Archive for the Problema da existência de Deus
Cândido na ilha da Madeira
Estudo da religião: a parte da Sociologia e a parte da Filosofia
O 1º e o 2º parágrafos do texto apresentam alguns dos aspectos que, no estudo da religião, interessam à Sociologia. O 3º parágrafo refere alguns dos aspectos que, nesse estudo, interessam à Filosofia.
«Em 2002, o Pew Center, uma empresa de opinião pública (…), perguntou a pessoas de 44 países em que medida a religião era importante para elas. Nos EUA 59 % disseram que a religião desempenhava um papel “muito importante” na sua vida. Esta percentagem é invulgarmente alta. Em Inglaterra, apenas 33 por cento disseram que a religião era importante. Noutros países, as percentagens foram as seguintes: 27% em Itália, 21 % na Alemanha, 12% no Japão e 11 % na França. No entanto, as percentagens relativamente à Bolívia, à Venezuela e ao México foram semelhantes à dos EUA, o que levou os analistas a concluir, de forma pouco generosa, que as atitudes norte-americanas “estão mais próximas das atitudes das pessoas das nações em vias de desenvolvimento do que das pessoas das nações desenvolvidas”.
Entretanto, na sondagem Gallup International Millenium Survey, perguntou-se a pessoas de 60 países se acreditavam em Deus. Apenas 45 % disseram acreditar num Deus “pessoal”, ao passo que outros 30 % disseram acreditar “numa espécie de espírito ou força vital”. A sondagem Gallup mostrou não só que a crença religiosa é mais forte nos mais velhos e nos que têm menos educação, mas também que o índice de crença é mais elevado na África Ocidental, onde predomina o Islão. Aí, 99 % acreditam num Deus pessoal. Nos EUA, 86 % têm essa crença, enquanto os europeus, conclui a sondagem, “são os mais agnósticos”. (…)
No entanto, não queremos apenas saber no que acreditam as pessoas – queremos saber se as crenças religiosas são verdadeiras. (…) Existirá alguma boa razão para acreditar que o mundo foi criado por uma divindade todo-poderosa? (…) Será possível apresentar boas razões que apoiem a crença em Deus?»
James Rachels, Problemas da Filosofia, tradução de Pedro Galvão, Gradiva, Lisboa, 2009, pp.27-29.
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O antropomorfismo na religião: Deus à imagem e semelhança do Homem
O antropomorfismo é a representação dos deuses, dos animais ou da natureza em geral com características humanas – nomeadamente desejos, emoções e pensamentos. Por exemplo: a crença de que “A Natureza é sábia” é antropomórfica, tal como a representação de Deus como um velho de barbas brancas.
A atribuição de características humanas a seres que não as possuem faz com que essas representações sejam falsas ou fantasiosas.
Não é difícil encontrar elementos antropomórficos nas diversas religiões. Embora em graus diferentes, todas elas representam Deus ou os deuses à imagem e semelhança dos seres humanos. Como disse o filósofo grego Xenófanes (séc. VI-V a. C.), “Julgam os mortais que os deuses foram gerados, que têm os trajes deles, e a mesma voz e corpo.”
Exemplos dados por Xenófanes: “Dizem os Etíopes que os seus deuses são negros e de nariz chato, fazem-nos os Trácios de olhos azuis e cabelos ruivos.”
Outros exemplos: segundo a antiga religião grega os seus deuses apaixonavam-se, casavam, tinham casos extra-conjugais, zangavam-se, etc.; na Bíblia são vários os episódios em que Deus se encoleriza ou em que se ouve a sua voz.
Mas será apenas na religião popular (isto é, no modo como a maior parte dos crentes de uma religião concebe o objecto da sua fé) que existe antropomorfismo?
Julgo que não. Por muito intelectualmente refinados que sejam o conceito de Deus e os argumentos com que os teólogos e alguns filósofos tentam provar a sua existência, subsistem sempre neles alguns vestígios de antropomorfismo.
