Dez perguntas sobre a Ordem dos Professores

De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Sistema educativo
Rui Baptista volta ao tema da Ordem dos Professores: “À força de duvidar, chega-se a conhecer a verdade” (Descartes)Em longos anos que só uma forte crença suporta, tenho-me batido pela criação de uma Ordem dos Professores. Com essa intenção, afadiguei-me em longas consultas de textos para desmontar argumentos, a contrario, mas sem suporte consistente, como sejam, por exemplo, não exercer o docente uma profissão liberal, mesmo que stricto sensu, e terem todas as ordens anteriores a 25 de Abril a sua génese bastarda em filiação do Estado Novo, sofrendo, com isso, do pecado original de associação corporativa com a exclusão intencional dos sindicatos nacionais, também eles, porém, integrados na política do Estado Corporativo, através do decreto-lei 23050 de 1933.Fica-me a esperança que as respostas às dez perguntas que aqui deixo possam ajudar a colmatar omissões da minha argumentação ou mesmo a melhorar alguns dos seus pontos fracos. As perguntas são:1. Porque será que tantos estratos laborais de formação académica superior se estruturaram em ordens profissionais e outros, com formação escolar de igual exigência, se limitam a ansiar por idêntico estatuto?2. Porque será que os ...

Entrega de diplomas de mérito

De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Sistema educativo
Novo post de Rui Baptista sobre a educação em Portugal:“Quando toda a gente é alguém, ninguém é alguém” ...

“UMA OFENSA À NOBREZA DA PEDAGOGIA”

De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Sistema educativo, política educativa
Numa entrevista à revista "Notícias" do "Diário de Notícias" e "Jornal de Notícias" de domingo passado a professora de Português Maria do Carmo Vieira denuncia alguns dos problemas maiores da nossa escola. Eis aqui um excerto dessa entrevista:P. Quando diz que o verbo Ensinar foi banido, está a referir-se ao facto de ele ter sido banido do discurso oficial?R. Sim, e essencialmente dos programas. Segundo esse discurso, um professor não ensina, deve apenas «respeitar o discurso que os alunos trazem de casa», estar atento aos seus interesses, deixando-se estimular por eles. Esta nova estratégia pedagógica foi apresentada, como incontornável, numa acção promovida pelo Ministério da Educação (ME), em que estive presente, enquanto formadora, e que incidia sobre os objectivos da nova disciplina de Português, mascarada sob o nome de «Língua Portuguesa», para de forma aparentemente natural dissociar Literatura e Língua, como se isso fosse possível. P. Como interpreta isso? R. Pura e simplesmente como estratégia para obter um êxito rápido e cumprir metas estatísticas. Com efeito, as novas teorias pedagógicas, uma ofensa à nobreza da pedagogia, viciam os alunos no facilitismo, cultivando a preguiça e ...

VACUIDADES: COMO FUNCIONA E PARA QUE SERVE O MAGALHÃES

Carlos Fiolhais @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Sistema educativo, Tecnologia, teoria da educação
Inauguro aqui uma nova secção do blogue a que dou o nome de "Vacuidades" que pode ser lida como uma junção de "vácuo" e de "vaidades". Começo com uma citação do artigo intitulado "Magalhães: Como funciona e para que serve?" (o título prometia) de Vieira de Carvalho no "Público" de ontem:"A distribuição de computadores às crianças dos seis aos 11 anos, como instrumentos de escolaridade, constitui uma mudança de paradigma na aprendizagem. As potencialidades que oferece para o desenvolvimento cognitivo da população escolar são evidentes. Mas, para serem exploradas ao máximo, importa não subestimar um elemento de valor acrescentado (entre outros já considerados): software pensado de raiz. O que pressupõe a produção de conhecimento novo a partir do cruzamento de problemáticas distintas. As competências a mobilizar, no âmbito de projectos de investigação interdisciplinares, viriam, respectivamente: das áreas das Tecnologias da Informação, Engenharia de Sistemas ou Inteligência Artificial; das áreas da Psicologia, Pedagogia, ou da Educação em geral; e das áreas dos "conteúdos" (língua, cultura, artes ou expressões literárias e artísticas, Matemática, Ciências da Natureza, Saúde, Ambiente, etc.). "Agora que, por obra e graça da propaganda do governo, vai haver computadores "Magalhães" para todas as crianças da ...

