Blogs de Ciência

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Archive for the professores

Educação: Em Busca Do Tempo Perdido

O panorama traçado pelo cálculo do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) para todo o país em 2009 traz uma notícia ruim e duas boas. A negativa não surpreende: na média, continuamos deficientes, principalmente no ensino público, em que os alunos, em geral, ainda estão muito distantes de um estágio razoável de aprendizado, capaz de dar esperanças concretas de que o país será mais competitivo no mundo globalizado, onde conhecimento é fator-chave de produção.
A primeira constatação positiva é que a situação já foi pior. Nos anos iniciais do ciclo básico, da 1ª à 5ª série, a nota média foi de 4,6, um ponto maior que o resultado de 2005. Avança-se, portanto, em direção à meta estabelecida para 2021 de o Brasil chegar à nota 6, alcançada por países desenvolvidos em 2003, numa avaliação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Os objetivos fixados para 2009 foram alcançados; em alguns casos, ultrapassados.
Começa a dar resultado, portanto, a política de envolvimento do Executivo federal na educação básica, tradicionalmente deixada sob a responsabilidade exclusiva de estados e municípios. Com o Programa de Desenvolvimento da Educação, o governo federal passou a liberar recursos para a Federação e a trabalhar de maneira compartilhada em busca de metas.
Outra notícia positiva é que há centros de excelência em escolas públicas do ciclo básico, em que as notas do Ideb são de Primeiro Mundo. A escola municipal Aparecida Elias Draibe, de Cajuru, interior de São Paulo, é a escola pública com o ensino básico mais bem avaliado do país, com nota 9, obtida pelos alunos das séries iniciais do ciclo. No Rio, a melhor é a Escola João de Deus, no subúrbio da Penha, com 7,8 - quase dois pontos acima da meta de 2021 -, 32 colocada no Ideb, calculado para 1.146 municípios, do total de 5.564.
Há pontos comuns nos dois casos. O envolvimento dos professores é um deles. A formação é outro aspecto de destaque. Em Cajuru, por exemplo, todos têm que cursar Pedagogia. Não se desprezam, também, métodos tradicionais de ensino, como ditados e o incentivo à leitura. Não, há, portanto, fórmula misteriosa de como fazer a revolução de que o Brasil necessita, já realizada em países como a Coreia do Sul, pobre na década de 50, e que, por acertar ao priorizar nos gastos públicos a educação, nos passou em renda per capita e outros indicadores.

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Catástrofe à vista

Reportagem publicada hoje no jornal Folha de S. Paulo relata que SP desiste de regra para contratar docente – Fábio Takahashi e Felipe Luchete O governo de SP autorizou a contratação de professores que não tenham prestado um exame de seleção. Criado em 2009, o exame, segundo sempre pregou o próprio governo, tem como objetivo [...]Continue a ler Catástrofe à vista

Ordem dos Professores: breve historial das ordens profissionais

“O tempo passado e o tempo presente, fazem todos parte do tempo futuro” (T.S. Elliot, 1888-1965).

O prometido é devido. O meu último post -“Uma Ordem dos Professores?” (19/04/2010) – suscitou uns tantos comentários que agradeço porque, como defendeu Emerson, “todo o homem que encontro é-me superior em alguma coisa; e, nesse particular, aprendo com ele”.

Seis meses após a publicação da lei fundamental saída da Revolução de 28 de Maio, é publicada legislação para os diversos organismos representativos de profissões e seus destinatários, determinando que “as Ordens para as profissões liberais surgem ao lado dos grémios para industriais e comerciantes, sindicatos para operários e casas do povo para profissões não diferenciadas”. Reza ainda esta legislação que “os sindicatos nacionais dos advogados, dos médicos e dos engenheiros podem adoptar a denominação de Ordens” (Decreto-Lei 23.050/33, de 23 de Setembro).

Sempre que vem à baila a criação de uma Ordem dos Professores surgem vozes com o argumento volátil como o éter de que esta forma de organização profissional de direito público teve a sua etiologia no Estado Novo, sendo, consequentemente, atentatória da vivência democrática. Aliás, esta tese encontra cómodo respaldo na roçagante toga académica de Vital Moreira quando argumenta “que as ordens profissionais tiveram a sua origem no sistema corporativista do Estado Novo" (Público, 05/7/2005).

Dias mais tarde, este professor de Direito de Coimbra e eurodeputado do Partido Socialista, reforça o seu parecer com o argumento de que “a Ordem dos Advogados foi criada num dos primeiros governos da Ditadura que precedeu e preparou o Estado Novo, sendo depois integrada na organização corporativa juntamente com as demais criadas” (ibid., 26/07/2005).

