Blogs de Ciência

Blogs de Ciência – Divulgação de todos os blogs em Português que versam a ciência. Parte do Projecto Divulgar a Ciência(.com)

Archive for the Quotidiano

O estatuto de doente

O estatuto social é a posição que um indivíduo ocupa na sociedade ou num grupo social específico, à qual estão associados diversos direitos. Dito por outras palavras: pelo facto de ocupar essa posição, o indivíduo pode legitimamente esperar certos comportamentos por parte das outras pessoas. Há estatutos muito bem definidos e socialmente regulamentados, como por exemplo os estatutos Continue a ler O estatuto de doente

Um dia muito especial

Hoje de manhã, ao comprar o jornal, ouvi um diálogo digno da imaginação de um  escritor: - Amanhã é um dia muito especial! Faz quatro anos que o meu filho mais novo nasceu. - Quatro anos? Como o tempo passa depressa… - Pois é. Para mim parece que foi ontem. Lembro-me de tudo, sabes? - O dia de amanhã também é diferente para mim… Faz dois anos que um amigo se matou.Continue a ler Um dia muito especial

Carpe diem!

Esta tarde, enquanto observava o meu filho a brincar no escorrega, assisti a uma zaragata motivada por divergências acerca do futebol. Empurrões e murros utilizados como “argumentos” a favor e contra a qualidade do plantel de um certo clube. A atenção fanática que é dedicada ao futebol pode suscitar considerações muito diversas, mas naquele momento a mim ocorreu-me que, não havendo certamente umaContinue a ler Carpe diem!

Beleza e tristeza

“Tomaso Albinoni foi um dos maiores compositores do barroco italiano, mas o chamado "Adagio de Albinoni" não foi composto por ele. O verdadeiro autor desta belíssima peça foi um musicólogo italiano do séc XX chamado Remo Giazotto, que a compôs em 1945, com base num andamento de uma sonata de Albinoni.” Informação tirada daqui.

Há dias vi na rua um antigo aluno que uma vez me disse detestar música clássica, excepto o "Adagio de Albinoni", por ser “tão, tão triste”. Ia rua abaixo gesticulando e falando sozinho. De vez em quando parava e, para embaraço dos outros transeuntes, levantava a voz: “Hipócrita… és uma hipócrita! Andaste este tempo todo a brincar com os meus sentimentos!”

Não creio que seja necessário estar triste, e muito menos de cabeça perdida, para gostar desta música, apesar da sua melancólica lentidão - que, de resto, não constitui por si só uma qualidade estética (contrariamente ao que é sugerido pelo tom elogioso da expressão “tão, tão triste”).

Mesmo assim, foi do Adagio de Albinoni e Giazotto que me lembrei quando – após uns rápidos “Olás” - reparei que esse ex-aluno, além de uma cara triste e desesperada, ostentava claros sinais de alcoolismo.

(Já agora: a música vale por si e dispensaria qualquer acompanhamento visual, mas o vídeo tem interesse e merece ser visto.)

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Deus existe ou não? Vai uma aposta?

Enquanto empurrava o neto no baloiço uma senhora idosa ia conversando com uma senhora mais jovem.

- O que tu precisas, filha, é de Deus e não de comprimidos e psicólogos. Nem de cigarros, já agora.

- Quem a ouvisse pensaria que basta acreditar em Deus para os problemas desaparecerem. Seja como for, eu não acredito…

- Então começa a acreditar!

- Mas, mãe, como é que…

- O que tens a perder? Começa a acreditar… Reza, vai à missa, lê a Bíblia. Curas a depressão e ganhas a felicidade eterna.

- Não é assim que as coisas se passam. As pessoas não decidem acreditar: acreditam ou não acreditam, independentemente de quaisquer decisões.

- Porquê? Como te disse, não tens nada a perder. Repara: se acreditares em Deus e ele de facto existir estás do lado certo, por assim dizer. Ganhas a aposta, percebes?

- Aposta?

- É uma maneira de falar, Maria Francisca. Se Deus afinal não existir… Bem, paciência. Mas a confiança e a tranquilidade dadas pela fé já ninguém tas tirará.

Como resposta a Maria Francisca abanou a cabeça e acendeu um cigarro.

- Se há alguma coisa que eu sei, filha é que Deus existe. Mas não interessa o que eu sei. Exista ou não exista, ganhas em acreditar.

- Não percebo como é que uma pessoa tão religiosa como a mãe pode defender uma ideia dessas. Parece um negócio: arranjar fé porque dá lucro. Se Deus existe e é tão sábio e bondoso como a mãe acredita que é, aposto que não fica nada satisfeito com as pessoas que fazem isso… Esta aposta parece-me bem melhor que a outra.