O Professor Oliveira Marques e a Ordem dos Professores

De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Sistema educativo
Na sequência de posts anteriores, Rui Baptista apresenta e publica aqui a defesa da Ordem dos Professores feita pelo historiador Oliveira Marques: No Fórum 96 – Pensar a Educação, realizado em Lisboa, em Setembro de 1996, foi apresentada uma comunicação pelo Professor António de Oliveira Marques (1933-2007), um académico louvado em vida e recordado em morte como um dos mais importantes historiadores do Portugal contemporâneo (a sua História de Portugal, em três volumes, Editorial Presença, Lisboa, vai em 13 edições). Transcrevo, verbo pro verbo, a notável intervenção, intitulada “Para uma Ordem dos Professores”, cujo texto me foi entregue com autorização de o divulgar publicamente. Como noutra ocasião (no meu livro Do Caos à Ordem dos Professores, 2004. pp. 135-137), faço-o com o maior gosto pela importância de que se reveste numa altura em que a Ordem dos Professores está, cada vez mais, na ordem do dia: “Há anos num congresso do professorado de História reunido em Santarém sugeri a criação de uma Ordem de Historiadores, onde se incluiriam professores e não professores devotados ao mister. Por ...

A escola como espelho da sociedade

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Concepções de educação, História, Sistema educativo, educação escolar
Uma das críticas que, em finais do século XIX, o Movimento da Educação Nova endereçava à escola dita tradicional, era o seu fechamento em relação à sociedade. Fechamento que podia ser atestado, tanto pelos ensinamentos que transmitia, como pelas condições de frequência que impunha e, até, pelas características físicas que apresentava. Tinha sentido esta crítica, pois no século anterior, o currículo centrava-se em conteúdos que só muito remotamente tinham ligação com o progresso científico, técnico, artístico, literário que o Iluminismo havia proporcionado, sendo o internato rígido, em circunstâncias de austeridade, vigilância e punição, o regime mais comum, sobretudo nos estudos secundários.À luz do entendimento emergente da criança, já não como um homúnculo mas como um sujeito específico e com direitos – entre os quais se contam o de beneficiar duma preparação adequada para se integrar, em termos pessoais e profissionais, no meio que a cerca – fazia sentido aproximar a escola da sociedade. E, apesar de Ferriére, um dos mais importantes ideólogos desse movimento, encarar a Escola Nova como um “internato familiar situado no campo", a preocupação com essa aproximação, conquistou mentalidades e concretizou-se em práticas várias durante todo o século XX....

O Eduquês visto por Nuno Crato

Carlos Fiolhais @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Sistema educativo
O matemático e presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática Nuno Crato (NC) deu uma longa e muito interessante entrevista ao "Jornal de Negócios" (JN) de 25 de Julho passado intitulada "Caso dos exames de matemática foi gravíssimo". Transcrevo um pequeno extracto que retrata o nosso sistema educativo dominado desde há anos pelo chamado "eduquês":"JN - É um atestado de menoridade ou de falta de confiança em quem gere as escolas?NC - Felizmente tenho bastante liberdade porque estou no ensino superior. Se estivesse no ensino secundário sentir-me-ia bastante diminuído pela falta de liberdade. Acho que as pessoas sempre pensaram que o Ministério devia definir o programa, o horário... Nem sequer se questionam. O nosso país é muito dependente do Estado. Não é nada de inovador o que estou a dizer. Mas as pessoas, quando pensam em qualquer coisa, dizem logo: "devia legislar-se sobre isto ou sobre aquilo". Instalou-se uma simbiose - entre técnicos superiores do Ministério da Educação e departamentos da educação das universidades e escolas superiores de educação de pessoas que têm "a verdade". Têm a verdade que aprenderam há 30 ou 40 anos, aquilo a que chamo a ...

