Blogs de Ciência

Blogs de Ciência – Divulgação de todos os blogs em Português que versam a ciência. Parte do Projecto Divulgar a Ciência(.com)

Archive for the Psicologia

Aborto espontâneo?

Há algumas semanas uma notícia advinda do segmento policial-sensacionalista reativou em mim algumas reflexões de outros tempos a respeito do aborto. Tratava-se do suposto aborto espontâneo que teria ocorrido com a ex-amante do goleiro Bruno, Fernanda Gomes de Castro. Ela, que no momento habita as dependências nada confortáveis do sistema prisional, apresentou sangramentos no domingo [...]Continue a ler Aborto espontâneo?

Comportamento Prosocial


Da década de 60 pra cá houve uma retomada crescente da pesquisa sobre o comportamento prosocial, que hoje se estabeleceu como uma linha de pesquisa rica e foco de atenção de profissionais de diferentes áreas como a biologia, antropologia, sociologia, psicologia e neurociências.


O assassinato de Kitty Genovese no início do anos 60 foi um grande destaque na mídia. Voltando para casa após o expediente, no bairro de Queens, em Nova York, ela foi atacada e brutalmente assassinada. O assassinato durou cerca de 45 minutos e ocorreu ao lado de um prédio, onde mais tarde 38 moradores admitiram ter ido à janela por ouvir os gritos de socorro, mas nada fizeram para ajudá-la. A pergunta era: por que essas pessoas não fizeram algo para ajudar? Várias explicações foram sugeridas, como o fato de Nova York ser uma grande metrópole, o que gerava uma visão desumanizada e indiferente ao sofrimento alheio. Esse acontecimento reaqueceu o interesse no tema de ajuda, e muitos estudiosos se dedicaram ao tema.

Comportamento prosocial é o termo usado para se referir a uma categoria ampla de ações definidas pela sociedade como geralmente beneficientes para outras pessoas (deve haver um benefeciador e um benefeciado) e para o sistema político vigente (ou seja, não tem um caráter universal).

Exemplo do não-universalismo de um comportamento prosocial é a dilaceração do clitóris de mulheres em regiões da África. No entendimento dessas culturas, tal procedimento é feito pelo bem da mulher, que poderia se tornar uma prostituta e ter dificuldade para se casar caso isso não fosse feito. Como o conceito de comportamento prosocial é muito amplo, devemos dividí-lo em três subcategorias de comportamento: comportamento de ajuda, altruísmo e cooperação (Dovidio, Piliavin, Schroeder e Penner ,2006).

O conceito de comportamento de ajuda é uma ação que tem como consequência prover algum benefício ou melhorar o bem-estar de outra pessoa, mesmo que a pessoa que ajude nunca tenha conhecido a pessoa que ajudou, como ocorreu nas doações feitas após catástrofes ambientais, em diferentes países.

Já no altruísmo, a ação é realizada pela pessoa sem a antecipação de recompensas por fontes externas por ter ajudado; ajudar simplesmente com o intuito de beneficiar alguém, sem benefícios para si mesmo, porém podendo envolver custos a essa pessoa. Essa conceitualização é problemática, e muitos ofereceram insights sobre o tema.

Batson propôs que o conceito de altruísmo se focasse nas motivações para

Continue a ler Comportamento Prosocial

Priming


Um paradigma experimental bem estabelecido no estudo da Cognição Social é o de priming, já apresentado anteriormente no blog no texto sobre o Modelo de Processamento Duplo da Cognição Humana. Retomando o conceito, esse paradigma se baseia em uma idéia simples: a ativação de determinadas categorias conceituais associadas resultará em maiores tendências comportamentais relacionadas a esse conceitos.

John A. Bargh foi e ainda é um dos pesquisadores mais importantes no estudo de priming, e neste vídeo ele discute de forma simples e objetiva a idéia do paradigma, apresentando um estudo realizado por um aluno do seu laboratório.

Outro vídeo interessante é parte de um programa da BBC chamado "Bang Goes The Theory Team", que testa diversas teorias científicas. Nessa parte do vídeo são feitos alguns testes baseados no paradigma experimental de priming.



Uma implicação importante dessa linha de pesquisa é discutida por Bargh e Roy F. Baumeister, outro importante psicólogo social, sobre a existência ou não do livre arbítrio. O raciocínio que os resultados obtidos encadeiam é o de que se algo tão simples como a temperatura de uma bebida que a pessoa segura pode influenciar no seu julgamento em uma situação posterior, quantas outras variáveis situacionais poderiam estar influenciado e determinando nossos comportamentos além da nossa consciência, até mesmo sequências de comportamentos complexos? O que os estudos de priming apontam é que em determinados contextos, variáveis disposicionais (ex: traços de personalidade) podem ser sobrepostas por variáveis situacionais (ex: pistas ambientais) na determinação de alguns comportamentos. No vídeo abaixo Bargh e Baumeister discutem o tema.


