vejo essa linha de raciocínio, de que a ciência seria má por possibilitar lesões mesmo que em decorrência de um estudo não lesatório, como uma linha de crítica válida; parece uma crítica externa e ela cabe tanto no que é conhecimento, quanto no que for humano – e assim o homem seria lesatório por natureza e tudo o que produzisse).

Portanto, de uma…

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A incomunicabilidade do dragão da minha garagem – (Série pseudociências – Parte 5#)

Dragão chinês

Dragão chinês

Em nosso blog, em outro ensaio já falamos do livro de Carl Sagan “O mundo assombrado pelos demônios”. Neste livro, Sagan tem um capítulo denominado “o dragão da minha garagem” onde explica o caráter ad hoc de teorias não científicas face ao método científico para verificá-las e falseá-las.

Neste ensaio procuro refletir sobre a existência de um dragão que não possa ser analisado sob a luz de nosso método científico.

Uma primeira visita ao exemplo, notamos que estabeler a existência de um dragão que não pode ser analisado é de difícil instância, pois parece não ser apresentável em nenhuma forma de fenômeno. Também não parece estar relacionado com nenhuma forma fenomênica.

Fenômeno vem do grego “phainomenon” que é basicamente aquilo que é observável, que tem uma aparição.

Um dragão, cuja existência não é estimável por análises de sua aparição, ou seja de seu fenômeno, e não está relacionado com nenhuma outra forma de aparição – poderíamos tentar analisá-lo não apenas diretamente, mas em relação a outras observações correlatas – é um dragão indeterminável. É, com muita possibilidade, de natureza incognoscível (se existente) ou incomunicável.

Vamos reler o exemplo de Sagan e depois iremos explorá-lo como uma experiência mental:

- Um dragão que cospe fogo pelas ventas vive na minha garagem.
Suponhamos que eu lhe faça seriamente essa afirmação. Com certeza você iria querer verificá-la, ver por si mesmo. São inumeráveis as histórias de dragões no decorrer dos séculos, mas não há evidências reais. Que oportunidade!
- Mostre-me – você diz. Eu o levo até a minha garagem. Você olha para dentro e vê uma escada de mão, latas de tinta vazias, um velho triciclo, mas nada de dragão.
- Onde está o dragão? – você pergunta
- Oh, está ali – respondo, acenando vagamente. – Esqueci de lhe dizer que é um dragão invisível.
Você propõe espalhar farinha no chão da garagem para tornar visíveis as pegadas do dragão
- Boa idéia – digo eu –, mas  esse dragão flutua no ar.
Então, você quer usar um sensor infravermelho para detectar o fogo invisível.
- Boa idéia, mas o fogo invisível é também desprovido de calor.
Você quer borrifar o dragão com tinta para torná-lo visível.
- Boa idéia, só que é um dragão incorpóreo e a tinta não vai aderir.
E assim

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O caso MOND e a Matéria Escura – Duas ‘teorias’ e duas formas de encarar um problema

Na cosmologia moderna, uma das mais intrigantes descobertas é que a matéria comum (de cunho ordinário) pode não ser responsável por fenômenos, como aceleração do universo, rotação de galáxias etc.

É como se o universo tivesse mais massa do que o detectado por padrão.

De fato ao se tentar metodologias para determinar a massa do universo existe uma discrepância entre resultados, em relação ao resultado gravitacional: o universo, repito, parece ter mais massa do que parece.

A rotação de galáxias é um dos exemplos que sofrem com este efeito ao ser efetuada uma medição. Por este motivo os cientistas elaboraram uma teoria em que a maioria da massa do nosso universo é de uma origem estranha, não bariônica (bárion, partículas de matéria convencional, dotadas de três quarks). Esta matéria estranha seria denominada Matéria Escura.

A matéria escura seria um tipo de matéria que tem influência gravitacional nos corpos, mas não seria detectada de forma tradicional como a matéria convencional (bariônica).