A “nota positiva” de Feytor Pinto

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Sistema educativo, exames nacionais
Ainda a propósito dos exames nacionais, divulgamos um texto da autoria de Maria do Carmo Vieira, professora de Português e Francês do Ensino Secundário, que foi publicado no semanário Expresso do passado sábado.Antes de me referir às palavras de Paulo Feytor Pinto, presidente da Associação de Professores de Português, sobre os exames do 12.º ano, recordo que a APP foi interlocutora privilegiada do ME na reformulação dos novos programas de Português. Da sua implementação em 2003, sem uma séria e honesta discussão, pelas limitações impostas, resultou a intensificação do nivelamento por baixo, do facilitismo e de uma cultura de ignorância, num espaço cuja função sempre foi a de preparar para a vida. Em nome da mudança, centrou-se o ensino nos alunos e assistiu-se ao esvaziamento de conteúdos programáticos, à subestimação da Literatura, agora em pé de igualdade com requerimentos, bulas, atestados médicos, publicidade..., ao apagamento dos clássicos, à interpretação de textos com verdadeiro e falso ou cruzes, à aceitação de erros ortográficos, à imposição da TLEBS, causadora de um caos indescritível no estudo da gramática, esta sim indispensável.Nas suas afirmações, Feytor Pinto esquece que a leitura é um valor e que conhecer uma obra literária, ...

Do Caos à Ordem dos Professores

De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Sistema educativo, avaliação do ensino, política educativa
Novo post convidado de Rui Baptista, o nosso colaborador habitual para as questões do ensino: “As ideias, em Portugal, são meros instrumentos de paixões ...

A CRIATURA

De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Sistema educativo
Há quem lhe chame o "monstro", mas pode ser também o "rinoceronte". Início da crónica de Helena Matos no "Público" de hoje:"O Ministério da Educação está prestes a tornar-se no rinoceronte dos nossos tempos. Só lhe falta arranjar um Dürer que o retrate ou um Fellini que o conte. O rinoceronte, um animal algures entre o fantástico e o pestilento, foi um dos animais que D. Manuel entendeu enviar ao Papa para que, no exotismo da criatura, Leão X visse as óbvias razões que levavam o monarca português a dizer-se Rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia. Séculos mais tarde, um rinoceronte foi também o ser vivo que Fellini escolheu para albergar nas entranhas daquele navio, alegoria dum mundo agonizante e cobarde. E agora só o rinoceronte, com aquele ar encarapaçado de quem graças a um erro veio das profundezas do tempo, é capaz de dar conta da estranha criatura que se alberga nas entranhas da 5 de Outubro. A criatura, tal como os rinocerontes de D. Manuel e de Fellini, sobrevive mesmo quando tudo o ...

“Um diploma para todos… é um diploma para ninguém”

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Sistema educativo, educação escolar, valor do conhecimento
O texto do Desidério Erros e mentira política, toca num problema fundamental da educação escolar na contemporaneidade: o valor do conhecimento.Os discursos em torno dos exames não fogem a este problema. Quando discutimos a sua pertinência, as suas funções e técnicas, estamos, explicita ou implicitamente, a atribuir (ou recusar) valor intrínseco e/ou instrumental aos conhecimentos que a escola tem por missão veicular.A este propósito lembrei-me do livro de François de Closets, A felicidade de aprender e como ela é destruída (Lisboa: Terramar), publicado entre nós em 2003, do qual retiro a seguinte passagem (página 297 -298):"Nos últimos cinquenta anos, a educação em França tem sido uma prioridade nacional. Tem estado no centro de um debate permanente, marcado aqui e além, por confrontos apaixonados. Foi objecto de múltiplas reformas (quase sempre abortadas). Beneficiou de orçamentos gigantescos e cada vez maiores.Como foi possível que um tal investimento, acompanhado de um empenhamento tão constante, redundasse na perda total da felicidade de aprender, uma perda que foi crescendo à medida que a instrução se foi difundido. Como foi possível que a cultura se fosse fossilizando à medida que a ...

