Sobre a parcimônia nas ciências - parte II

Charles Morphy @ Um longo argumento Categorias: Ciência Geral, Evo-Devo, Sobre a natureza das ciências, parcimônia
Para o físico e filósofo austríaco Ernst Mach (1838-1916), o desenvolvimento do pensamento científico pode ser interpretado como uma linha contínua na direção de representações cada vez mais simples das observações. As maiores descobertas na ciência não seriam tanto novas observações e sim novas simplificações na interpretação de fatos conhecidos. Dentro dessa perspectiva, a teoria da relatividade do físico alemão Albert Einstein (1879-1955) seria uma interpretação simplificada da realidade observada se comparada com a gravitação newtoniana: ambas trabalham sobre a mesma base de fatos observacionais, contudo a teoria einsteniana necessita de menos premissas ad hoc, algo como muletas ou remendos teóricos, para explicar igual conjunto de fenômenos. Mach defende que a construção de uma teoria científica é um processo de procura por abstrações que possam cobrir uma ampla variedade de observações com o menor esforço mental. Sua teoria, entretanto, acaba por não permitir a multiplicação de entidades, uma vez que a ciência teria que trabalhar sobre o mesmo conjunto de fatos observados à busca de interpretações mais parcimoniosas para essas observações, não se preocupando com o levantamento de novos fatos. Apesar dos comentários de Mach fornecerem um quadro geral sobre a tendência em se aceitar ...

Sobre a parcimônia nas ciências - parte I

Charles Morphy @ Um longo argumento Categorias: Ciência Geral, Evolução, Sobre a natureza das ciências, parcimônia
Existem infinitas maneiras de se chegar à Buenos Aires saindo da cidade de São Paulo. Para tornar a tarefa de contar todas as alternativas um pouco menos hercúlea, vamos limitar as possibilidades às viagens de avião. Há quantas formas de se chegar à capital argentina via área? O número de possibilidades continua tão alto que a restrição praticamente não facilitou muito o trabalho de contagem. Pode-se, por exemplo, tomar um avião em São Paulo com destino à Buenos Aires sem nenhuma parada – essa parece a solução mais inteligente (e, com certeza, mais rápida). No entanto, se o vôo tiver como destino Buenos Aires, mas antes passar no aeroporto de Miami, nos Estados Unidos, descer em Chicago, voltar para o Brasil até Manaus, com escala em Brasília, de lá para o Rio de Janeiro, parando em Porto Alegre antes de descer, finalmente, na capital portenha? Há um sem número de possíveis combinações de vôos partindo de São Paulo até Buenos Aires. Nesse exemplo, se o viajante desejasse tomar seu desjejum no Brasil e almoçar na calle Florida, em algum café ao lado da enorme loja argentina das sandálias Havaianas, certamente escolheria o primeiro cenário proposto, ...

Ask the next question

_DS2_Minina_ @ Um longo argumento Categorias: Ciência Geral, Sobre a natureza das ciências, Sturgeon
Entrevistador: Você pode explicar o significado da sua marca registrada pessoal, que é uma letra Q com uma seta apontando para a direita?Theodore Sturgeon: Ela significa "Faça a próxima questão" [em inglês, "Ask the next question"], e a seguinte, e a seguinte. É o símbolo de tudo que a humanidade criou e é a razão pela qual as coisas são criadas. O sujeito está sentado na caverna e diz "Por que um homem não pode voar?". Bem, essa é a questão. A resposta pode não ajudá-lo, mas agora a questão foi formulada. Qual é a próxima questão? Como? E assim, através das gerações, as pessoas têm tentado encontrar a resposta para aquela questão. Nós encontramos a resposta e nós voamos. Isso é verdade para qualquer realização humana, seja na tecnologia ou na literatura, na poesia, nos sistemas políticas ou em qualquer outro assunto. É isso. Faça a próxima questão. E a outra depois dela.Theodore Sturgeon (1918-1985) foi um escritor norte-americano de ficção científica. Ficou muito conhecido pela chamada "Lei de Sturgeon": “Noventa por cento de toda a ficção científica escrita é lixo; mas, se pararmos para analisar, noventa por cento de ...

Ciência responsável é conservadora?

_DS2_Minina_ @ Um longo argumento Categorias: Ciência Geral, Sobre a natureza das ciências, Transgénicos
Discussões a respeito de avanços tecnológicos sempre tendem a polarização: alguns defendendo as descobertas e novidades científicas e outros contrários a elas. Essa dicotomia é desnecessária e inocente. É uma interpretação por demais limitada da história da ciência.Há um belo livro póstumo do astrônomo e divulgador da ciência Carl Sagan (uma referência constante aqui nesse blog) intitulado The Varieties of Scientific Experience, de 2006, que reúne uma série de palestras sobre o pensamento científico e os motivos que fazem dele a melhor ferramenta disponível para explicar a realidade. No entanto, como o próprio Sagan considera em muitos trechos (e isso se repete em outros de seus livros, por exemplo, no Bilhões e Bilhões), aos cientistas cabe também vislumbrar as conseqüências do que fazem e à população restante cobrar por explicações. Isso não é conservadorismo ou romantismo exacerbado - é apenas uma postura responsável:"Eu acho que a primeira coisa, em uma democracia, onde há ao menos uma pretensão sobre as pessoas controlarem as políticas governamentais, é que todo processo democrático deve ser usado. Você pode se certificar de que aqueles em quem vota têm visões racionais sobre esses assuntos. Você pode trabalhar ...