Ela não emite nem reflete luz, por isso, não brilha como uma estrela. Basicamente, a matéria escura não pode ser vista – os cientistas conseguem apenas imaginar onde ela está com base nos efeitos gravitacionais do que eles podem ver. (Site: How Stuff Works, ver link).

Esta matéria seria detectada, por efeitos gravitacionais discrepantes (rotação de galáxias não condizentes com a predição de teorias atuais), dentre outros meios.

M104 - Galáxia do sombrero

M104 - Galáxia do sombrero.

Pensemos de forma bem hipotética: suponhamos que nossas teorias tragam a predição de uma rotação x em determinadas galáxias, então algumas medições mostram uma certa discrepância.

Os astrônomos têm duas maneiras para determinar quanto de matéria preenche o Universo. Eles somam tudo que vêem. E medem a velocidade de movimento dos objetos visíveis, aplicam as leis da física e deduzem quanto de massa é necessário para gerar a gravidade que retém esses objetos. Desconfortavelmente, os dois métodos dão diferentes respostas. a maioria dos astrônomos conclui que alguma massa invisível se esconde lá fora – a alusiva matéria escura. (Milgron, Mordehai. In: Scientific American Brasil, Ano 2, nº 17, outubro 2003).

O que podemos conceber? As leis e teorias atuais estão erradas? Existe a necessidade de estabelecer a existência de uma determinada matéria?

Para alguns cientistas (ao analisar resultados diversos de diversos métodos que vão desde o efeito gravitacional até investigações em raios-x de objetos astronômicos) torna-se patente estabelecer a existência de uma…

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Alterações Ad hoc – Limites entre o lícito e o ilícito (Série pseudociências – Parte 4#)

Quando falamos a respeito do Falseacionismo Ingênuo (ou falseacionismo dogmático), estabelecemos que existe um problema sério para demarcar até que ponto é lícito as alterações ad hoc que podem incluir novas, ou alterar antigas hipóteses.

Em outro ensaio, também estabelecemos, que existe um problema de demarcação entre o que é ou não pseudociência. De forma geral, como diz na publicação “Crítica na Rede”, “O problema da demarcação consiste em distinguir a ciência das disciplinas não científicas que também pretendem fazer afirmações verdadeiras sobre o mundo” (Achinstein, Peter in: Crítica na Rede. Ver link). Este termo teria sido utilizado, primariamente, por Popper e podemos afirmar que sua pesquisa de um falseacionismo seria justamente demarcar o que é científico.

O problema da demarcação é um problema de âmbito epistemológico (demarcar qual produto do conhecimento pode ser considerado científico). Pensadores podem até ter desenvolvido formas de fazer tal demarcação, mas ainda assim encontra-se problemas residuais acerca disto. Se Popper desenvolveu uma filosofia da ciência em que o que é teoria científica é refutável, isto é um avanço – entretanto existe ainda o problema residual: se formos dogmáticos no falseacionismo, assumiremos que toda e qualquer alteração ad hoc é ilícita; entretanto isto é um sério problema epistemológico, pois como poderíamos chegar a construir uma teoria consistente, caso toda e qualquer hipótese refutada fosse capaz de falsear toda a teoria?

Ora essas duas formas que expus acima são apenas duas faces de um mesmo problema. Se é problemático definir, penso, até que ponto é lícito alterações ad hoc também temos um problema em definir com precisão o que é científico.

Evidente que alguns casos saltam como exemplos claros. Carl Sagan no livro “O mundo assombrado pelos demônios” (do qual já escrevi um artigo a respeito) fala do exemplo do “dragão na minha garagem”. Se eu quero provar para você que existe um dragão na minha garagem e, você que é um cético, questiona de todas as formas possíveis a minha afirmação e eu rebato o tempo inteiro com alterações ad hoc transformando a afirmação inicial em uma outra afirmação durante o processo, é claro que esta não será uma afirmação de minha parte que tenha caráter científico.