Em defesa dos exames nacionais

Palmira F. da Silva @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Ensino, Sistema educativo
Em defesa dos exames nacionais é o título de um artigo de opinião de Carlos Corrêa publicado no Ciência Hoje. No artigo, o professor jubilado de Química refere que «Se se deseja aumentar o sucesso escolar, e não o “sucesso escolar estatístico”, os alunos e professores devem saber que o exame se destina a avaliar o que os alunos aprenderam (que tem de resultar, em especial, do seu esforço) e o que os professores ensinaram».Olhando, por exemplo, para o exame nacional de Física e Química A, vemos que, aparentemente, foi o «sucesso escolar estatístico» que presidiu à sua elaboração. Como refere a Sociedade Portuguesa de Química, no que à Química diz respeito o exame é caracterizado pela «Ausência de questões de facto selectivas (todas as perguntas se ficam por questões elementares». As perguntas «exigem apenas que o aluno saiba ler (nem precisa sequer de ter grandes competências a nível da interpretação) um texto (caso da questão 1.2) ou os eixos de um gráfico (caso da questão 2.2.1)». Para além disso, apresenta «um formulário de eficácia muito duvidosa sobretudo porque pode levar o aluno a classificar de fórmula algo que é um conceito».Este ...

“Cada um socorre-se do que quer”

Carlos Fiolhais @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Matemática, Sistema educativo
Transcrevo excerto de uma entrevista que a actual Ministra da Educação deu recentemente à SIC:"SIC: Tenho muita pena mas, neste contexto, tenho que me socorrer de autoridades como o Professor Nuno Crato que diz que há exames de preparação que são ridiculamente simples - e a expressão é dele -; tenho que me socorrer da Associação Nacional de Pais que vai ao encontro também desta expressão (...).Maria de Lurdes Rodrigues: Bom! Cada um socorre-se do que quer, cada um faz as suas escolhas...SIC: Estou a socorrer-me de fontes credíveis!Maria de Lurdes Rodrigues: Com certeza, são as fontes credíveis para si. Para mim, fonte credível é o Ministério da Educação e o instituto que promove a realização dos exames e que o faz com todo o rigor e com todas as exigências."O actual Ministério da Educação, muito contente de se ver ao espelho ("Espelho meu, espelho meu, há lá Ministério mais bonito do que eu?"), não consegue ver nem ouvir nada, mas mesmo nada, do que lhe é exterior. Nem sequer entende que os matemáticos, que em Portugal estão reunidos na Sociedade Portuguesa de Matemática, sabem mais de matemática e do seu ...

“Surpresa: os alunos já são bons a Matemática”

Carlos Fiolhais @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Sistema educativo
É este o grande título de primeira página do "Público" de hoje. Seria bom se fosse verdadeiro. Infelizmente, não é. O título é irónico, porque os números por cima do título não mentem. É verdadeiramente impossível que, em escassos três anos (de 2005 a 2008), a média dos alunos internos no final do secundário tenha passado de medíocre (8,1 valores) para bom (14 valores) porque os sistemas educativos não mudam assim facil e rapidamente. São precisas mudanças bem feitas, que não tem havido, e muitos anos de esforço conjunto e coordenado, que também não tem havido, para haver uma subida, que nunca poderia ser de seis valores (cerca de 75 por cento!)Não se pode comparar o incomparável e os exames deste ano não podem ser comparados com os exames de anos anteriores. Eles foram manipulados para dar esta subida anómala, que é, portanto, puramente virtual: é a ilusão de uma subida. O ilusionismo está pois instalado ao mais alto nível do Estado, à semelhança do que acontece nos estados totalitários. A verdade sobre a educação está a ser oculta num estado democrático. Espero que a democracia resista.

