O problema da Terra chata.

Thiago Henrique Santos @ polegaropositor.com.br Categorias: Ciência Geral, Divulgação Científica, História, História da Ciência, Senso Comum, blog
Aprendemos logo cedo na escola que um dos problemas que assustavam os navegadores de antigamente, era a idéia de que a Terra era chata. O mito de que era possível navegar até a borda do planeta, se cristalizou no senso-comum e é constantemente usado para simbolizar a ingenuidade dos antigos. Mas o que dizem os historiadores da ciência é que esta história não passa de mito. A idéia de uma Terra chata existe na mitologia oriental. No entanto, para os povos da Europa ocidental, o planeta sempre teve formato esférico. O que, mantendo as devidas correções modernas, é relativamente correto. O mapa atual da Terra em sua versão "chata".O mapa atual da Terra em sua versão Com efeito, os primeiros mapas celestes sempre colocavam a Terra representada como uma esfera, rodeada pela abóboda celeste. Mas se não era o medo de “cair” pela borda do planeta, existia afinal algo que assustava os antigos navegadores? Na verdade, sim. Uma pequena observação empírica levou à criação de uma teoria equivocada. Não é preciso ter aparelhos científicos rebuscados para saber que, quanto mais nos dirigimos em direção ao equador, mais quente fica o clima. Esta constatação deu origem a idéia ...

A objectividade nas ciências sociais e os obstáculos epistemológicos

Carlos Pires @ CADERNO DE SOCIOLOGIA Categorias: Ciência, Ciência Geral, Ciências Sociais, Senso Comum, sociologia
A objectividade é uma característica fundamental do conhecimento científico, seja nas Ciências da Natureza e na Matemática seja nas Ciências Sociais. Dizer que um conhecimento, para ser científico, deve ser objectivo significa que este deve ser independente da vontade e dos interesses do cientista. Ou seja: deve mostrar as coisas como elas realmente são e não como o cientista eventualmente gostaria que fossem; deve ser completamente impessoal. Essa objectividade deve ser tal que, relativamente ao mesmo tópico, dois cientistas pesquisando em condições semelhantes cheguem ao mesmo resultado. Caso contrário não passará de mera opinião e não será universal, ou seja, válido para todos. À partida, é evidente que tal objectividade é mais difícil de conseguir nas Ciências Sociais do que nas Ciências da Natureza e na Matemática. Há várias dificuldades que um cientista social tem de vencer. O programa de Sociologia do 12º Ano, na linha de certos autores, chama-lhes “obstáculos epistemológicos”. Essa expressão designa um entrave à produção de conhecimento científico rigoroso e objectivo. São vários: • A observação modifica o comportamento de quem sabe que está ser observado. • Os cientistas sociais são observadores e observados. • A influência do senso comum. • A familiaridade com o social. • A ilusão de transparência do social. • As ...

Algumas diferenças entre o senso comum e a ciência

Carlos Pires @ CADERNO DE SOCIOLOGIA Categorias: Ciência, Ciência Geral, Senso Comum
O conhecimento do senso comum baseia-se na experiência quotidiana das pessoas, na chamada experiência de vida (que se distingue da experiência científica por ser feita sem um planeamento rigoroso, sem método). Nalguns casos trata-se de experiências ...

Superstições medievais

Carlos Pires @ CADERNO DE SOCIOLOGIA Categorias: Cartoon/BD, Ciência Geral, Diversidade cultural, Senso Comum, superstição
"Na Idade Média, numa época de pouca divulgação cultural ou científica, o povo imaginava monstros e coisas maravilhosas, bem como uma série de criaturas fabulosas a viver nos oceanos. Considerava-se que a Terra e o Mar eram dois mundos paralelos, pelo que certos animais terrestres já conhecidos teriam certamente os seus correspondentes a viver no mar. Mas foi apenas com os primeiros relatos dos descobrimentos que surgem referências escritas a diversos monstros marinhos. Dizia-se que os monstros marinhos engoliam os barcos, o calor fazia ferver as águas, os homens e os animais eram monstruosos." [Dizia-se, por exemplo, que havia homens sem cabeça e serpentes gigantescas.] Leia mais no blogue: Olinda Gil - DIÁRIO DE UMA PROFESSORA, http://sol.sapo.pt/blogs/olindagil/archive/2008/10/08/MONSTROS-MARINHOS-_2D00_-A-AMBI_C700C300_O-VENCEU-O-MEDO-NOS-DESCOBRIMENTOS.aspx