De acordo com a concepção de Deus que tem mais adeptos (o teísmo), este é omnipotente, omnisciente e, entre outros atributos, é perfeitamente bom. Ora, o conceito de bondade é um conceito claramente humano, ou seja, tem sentido quando aplicado a seres humanos e revela-se inadequado para classificar os animais não humanos e qualquer outra parte da natureza ou mesmo a natureza no seu conjunto (os leões, as flores e as pedras não são nem bons nem maus). É, no mínimo, duvidoso que seja adequado para descrever um ser que se admite ser omnipotente, omnisciente e o criador de tudo o que existe (e, por isso, radicalmente diferente dos outros seres). O teísmo é, portanto, antropomórfico.
Considerações semelhantes poderiam ser feitas a propósito de elementos existentes em muitas religiões: a crença de que Deus quer que o amemos e lhe prestemos…
Continue a ler O antropomorfismo na religião: Deus à imagem e semelhança do HomemExplicação matemática da ‘aposta de Pascal’
Blaise Pascal era um filósofo e matemático francês que, no século XVII, argumentou a favor da existência de Deus recorrendo à ideia de “aposta” – a aposta de Pascal. No post Deus existe ou não? Vai uma aposta? encontra uma explicação simples e sumária desse argumento. Pascal formulou o argumento em termos matemáticos, como explica Leonard Mlodinow.
“Pascal fez uma análise pormenorizada dos prós e dos contras do dever para com Deus como se estivesse a calcular matematicamente a sensatez de uma aposta.
A sua grande inovação foi o método de pesar estes prós e contras, um conceito a que se dá hoje o nome de esperança matemática.
A esperança matemática é um importante conceito, não só nos jogos de azar como na tomada de decisões. Com efeito, a aposta de Pascal é muitas vezes considerada a fundação da disciplina matemática da teoria dos jogos, o estudo quantitativo das estratégias de decisão óptimas nos jogos.
O raciocínio de Pascal era o seguinte. Admitamos que não sabemos se Deus existe ou não, e, por conseguinte, atribuamos uma probabilidade de 50% para cada uma das proposições. Como pesar esta probabilidade na decisão de levar ou não uma vida piedosa? Se vivermos piedosamente e Deus existir, argumentava Pascal, o nosso ganho – a felicidade eterna – é infinito. Se, por outro lado, Deus não existir, a nossa perda, ou lucro negativo, é pequena – os sacrifícios da piedade. E, para pesar estes possíveis ganhos e perdas, Pascal propunha que se multiplicasse a probabilidade de cada resultado possível pela sua recompensa e se somasse tudo, formando uma espécie de recompensa média ou esperada. Por outras palavras, a esperança matemática do nosso lucro com a piedade é metade de infinito (o ganho se Deus existir) menos metade de um número pequeno (a nossa perda se Ele não existir). Pascal sabia o suficiente sobre o infinito para saber que a resposta deste cálculo era infinito, pelo que o lucro esperado com a piedade é infinitamente positivo. E assim, concluiu Pascal, qualquer pessoa sensata deve seguir as leis de Deus. Hoje, chama-se a este argumento a aposta de Pascal.”
Leonard Mlodinow, O Passeio do Bêbado, Editorial Bizâncio, Lisboa, 2009, pág. 92.
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Deus existe ou não? Vai uma aposta?
Enquanto empurrava o neto no baloiço uma senhora idosa ia conversando com uma senhora mais jovem.
- O que tu precisas, filha, é de Deus e não de comprimidos e psicólogos. Nem de cigarros, já agora.
- Quem a ouvisse pensaria que basta acreditar em Deus para os problemas desaparecerem. Seja como for, eu não acredito…
- Então começa a acreditar!
- Mas, mãe, como é que…
- O que tens a perder? Começa a acreditar… Reza, vai à missa, lê a Bíblia. Curas a depressão e ganhas a felicidade eterna.
- Não é assim que as coisas se passam. As pessoas não decidem acreditar: acreditam ou não acreditam, independentemente de quaisquer decisões.
- Porquê? Como te disse, não tens nada a perder. Repara: se acreditares em Deus e ele de facto existir estás do lado certo, por assim dizer. Ganhas a aposta, percebes?
- Aposta?