Revolução cultural à portuguesa

De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Sistema educativo
Novo post de Rui Baptista sobre o estado da educação nacional: “O que em sociedade desagrada aos grandes espíritos é a igualdade de direitos e, portanto, de pretensões, em face da desigualdade de capacidades” , Schopenhauer. Em meados do século passado (1966), a República Popular da China, o maior e mais populoso território do planeta, vivia o agitado período de uma revolução cultural que fez ruir os pilares do conhecimento científico e o arquétipo do ensino universitário. Desta forma, em substituição de médicos de formação universitária, surgiram os chamados médicos de pés descalços, de formação rudimentar, também referenciados como médicos camponeses. Em Portugal, em finais desse mesmo século, tem de se responsabilizar a tutela ministerial da altura por ter consentido, ou mesmo promovido, a formação de docentes deficientemente preparados para leccionar o 2.º ciclo do ensino básico, através de diplomas de licenciatura “à la minute” obtidos em escolas superiores privadas por antigos professores do ensino primário com o antigo 5.º ano dos liceus e um curso médio de 2 ...

Exames fáceis?

Carlos Fiolhais @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Sistema educativo
Depoimento que prestei ao "Jornal de Leiria", que me perguntou se concordava que os exames eram cada vez mais fáceis:Os professores e os pais convergem na opinião de que há um esvaziamento dos exames nacionais. Quanto aos alunos, basta ver o que dizem na TV à saída das provas. Eu fui ver alguns exames deste ano e parece-me que alguém anda a brincar com o esforço de professores e alunos. Teme-se o pior: pelo caminho que as coisas levam, qualquer dia o exame de Portumática do 9º ano - uma só prova para ser mais fácil - será escrever a palavra "batata", dizer se é nome ou substantivo (a ver se sabe as TLEBS), contar o número total de letras dessa palavra e, finalmente, traçar uma circunferência à volta do resultado. Claro que vai ter a cotação toda um aluno que conte três, pois contou correctamente sílabas em vez de letras, e que desenhe um quadrado em vez de uma circunferência, pois também é uma figura geométrica. Seria cómico se não fosse trágico!

ERRAR MUITO É DESUMANO

Carlos Fiolhais @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Sistema educativo, avaliação do ensino
Minha crónica do "Público" de hoje:Os exames nacionais aí estão de novo mas, infelizmente, a polémica com os maus enunciados também. Logo no primeiro exame, de Português do 12º ano, os alunos, os professores e as famílias ficaram baralhados com perguntas de escolha múltipla nas quais há ambiguidades. Este é um erro evidente na elaboração das provas: não é preciso ser especialista para se saber que uma prova deve ser clara e permitir respostas claras. Que se há-de pensar quando professores experientes hesitam sobre a resposta a dar e até acham que há mais do que uma alternativa aceitável? Já nem falo da TLEBS, a nova gramática que continua a ser usada em contradição com o prometido. A avaliar pelos exames que têm saído nos últimos anos seria, de facto, uma surpresa que este ano não houvesse provas mal feitas. No ano passado, o Director do Gabinete de Avaliação Educativa (GAVE) do Ministério da Educação reconheceu culpas nos erros nas provas de Física e de Biologia, tendo os alunos sido compensados com a majoração do que fizeram nos itens restantes. Mas o responsável do GAVE, apesar de ter dado a ...

O prestígio perdido dos professores

De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Sistema educativo
Novo post sobre o nosso ensino de Rui Baptista (na foto, imagem de "Teacher's pet", com Doris Day): “Perdemos com a revolução e a contra-revolução.(…) Perdemos também com três décadas de facilidade e demagogia.” ...

Humboldt e a educação para a cidadania

Palmira F. da Silva @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, História, Sistema educativo, educação para a cidadania
Os dois irmãos Humboldt, Alexander e Wilhelm, foram figuras que marcaram indelevelmente a história do que hoje é a Alemanha. Testemunhas do colapso das monarquias absolutas na sequência da Revolução Francesa, ambos ajudaram à construção de uma nova Europa, Alexander destacando-se pelo seu trabalho nas ciências naturais e o seu irmão nas ciências sociais e na educação.Aristocratas educados no espírito de Rousseau e da escola filantrópica, integraram o circulo de Weimar na companhia de figuras como Schiller ou Goethe. Schiller, o grande poeta da liberdade, teve um impacto profundo em Wilhem, que passou pelo menos dois anos em contacto estreito com o poeta. Em meados de 1794, Wilhem von Humboldt mudou-se coma família para Jena para ficar perto de Schiller que detinha uma cátedra de história na universidade local.Outro pensador que teve uma influência indelével em Wilhem foi Gottfried Wilhelm Leibniz. A visão do mundo e a ética de Leibniz permearam o pensamento e a acção de Humboldt, nomeadamente o conceito de que a procura da verdade é o verdadeiro sentido da vida e de que a perfeição individual o nosso objectivo de vida. Este seria o seu fio condutor ...