Uma teoria pseudocientífica, no entanto, pode-se utilizar de forma abusiva das alterações ad hoc. Mas qual é o nível desse abuso?

Se olharmos a história da ciência encontramos o caso da teoria do Éter, no qual…

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O Falseacionismo Ingênuo e a solução fantástica (Série pseudociências – Parte 3#)

Karl Popper

Karl Popper

Para começar esta postagem, vou fazer uma analogia, que já usei em conversas em outros blogs. Lógico que este exemplo encerra apenas parte do que quero dizer e não é completo, mas tento elucidar um pouco sobre a complexidade das teorias no processo científico.

Imagine que você está num quarto escuro. Em pleno escuro. Sabe que apenas existe um interruptor para acender uma luz. Você inicia uma série de hipóteses:

1) Deve existir ao menos uma lâmpada neste quarto.

2) Se existir ao menos uma lâmpada, ela deve ser acionada por um interruptor.

3) O interruptor deve ficar numa das paredes do quarto.

Você então começa a tatear o quarto. Aparentemente está longe das paredes. Então começa a tatear objetos em busca de uma parede. Encontra um sofá e portanto deduz que atrás deste sofá deve existir uma parede. Chega a parede (confirmando sua hipótese). Tateando a parede descobre na parede subsequente uma cortina.

Deduz que atrás da cortina deve existir uma janela e ao abrir irá iluminar, mesmo que parcialmente, o quarto ajudando a achar o interruptor. Para sua felicidade sua hipótese auxiliar está corroborada e existe uma janela. Entretanto ela está trancada e não pode ser aberta.

Em seguida continua a tatear até achar uma porta. A mesma está trancada. Deduz que perto da porta deve existir um interruptor. Para seu desânimo você não encontra interruptor.

A partir de então deve tomar uma decisão,  o fato de não encontrar um interruptor não é sinal de que ele não exista.

a) ele pode existir próxima a esta porta e não tateei corretamente.

b) ele pode não existir próxima a esta porta e estar próxima a outra.

c) ele pode não estar próxima a nenhuma porta.

d) ele pode não existir.

Poderia falsear logo aí toda a minha “teoria”, ou poderia refazer apenas as hipóteses que estão com problemas. Como podemos perceber existe dois extremos pessimistas: se eu descartar logo de primeira corro o risco de estar no caminho certo e mudar repentinamente, ou estar no caminho errado e tentar continuar insistindo num caminho que não representa verossemelhança com o mundo e gastar tempo com algo que nada irá me resultar.

Popper desenvolveu uma teoria da ciência, que ao invés da verificação de uma teoria, o cientista deve tentar falseá-la. Uma teoria falseável é plenamente científica. Quando observações vão contra a teoria…

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Do que podemos conhecer?

Outro dia estava eu conversando com um amigo meu. Nesta conversa abordei o trabalho do cientista apoiado num método, (que não significa necessariamente restringir o conteúdo criativo do mesmo).

Pude notar, de certa forma que a palavra “método” desperta em algumas pessoas uma posição um tanto desconfortável, pois parece que a ciência possui uma rigidez de inflexibiliza a criação. Não que este meu amigo tenha apontado isto, mas passou em minha cabeça, pela forma com que ele falava.

A atividade de um cientista é envolta em investigação, mas não é de sua exclusividade, por tanto existem outras áreas que são investigativas mas não são como a atual ciência se estrutura. A filosofia é um exemplo de investigação, mas podemos notar que cada área da filosofia, e até mesmo cada filósofo pode divergir de forma a investigar (embora haja a investigação).

O que então distingue o trabalho do cientista? O método empregado na ciência. Embora este método possa ser multifacetado, variando conforme cada ciência, ele possui pontos tangíveis que se relacionam com as imagens de natureza e de ciências estabelecidas (como já afirmei em outros artigos).

