Blogs de Ciência

Blogs de Ciência – Divulgação de todos os blogs em Português que versam a ciência. Parte do Projecto Divulgar a Ciência(.com)

Archive for the pseudociências

A garantia social da ciência (Série pseudociências – Parte 6#)

Olhando amplamente todo o leque de pseudociências, pergunto-me “o que fez com que um tipo de explicação não-científica tente se passar por ciência?”.

É claro, como muitos ja apontaram, como Carl Sagan, citado no início de nossa série de ensaios sobre pseudociências, existe uma séria deficiência na alfabetização científica.

Essa deficiência permite que explicações não-científicas passem como científicas; assim como também é possível encontrar pessoas com uma certa fobia ao que e científico. Por que?

Os fóbicos da ciência relacionam os maus usos dos produtos da ciência e tecnologia como se fosse a própria ciência.  Esquecem que ela é um instrumento, assim como outras áreas plenamente humanas. O uso dos produtos científicos e tecnológicos beiram a instrumentalidade: usar um martelo para lesar uma pessoa não significa dizer que o martelo é “mau”.

O valor maléfico ou benéfico é dado aos produtos dela e não a si mesma.  A confusão entre empregos lesatórios, dos produtos de uma ciência e a própria ciência, é uma das fontes de fobia científica.

Claro que a coisa não é tão simples assim, alguns ainda podem argumentar que o procedimento científico pode empreender resultados que lesariam. O estudo de drogas em animais, por exemplo, podem ser uma lesão a animais.

Mas este é um caso centrado na ética da conduta de pesquisa. O fóbico da ciência, quando admite sua maleficidade, a admite por geral. A generalisa. E pega casos centrados na ética da conduta de pesquisa e generalisa como um todo. Por este motivo deve existir o estudo ético na ciência. Entretanto o argumento do fóbico parece ser truncado: não encontramos em todo o tempo atos que poderiam ser considerados lesatórios num estudo científico. Caso um fóbico da ciência ainda afirme que, em última instância, todo ato de estudo científico leva ou pode levar a lesões a outrém, posso ainda imaginar que este argumento não é muito forte: poderia ser extendido para toda capacidade de raciocínio, não só à ciência, e por último ao ser humano e suas decisões diárias (não vejo essa linha de raciocínio, de que a ciência seria má por possibilitar lesões mesmo que em decorrência de um estudo não lesatório, como uma linha de crítica válida; parece uma crítica externa e ela cabe tanto no que é conhecimento, quanto no que for humano – e assim o homem seria lesatório por natureza e tudo o que produzisse).

Portanto, de uma…

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A incomunicabilidade do dragão da minha garagem – (Série pseudociências – Parte 5#)

Dragão chinês

Dragão chinês

Em nosso blog, em outro ensaio já falamos do livro de Carl Sagan “O mundo assombrado pelos demônios”. Neste livro, Sagan tem um capítulo denominado “o dragão da minha garagem” onde explica o caráter ad hoc de teorias não científicas face ao método científico para verificá-las e falseá-las.

Neste ensaio procuro refletir sobre a existência de um dragão que não possa ser analisado sob a luz de nosso método científico.

Uma primeira visita ao exemplo, notamos que estabeler a existência de um dragão que não pode ser analisado é de difícil instância, pois parece não ser apresentável em nenhuma forma de fenômeno. Também não parece estar relacionado com nenhuma forma fenomênica.

Fenômeno vem do grego “phainomenon” que é basicamente aquilo que é observável, que tem uma aparição.

Um dragão, cuja existência não é estimável por análises de sua aparição, ou seja de seu fenômeno, e não está relacionado com nenhuma outra forma de aparição – poderíamos tentar analisá-lo não apenas diretamente, mas em relação a outras observações correlatas – é um dragão indeterminável. É, com muita possibilidade, de natureza incognoscível (se existente) ou incomunicável.

Vamos reler o exemplo de Sagan e depois iremos explorá-lo como uma experiência mental:

- Um dragão que cospe fogo pelas ventas vive na minha garagem.
Suponhamos que eu lhe faça seriamente essa afirmação. Com certeza você iria querer verificá-la, ver por si mesmo. São inumeráveis as histórias de dragões no decorrer dos séculos, mas não há evidências reais. Que oportunidade!
- Mostre-me – você diz. Eu o levo até a minha garagem. Você olha para dentro e vê uma escada de mão, latas de tinta vazias, um velho triciclo, mas nada de dragão.
- Onde está o dragão? – você pergunta
- Oh, está ali – respondo, acenando vagamente. – Esqueci de lhe dizer que é um dragão invisível.
Você propõe espalhar farinha no chão da garagem para tornar visíveis as pegadas do dragão
- Boa idéia – digo eu –, mas  esse dragão flutua no ar.
Então, você quer usar um sensor infravermelho para detectar o fogo invisível.
- Boa idéia, mas o fogo invisível é também desprovido de calor.
Você quer borrifar o dragão com tinta para torná-lo visível.
- Boa idéia, só que é um dragão incorpóreo e a tinta não vai aderir.
E assim

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Alterações Ad hoc – Limites entre o lícito e o ilícito (Série pseudociências – Parte 4#)

Quando falamos a respeito do Falseacionismo Ingênuo (ou falseacionismo dogmático), estabelecemos que existe um problema sério para demarcar até que ponto é lícito as alterações ad hoc que podem incluir novas, ou alterar antigas hipóteses.