Graus académicos no Portugal de hoje

De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Ensino, Sistema educativo
A habitual crónica semanal de Rui Baptista sobre a educação nacional: “Tem duas grandes qualidades: tem saúde e não é bacharel”. Eça de Queiroz (referindo-se a Ramalho Ortigão)É da mais elementar justiça não atirar para cima das costas do Processo de Bolonha (com a virtude inegável de facilitar a livre circulação entre estudantes e diplomados do ensino superior) toda a pesada herança da verdadeira bagunça que se apoderou do ensino superior em que as reformas, por vezes, têm ocorrido ao sabor de interesses de estratos profissionais.Em meados da década de 70, os antigos agentes técnicos de engenharia, habilitados com um curso médio, obtiveram uma certificação académica de bacharelato e um título profissional de engenheiro técnico. Quer isto dizer que os engenheiros licenciados por universidades com o titulo profissional de engenheiro “tout court”, não são técnicos… Serão, assim, uma espécie de curiosos que se entretêm em fazer cálculos de engenharia ...

Trinta anos de eduquês: origem e instrumentos do mal

De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Ensino, Sistema educativo, política educativa
Artigo de opinião de Guilherme Valente publicado no Público de 30/3/2008:"O cérebro é uma coisa maravilhosa.Era bom que todas as pessoas tivessem um."Anónimo1. Disse-se que a aluna do Carolina Michaëlis iria ser responsabilizada judicialmente (em Espanha, um juiz acaba de aplicar uma multa pesadíssima aos pais de um aluno que insultou uma professora). Ocultaram e relativizaram enquanto puderam os resultados dos exames com que não conseguiram acabar (arremedo de exames, aliás). Ocultariam e relativizariam enquanto pudessem, usando o natural constrangimento dos docentes atingidos, a indisciplina (que chegaram quase a elogiar), a violência, o regresso à barbárie que se está há trinta anos a promover. Bem-vindo, pois, de fora, o alerta às consciências do procurador-geral da República! Mas é preciso ter presente a origem do mal e a responsabilidade pela situação nas escolas e nas ruas: os Governos, os sucessivos ministérios, a Assembleia, os Presidentes da República, todos nós, afinal, a insensatez inimaginável, o conformismo, o assobiar para o lado, o arranjismo e oportunismo de todos estes anos.2. Dos instrumentos de disseminação do flagelo, um dos mais perversos e eficazes é, seguramente, o modelo de gestão das ...

Quem está a tramar a ministra?

De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Sistema educativo, política educativa
Trancrevemos um extracto (do início) de um artigo de opinião de Guilherme Valente no "Expresso" de hoje sobre a educação nacional:1. José Sócrates parece-me ter o enorme mérito de ser o primeiro chefe de governo a identificar e a querer enfrentar o problema central da educação, a ideologia e o obscurantismo pedagógico verificadamente geradores de ignorância, desigualdade e miséria, algo que o eduquês não lhe perdoará. O seu erro foi o "casting".Na sua primeira declaração (numa escola de Guimarães) –significativamente dissonante da intervenção do Primeiro-Ministro na mesma ocasião – a Ministra, desvalorizando os exames, logo revelou ao que vinha.Formada no caldo do eduquês, nunca lhe vimos manifestações de distanciamento crítico do flagelo. A tese que adoptou não era nova, mas fez dela o programa do Ministério: a tragédia educativa não se deveria ao eduquês, mas ao modo como foi aplicado. Ou seja, aos professores, que não o aplicam bem, e aos sindicatos, que não deixam pôr os docentes na ordem.2. Ora, não foi o eduquês, em todos os Governos, que criou, nestes trinta anos, a legislação que «rege» o sistema, formou, infectou, intimidou os professores, comandou ...

