Debate sobre o legado de Sigmund Freud
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Continue a ler Debate sobre o legado de Sigmund FreudA Hipotese QI-Savana, uma possivel teoria sobre a inteligência geral
"Porque os liberais e ateus são mais inteligentes" é o nome de um extenso artigo de Satoshi Kanazawa da London School of Economics and Political Science e publicado na revista da Associação Americana de Sociologia, a Social Psychology Quaterly.
O artigo é sobre o teste experimental de uma hipótese abrangente sobre a origem da inteligência, gostos e valores. Diz a hipótese que a inteligência geral é o produto evolutivo da exposição a novas situações. Novas, mas não do ponto de vista da experiencia particular pessoal mas sim relativa à experiencia evolutiva total como espécie.
Ou seja, será a capacidade adaptativa a condições tão novas que não poderá ser procurada a solução entre as coisas que como espécie já não são novidade.
Esta hipótese, denominada "Hipótese da Interacção QI-Savana" é uma implicação do Principio da Savana.
Que diz o seguinte: "O cérebro humano tem dificuldade em compreender e lidar com situações e entidades que não existiram no seu ambiente ancestral."
Então ele propõe o seguinte: "Se a inteligência geral evoluiu para lidar com problemas evolucionariamente novos, então a dificuldade do cérebro humano de lidar com entidades e situações que não existiram no seu ambiente ancestral [a savana] deve interactuar com a inteligência geral de modo que o principio da savana aparece mais forte entre indivíduos menos inteligentes que entre indivíduos mais inteligentes."
Ou seja: "Indivíduos mais inteligentes devem ser capazes de compreender e lidar com entidades e situações de novidade evolutiva (mas não evolutivamente familiar) do que os menos inteligentes."
O que já explica:
Como todas as boas hipóteses cientificas deve explicar o que já se sabe e o autor nomeia entre os factos conhecidos que suportam a sua hipótese quatro constatações estatísticas conhecidas:
1 - A tendência para responder a personagens de televisão fictícias como se fossem realmente amigos conhecidos está correlacionada mais fortemente com inteligências mais baixas. Que ver na televisão um mundo parecido com o real mas que não é real é novidade para a espécie humana não precisa justificações.
2- Pessoas menos inteligentes têm mais crianças que pessoas mais inteligentes, mesmo quando não o querem, explicado pela hipótese com a novidade que é a capacidade de planeamento familiar do ponto de vista evolutivo.
3 - Indivíduos mais…
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Em algum post anterior havíamos dito que Winnicott assinala uma distinção entre dois aspectos da mãe na relação com o bebê. O analista inglês diferencia uma mãe-objeto de uma mãe-ambiente. A primeira seria a mãe que é vista pelo bebê como aquela que é ou possui o objeto de satisfação de suas necessidades. Freud considerava que esse era o único papel da mãe na relação com a criança, isto é, servir como um protótipo dos objetos de satisfação que o sujeito buscará posteriormente ao longo da vida. Já Winnicott vislumbrava outro atributo materno que é justamente o que ele denomina de mãe-ambiente, que visa dar conta do trabalho de sustentação e manejo que a mãe realiza para com a criança com o objetivo de facilitar o desenvolvimento de suas tendências inatas para a integração. Assim, temos que a mãe, ao mesmo tempo em que é o primeiro objeto de satisfação do bebê, é também o ambiente primordial que lhe permitirá sentir ou não confiança em si e no mundo ao longo da vida.
Winnicott estabelece essa diferenciação entre os dois aspectos da mãe em um texto, de 1963, chamado “O desenvolvimento da capacidade de se preocupar”. A palavra “preocupação” foi o melhor termo encontrado pelos tradutores brasileiros para expressar o que, em inglês, Winnicott denomina de “concern”. O problema é que “preocupação” possui uma conotação ruim, pois na raiz do termo está a idéia de se ocupar previamente de algo, amiúde em função de uma ansiedade, o que não tem absolutamente nada a ver com o uso da palavra concern por Winnicott. Talvez a melhor tradução para o vocábulo fosse “responsabilidade”, pois o analista inglês usa o termo para descrever o sentimento saudável que temos quando magoamos uma pessoa que gostamos ou quando cometemos algum tipo de má ação. Não, Winnicott não está pensando aqui em culpa, pois culpa seria justamente a faceta doentia do concern. Esse se expressa numa capacidade de se importar com o que aconteceu à pessoa a quem magoamos ou nos sentirmos responsáveis pelo nosso erro. A culpa, por outro lado, impede que nos responsabilizemos, pois dá origem a um martírio que faz com que o sujeito não se sinta capaz de reparar o mal cometido. A culpa sequer gera arrependimento.
Pois bem. Winnicott pretende, com o artigo de 1963, investigar como se forma essa capacidade de se responsabilizar, de se importar com…
Continue a ler Winnicott e o cristianismo V – o arrependimento e a capacidade de se preocupar(Nota: Clique no titulo para ler o post/artigo completo.)