Em outro ensaio, também estabelecemos, que existe um problema de demarcação entre o que é ou não pseudociência. De forma geral, como diz na publicação “Crítica na Rede”, “O problema da demarcação consiste em distinguir a ciência das disciplinas não científicas que também pretendem fazer afirmações verdadeiras sobre o mundo” (Achinstein, Peter in: Crítica na Rede. Ver link). Este termo teria sido utilizado, primariamente, por Popper e podemos afirmar que sua pesquisa de um falseacionismo seria justamente demarcar o que é científico.

O problema da demarcação é um problema de âmbito epistemológico (demarcar qual produto do conhecimento pode ser considerado científico). Pensadores podem até ter desenvolvido formas de fazer tal demarcação, mas ainda assim encontra-se problemas residuais acerca disto. Se Popper desenvolveu uma filosofia da ciência em que o que é teoria científica é refutável, isto é um avanço – entretanto existe ainda o problema residual: se formos dogmáticos no falseacionismo, assumiremos que toda e qualquer alteração ad hoc é ilícita; entretanto isto é um sério problema epistemológico, pois como poderíamos chegar a construir uma teoria consistente, caso toda e qualquer hipótese refutada fosse capaz de falsear toda a teoria?

Ora essas duas formas que expus acima são apenas duas faces de um mesmo problema. Se é problemático definir, penso, até que ponto é lícito alterações ad hoc também temos um problema em definir com precisão o que é científico.

Evidente que alguns casos saltam como exemplos claros. Carl Sagan no livro “O mundo assombrado pelos demônios” (do qual já escrevi um artigo a respeito) fala do exemplo do “dragão na minha garagem”. Se eu quero provar para você que existe um dragão na minha garagem e, você que é um cético, questiona de todas as formas possíveis a minha afirmação e eu rebato o tempo inteiro com alterações ad hoc transformando a afirmação inicial em uma outra afirmação durante o processo, é claro que esta não será uma afirmação de minha parte que tenha caráter científico.

Uma teoria pseudocientífica, no entanto, pode-se utilizar de forma abusiva das alterações ad hoc. Mas qual é o nível desse abuso?

Se olharmos a história da ciência encontramos o caso da teoria do Éter, no qual…

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O Falseacionismo Ingênuo e a solução fantástica (Série pseudociências – Parte 3#)

Karl Popper

Karl Popper

Para começar esta postagem, vou fazer uma analogia, que já usei em conversas em outros blogs. Lógico que este exemplo encerra apenas parte do que quero dizer e não é completo, mas tento elucidar um pouco sobre a complexidade das teorias no processo científico.

Imagine que você está num quarto escuro. Em pleno escuro. Sabe que apenas existe um interruptor para acender uma luz. Você inicia uma série de hipóteses:

1) Deve existir ao menos uma lâmpada neste quarto.

2) Se existir ao menos uma lâmpada, ela deve ser acionada por um interruptor.

3) O interruptor deve ficar numa das paredes do quarto.

Você então começa a tatear o quarto. Aparentemente está longe das paredes. Então começa a tatear objetos em busca de uma parede. Encontra um sofá e portanto deduz que atrás deste sofá deve existir uma parede. Chega a parede (confirmando sua hipótese). Tateando a parede descobre na parede subsequente uma cortina.

Deduz que atrás da cortina deve existir uma janela e ao abrir irá iluminar, mesmo que parcialmente, o quarto ajudando a achar o interruptor. Para sua felicidade sua hipótese auxiliar está corroborada e existe uma janela. Entretanto ela está trancada e não pode ser aberta.

Em seguida continua a tatear até achar uma porta. A mesma está trancada. Deduz que perto da porta deve existir um interruptor. Para seu desânimo você não encontra interruptor.

A partir de então deve tomar uma decisão,  o fato de não encontrar um interruptor não é sinal de que ele não exista.

a) ele pode existir próxima a esta porta e não tateei corretamente.

b) ele pode não existir próxima a esta porta e estar próxima a outra.

c) ele pode não estar próxima a nenhuma porta.

d) ele pode não existir.

Poderia falsear logo aí toda a minha “teoria”, ou poderia refazer apenas as hipóteses que estão com problemas. Como podemos perceber existe dois extremos pessimistas: se eu descartar logo de primeira corro o risco de estar no caminho certo e mudar repentinamente, ou estar no caminho errado e tentar continuar insistindo num caminho que não representa verossemelhança com o mundo e gastar tempo com algo que nada irá me resultar.

Popper desenvolveu uma teoria da ciência, que ao invés da verificação de uma teoria, o cientista deve tentar falseá-la. Uma teoria falseável é plenamente científica. Quando observações vão contra a teoria…

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Pseudociências – Série de Ensaios (Parte #2)

As Protociências
Neste ensaio veremos brevemente o que são protociências, suas distinções entre pseudociências e a possibilidade entre as dinâmicas protociência-ciência, protociência-pseudociência.