Bolonha à portuguesa

De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Ensino, Sistema educativo
Rui Baptista debruça-se aqui sobre o ensino superior:O PÚBLICO de 20 de Março dedicava duas páginas (pp. 14 e 15) ao Processo de Bolonha que bem mereceiam a reflexão de Lord Acton (1834-1902): “Poucas descobertas são mais irritantes do que aquelas que desvendam a genealogia das ideias”. O pecado original de todo este processo foi não se ter adoptado o grau de bacharel para o 1.º ciclo de estudos superiores, com longa tradição nos países anglo-saxónicos. Será que as “mentes brilhantes” do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior que detiveram as rédeas desta mudança desconheciam que a tradução de “bachelor” é bacharel? Ou terão pensado, numa consulta apressada a um qualquer dicionário de Inglês, que a tradução era, apenas, solteiro? Num verdadeiro “cocktail” de indecisões processuais, passaram a existir bacharelatos com génese em cursos médios, bacharelatos do ensino politécnico, licenciaturas universitárias e politécnicas antes de Bolonha (a.B.) e licenciaturas universitárias e politécnicas depois de Bolonha (d.B.), a exigirem, pela prolixidade de que se revestem, uma tabela de reconversão para uso nacional e estrangeiro. E isto ...

A complexa avaliação de professores

De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Sistema educativo, avaliação do ensino
Rui Baptista esclarece a sua posição sobre a avaliação dos professores:“Abyssus abyssum invocat” “Salmo de Davi” (XLI, 8)Embora fosse minha intenção não voltar a debater tão cedo a avaliação dos professores, uma circunstância ponderosa leva-me a voltar a um assunto em que, como diria Cesar Cantú, não pretendo namorar a popularidade renegando a minha própria consciência. Refiro-me a um oportuno e correcto comentário feito ao meu post ( “E agora?”, de 15 de Março passado): “Caro Rui Baptista: Leio com atenção os seus posts e gostaria de conseguir perceber a sua posição sobre o estado actual da educação e do conflito que está gerado. Por um lado, parece que acusa o Ministério, mas por cada acusação apresenta imediatamente atenuantes”. Em nome do mérito, entendo que o processo avaliativo da passagem do 8.º escalão aos escalões imediatamente superiores deve ser feita por provas públicas e não ...

E agora?

De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Sistema educativo, avaliação do ensino
O nosso colaborador habitual Rui Baptista continua atento à actualidade educativa: “O absurdo, tal como a dúvida metódica, fez tábua rasa do passado. Deixou-nos num beco sem saída. Mas tal como a dúvida, pode, mudando de atitude, orientar uma nova busca”. Albert Camus (“O homem revoltado”) No rescaldo da mega-manifestação ...

AVALIAÇÃO?

Carlos Fiolhais @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Ensino, Sistema educativo, política educativa
A propósito de toda esta trapalhada em que o Ministério da Educação se meteu sobre a avaliação dos professores, queria deixar um curto comentário. Não discuto a necessidade da avaliação porque ela praticamente não existe apesar de ser indispensável a todos os níveis para a melhoria da qualidade do nosso ensino: os professores, as escolas, os governos têm de ser avaliados. E, ao contrário de outras vozes, acho que uma má avaliação é preferível a avaliação nenhuma.O problema é que o esquema que está previsto - e que por várias razões provoca a repulsa dos professores e de outros cidadãos - nem sequer é uma má avaliação. Não é avaliação nenhuma. Não passa de uma burocracia confusa e mal-pensada, feita à pressa e para ser feita à pressa. Não tem nada a ver com a escolha e recompensa dos melhores, que exige ponderação do mérito (os melhores professores recusam-na tanto ou mais do que os outros). De resto, o "eduquês" sempre fugiu da avaliação como o diabo da cruz...

Sementes de violência

De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Ensino, Sistema educativo
Mais um post convidado de Rui Baptista “O mundo é um lugar perigoso para se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas por causa daqueles que o observam e deixam o mal acontecer”. Albert Einstein Portugal, na década de 50. Passava então na tela dos cinemas um filme norte-americano com o título de que me apropriei para este texto. Nele contracenavam Glenn ...