Bargh também discute algumas idéias neste vídeo, disponível no site da Edge, onde fala de simplificadores e complicadores na ciência, além de sua linha de pesquisa e algumas implicações dela.

Por último coloco aqui uma entrevista feita com Bargh falando sobre "O Novo Inconsciente", títutlo de um de seus livros. A entrevista é em espanhol, mas o essencial é perfeitamente compreensível.


El nuevo inconsciente: John Bargh

Continue a ler Priming

Curtas: Nearness * Proximidade


Nearness from timo on Vimeo.



O Filme Nearness (A proximidade)   explora a interacção, sem tocar. Com o RFID é a proximidade que interessa e o contato real não é necessário. Muito do trabalho destes autores no projecto Touch aborda as ficções e especulações na tecnologia. Aqui os autores jogam com os problemas da invisibilidade e da magia de estar perto.

Mais trabalhos em BERG blog
Continue a ler Curtas: Nearness * Proximidade

As Aparências Enganam?


Comumente criamos impressões das pessoas com quem interagimos de forma espontânea, automática, rápida, inconsciente e com mínimo esforço cognitivo (Olivola e Todorov, 2010; Ballew e Todorov, 2007; Carlston e Skowronski, 2005), levando em consideração muitas vezes a primeira coisa que vemos nelas (Hassin e Trope, 2000) , por mais que não seja uma característica importante para fazer o julgamento. Realizar tal inferência tem a vantagem de rapidamente nos fornecer informações relevantes para saber como interagir e o que esperar das outras pessoas. Apesar da informação inicial servir como parâmetro para avaliar posteriores informações adicionais, a impressão pode ser radicalmente mudada.


Do ponto de vista evolutivo, foi uma característica extremamente adaptativa para a nossa espécie detectar rapidamente ameaças ou oportunidades proporcionadas por outras pessoas, tendo em vista seu grande valor reprodutivo. Evidência disso é o achado de um estudo em que participantes perceberam mais rapidamente e com precisão faces masculinas como bravas e faces femininas como felizes (Becker, Kenrick, Neuberg, Blackwell e Smith, 2007). Muitos estudos indicam que essas impressões têm um importante impacto nas decisões que as pessoas tomam em importantes domínios como na escolha de parceiros sexuais, na política, nos negócios, na ciência forense e no exército (Olivola e Todorov, 2010). Mas até que ponto essas inferências são eficientes?


As primeiras impressões são muito precisas levando em consideração as poucas informações nas quais elas se baseiam (Vannestem, Verplaeste, Van Hiel. e Braeckman, 2007). Porém a utilização das informações erradas aliadas a um pensamento enviesado pode ter consequências negativas em várias situações, como quando uma mulher pensa ter encontrado o amor de sua vida e ele na verdade só estar interessado em roubar o seu dinheiro.

Frequentemente nós não temos consciência das reais causas dos nossos comportamentos. Nos enganamos muitas vezes na ilusão de compreender bem o que influência nossos comportamentos e o porque pensamos o que pensamos. Nisbett e Wilson (1977) chegam a afirmar que as pessoas tem pouco ou nenhum acesso aos seus processos cognitivos. Podemos ficar muito nervosos com alguém aparentemente sem reais motivos para tanta exaltação. Uma racionalização possível de um comportamento dessa natureza poderia se materializar na frase: "mas ele fez por onde", quando na verdade o ataque de nervosismo ocorreu devido  um longo período sem se alimentar ou à irritação avinda da falta de sono na noite anterior. Logo, podemos criar uma impressão errônea de uma situação devido às

Continue a ler As Aparências Enganam?

A questão do trabalho na atualidade

Fiz a redação desta prova de vestibular por fazer:

http://www.cpv.com.br/cpv_vestibulandos/info_ufscar/2009_dezembro/provas/Mat_LI_LP_Red.pdf

Destaco no fim da proposta no texto 3:

“Bento XVI:

A exclusão do trabalho por muito tempo ou então uma prolongada dependência da assistência pública ou privada corroem a liberdade e a criatividade da pessoa e as suas relações familiares e sociais, causando enormes sofrimentos psicológicos e espirituais.”