Maria Francisca riu-se ao dizer estas últimas palavras. Não ouvi a resposta da mãe, pois acompanhei a retirada do meu filho do baloiço para o escorrega. Enquanto tentava acompanhar os seus rápidos passinhos, procurei recordar as palavras do filósofo e matemático francês Blaise Pascal (certamente um desconhecido para as duas senhoras) que, no século XVII, argumentou a favor da existência de Deus recorrendo à ideia de “aposta” – a aposta de Pascal.

“Deus existe ou não existe. Mas para que lado nos vamos inclinar [nós que somos tão imperfeitos e ignorantes]? (…) É preciso apostar. Pesemos as vantagens e as desvantagens de apostar na existência de Deus. Calculemos estes dois

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Põe-te em guarda, pois um dia destes podes perder a piada!

Em Portugal, nos meses de Verão e na época de Natal, costuma aumentar o número de animais domésticos abandonados na rua pelos donos e o número de pessoas idosas abandonadas no Hospital pelos familiares (após uma ida às Urgências). Em ambos os casos o motivo é o mesmo: as férias. O cão, o gato, o canário, a avó ou o avô iriam atrapalhar as férias.

Há cerca de duas semanas escrevi, no blogue Dúvida Metódica, um post chamado “Usados e depois deitados fora” sobre esse assunto. Resolvi pegar-lhe novamente pois há poucos minutos assisti a uma situação impressionante.

cão abandonado Um cão vadio viu uma senhora na rua (que, deduzo, era a antiga dona) e aproximou-se a abanar a cauda. A senhora procurou afastar-se e, como o cão continuou a segui-la de cauda a abanar, atirou-lhe uma pedra da calçada, que lhe acertou de raspão numa pata. Mesmo assim, o cão persistiu em ir atrás dela de cauda a abanar, mas agora ganindo de dor. De repente, a senhora parou e deixou o cão aproximar-se. Tirou um objecto da mala (não sei dizer que objecto era, mas não parecia uma faca) e jogou a mão na direcção do cão como se lhe fosse fazer uma festa. Mas, em vez de uma festa, fez - com o tal objecto - dois golpes rápidos. O cão ficou com uma ferida extensa no dorso, em forma de Y. A ganir e a pingar sangue, o cão fugiu para a estrada. Infelizmente ia a passar um camião que o atropelou. Foi completamente esmagado pelas enormes rodas. O camião nem sequer parou e a senhora continuou o seu caminho como se nada se tivesse passado.

Fiquei especado no meio da rua, perplexo com o que vira e vieram-me à memória alguns versos de “Balada da Rita”, uma bela canção de Sérgio Godinho:

“Passaram-me de ombro em ombro, põe-te em guarda Encheram-me de flores o quarto, põe-te em guarda Mas é sempre a mesma história Depois do primeiro assombro Logo o corpo fica farto”

velho desalentado As pessoas que abandonam os seus familiares idosos no Hospital não assumem que o fazem e se questionadas tentam arranjar justificações que anulem ou diminuam a sua responsabilidade (esqueceram-se, adoeceram, surgiu um imprevisto, etc.). Não dizem, portanto, que estão fartas do avô ou da avó e que a sua presença lá em casa…

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Sócrates na praia

É pouco frequente ver alguém ler um livro na praia. Por isso, foi com surpresa que ontem vi - na praia da Altura - uma mulher a ler o Fédon, de Platão.praia da altura

Era uma senhora dos seus quarenta e poucos anos. Com a cabeça entre as mãos e a cara enfiada no livro, parecia pertencer a uma espécie animal diferente da dos outros banhistas, entretidos a apanhar conquilhas e absorvidos em conversas cujo assunto menos pessoal era – a avaliar por algumas amostras recolhidas ao acaso – uma alarmante notícia televisiva sobre o cancro da pele. Quando os filhos vinham a correr mostrar-lhe uma concha especialmente bonita, a mulher levantava os olhos do livro e sorria com doçura, mas de modo breve e regressava logo à leitura. (Procedia do mesmo modo, excepto no que diz respeito ao sorriso, quando o marido lhe tentava desviar a atenção para uma colorida revista de automóveis.)

E o que ela lia era a descrição das últimas horas de vida de Sócrates. Este tinha sido condenado à morte e, apesar de se considerar inocente, recusou fugir quando teve oportunidade para isso, pois na sua opinião a fuga seria ainda mais errada que a condenação. Ao conversar com alguns amigos que se tinham ido despedir dele à prisão, Sócrates afirmou que não há razão para um homem justo temer a morte, pois a alma é imortal e após a morte do corpo vai para um lugar melhor que esta vida. Os amigos pediram-lhe para justificar essa crença na imortalidade da alma, o que levou Sócrates a apresentar e discutir com os amigos diversos argumentos. Nessa discussão foram ainda analisados outros assuntos, como por exemplo o suicídio, a natureza da filosofia e o sentido da vida.

Excelentes tópicos, não há dúvida nenhuma, para ocupar o pensamento num domingo de manhã numa praia do Algarve!