- É uma maneira de falar, Maria Francisca. Se Deus afinal não existir… Bem, paciência. Mas a confiança e a tranquilidade dadas pela fé já ninguém tas tirará.
Como resposta a Maria Francisca abanou a cabeça e acendeu um cigarro.
- Se há alguma coisa que eu sei, filha é que Deus existe. Mas não interessa o que eu sei. Exista ou não exista, ganhas em acreditar.
- Não percebo como é que uma pessoa tão religiosa como a mãe pode defender uma ideia dessas. Parece um negócio: arranjar fé porque dá lucro. Se Deus existe e é tão sábio e bondoso como a mãe acredita que é, aposto que não fica nada satisfeito com as pessoas que fazem isso… Esta aposta parece-me bem melhor que a outra.
Maria Francisca riu-se ao dizer estas últimas palavras. Não ouvi a resposta da mãe, pois acompanhei a retirada do meu filho do baloiço para o escorrega. Enquanto tentava acompanhar os seus rápidos passinhos, procurei recordar as palavras do filósofo e matemático francês Blaise Pascal (certamente um desconhecido para as duas senhoras) que, no século XVII, argumentou a favor da existência de Deus recorrendo à ideia de “aposta” – a aposta de Pascal.
“Deus existe ou não existe. Mas para que lado nos vamos inclinar [nós que somos tão imperfeitos e ignorantes]? (…) É preciso apostar. Pesemos as vantagens e as desvantagens de apostar na existência de Deus. Calculemos estes dois…
Continue a ler Deus existe ou não? Vai uma aposta?Deus? Qual deles?
O fotográfo Andy Craddock usou uma igreja anglicana do século XIII como cenário para um ensaio fotográfico erótico e não escapou a um processo judicial (sendo acusado de violação da propriedade privada, pois fotografou sem autorização). Segundo as autoridades anglicanas, o que Craddock fez é uma blasfémia. Em entrevista ao jornal i, Craddock defendeu-se dizendo que a Igreja Anglicana só poderia acusá-lo de blasfémia se provasse que Deus existe. (Leia mais aqui.)
O único aspecto da história que merece alguma atenção é essa afirmação de Craddock. Se – por hipótese - se provasse que Deus existe, já seria racionalmente defensável a Igreja Anglicana acusar alguém de blasfémia? Vou procurar mostrar que não.
Se – por hipótese - descobríssemos que um dos argumentos clássicos a favor da existência de Deus (por exemplo o argumento ontológico ou o argumento do desígnio) prova a existência de um tal ser, não saberíamos ainda assim qual das religiões é verdadeira.
O “ser mais perfeito do que o qual nada pode ser pensado” do argumento ontológico é compatível com qualquer uma das religiões monoteístas. Por isso, mesmo que considerássemos verdadeira a conclusão (“Deus existe”) desse argumento, isso por si só não nos permitiria decidir qual dessas religiões é verdadeira. (Para ler mais sobre o argumento ontológico veja aqui e aqui.)
Quanto ao argumento do desígnio a situação é ainda mais confusa, pois esse argumento é compatível não só com as religiões monoteístas mas também com muitas religiões politeístas. Este argumento procura mostrar que o Universo teve necessariamente um Criador inteligente. Ora, mesmo que se admitisse essa necessidade isso não implicaria que esse Criador tivesse as características referidas pelas religiões monoteístas: poderia tratar-se, por exemplo, de um ser muito poderoso, mas não omnipotente; muito sábio mas não omnisciente; poderia não ser sequer o único Criador – como sucede em diversas religiões politeístas. (Para ler mais sobre o argumento do desígnio veja aqui.)
Numa religião existem diversas crenças específicas associadas à crença na existência de Deus. Religiões como o Judaísmo, o Cristianismo ou o Islamismo têm crenças específicas diferentes, apesar de partilharem uma concepção de Deus bastante semelhante. Quando atrás escrevi que, mesmo que a existência de Deus fosse provada, não saberíamos qual das religiões é verdadeira, queria dizer que essa prova não nos permitiria escolher racionalmente entre os vários conjuntos de crenças específicas que existem.…
Continue a ler Deus? Qual deles?Sem Deus tudo seria permitido?