Superstições

Carlos Pires @ CADERNO DE SOCIOLOGIA Categorias: Cartoon/BD, Ciência Geral, Senso Comum, superstição
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Senso comum e ciência: alguns exemplos

Carlos Pires @ CADERNO DE SOCIOLOGIA Categorias: Ciência, Ciência Geral, Senso Comum
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O IgNobel não é o Framboesa de Ouro

Laura Rocha Prado @ polegaropositor.com.br Categorias: Ciência, Ciência Geral, Divulgação Científica, Jornalismo Científico, Notícias, Senso Comum, blog
Nos últimos dias os brasileiros que acompanham o noticiário e que não conheciam o Prêmio IgNobel de Ciência definitivamente agora sabem pelo menos que ele existe: é que saiu em todos os cantos que um cientista brasileiro foi agraciado com a honraria na área de Arqueologia, com seu trabalho a respeito do fato de que tatus podem bagunçar as camadas de sedimentos em sítios arqueológicos, confundindo a identificação correta de cada estrato à sua idade relacionada.  Provavelmente esses mesmos brasileiros que acompanharam o noticiário recentemente também acompanharam a entrega de outro prêmio satírico: o Framboesa de Ouro, que ironiza o Oscar. Este último trata de esculhambar atuações muito ruins de celebridades que ganham muito dinheiro - “honrando anualmente o que Hollywood tem de pior a oferecer”. O problema é que o IgNobel, mesmo sendo uma premiação satírica, não é um Framboesa de Ouro. Segundo a organização responsável por sua entrega, a Improbable Research, e como bem protestou o Carlos Hotta, do blogue Brontossauros em Meu Jardim, o IgNobel é apenas uma maneira divertida de trazer a atenção para a ciência – e não uma forma de desmerecê-la.  Uma das idéias da Improbable Research é fazer com que as ...

O fim do universo.

Thiago Henrique Santos @ polegaropositor.com.br Categorias: Ciência, Ciência Geral, Senso Comum, Temas diversos, blog
Discutir sobre a natureza do Universo é provavelmente uma das mais antigas atividades do homem. E não poderia ser diferente. Por definição, nada pode ser estruturalmente maior ou mais complexo. Eu me arrisco a dizer que nada pode ser sequer mais filosoficamente complexo. E no meio de toda essa complexidade, uma das perguntas mais curiosas que se pode fazer é: irá o Universo chegar a um fim? Embora provavelmente exista todo o tipo de resposta para esta pergunta. Vamos trabalhar com duas que são diametralmente opostas. A primeira toma por base um modelo de Universo infinito e a outra um modelo finito. Em um modelo infinito a resposta é evidente. Algo infinito não pode ter um fim, assim como provavelmente nunca teve um começo. Por mais controverso que isso possa parecer, é uma pequena questão de lógica. Um Universo infinito nunca começou e nunca vai terminar porque sempre existiu. E se sempre existiu, continuará existindo sempre. Já com um modelo finito a questão é mais complexa e envolve um pouco de conhecimento sobre a origem do Universo. Hoje em dia a hipótese mais aceita sobre este começo é o famosoBig Bang. Uma imensa explosão, que deu origem ao tempo e ao espaço e ...

O problema dos elos perdidos.

Thiago Henrique Santos @ polegaropositor.com.br Categorias: Ciência Geral, Criacionismo, Evolução, Senso Comum, blog
Dentre os muitos temas controversos sobre evolução, a questão dos elos perdidos é certamente um dos mais comuns. Mesmo Darwin levantou essa questão e, pensando bem, ela é aparentemente lógica. Se as espécies evoluem uma das outras, e este processo é gradual, é de se esperar que se encontrem fosseis de espécies que estão “no meio do caminho”. O problema é que o “meio do caminho” não é tão simples de se compreender. É preciso entender primeiramente que a evolução é um processo contínuo e, como muitos processos contínuos, ela não tem um “fim”. Ou seja, todas as espécies atuais estão em constante mudança, muito embora o processo seja lento demais para podermos perceber seus efeitos. Isso basicamente significa que toda espécie viva é, de certa forma, uma espécie transicional.Mas podemos nos perguntar afinal, qual a história das espécies atuais? Como elas chegaram ao estágio em que se encontram? A única maneira de responder estas perguntar é olhando para o registro fóssil . Algumas espécies em particular tiveram suas histórias bem catalogadas, com uma porção de fosseis que indicam seus possíveis ancestrais evolutivos. No caso das baleias, por exemplo, foi possível estabelecer uma espécie de escala ...

O jantar dos esquisitos.