Aceitar o argumento de tempos de governação que precederam o Estado Novo – dos primórdios da II República ao começo da I Dinastia – poderá responsabilizar D. Afonso Henriques, também ele, de ter sido o precursor do Estado Novo e, com isso, da Ordem dos Advogados. Acontece que “a Ordem dos Advogados foi criada sete anos antes da implantação do chamado Estado Novo, e uma escassa quinzena de dias após a Ditadura Militar que o antecedeu, pelo Decreto n.º 11.715/26, de 12 de Junho" (cf. site da Ordem dos Advogados, "Resumo histórico da Ordem dos Advogados”).

Esclarece-se que as ordens dos

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UMA ORDEM DOS PROFESSORES?

Minha carta publicada hoje no "Público":

"Volta à luz da ribalta a criação de uma Ordem dos Professores. Desta feita, com o impacto de merecer notícia de primeira página no PÚBLICO (12/4/2010), intitulada 'Associação volta a pedir criação de uma Ordem.'

Em página interior inteira, podia ler-se este pequeno excerto: 'A proposta da ANP surge num momento em que os responsáveis da educação se mostram pela primeira vez receptivos à ideia´
.
E mais se lia: 'A Federação Nacional de Professores, a maior organização sindical dos docentes, tem insistido que a criação de uma ordem apenas serviria para ‘dividir a classe’. Para a Fenprof, ‘há uma ética e uma deontologia historicamente construídas, assumidas e respeitadas pela classe docente’, sendo os sindicatos ‘os espaços de análise destas questões.

Da notícia, ressaltam dois factos dignos de registo:

1. O argumento da FNE, relativamente à divisão da classe provocada por uma Ordem dos Professores.

2. O facto de, para a Fenprof, existir uma ética e uma deontologia assumidas e respeitadas pela classe docente, através da via sindical.

Ou seja, uma ordem para todos os professores promoveria a 'divisão da classe'. Dezenas de sindicatos e outras organizações docentes contribuiem para a sua união! Uma ética e uma deontologia assumida e respeitada pela classe docente? Onde estão plasmados os seus princípios e a garantia do seu cumprimento?

Mas a questão essencial dos obstáculos à criação de uma Ordem dos Professores reside na resposta às seguintes perguntas: Quem tem medo da criação de uma Ordem dos Professores? Os sindicatos docentes? O Ministério da Educação? Ou ambos?

Os sindicatos têm razões de sobra para não quererem uma Ordem dos Professores pela hemorragia do dinheiro das quotas que lhes deixaria de entrar nos cofres. Por outro lado, ao ministério da Educação convém continuar a ter o controle draconiano sobre estes profissionais da função pública: os professores.

Numa espécie de presente envenenado, surge agora o próprio ministério da Educação com a proposta de um organismo a tutelar os professores, quais marionetas comandados ao longe por cordéis da 5 de Outubro, propondo para os docentes uma espécie de ERCS (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) em substituição de uma Ordem dos Jornalistas, defendida, anos atrás, por conceituados nomes da Comunicação Social, , v.g., Octávio Ribeiro, Bettencourt Resende e Miguel de Sousa Tavares e, de certo modo, José Manuel Fernandes, ao tempo, director deste jornal.

É atribuída a Churchill a opinião de ser a democracia a pior

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O problema mais importante e urgente

É à Escola e aos professores que, desde a Antiguidade, muitas sociedades, com destaque para as sociedades ocidentais, têm confiado a educação formal de crianças e jovens.

E porque é que o têm feito? Entendo que há uma razão fundamental que, curiosamente, vejo escapar em muitas discussões actuais sobre a função de tal educação e na qual vislumbro três pólos: o desenvolvimento de certas capacidades cognitivas, afectivas e motoras dos sujeitos; o funcionamento a níveis aceitáveis de comunidades e estados; e a transmissão e ampliação da herança civilizacional.

Na verdade, como humanos, cedo percebemos que a educação formal nos permite vir a desfrutar de capacidades que trazemos em potência ao nascer e que tal se faz com base em conhecimentos acumulados ao longo do tempo, conhecimentos que valorizamos e, nessa medida, transformamos em memória funcional.

Assim, transmitir conhecimentos, técnicas, valores, instruir, preparar para a cidadania, para a consciência do mundo, para o progresso, para o bem, para o belo, para a liberdade, até para a felicidade, são alguns dos grandes propósitos que têm conduzido o sonho e a acção educativa.