———————————-

Fiz, ainda que sofrendo a dor de tocar na minha ferida existencial mais inflamada:

* deu mais de 30 linhas mas fiquei com preguiça de diminuir, afinal estou só brincando com fogo mesmo…

A questão do trabalho no mundo atual

O tema do trabalho desde suas origens até a concepção considerada na atualidade envolve uma ampla gama de possíveis reflexões e considerações. Sabe-se que, como quase todas as descobertas e invenções humanas tiveram inicialmente as melhores intenções, as quais, com o decorrer do tempo e conseqüentes distorções ideológicas, o trabalho também sofreu um processo de nascimento promissor e utilitário para o individual e o coletivo até surgirem tentações sofísticas e acomodatícias oriundas da cultura do “quanto mais esperto melhor” e sua sutil demanda “ganhe o máximo fazendo o mínimo”.

O homem sempre se questionou sobre seu potencial, do virtual ao concreto, e suas necessidades de avançar em conhecimentos cada vez mais visando à evolução e tentando ultrapassar seus limites. Desde o início do que se sabe sobre a humanidade, há sempre uma alusão à questão do trabalho, com os primeiros conhecimentos gregos e a mitologia dizendo ser Atenas a potência da técnica (‘techné’ e ‘métis’) e Hefaísto seria o inventor do trabalho pelo fogo como complemento à potência de Atenas. O mito de Prometeu representou o intermédio e transferência do pertencimento da invenção das técnicas dos deuses para o homem, endossado por Dédalo mais tarde. Contudo a história deixa buracos, dúvidas e paradoxos, com diversas versões muitas destas contraditórias.

Importante destacar é a inerente busca eterna do ser humano pela criação pragmática, aperfeiçoamento com vistas à utilidade para o coletivo, das primeiras comunidades às sociedades contemporâneas. Do mesmo modo que não há como saber tudo sobre a verdadeira origem e a história mais correta, outro tipo de buraco também foi criado concomitantemente a todo o processo. Na maioria das vezes, os motivos encontram-se na vaidade humana e posterior supervalorização do individualismo em detrimento do coletivo, acarretando fins cujos

Continue a ler A questão do trabalho na atualidade

Inteligência, a palavra proibida

Há uma palavra proibida quando se fala de educação: inteligência. Os professores nunca recorrem, pelo menos em voz alta, a explicações deste género: “O aluno X teve notas muito baixas porque é pouco inteligente”. Os especialistas em educação e os políticos que nela mandam, ao explicar o sucesso e o insucesso escolares referem as causas mais díspares (as estratégias utilizadas pelos professores, aContinue a ler Inteligência, a palavra proibida

Mão Morta_ Como um Vampiro





“PESADELO EM PELUCHE”
Pesadelo Em Peluche teve como ponto de partida o livro The Atrocity Exhibition (A Feira de Atrocidades), de J. G. Ballard, e a questão aí levantada da nova percepção do real que o panorama mediático e cultural instituído pela moderna comunicação de massas induz no indivíduo. É sobejamente conhecida a anedota do miúdo urbano que se espanta ante a visão de uma galinha viva porque só a figurava depenada e dependurada nos talhos e nos supermercados. Da mesma forma, com o devido reajuste de escala, que traços de personalidade são sulcados no sujeito diariamente exposto às imagens choque de guerras, acidentes, crimes ou catástrofes naturais que enchem os noticiários televisivos, aos paradigmas produzidos pela publicidade na permanente exaltação de objectos quotidianos como o champô, o automóvel, os destinos de férias ou os gadgets tecnológicos, aos mexericos emocionais da vida privada de vedetas televisivas e demais figuras públicas constantemente expostos nas capas das revistas e nos escaparates dos quiosques, aos infindáveis cenários de auto-estradas, engarrafamentos, viadutos, aeroportos e vastos bairros uniformes que lhe marginam as jornadas casa trabalho? Essa matéria visual da cultura mediática e os novos desejos e padrões psíquicos que fomenta constituem o cerne das histórias contidas nas canções e também a premissa para a sua composição, desenvolvida a partir de algumas das matrizes que os últimos 30 anos da história do rock fixaram. Assim, os riffs ou as batidas à maneira de servem para enquadrar narrativas psicóticas onde a pulsão sexual é alimentada por estranhos fetiches e a morte não passa de uma ficção conceptual carregada de encantos obscenos. Como se, perdido o equilíbrio genésico, a vida se transmutasse num perturbante pesadelo de desconcerto numa mente entorpecida pelo peluche do conforto. 

Adolfo Luxúria Canibal

addthis_pub = 'bioterra'; Continue a ler Mão Morta_ Como um Vampiro

Modelo Duplo de Processamento da Informação

Em inúmeras situações no nosso dia-a-dia, fazemos coisas aparentemente sem muita consciência ou atenção completa, como quando dirigimos, trancamos portas ou falamos com outras pessoas. Uma boa parte dos nossos comportamentos parecem ser realizados de forma independente da nossa deliberação completa e consciente, e isso é o que muitos estudos em cognição social tem apontado.