Thiago Henrique Santos @ polegaropositor.com.br Categorias: Ciência, Ciência Geral, Crônicas, Nerds, Senso Comum, blog
No livro “O mundo assombrado pelos demônios”, no capítulo “Maxwell e os Nerds”, Carl Sagan comenta sobre o estereótipo que se faz de pessoas da ciência. Em uma passagem ele diz que a misantropia e a inaptidão social, embora certamente possam ser associadas a uma porção de cientistas, fazem parte deste estereótipo.Concordo bastante com o Sagan e, evidentemente, faço o possível para combater este tipo de pensamento. Oras, cientistas são pessoas normais, com pai e mãe. Não há nada de bizarro e incompreensível em uma pessoa que dedica sua vida à ciência.O fato é que recentemente passei por uma situação curiosa. Fui com dois amigos, um matemático e um engenheiro de produção. Já havia um bom tempo que não nos encontrávamos, acabamos combinando de nos ver em uma famosa rede defastfood (não, não é a do palhaço) para botar o papo em dia. Quando um biólogo, um engenheiro e um matemático se encontram, o nível de nerdice do papo cresce assustadoramente. Entre nossos assuntos padrões (dominação do mundo, capacitores de fluxo… Essas coisas), passamos a discutir um pouco sobre desastres ecológicos. Claro que acabamos falando de aquecimento global. ...

Polegarcast #2: Os cientistas.

Thiago Henrique Santos @ polegaropositor.com.br Categorias: Ciência, Ciência Geral, Senso Comum, Temas diversos, podcast
A figura do cientista é alvo das mais diversas especulações, nos mais variados campos de influência humana. Neste podcast, discutimos um pouco sobre a visão pública do cientista. Comentamos sobre o esteriótipo presente nos filmes, livros e outras mídias. Nosso convidado especial, Diego Marques, por não estar envolvido diretamente com a ciência nos ajudou na difícil tarefa de desvendar os homens (e mulheres, claro) por trás do mito. Ainda neste podcast: Descubra se Padre Quevedo é um cientista, quantos gêneros de cientistas existem e o que as mães tem em comum com cientistas em início de carreira. Para ouvir, use o player abaixou ou faça o download do programa. Assine o nosso podcast: Para assinar nosso podcast em seu iTunes, Amarok, Rhythmbox ou qualquer outro player com a capacidade de lidar com a inscrição de podcast’s use nosso feed: http://feeds.feedburner.com/polegarcast

Ciência FAIL #1: Refutação.

Thiago Henrique Santos @ polegaropositor.com.br Categorias: Ciência FAIL, Ciência Geral, Humor, Quadrinhos, Senso Comum
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Percepção pública da ciência e os desafios da divulgação científica.

Thiago Henrique Santos @ polegaropositor.com.br Categorias: Ciência, Ciência Geral, Divulgação Científica, Senso Comum, Temas diversos, blog
Durante a 60ª Reunião Anual da SBPC, realizada em Campinas entre os dias 13 e 18 de julho de 2008, tive o prazer de acompanhar a mesa redonda cujo objetivo era discutir a visão pública da ciência em diversos países.  Para tal, os participantes da mesa exibiram os dados coletados por meio de uma pesquisa ampla e executada durante 2006 e 2007. Os resultados não poderiam me deixar mais intrigado.É curioso notar, por exemplo, que em Caracas 59,8% dos jovens entre 16 e 21 anos alegaram que a ciência é uma profissão atrativa. No Brasil, essa média ficou em 44,6%. Um dado que complementa essa informação é o de que em nosso país, essa porcentagem não muda nos jovens que alegaram se interessar por ciência.A pesquisa ainda investigava as diferenças de opinião entre as classes sociais e, como pode parecer evidente, a popularidade da ciência diminui junto com a classe social. O que realmente me causou estranhamento é que no Brasil, os jovens que dizem ter contato com a ciência possuem opiniões muito semelhantes àqueles que alegam não se interessarem por este tema.Uma interpretação possível deste dado é a de que a divulgação ...

Da serventia à ingenuidade.