Por vezes, a mulher fechava o livro durante alguns momentos e olhava pensativamente para o mar – muito recuado, devido à maré-vazia. Estaria ela a pensar em objecções aos frágeis argumentos de Sócrates a favor da imortalidade da alma? Ou estaria a pensar como era admirável um homem que, a poucas horas de ser morto, não só aceita discutir um problema filosófico como incentiva os seus interlocutores a criticar tudo o que ele dissesse de menos sólido e que – face à admiração respeitosa…

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O que é pior: sofrer a injustiça ou cometê-la?

Chegou apressado ao pé dos amigos, sentados na esplanada a beber cerveja e a falar de futebol. Pediu desculpa pelo atraso e explicou que, ao estacionar, se tinha distraído e batido no carro do lado. “Ficou um bocado amolgado… Por sorte ninguém me viu! Fui pôr o meu carro noutra rua, pois tem um risquinho à frente e se o tivesse deixado lá as pessoas iriam provavelmente relacionar as coisas.” Quando lhe perguntaram se conhecia o proprietário disse que sim e perguntou: “Acham que lhe devo dizer que fui eu e pagar o prejuízo?” Os outros riram-se e disseram em coro: “Estás maluco ou quê?”

Pediram mais cervejas e regozijaram-se todos com a sorte do amigo não ter sido apanhado. De repente, perceberem que estavam a falar demasiado alto e que podiam ser escutados e calaram-se, atrapalhados. Apesar das mesas mais próximas estarem vazias e eu ter a cabeça enterrada num livro, a conversa foi retomada com as peripécias das transferências de jogadores de futebol.

O livro não era o Górgias de Platão, mas não pude deixar de recordar as palavras de Sócrates, que depois fui reler:

“Não desejo nem uma nem outra; mas se fosse preciso escolher entre sofrer a injustiça e cometê-la, preferiria sofrê-la.”

“O homem culpado, tal como o injusto, é infeliz em qualquer caso, mas é-o sobretudo se não pagar as suas faltas e não sofrer o respectivo castigo; é-o menos, pelo contrário, se as pagar e se for castigado pelos deuses e pelos homens.”

Se aqueles bebedores de cerveja fizessem parte do grupo de pessoas que – segundo conta Platão no diálogo Górgias - ouviu Sócrates tentar persuadir Polo acerca da verdade dessas afirmações, certamente bradariam: “Estás maluco ou quê?”

(As afirmações citadas foram retiradas de: Platão, Górgias, (469c e 472e), Lisboa Editora, 1995, pp. 78 e 83.)

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Raça de cidadãos!

praia antigamente Não é razoável esperar grandes descobertas numa manhã de domingo na praia. Mesmo assim, não é improvável que se consiga confirmar uma ou outra ideia feita.

Hoje, enquanto fazia um castelo de areia com a prole, chegou-me aos ouvidos uma conversa curiosa e instrutiva. Um cavalheiro a quem a própria esposa chamava Antunes e essa mesma respeitabilíssima senhora, apelidada de Maria pelo marido e de Doroteia por algumas ruidosas amigas, trocaram palavras que, por momentos (antes do desejo de rigor e da desconfiança relativamente ás generalizações me assaltarem), julguei retratarem bem o povo português.

- Apesar da água estar fria, está-se mesmo bem aqui!
- Sim, e a viagem de barco até aqui foi gira, podia ter sido mais compri …
- Sabes do que tenho pena?
- Do Chico não ter vindo?
- Que se lixe o Chico, que só pensa em trabalhar! Tenho pena de hoje não haver umas eleições ‘qualqueres’ – pra a gente não ir votar…
- Ah! Também gosto de não pôr lá os pés… A gente a divertir-se e os outros a gramarem aquela estopada!
- Pensar nisso até nos faz gostar mais do passeio, não é? Gramava que hoje houvesse eleições…
- Ui! A água está um gelo!

The beach por rui lebreiro Num primeiro momento, esta edificante conversa fez-me lembrar – devido a não sei que misteriosa associação de ideias, pois não ligo patavina ao futebol - os adeptos fanáticos do Benfica, Porto e Sporting (faço notar que escrevi os nomes por ordem alfabética). Guiados por um peculiar entendimento do patriotismo, alguns deles, quando um dos clubes rivais do seu joga com equipas estrangeiras, desejam a sua derrota.

Lembrei-me também da Dona Cecília que, tendo partido um braço, fez um sorriso de orelha a orelha e disse “é bem-feita!” quando lhe contaram que a vizinha da frente estava constipada.

Depois, após um pequeno pontapé de um fedelho de 3 anos (farto de castelos de areia e desejoso de atirar conchas e pedrinhas contra as ondas) destruir as torres e as ameias laboriosamente construídas, lembrei-me do poema “Na praia” de Ruy Belo. Disse para mim mesmo os seus poucos versos, em que o poeta captou bem a pinta dos Antunes e das Marias Doroteias deste país onde na escola se ensina cidadania em vez da tabuada e da grmática, e…

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