Maior exemplo disso é a fala, visto que na velocidade que muitos de nós falamos seria impraticável uma comunicação plena e agradável com as pessoas se escolhêssemos ponderadamente cada palavra que seria usada na sequência. Vivemos diariamente experiências relativas ao automatismo, como trancar uma porta e depois não conseguir lembrar se a trancou, e, ao verificar, prestar muita atenção. A variação do grau de automatismo e de controlabilidade do processamento das informações é algo muito presente na nossa experiência cotidiana.

Retomando o que já foi escrito no texto anterior sobre o Modelo Duplo de Processamento da Informação, muitas nomenclaturas foram propostas para designar os componentes desse modelo, entre elas a de "Sistema 1" para a dimensão mais automática, e "Sistema 2" para a mais controlada. Segue uma tabela com algumas características desses dois pólos do processamento da informação (Fiske e Taylor, 2008):



O modelo geral proposto se baseia em um continuum, variando o nível de automatismo do processamento da informação. Alguns níveis do continuum foram elucidados, como na tabela a seguir (Fiske e Taylor, 2008):




Ao longo dos anos foram criados paradigmas experimentais (formas de conduzir uma investigação) que testassem o modelo. Um dos mais importantes foram os estudos de priming, que analisam os componentes mais automáticos do continuum (pré-consciente, pós-consciente e acessibilidade crônica). Não existe tradução adequada para esse termo, porém a idéia geral do priming é parecida com a de ativação, onde um estímulo ativa determinadas cognições em relação às demais, tornando mais acessível ao indivíduo essas cognições e outras que estejam associadas a elas. A melhor forma de entender o que é o priming, e como ele pode ser usado para testar empiricamente o modelo é através da descrição desse paradigma.

Imagine que você é um estudante da Universidade de Nova York em 1996 e foi convidado para participar de um estudo de psicologia (Bargh, Chen e Burrows, 1996). Os estudantes viam de 4 a 25 círculos coloridos em uma série de telas por 2 ou 3 segundos em um computador, e era pedido que eles dissessem se o número de círculos

Continue a ler Modelo Duplo de Processamento da Informação

Cognição Social

 
A cognição social é um campo da psicologia social que investiga a forma como as pessoas compreendem as outras pessoas e elas mesmas (Fiske e Taylor, 2008). Surgiu do interesse de psicólogos sociais pela psicologia cognitiva, que começaram a utilizar os modelos cognitivos para entender os processos básicos subjacentes às interações sociais. Essa área de pesquisa tem como aspectos básicos:
  • o mentalismo, que confere importância aos processos e representações mentais; 
  • a formação, operação e mudança dos processos cognitivos dentro dos contextos sociais; 
  • a utilização de métodos, teorias e modelos desenvolvidos em outras áreas pela psicologia social, como a psicologia cognitiva e a neurociência cognitivo-social;
  • a aplicação ao mundo real (aplicação à temas como comportamento de ajuda, preconceito, esteriótipos, relacionamentos íntimos e outros).

No decorrer da pesquisa em cognição social, vários modelos de "pensador social" foram utilizados. Nas décadas de 50 e 60 a visão dominante era de que as pessoas buscavam consistência entre suas cognições, e eram motivadas pelas inconsistências entre elas. Essa visão era decorrente de várias teorias criadas a partir das pesquisas em mudança de atitude, predominantes depois da Segunda Guerra Mundial, como a da dissonância cognitiva de Festinger (1957) e a teoria do balanço de Heider (1958).

Nessa visão, as pessoas tinham como funcionamento básico a busca por consistência (e.g. Uma pessoa fuma e sabe que isso fará mal a ela. Isso cria uma inconsistência entre suas cognições "fumar faz mal à saúde" e "cuido da minha saúde". O passo seguinte será no sentido de diminuir ou acabar com essa inconsistência, incluindo uma cognição como "fumar me deixa feliz, e, portanto, tem consequências positivas para minha saúde"). Esse tipo de visão não considerou que certas inconsistências poderiam não ser percebidas como inconsistências pelo indivíduo.

Na década de 70 o ser humano passou a ser visto como um cientista leigo, que busca controle e predição sobre o seu contexto, de forma analítica e racional. O ser humano, de um modo geral, tem uma grande série de limitações que não permitem tanta racionalidade no julgamento e comportamento como essa visão o conferiu. Na década seguinte foi pensado no "avaro cognitivo", onde os seres humanos seriam muito limitados e usariam atalhos mentais sempre que pudessem no sentido de obter soluções rápidas para seus problemas. A visão do ser humano como um "tático motivado" predominou nos anos 90, em que o pensador social seria engajado no seu

Continue a ler Cognição Social
  • Arquivos