Thiago Henrique Santos @ Polegar Opositor - Categorias: Ciência Geral, Senso Comum
Talvez seja reflexo deste mundo globalizado, mas parece existir um pensamento comum de que todas as coisas devem ter uma serventia.Sejam essas coosas objetos, animais, plantas, inclinações políticas ou movimentos sociais. Esse pensamento utilitarista evidentemente também aflige a ciência e, como é de se esperar, é uma crítica muito mais comum de quem esta de fora da comunidade científica. Não há nada de errado com a crítica em si, não fosse o caso de ela ser fruto de uma reflexão ingênua sobre o que é ciência e como ela funciona.Primeiramente temos que voltar àquela velha divisão acadêmica. A ciência pode ser dividida em aplicada e teórica. As ciências aplicadas são as que com efeito produzem conhecimento com uma finalidade implícita. As ciências mais teóricas se envolvem muito mais com o estudo bruto dos fenômenos e não possuem como objetivo principal resultar em aplicações práticas. Embora essa divisão seja contestada de muitas maneiras, é bastante aceita no meio acadêmico. Desta divisão simples decorre um processo mutualístico. As ciências aplicadas não funcionam sem uma base teórica. Por outro lado, o refinamento do trabalho das ciências teóricas depende em grande parte da produção prática das ciências aplicadas, já que ...

De onde viemos.

Thiago Henrique Santos @ Polegar Opositor - Categorias: Ciência Geral, Evolução, Senso Comum, Temas diversos, origem da vida
A origem da vida na Terra é um dos maiores mistérios da ciência. Ocorre que imaginar as condições primordiais do planeta é, por si só, um trabalho hercúleo. Simular estas condições é ainda mais complexo.  Para piorar, o surgimento de vida em um planeta não parece ser um evento trivial. Em todas as nossas décadas de exploração espacial, nunca detectamos qualquer corpo espacial com presença de vida, ainda que de vida extinta. É certo que temos bons candidatos neste sentido, Marte é um deles assim como Titã, uma das luas de Saturno. Mas essa dificuldade nunca impediu a ciência de imaginar algo. Em toda nossa história de desenvolvimento científico, muitas foram as teorias sobre a origem da vida e seus experimentos que tentavam reproduzir o acontecimento. Infelizmente, nunca tivemos um sucesso conclusivo, capaz de demonstrar que estamos indubitavelmente no caminho certo de investigação. A teoria mais aceita diz que as inúmeras tempestades elétricas atingiam os oceanos primitivos, altamente ricos em concentração de substâncias químicas (e por isso apelidados de sopa primordial), afetaram a conformação molecular destas substâncias permitindo que elas se agregassem formando os chamados coacervados.Do surgimento dos coacervados até as primeiras células primitivas se ...

Corrida contra o acaso?

Thiago Henrique Santos @ Polegar Opositor - Categorias: Ciência Geral, Evolução, Senso Comum, Temas diversos
A algum tempo, debatendo sobre o aquecimento global com amigos, me deparei com um argumento curioso. Meu interlocutor dizia que muito embora o planeta tenha passado por uma série de catástrofes naturais que provocaram extinções em massa, nenhum desses eventos ocorreu tão rápido e de forma tão abrangente quanto as ações negativas do homem na Terra. Ou seja, defendeu-se a idéia de que por conta da velocidade com a qual os seres humanos vem degradando o meio ambiente, as espécies animais e vegetais não tem tempo para se acomodarem ao novo ambiente de modo que a taxa de extinções é maior que a taxa de surgimento de novas espécies. Um cenário desses poderia significar a esterilização da Terra. Mas convenhamos, é uma situação por demais fictícia.Na verdade, já tivemos uma situação muito pior que a atual em termos de velocidade e abrangência de extinções. O evento K-Pg (de Cretáceo-Paleogeno, antigamente nomeado como K-T ou Cretáceo-Terciário), popularmente conhecido como a queda do asteróide que culminou com a extinção dos dinossauros. A teoria do impacto surgiu com a descoberta de uma camada de 1cm de irídiu em um ponto específico do estrato geológico da ...

O assassinato de uma teoria.

Thiago Henrique Santos @ Polegar Opositor - Categorias: Ciência Geral, Evolução, Jornalismo Científico, Notícias, Senso Comum, Temas diversos
Eventualmente eu gosto de pegar notícias de ciências publicadas nos grandes portais e comentá-las aqui. Em geral meu principal alvo é o G1, mas até pra não dizerem que é algo pessoal, vou pegar uma notícia do Jornal Terra. A notícia foi publicada no dia 29 de maio com o título "Pegada encontrada pode mudar teoria da evolução". O título sugere uma reportagem bombástica, que exibe fatos contundentes, até arqueológicos, para o fim da tão incompreendida teoria da evolução.O problema é que quando lemos a notícia não é bem isso que encontramos. Na verdade trata-se da descoberta de uma pegada de 15 milhões de anos que pode ter sido feita por um animal bípede. Se essa suposição for comprovada, a pegada pode sugerir que os ancestrais do homem evoluíram muito antes do que se pensava (por exemplo, acredita-se que o homem e os chimpanzés e bonobos se separaram de seu ancestral comum a aproximadamente 6,5 milhões de anos). É perceptível portanto de que se trata de uma descoberta potencialmente importante.O fato é que, confirmando-se ou não o significado desta pegada para o conhecimento científico atual, a teoria geral da evolução não é afetada em ...