É certo que há muitos momentos em que a tais propósitos têm dado lugar aos seus contrários: regimes aberta ou disfarçadamente totalitários encarregam-se disso nas suas primeiras medidas.

Porém, desde os esboços de democracia grega até ao presente, temos conseguido fazer face a esses regimes bem como a crises de toda a ordem. Por isso, a escola e os ideais que persegue, ainda que com inúmeras variantes, sobreviveram, o mesmo se pode dizer do ensino, a profissão que os concretiza. Mas isto não constitui qualquer garantia de que assim continue a acontecer.

Efectivamente, a educação é uma tarefa interminável, que requer, a cada momento, reconstituições com cada sujeito e para cada sujeito, de modo que este se aproprie de uma parte do humano, se conduza por ele e, eventualmente, o transmita a outros. Percebe-se que qualquer falha menor nessa tarefa, acarreta prejuízos incalculáveis: debilita-se a vocação e o entendimento que temos de “pessoa”; perece o passado e compromete-se o futuro.

Pela permanência e urgência de tal tarefa, muitos assemelham-na à de Sísifo, mas também pelo esforço que é preciso despender e pela vontade de a empreender, tendo por certo que nunca ela se concretiza por inteiro, que é sempre preciso recomeçar do nada ou de próximo do nada…

Esta é a consciência que acompanha os verdadeiros

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Money makes the education go round – 2

Texto na sequência de outro que poderá ser lido aqui:

Espero que o leitor não me interprete mal quando afirmo que o investimento no ensino e na aprendizagem não pode ser apresentado como estando directa e linearmente dependente de “incentivos financeiros”. Obviamente, não defendo o empobrecimento dos professores, defesa que se fez em tempos que se esperam passados, sob o pretexto destes, por terem sido alvo de um “chamamento interior”, decidirem dedicar-se a uma missão, mais do que a uma profissão. Obviamente, também não defendo que devam ser retiradas todas as bolsas de estudo aos alunos, pois sem elas seria impossível a muitos deles estudarem.

O que defendo é que os “incentivos financeiros” não podem ser apresentados como condição necessária e suficiente para ensinar e para aprender, pois entendo que estas duas actividades têm valor em si mesmas.

Sabemos que o ensino e a aprendizagem não acontecem no vazio, que estão relacionadas com as circunstâncias em que ocorrem, e sabemos também que as circunstâncias lhes podem ser favoráveis ou desfavoráveis, mas, ainda assim, não podemos confundir a essência do ensino e da aprendizagem com as suas circunstâncias.

O que nos diz a pedagogia sobre o assunto, no que respeita ao ensino? Nesta área disciplinar fizeram-se investigações sobre as principais preocupações dos professores? Se sim, as preocupações com os “incentivos financeiros” são as mais evidenciadas?

A resposta é a seguinte: dispomos de numerosas investigações sobre o assunto, realizadas em diversos países, desde os anos de 1960 até ao presente. Os resultados de estudos de revisão dessas investigações indicam que as preocupações dos professores se situam em aspectos como: indisciplina na turma, motivar os alunos para aprender, lidar com alunos que manifestam diferenças individuais (de aprendizagem, culturais,. etc.); planificar e concretizar o trabalho em sala de aula; estabelecer comunicação com pais; sobrecarga do trabalho administrativo; dificuldade de aplicar as orientações curriculares e outras da tutela, dada a sua frequente mudança e inadequação.

Ou seja, parece que as grandes preocupações dos professores se centram no seu trabalho, que é ensinar. Mais concretamente, parecem estar preocupados em fazer bem esse trabalho e referem preocupar-se com os impedimentos que encontram no caminho para chegar a esse fim.Continue a ler Money makes the education go round – 2

Foto do Dia





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Um cenário irrealista

Na sequência de textos anteriores e de comentários de leitores acerca daquilo que é ou que deve ser o ensino.

Nos sistemas educativos ocidentais, a solicitação aos professores para que, além do ensino, desempenhem tarefas várias, para as quais, por princípio, não estão habilitados, tem vindo a intensificar-se nas últimas décadas. Por outro lado, o ensino tem-se tornado mais exigente, sob o ponto de vista académico, pedagógico-didáctico e relacional.

Pode dizer-se que os professores têm aceitado este cenário, sem demonstrarem uma clara posição de resistência, ainda que o seu grau de entusiasmo e empenhamento possa variar.