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A maior parte das considerações que farei na parte inicial deste post eu já a as fizera num texto anterior chamado “A mente em Winnicott” cujas duas partes podem ser acessadas nos arquivos do blog. Winnicott, ao contrário de toda uma tradição em que talvez Freud pudesse ser incluído, não concebe a mente como um espaço imaginário ou real que venha a ser preenchido com seus respectivos conteúdos, a saber: as idéias. Para Winnicott, a mente constitui-se como uma função, função intelectiva. Logo, sendo uma função, a mente não possui um estatuto ontológico, dado, como o corpo. Ela existe devido a necessidades advindas da relação do sujeito com o ambiente.
Também é preciso lembrar que Winnicott faz uma distinção entre mente e psique que, também na tradição psicológica, são tomados como sinônimos. Para o analista inglês, a psique consiste numa “elaboração imaginativa de partes e funções corporais”, ou seja, é um precipitado constituído de imagens derivadas da própria experiência do sujeito com o corpo. Na medida em que tal experiência se inicia primordialmente a partir de seu contato com a mãe, são justamente os cuidados maternos, concretizados em tarefas normais como o banho e a higiene do bebê que o auxiliam a entrar em contato com seu próprio corpo, conjugando a experiência sensório-motora com a realidade imagética dela proveniente.
Percebe-se, portanto, que a psique não está relacionada ao conhecimento no sentido estrito do termo. Em sentido lato, sim, pois se pode dizer que as imagens derivadas da experiência corporal constituem o próprio conhecimento imediato da realidade do corpo pelo bebê. Todavia, o conhecimento no sentido intelectual do termo compete à mente. A função mental, diferentemente da psique, não brota da vivência física, mas aparece, primariamente, em função da relação entre o bebê e o ambiente (mãe). Como vimos nos posts anteriores, em um primeiro momento, devido à satisfação plena das necessidades da criança pela mãe, o bebê não se percebe portando uma existência individual separada de um mundo externo. Naquele momento, tudo é sonho, todos os seus desejos são atendidos. Ora, num mundo como esse, que utilidade teria uma função mental que servisse ao bebê para conhecer e entender o mundo? Nós só buscamos conhecer e compreender a realidade quando ela não corresponde às nossas expectativas, justamente para que, compreendendo-a, possamos saber como agir para saciar nossas necessidades ou para que renunciemos de vez à esperança…
Continue a ler Winnicott e o cristianismo IV – a mente e a teologia
De acordo com Winnicott, uma das condições básicas para um desenvolvimento psíquico saudável é a capacidade do sujeito de sentir confiança no ambiente. Por ambiente entenda-se o mundo e suas peculiaridades, ou seja, tanto o relacionamento com outras pessoas quanto com as coisas. Faz parte do ambiente também o que concebemos como nosso passado e nossas expectativas quanto ao futuro. Enfim, pode-se considerar o ambiente como a própria experiência de existir no mundo. E, para Winnicott, tal experiência tem que estar fundada numa confiança fundamental. Por quê? Ora, porque só estando dotado de uma confiabilidade na existência (ambiente) é que o sujeito poderá ser capaz de experimentar acontecimentos que lhe causam desprazer e apreensão, ou seja, acontecimentos que não correspondem a suas expectativas sem considerar que sua própria existência está em perigo. Em outras palavras, a confiabilidade dá condições para que o sujeito, diante das vicissitudes desagradáveis da vida, não se desespere. Por outro lado, é também essa confiança que permite ao sujeito se sentir relativamente feliz sem a necessidade de objetos e estímulos externos que lhe dêem prazer. Com efeito, a busca constante e compulsiva de coisas externas que nos proporcionem alegria, só revela o quanto estamos na dependência do mundo externo e não somos capazes de fruir felicidade a partir de nós próprios. Portanto, podemos dizer que a confiança no ambiente possibilita não só conseguir enfrentar as decepções sem desesperar quanto não ficar submetido às flutuações do mundo para se sentir feliz.
Vejamos agora como se produz essa confiança básica no sujeito. Como bem sabemos pelos posts anteriores, o foco maior de Winnicott é o bebê recém-nascido e é justamente nesses primeiros momentos após o nascimento que o analista inglês encontra as raízes da confiabilidade. Segundo Winnicott, a confiança (trust) é resultante da criação de um objeto bom na realidade psíquica do bebê. Caros leitores, prestem bastante atenção no que vou dizer sobre o “objeto interno bom”, pois será essencial na nossa analogia com o cristianismo.
Esse objeto bom que precisa existir no psiquismo do bebê é uma espécie de construção imaginária baseada nas experiências da criança com uma mãe suficientemente boa. Como vimos, essa mãe (que, repito, é a mais comum) é aquela que consegue atender às necessidades do bebê, ou seja, é aquela que fornece a contrapartida ambiental necessária para o desenvolvimento das tendências inatas do bebê.
Logo no início da vida,…
Continue a ler Winnicott e o cristianismo III – a confiança no ambiente e a fé