Ciência: Desde o séxulo XVII controlando a natureza próxima a você

thenriques45 @ Polegar Opositor - Categorias: Ciência Geral, Senso Comum, Temas diversos
Muitos filósofos concordam que a ciência moderna se caracteriza pela tentativa de controlar a natureza. Esta premissa do controle de certa forma justifica o cenário atual, para se controlar algo é preciso antes compreender razoavelmente este algo. Desta forma não é de se espantar a velocidade em que novas pesquisas aparecem e informações são somadas ao patrimônio mundial científico. Vivemos na era do publique ou pereça. É claro esse ritmo acelerado de publicação de novos "papers" levanta uma questão quase evidente. Qual é a qualidade destes artigos e qual a relevância deles para o paradigma de controle da ciência moderna?Recentemente ouvi um professor abordando este tema. Uma das observações que ele fez foi de que "existe aquele cientista espetacular, que publica uma série de papers por ano e todos eles de qualidade, mas este cientista é a exceção e não a regra". Tem lá o seu sentido. A quantidade de informação hoje em dia é tão grande e dispersa que não é raro pesquisadores de países diferentes, estarem trabalhando em um mesmo tema, publicarem seus artigos, e nunca chegarem a entrar em contato um com o outro. Mais ainda, a possibilidade de que estes pesquisadores cheguem a conclusões ...

Telefone-sem-fio em divulgação científica

Laura @ Polegar Opositor - Categorias: Ciência Geral, Genética, Senso Comum, ética
A brincadeira do telefone-sem-fio consiste em formar uma fila de pessoas, que transmitem umas às outras uma frase originalmente criada pela pessoa de uma das extremidades, até chegar no último da fila. A graça do jogo está no fato de que quase nunca a frase recebida pela outra extremidade será idêntica à original, e isto se deve, obviamente, a pequenas mudanças cumulativas transmitidas a cada pessoa da fila. Assim acontece com todos os tipos de informações transmitidas em uma cadeia de componentes, se cada intermediário não for comparado ao original. É por esta razão que a divulgação científica deve ser meticulosa e sempre fornecer dados mais próximos aos originais, já que o seu público-alvo, em geral, não terá interesse ou acesso às informações a partir das quais a notícia foi gerada. Recentemente foi publicado um artigo na célebre revista científica Nature, cujo título pode ser traduzido para “Análise genômica do ornitorrinco revela características evolutivas singulares”. Como o nome indica, o trabalho, assinado por cerca de cem cientistas, apresenta um estudo pormenorizado da constituição genética de um ornitorrinco. O estudo é interessante, porque analisa o DNA de um animal sempre considerado esquisito e compara-o a outras linhagens de vertebrados para inferir algo ...

Evolution DMD: Uma análise filosófica.

Thiago Henrique Santos @ Polegar Opositor - Categorias: Ciência Geral, Evolução, Senso Comum, Temas diversos
Este texto é uma continuação do "Evolution DMD: Uma análise biológica". Se você não o leu, clique no link e leia antes de prosseguir com este. Embora o texto do Scott Adams seja uma brincadeira, ele parte do pressuposto básico de que os sentimentos e aspirações possuem uma relação direta com a química do organismo. De fato conhecemos uma porção de substâncias que afetam a química cerebral, os chamados neuroestimulantes, e que provocam reações diversas no indivíduo. Da mesma forma, sabemos que sentimentos específicos também produzem respostas químicas. O que dificilmente alguém pode afirmar é que os sentimentos, desejos e aspirações tenham a sua gênese unicamente como produto da química do organismo.A despeito desta discussão sobre a origem dos sentimentos, existe uma questão ainda mais profunda e complexa sobre a estratégia adotada pela ciência moderna, e que permite conclusões mecanicistas sobre o funcionamento do mundo. Tentar explicar a consciência, bem como desejos e aspirações, por interações químicas é uma característica típica da estratégia reducionista. Explica-se um objeto de estudo complexo tentando isolar suas partes constituintes, estudando-as isoladamente afim de conseguir um melhor entendimento sobre o todo.Essa característica tão presente na ciência é demonstrada no raciocínio do ...

Evolution DMD: Uma análise biológica.