Genericamente, os professores, além do seu trabalho, assumem funções burocráticas, como se fossem funcionários de secretária; bem como funções de acompanhamento dos alunos, como se fossem auxiliares de acção educativa. Para não falar de funções mais exigentes como detectar e seguir a evolução de crianças e suas famílias, à semelhança de psicólogos ou assistentes sociais; ou fazer observação e planos de intervenção especializados para alunos com características particulares, à semelhança de pedagogos, etc. Isto no quadro estritamente escolar, pois muitas outras coisas lhe são pedidas, como fazer a ligação da escola à comunidade ou organizar eventos com significado para ambas.

Trata-se de um cenário perfeitamente irrealista, pois, para que um profissional tenha um bom desempenho, o número de tarefas que lhe compete tem se ser necessariamente reduzido e, em caso algum, dispensa formação adequada.

Assim, se expõem os professores, sobretudo aqueles que são mais dedicados ao ideal de serviço, a sentimentos devastadores de incapacidade e de culpa, que, em última instância, os pode conduzir ao esgotamento (Hargreaves, 1998).

De facto, estudos empíricos têm demonstrado de modo inequívoco que a dispersão de tarefas e a exigência de perfeição que a acompanha, constitui uma importante fonte de mal-estar entre estes profissionais com consequências nefastas para as aprendizagens (Esteve, 1992). Explica Ph. Perrenoud (1993, 65) que “produz no professor a sensação de não saber por onde começar, de não conseguir fazer nada de jeito, à força de querer fazer demasiadas coisas, de não saber já o que começou, onde ficou, o que ainda resta fazer, o que tem mais urgência”.

Nesta linha de pensamento, Estrela (1999, 23), posiciona-se firmemente ao arrepio da subalternização do papel primordial do professor que consiste na “promoção das aprendizagens”, até porque “o trabalho na sala de aula continua a ser central, até para os próprios professores” na…

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Os professores têm de ser… professores

A jornalista Bárbara Wong perguntou a Ana Maria Bettencourt o seguinte: “Os professores queixam-se por acumular muitas competências como ser psicólogo, assistente social, terapeuta...”. A actual presidente do Conselho Nacional da Educação respondeu: “Mas, os professores têm que ser um bocadinho disso tudo. Há três componentes na missão do professor. Uma é mudar o paradigma do trabalho dentro da sala de aula: mais trabalho e mais acompanhamento aos alunos. A segunda é que o professor tem que ter função de tutoria, de enquadramento e apoio ao aluno; ajudar um aluno com crise pessoal ou que não consegue aprender. A terceira componente é o trabalho em equipa.”

Não, não "têm que ser um bocadinho disso tudo". Os professores não podem ser psicólogos, nem assistentes sociais, nem terapeutas… nem outra coisa qualquer que não seja serem professores.

E nem sequer devem tentar ser outra coisa a ser não professores, pois, caso contrário, estarão a interferir ilegítima e ilegalmente na esfera de actuação profissional de outrem. Além disso, por certo, irão cometer erros, uma vez que, para desempenharem tarefas que não lhes competem, disporão apenas do amável bom-senso, que, em matéria de educação, vale muito pouco.

Como está estabelecido, cada uma destas profissões requer formação específica e certificada, que, uma vez obtida, autoriza os profissionais a exercê-la, com exclusão de outrem.

Os professores são formados para serem professores e é isso, e nada mais do que isso, que, como sociedade, lhes temos de pedir.

E o que é que isso significa?

Significa, antes de mais, ensinar conhecimentos (científicos, artísticos, literários, filosóficos, axiológicos…), com intenções cognitivas, relacionais, morais, etc. muito precisas, e recorrendo a metodologias eficazes.

Nessa sua função de ensinar, obviamente que têm de acompanhar e apoiar os alunos, mas esse acompanhamento, mesmo que, em certos casos, tutorial, e mesmo que requerendo trabalho em equipa, é do foro pedagógico-didáctico e não de outro. Por exemplo, “ajudar um aluno com crise pessoal” será, essencialmente, da competência de um psicólogo.

Não tem o professor o dever de estar atento aos seus alunos, às suas manifestações como pessoas que o são? Sim, tem. Trata-se, aliás, de exercer um especial dever de cuidado que, à semelhança de outros profissionais que lidam com crianças e jovens, de forma alguma pode negligenciar. Mas esse dever circunscreve-se à identificação de sinais de risco e à colaboração com outros profissionais, quando tal se justificar. Não é a essência da sua profissão.Continue a ler Os professores têm de ser… professores

O professor que acompanha a evolução da linguagem


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