Faça-se a luz: divagações sobre C & T

Nelson Correia @ Um longo argumento Categorias: Ciência Geral, Sobre a natureza das ciências
Como a maioria sabe, e como já foi discutido rapidamente nesse blog em outro post, a tsunami que atingiu os continentes asiático e africano no final de 2004 teve seu epicentro em uma distúrbio sísmico no meio do Oceano Índico, que deslocou enormes quantidades de água e culminou na formação da onda gigantesca que arrasou os litorais que a receberam. Apesar de todo desenvolvimento científico e tecnológico, não havia como impedir o fato, assim como não temos nenhuma possibilidade de diminuir o período de rotação da Terra e esticar o dia em mais algumas horas. Mesmo reconhecendo a implacabilidade de um evento geológico de tamanha intensidade, a tragédia humana não era inevitável. A falta de perspectiva científica dos governantes e autoridades locais, unida à ausência de assessoria técnica adequada e ao pouco (ou nenhum) investimento no desenvolvimento tecnológico, contribuiu de forma decisiva para o desastre anunciado, levando à perda de milhares de vidas humanas. Nada leva a crer, no entanto, que casos semelhantes não voltarão a acontecer em um futuro próximo. Abalos sísmicos e eventos naturais como a erupção de vulcões e a passagem de tornados podem ser previstos com uma certa margem temporal de segurança, na ...

Parábola cética

Charles Morphy @ Um longo argumento Categorias: Ciência Geral, Sobre a natureza das ciências
Entre 1988 e 1989, foi publicada uma edição especial do Surfista Prateado, escrita por Stan "The Man" Lee e ilustrada por Jean Giraud Moebius, intitulada Parábola. Nela, Galactus, uma entidade cósmica conhecida como "o Devorador de Mundos", vem à Terra para destruí-la e se alimentar da sua energia. Para isso, Galactus permite que as pessoas façam o que bem desejarem em seu nome para, assim, encontrarem a "salvação" - o plano é permitir que a humanidade se aniquile por meios próprios. Nesse ínterim, surge seu ex-arauto, o Surfista Prateado, questionando o direito de Galactus de atacar a Terra com um estratagema tão ardiloso.Essa é uma das mais belas HQs de super-heróis já criadas. Definitivamente, não é leitura apenas para crianças... Como bem aponta João Carlos, do blog Chi vó, non pó, em um comentário aqui nesse espaço, o ceticismo não é uma perspectiva exclusiva das ciências. Até mesmo as religiões poderiam se beneficiar dele (através, por exemplo, de uma auto-análise periódica - quiçá constante - que levasse à depuração de suas premissas reiteradas vezes consideradas infundadas). No entanto, essa me parece uma visão de mundo por demais ...

Ensaio: Ponto brilhante na escuridão

Charles Morphy @ Um longo argumento Categorias: Ciência Geral, Sobre a natureza das ciências, filosofia da ciência
Esse ensaio foi publicado no número 31 da Gazeta de Ribeirão, no dia 16 de janeiro de 2005. O título faz referência a um dos livros do astrônomo e extraordinário divulgador da ciência Carl Edward Sagan (1934-1996), O Mundo Assombrado Pelos Demônios - A ciência como uma vela no escuro (republicado recentemente pela Companhia das Letras em uma edição de bolso).Sagan é responsável por uma vasta obra de popularização do pensamento científico, sempre se preocupando em tornar a ciência atraente para o público leigo sem, no entanto, superficializar ou distorcer conteúdos. É impossível assistir à sua série Cosmos e não se emocionar com o poder da ciência em desvendar as particularidades da natureza. Muitos dos livros de Carl Sagan foram traduzidos para o português e podem ser facilmente encontrados em livrarias e algumas bibliotecas. Ponto brilhante na escuridãoCharles Morphy D. Santos O ano de 2004 terminou com a morte de centenas de milhares de pessoas vítimas da tsunami que varreu a região costeira de alguns países banhados pelo Oceano Índico, promovendo um cenário catastrófico poucas vezes vistos na história recente da ...

Ensaio: Tahl e as verdades incontestáveis

Nelson Correia @ Um longo argumento Categorias: Ciência Geral, Sobre a natureza das ciências, filosofia da ciência
Esse ensaio saiu na Gazeta de Ribeirão do dia 12 de setembro de 2004.Tahl e as verdades incontestáveis Charles Morphy D. Santos Mikhail Tahl foi um dos maiores enxadristas que o mundo conheceu, comparado em genialidade e excentricidade aos unânimes Bobby Fischer e Paul Morphy. Dono de uma língua ferina, certa vez, quando perguntado sobre seu ...
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