O método então permite um foco de pesquisa e impede de sair deste foco. Isto permite uma pesquisa a um ponto específico, mas não impede a criatividade. Se enxergarmos as teorias como criações (existem visões diferentes do que são teorias, mas podemos adotar este ponto de vista) é perfeitamente plausível notarmos, mesmo com um método uma infinidade de possibilidades de teorias sobre um mesmo ponto ou aspecto.

Assim, se formos falseacionistas, talvez somos levados a pensar que estas teorias serão testadas por observações diretas ou indiretas em outras teorias. Uma teoria que passa em tais testes é CORROBORADA e não tomada como VERDADE (assim assume-se que sua verossemelhança com o que pode ser real é muito próximo, mas não garante que seja verdade absoluta, pois pode ser falseada a qualquer momento). A garantia lógica de uma corroboração não é a mesma coisa de dizer que ela, a teoria, é cabalmente assim na realidade (sempre poderá ser falseada ou ter hipóteses auxiliares falseadas, modificando a teoria).

Parece que assim, portanto, é difícil sabermos como é realmente e fielmente a realidade, mas parece que a cada momento de método aplicado nos aproximamos, mesmo que em algum grau de erro, dela. Mas sem tocá-la com toda sua extensão.

A negação de uma teoria, seu falseamento, também nos fala…

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A Fragilidade da Causalidade

Sem causalidade, sem garantia

David Hume - Filósofo Escocês

David Hume - Filósofo Escocês

Imagine você, numa sinuca, está prestes a bater com o taco de madeira na bola branca a fim de encaçapar uma das outras bolas restantes no jogo para pontuar.

O ato de transferir força mecânica do taco para a bola branca (que por sua vez irá transferir para a outra bola de pontuação) já é vista como algo, um fenômeno, trivial da mecânica.

De certa forma estamos acostumados com isso, pois sempre experenciamos este resultado.

Quando largamos um objeto em alguma altura, observamos que sempre responde com uma queda, que pôde ser estudada desde a época de Galileu e Newton.

Em todos estes exemplos está por trás a idéia da causalidade. Uma causa precede um efeito. O fato de existir uma causalidade credencia uma garantia a pesquisas científicas e diversas outras atividades de pensamento investigativo que possuímos. Mas o que aconteceria se questionássemos a causalidade?

Através de nossas percepções conseguimos apreender os eventos que chamamos de causa e efeito, como eventos, mas a conexão entre eles não o fazemos. Então, pode ser que a causalidade não exista e seja apenas de âmbito psicológico.

Para David Hume, filósofo escocês, empirista, a causalidade seria questão de hábito: por sempre vermos supostas causas e efeitos sugerimos e acreditamos que exista um elo que denominamos causalidade.

Se a causalidade não é algo intrínseco à natureza dos eventos, então toda a sorte de argumentações investigativas, como a ciência, baseadas em observações que se fundam em ideais de causalidade, seriam, desta feita, argumentações sem a garantia de previsibilidade.

Teorias científicas, como já vimos, trabalham com a previsibilidade,  além da descrição de eventos e coisas. É a previsibilidade que estrutura e fundamenta a diferença entre uma teoria científica e uma teoria filosófica. Pois é a previsibilidade que pode estar ligada a argumentos falseadores (isto numa perspectiva popperiana).

A idéia de Hume já foi muito debatida e existem diversas soluções (que não vou abordar aqui), mas é de uma beleza sem tamanho, visto que ressoaram (e ainda ressoam na epistemologia) soluções e problemas correlacionados.

É importante pensarmos, “E se realmente não houver causalidade? Se ela for apenas uma questão de hábito? Teremos garantia em nossos empreendimentos científicos?”. É importante pensarmos em nossas barreiras do entendimento e o quanto nossas aspirações científicas, apesar de bastante promissoras, podem estar apoiadas em pontos frágeis, de um…

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