Thiago Henrique Santos @ Polegar Opositor - Categorias: Ciência Geral, Evolução, Senso Comum, Temas diversos
 Há alguns dias recebi um email do Ogro que basicamente recomendava uma lida em um texto do Scott Adams. À primeira vista pareceu-me um texto simples, sobre uma equivocada hipótese evolutiva. Mas uma posterior leitura mais atenta me revelou algumas características muito interessantes, especialmente no que diz respeito ao funcionamento da ciência moderna. Desta forma, resolvi produzir duas análises deste texto (que segue traduzido abaixo). Esta primeira parte realiza uma análise biológica, desarticulando os argumentos de Adams. A segunda análise é sobre a filosofia da ciência por trás de um pressuposto quase imperceptível na argumentação de Adams. Vale ressaltar que se tratando de Scott Adams, as chances de o texto dele ser algo relmente sério são mínimas. Em todo caso, o texto é ótimo para abordar algumas características da evolução, falar um mínimo de metabolismo celular e ainda ter um bom tema de discussão sobre filosofia da ciência.  Mas chega de introduções, vamos ao texto. Para esta crônica, vamos considerar que tudo o que os especialistas dizem sobre evolução seja verdade. Os organismos com maior sucesso reprodutivo passam suas características para a próxima geração, e assim por diante. Mas eu tenho uma outra hipótese que talvez possa ser ...

O cinturão de proteção de Imre Lakatos

Thiago Henrique Santos @ Polegar Opositor - Categorias: Ciência Geral, Filosofia, Senso Comum, método científico
O processo de formulação, aceitação e testes de uma teoria em geral parece bem estabelecido para o cientista. Mas para os filósofos da ciência, esta é uma questão tão aberta quanto qualquer outro assunto filosófico. Embora, no que diz respeito a questão da teorização, Popper e Kuhn sejam sempre lembrados, tantos outros foram proeminentes e produziram material interessante a este respeito. É o caso de Imre Lakatos.Lakatos era graduado em física, matemática e filosofia. Depois doutorou-se em filosofia na Inglaterra, aonde permaneceu até o fim da vida. Lakatos, como tantos outros, nunca se deu muito bem com o trabalho de Thomas Kuhn. Publicou mais de um livro para tratar sobre as idéias de Kuhn e forneceu uma série de argumentos contra o sistema de paradigmas. Em seu livro "Falsificação e Metodologia dos Programas de Investigação Científica", Lakatos desenvolve seu argumento de cinturões de proteção, que iremos ver com um pouco mais de detalhe.Lakatos formulou que os sistemas teoréticos são formados por um núcleo forte, circundado por um cinturão de teorias de suporte. Quando submetidos aos testes, o núcleo forte da teoria possui mais ou menos o papel de "pressuposto básico", de modo que é o cinturão, ...

Ciência básica: “então, mas você vai estudar isso pra quê?”

Laura @ Polegar Opositor - Categorias: Ciência Geral, Política, Senso Comum
Para muitos, senão quase todos, escolher a profissão é um privilégio incalculável. Em geral a opção deve considerar a remuneração, especialmente quando se vai para a universidade passar um tempo financeiramente improdutivo. Acho que é assim que se explica a enorme quantidade de gente estudando alguma engenharia – e, também, a enorme fração de engenheiros que penduram seus diplomas trabalhando em bancos internacionais. Os salários compensam. Já empregar-se em ciência, em geral, não vai fazer ninguém enriquecer. Tampouco há incentivos para ser cientista no Brasil, já que a regra é estudar muito (somando-se a graduação e a pós-graduação, pode-se calcular uma média de 10 anos de dedicação integral à formação acadêmica) e ganhar muito pouco ou, às vezes, nada. A especialização científica é quase que totalmente estimulada pelas instituições públicas e as bolsas são de baixo valor, têm pouca duração e sua concessão é, muitas vezes, incerta. Apesar disso, eu conheço muitos cientistas felizes e, talvez isso se deva ao fato de que eles atenderam à sua vocação quando escolheram a carreira. Estima-se que, entre 1985 e 1990, somente 10 títulos de pós-graduação tenham sido concedidos a cada milhão de habitantes no País, o que faz do cientista brasileiro uma ...

A incomensurabilidade na divulgação científica.