Vamos considerar, neste ensaio, que protociência é uma definição diferente de pseudociência.

Tomaremos como base que protociências são teorias, hipóteses ou argumentos aspirantes a ciência (e todo seu cabedal de método)  e  que estariam em fase de estruturação científica, tal como a mesma é concebida em relação aos métodos de falseacionismo e corroboração.

Assim a pseudociência, cuja definição pesquisamos em artigos passados, não é sinônimo de uma protociência.

Alguns leitores poderiam considerar a protociência como uma área atuação que teria dado origem histórica a alguma ciência – isto pode não ser falso, visto que historicamente alguns pensamentos deram origens a ciências, como é o caso da alquimia. Entretanto não é a própria alquimia que se tornou a química. Sua estrutura sofreu mudanças e hoje temos algo bem diferente, embora tenha-se uma ligação histórica.

Como estes conceitos não são estanques, a definição encontrada neste artigo não é definitiva. E não quero encerrar uma definição cabal. (Tenho que pensar mais sobre o assunto – assim este ensaio é só um ensaio, não encontra-se aqui uma solução ao problema).

Portanto o que me resta é não adotar, neste ensaio, o termo “protociência” para estes tipos de movimentos históricos. Até porque adotar esta posição permite que mesclemos num mesmo tempo e espaço casos em que uma protociência foi uma pseudociência.

Entretanto, a natureza semântica que me refiro a “protociência” é algo relacionado a um argumento (entenda-se teoria) que ainda não possui crivo do método ciêntífico, mas o almeje e esteja a tal caminho. Neste sentido uma pseudociência que teria derivado uma ciência, pode não ser bem uma protociência, mas sim sua reformulação a seria. Não impede também o outro lado: que uma pseudociência teria resultado uma ciência, no âmbito em que aceitaria o crivo do método científico (assim podendo ser enquadrada como protocientífica).

Até agora teríamos analisado o movimento protociência-ciência. Entretanto é plausível o movimento protociência-pseudociência.

Na segunda semântica apresentada teríamos uma teoria aspirante a teoria científica, mas que ao ser refutada, diversas vezes, seus seguidores ingressariam argumentos ad hoc, ou seja, salvando a teoria, mesmo contra as observações dadas a tal ponto a complicar exaustivamente a teoria apresentada originalmente. Como falamos de uma teoria que ainda não estaria ingressada como científica, ela não estaria propriamente corrigindo hipóteses auxiliares, mas sim ela…

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Pseudociências – Série de Ensaios (Parte #1)

Nesta semana iniciarei uma série de ensaios a respeito das pseudociências. O que são exatamente as pseudociências? Suas relações com as protociências e o que podemos levantar a respeito das ativas de nosso tempo.

Bem, começamos a respeito delinear o que são exatamente pseudociências.

Em veículos populares, como a Wikipédia, encontramos a seguinte definição de pseudociência:

Uma pseudociência é qualquer tipo de informação que se diz ser baseada em factos científicos, ou mesmo como tendo um alto padrão de conhecimento, mas que não resulta da aplicação de métodos científicos.

Em sentido mais lato a pseudociência, diria eu, pode não ser apenas um tipo de informação, mas um conjunto deles (realizando uma doutrina, seja religiosa, cultural, sociológica ou filosófica) que queira se passar por um status de científica, sem adotar o método científico.

Carl Sagan, afirma que as pseudociências, por exemplo, muitas vezes tomam o lugar da ciência, o lugar da sublimidade e da admiração pelo conhecer o que desconhecemos (p. 20, O Mundo Assombrado pelos demônios).

Ainda neste livro, Sagan afirma que “Eles [as pseudociências] parecem usar os métodos e as descobertas da ciência, embora na realidade sejam infiéis em sua natureza“(*1) [Grifo meu] (p.30, Idem).

Já, nestes supracitados parágrafos, esclareci o que seria uma outra pergunta: Qual a razão para que crenças, doutrinas e informações independentes sejam colocadas como científicas? Ora, apesar de epistemológicamente podermos tratar a ciência como, em última instância, como um grau de falibilidade ou de probalidade de falibilidade, ela logrou êxito, devido (logicamente) ao seu método que é de constante “conserto” do que é afirmado e adaptabilidade do que está no mundo (ver outros ensaios neste site), e é este êxito que abre portas para uma aceitabilidade, apesar dos contra-ciências existente atualmente, todos nós aceitamos em algum grau o desenvolvimento da ciência. Tentando justamente utilizar este êxito científico como crédito para se sobressair, as pseudociências utilizam (consciente ou inconsciente) afirmações de que seriam ciências. No final das contas essa tentativa de se sair como ciência, por sobre uma existência de “crédito” é uma artimanha retórica.

Talvez por ser este um dos mecanismos das pseudociências encontramos em publicações pseudocientíficas falácias de autoridade como “fulano de tal Ph.D em astrofísica, autoridade no assunto, diz o planeta ‘X’ está chegando!”.

Não é um argumento lógico, mas sim psicológico, apela para a autoridade para se passar como verdadeiro.

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