A luta dos professores e o apelo do Presidente da República

De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Ensino, Sistema educativo, avaliação do ensino, política educativa
A actualidade educativa mais uma vez comentada por Rui Baptista: “Depois do 25 de Abril, tenho-me sentido tentada a escrever uma peça que se chamaria ‘Auto dos Oportunistas’, mas que é impossível de escrever porque há sempre mais um acto” - Sophia de Mello Breyner. Começo por citar o pedagógico discurso do Presidente da República, Prof. Cavaco Silva, nas comemorações solenes dos 205 anos do Colégio Militar (1.Março.2008): “Temos de ter um ambiente de confiança entre todos os intervenientes do nosso processo educativo. É preciso que todos emitam sinais positivos, porque o país tem de recuperar em matéria de qualificação dos recursos humanos”. Decorreu esta cerimónia num vetusto estabelecimento de ensino de jovens que prima pela selecção cuidada do seu quadro docente e por uma ambiência escolar exemplar na sua exigência para com um ensino integral de elevada qualidade. Assim, em local apropriado e em tempo próprio se ouviu este apelo do Chefe do Estado a um desejável armistício na batalha campal que tem tido como protagonistas a ministra da Educação e os professores que se agrupam em ruidosas manifestações sindicais de rua ou ...

O exame de acesso à carreira docente

De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Ensino, Sistema educativo, língua
Já faltava esta semana a habitual colaboração de Rui Baptista sobre questões pedagógicas. Aqui está:“A resignação passiva, por ensurdecimento progressivo do ser, é o falhanço completo e sem remédio” - Sophia de Mello Breyner.A formação dos futuros professores deixa muito a desejar. Segundo notícia do “Expresso” (9.Fev.2008), intitulado “Erros nas universidades”, os alunos mais responsáveis da Faculdade de Letras de Lisboa queixam-se de que os “maus tratos do Português chegam ao corredor da universidade. Temos colegas que dizem ‘púzio’ (em vez de ‘pu-lo’(…). ‘Fizestes’, ou ‘dizestes’, em vez de ‘disseste’ ou’ fizeste’, ‘derivado a…’ ou ‘ténhamos’ são mais alguns exemplos do que os estudantes escutam a toda a hora” . Se é assim que falam, difícil não me parece descortinar erros de palmatória no que concerne a textos seus manuscritos numa sociedade em que os correctores de texto dos computadores “escrevem” pelo autor.O “púzio” vem mesmo a calhar para “certificar” uma história passada numa escola secundária. Um docente chega à sala de professores com ar de ferrabrás, e diz: “Hoje um aluno portou-se mal na aula e eu ‘púzio’ na rua”. Estava presente um outro professor que ...

DESCONCERTO EDUCATIVO

Carlos Fiolhais @ De Rerum Natura Categorias: Arte, Ciência Geral, Ensino, Sistema educativo
Minha crónica no "Público" de hoje (aqui emendei pequenas gralhas): Se fosse possível que um governo se lembrasse um dia, por aversão às artes, de acabar com o ensino da música, não faria muito diferente do que este governo se prepara para fazer. De acordo com o novo plano do ensino da música, surgirão as seguintes mudanças: 1. Extinção do ensino musical especializado no 1.º ciclo. 2. Mesmo para os maiores de 10 anos, os conservatórios só irão oferecer ensino de música em regime integrado e não supletivo. A primeira medida só por si é o fim do ensino musical especializado porque as crianças do 1º ciclo do ensino básico deixam de poder frequentar o conservatório. Ora, na música em particular é de pequenino que se torce o pepino. Tal significa o desaparecimento a breve prazo dos instrumentistas portugueses, pianistas e violinistas, flautistas e clarinetistas, pois, para se ser muito bom num instrumento, é preciso começar cedo a aprendê-lo. Com esta lei, se o leitor quiser que o seu talentoso filho de seis a nove anos aprenda um instrumento, só ...
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