Excerto do meu livro (esgotado) "A Coisa Mais Preciosa que Temos" (Gradiva):A ciência começou por ser espectáculo. A pedra-i
mã que atraía metais e a água
metamorfoseada em cristais de gelo foram, desde a Idade Média, mostrados nas feiras a um público boquiaberto. Em Portugal, não houve esse espectáculo, se descontarmos as breves exibições de ciência
experimental no palácio real no século XVIII. E, infelizmente, muito menos houve ciência: é difícil encontrar algum cientista português no século XIX, quando a ciência era uma actividade reconhecida e praticada na Europa civilizada (em vão se vai, por exemplo, à “
História de Portugal”, coordenada por José
Mattoso e publicada pelo Círculo de Leitores, à procura de um cientista português
oitocentista).
No século XIX o espectáculo da ciência alimentou a curiosidade de muitos espectadores a respeito do funcionamento do mundo, fazendo despertar vocações. Ficaram famosas, por exemplo, as conferências do químico inglês Sir
Humphry Davy, na Royal
Institution de Londres que atraíram um rapaz que, apesar de ter apenas a escola primária, se tornou o maior cientista do seu tempo, Michael Faraday. Mais tarde, Faraday, não esquecendo as suas origens, fez questão de proferir muitas conferências para jovens, acompanhadas de "
shows" de demonstrações, e
complementadas por livros de divulgação. A mensagem da ciência que recebeu foi transmitida a outros. Ainda hoje podemos assistir a conferências com demonstrações
experimentais na Royal
Institution, num teatro por cima do velho laboratório de Faraday. É graças à curiosidade dele sobre a relação dos
magnetes com os fios eléctricos que hoje temos a
electricidade doméstica, o motor eléctrico, e outros artefactos da civilização. Na procura incessante da unidade das leis físicas, Faraday também se interessou pela relação entre as forças eléctrica e gravítica, mas esse estudo não teve resultados palpáveis. O problema era difícil... Einstein, confiante no sonho de que "
só há uma força", trabalhou longamente no assunto (foi o problema que mais tempo o ocupou) mas pouco adiantou. É um problema que foi legado aos cientistas de hoje e que parece legado aos cientistas de amanhã.
Repare-se que Faraday não andou a preencher papeis para nenhuma agência de investigação do tempo dele, para resolver o problema da iluminação das ruas de
…
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