Thiago Henrique Santos @ Polegar Opositor - Categorias: Ciência Geral, Epistemologia, Filosofia, Senso Comum, método científico
Quando fundamentou o princípio da incomensurabilidade, Thomas Kuhn estava pensando nas dificuldades em se estudar a filosofia histórica da ciência e na disputa dos defensores de paradigmas concorrentes. Suas últimas formulações sobre o tema transformaram a incomensurabilidade de maneira surpreendente. Kuhn utilizou princípios da seleção natural darwiniana, bem como estudos sobre filologia e tradução, para melhor compreender a relação entre os diversos paradigmas e a visão de mundo em que eles se inseriam. A conclusão que se chega ao se envolver com o trabalho de Kuhn é que a ciência é um empreendimento humano, que visa a busca pelo conhecimento da natureza física do universo. Mas é também uma linguagem própria e em constante evolução.Para compreendermos o impacto do trabalho de Kuhn na divulgação científica, é preciso antes abordarmos alguns aspectos específicos. O primeiro aspecto, e provavelmente o mais importante, é o conceito de léxicos kuhnianos. Os léxicos são termos criados para designar um conjunto de observações sobre algo. "Água", por exemplo, seria um léxico que define o composto químico H2O. Assim como "insetos" seria o léxico para definir animais invertebrados, com três pares de patas e corpo dividido em três tagmas (cabeça, tórax e abdômen)....

Educação física, ciência sim senhor.

Thiago Henrique Santos @ Polegar Opositor - Categorias: Ciência Geral, Senso Comum, Temas diversos
Faz parte de nossa tentativa de entender o mundo, criar maneiras simples e generalizadas de classificação. Para um observador minimamente razoável, essas classificações se mostram evidentemente acadêmicas e não refletem necessariamente a complexidade do que se classifica. Podemos tomar como exemplo a classificação das ciências naturais. São assim chamadas, primeiramente, por seu vínculo direto com o estudo aonde as respostas devem vir necessariamente da natureza. Física, biologia e química são grandes exemplos de classificações feitas nas ciências naturais. No entanto, mesmo entre essas três áreas existem campos "cinzas", ou seja, que parecem se enquadrar em mais de uma dessas classificações, ou talvez em nenhuma delas. Parte daí o motivo de se criar subclassificações, bioquímica e biofísica são bons exemplos.Embora esse sistema taxonômico em geral funcione, para aqueles observadores que não são tão razoáveis, essas classificações podem dar origem a certos preconceitos. É o que tipicamente ocorre com a educação física. Não raro nos deparamos com seu esteriótipo comum, estudante de educação física é tido como "o vida boa", sua aplicação última se restringe aos campos de futebol e outros esportes (quando muito) ou às acadêmias de musculação. Pouco, ou nenhum, esforço se faz para entender que a ...

Psicólogos que estudam a percepção

Isabella Bertelli @ Científica Mente Categorias: Ciência Geral, Percepção, Psicologia, Senso Comum
Ainda dentro da linha de informar as pessoas sobre o que é a psicologia, resolvi falar um pouco mais sobre áreas pouco conhecidas e/ou entendidas dessa profissão. Estive conversando com o professor Klaus Bruno Tiedemann, que leciona a matéria Psicologia Sensorial e parte da matéria Percepção e Cognição para a graduação de psicologia na USP, e resolvi fazer uma pequena entrevista com ele. Costumeiramente ele dá uma perguntinha ao final de suas aulas, e em uma delas, quando eu era sua aluna, a pergunta foi “Porque os alunos de psicologia não gostam de estudar percepção?”. É, realmente essa não costuma ser uma matéria popular entre os alunos, e estive refletindo sobre o porquê disso. Primeiro vamos ver o que professor Klaus me falou sobre o assunto:Científica Mente - Professor, quando alguém te pergunta o que você é, qual a sua resposta?Klaus – Eu digo que sou psicólogo.Científica Mente - Você leciona duas matérias aqui na USP sobre percepção. Porque não se considera um psicólogo da percepção? Existe esse nome?Klaus – Não, me considero um psicólogo especializado em comportamento, de modo geral, e o comportamento ...

Princípios do senso comum: armadilhas e artimanhas

Isabella Bertelli @ Científica Mente Categorias: Ciência Geral, Senso Comum, filosofia da ciência
Por Isabella Bertelli Cabral dos Santos e Marco Antônio Corrêa VarellaO senso comum é todo um complexo bem entrosado de argumentações populares e cotidianas normalmente voltado para soluções práticas. A maioria do nosso raciocínio do dia a dia é pautada pelo senso comum. Ele tem ajudado muito nossa espécie a lidar com os desafios de nossa existência e a acumular conhecimento útil. Entretanto, essa hegemonia ao mesmo tempo que é nossa força, por sua praticidade milenar, pode ser uma fraqueza, por nos deixar muito vulnerável a manipulações. Séculos de estudos filosóficos permitiram a identificação de algumas das armadilhas do senso comum, o que nos possibilita adotarmos três posturas possíveis:A) podemos adquirir alguma imunidade crítica de modo a não nos deixar ser manipulados e a desmascarar aqueles enganadores sociais, o que dá muito trabalho e fama de chato, de cricri ou mesmo cético;B) ou podemos nós mesmos atuar como enganadores sociais, e enriquecer com artimanhas nos aproveitarmos das fraquezas argumentativas alheias, pena que o mercado já está muito saturado e concorrido, vide todo o discurso político, místico, propagandístico, fantástico entre outros;C) ou então podemos nos tornar enganados ...

O que é Psicologia?

Isabella Bertelli @ Científica Mente Categorias: Ciência Geral, Psicologia, Senso Comum, psicólogo
Na postagem anterior (O que é ciência?), comecei com um pequeno exercício de pensar em palavras que estivessem relacionadas à ciência. Poderia fazer a mesma coisa aqui, mas talvez caia melhor algo diferente. Vamos lá: quando você pensa em um psicólogo, que figura lhe vem à mente? Aposto que a figura do psicólogo clínico, algo à “la Freud”, com seu divã e sua feição séria foi a mais recorrente. Pois é, não só os não psicólogos como os próprios estudantes de psicologia muitas vezes identificam a própria psicologia com uma de suas possíveis áreas de atuação, que é a psicologia clínica, e ainda mais especificamente, aquela realizada individualmente no consultório particular. Com esse pequeno e modesto texto, não pretendo esgotar o assunto, que pode ser abordado de mil e uma maneiras. Já ficaria feliz, se, ao final dele, você não achasse que psicólogo e psicanalista clínico tradicional são sinônimos. Definir psicologia é um desafio porque na verdade não existe psicologia. Luis Cláudio Figueiredo (2003) diz que a psicologia, longe ...

Antropomorfismo e antroponegação.

Thiago Henrique Santos @ Polegar Opositor - Categorias: Ciência Geral, Etologia, Senso Comum
"Uma nova pesquisa sugere que as formigas são traiçoeiras, egoístas e corruptas, contrariando a imagem de insetos de convivência harmoniosa e com pré-disposição para colocar o bem da comunidade acima de preocupações pessoais". Este é o primeiro parágrafo da notícia veiculada via G1. A despeito das informações referentes à pesquisa desenvolvida com as formigas, a reportagem incorre em um erro bastante comum. O chamado antropomorfismo.O antropomorfismo consiste no ato de atribuir características humanas a qualquer animal. Usando o próprio texto do G1 como exemplo, podemos observar que o autor acusa as formigas de serem "traiçoeiras", "egoístas" e "corruptas", valores humanos criados para definir traços comportamentais típicos de nossa espécie. A questão é que, apontar traços humanos como resultado de uma pesquisa sobre formigas não é correto.Observar o comportamento animal não é exatamente uma novidade. Por vezes eles se comportam de maneira muito semelhante à nossa, advém disso usarmos características humanas para nomear determinados comportamentos em animais. No entanto, não se pode afirmar que um animal esteja sendo "corrupto", só porque determinado comportamento se parece com a corrupção na humanidade. Paradoxalmente existe um outro princípio conhecido por antroponegação. Este princípio atesta, ...

Um pouco de fé na ciência.

Thiago Henrique Santos @ Polegar Opositor - Categorias: Ciência Geral, Epistemologia, Filosofia, Senso Comum, método científico
Com determinada freqüência, algumas pessoas costumam dizer que acreditar na ciência é um ato de fé. Um ato de fé talvez comparado ao ato de acreditar em um Deus, ou um santo. O curioso é constatar que este pode ser um pensamento comum mesmo aos cientistas. Não tão curioso é o uso do termo fé de maneira pejorativa, muitas vezes até por pessoas religiosas, de modo a diminuir a importância da ciência. Segundo o dicionário, o termo fé poderia ser utilizado em ciência em pelo menos duas acepções. Como em confiança absoluta em alguém ou algo, ou como comprovação de um fato. Embora o próprio método científico evite "confianças absolutas", com efeito é possível atestar esse tipo de fé para alguns casos em particular. Por exemplo, no que diz respeito à gravidade, quem seria capaz de questionar que ao soltar uma pedra no ar ela vai, irremediavelmente, cair ao chão? Ainda tomando a gravidade como base, é possível estabelecer a velocidade de queda dessa pedra, bem como sua trajetória. A mecânica clássica é um campo científico capaz de prever esse tipo de informação com uma precisão tão assustadora, que podemos confiar em seus resultados de maneira absoluta....
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