«Afirma-se muitas vezes que é prejudicial atacar uma religião, porque ela torna os homens virtuosos. Confesso que não estou convencido disso. Conheceis, por certo, a paródia que Samuel Butler fez deste argumento no sue livro Erewhon Revisited.
Estais recordados de que um certo Higgs chegou a uma remota região onde passa algum tempo e depois se escapa num balão. Vinte anos depois, tendo aí regressado, ficou
surpreendido ao deparar com um novo culto no qual ele próprio era adorado sob o nome de Filho do Sol. Recorde-se que, com efeito, subiu aos céus. Estava para breve a celebração da Festa da Ascensão, quando ouviu (…) [dois] altos dignitários da religião dos Filhos do Sol confidenciar uma ao outro que nunca tinham visto o chamado Higgs e que esperavam que jamais isso acontecesse. Cheio de indignação, aproximou-se e disse-lhes: ‘Vou esclarecer neste dia toda esta mistificação e dizer ao povo de Erewhon que eu, Higgs, sou apenas um homem como os outros e que, simplesmente, me servi de um balão para deixar o vosso país.’ Responderam-lhe: ‘Não faças isso, porque todos os princípios morais deste povo estão ligados a esse mito, e se souberem que não subiste ao céu, transformar-se-ão todos em malfeitores’. Persuadido, abandonou o país silenciosamente.»
Bertrand Russell, Porque não sou Cristão, Brasília Editora, Porto, s/d, pp. 28-29.
Os sacerdotes convenceram Higgs a não dizer a verdade argumentando que sem a fé religiosa não haveria razões suficientemente fortes para convencer as pessoas a agir moralmente: cumprir regras, respeitar os outros e os seus bens, etc. O romancista russo Fiódor Dostoiévski exprimiu essa ideia através destas célebres palavras: “Sem Deus tudo seria permitido”.
A ideia de que as pessoas não agiriam moralmente se não tivessem uma motivação religiosa presta-se a objecções óbvias, nomeadamente esta: há imensas pessoas que não têm qualquer crença religiosa e mesmo assim procuram agir moralmente. Por isso, é possível que mesmo sem Deus nem tudo fosse permitido.
Mas, mesmo que admitíssemos a necessidade de uma tal motivação religiosa, isso não seria – como sugere a história contada por Bertrand Russell – uma prova a favor da existência de Deus ou de outro ser sobrenatural qualquer. Com efeito, para se adquirir esse tipo de motivação e para que esta seja eficaz, não é necessário que Deus exista – basta que as pessoas acreditem que existe.
[Uma discussão mais…
Continue a ler Sem Deus tudo seria permitido?Se Deus existe porque é que acontecem coisas tão más?
“Um avião das linhas aéreas iemenitas despenhou-se esta madrugada, com 153 pessoas a bordo, tendo caído no Oceano Índico”. (Notícia do jornal Público, do dia 30-06-2009.) Horas depois do sucedido foi confirmado que apenas uma pessoa (uma rapariga de 14 anos) sobreviveu.
Depois duma catástrofe deste género ocorrer é habitual as pessoas religiosas rezarem e pedirem a intervenção de Deus: para que haja sobreviventes, para que não volte a suceder, etc.
Todavia, talvez fizesse mais sentido questionarem a sua crença em Deus.
Segundo o cristianismo, o judaísmo e o islamismo, Deus, além de ser o criador de tudo o que existe, é um ser omnisciente, omnipotente e bom. (Essa concepção é habitualmente chamada teísmo).
Contudo, essas características que se atribuí a Deus parecem ser incompatíveis com a existência de mal no mundo – como é o caso da morte de várias dezenas de pessoas inocentes devido à queda de um avião.
Se Deus é omnisciente sabe que o mal vai ocorrer.
Se Deus é omnipotente pode impedir o mal de ocorrer.
Se Deus é bom não quer que o mal ocorra.
Ora, o mal efectivamente ocorre, pelo que Deus ou é omnipotente mas não é bom (pode impedir o mal mas não impede) ou é bom mas não é omnipotente (quer impedir o mal mas não pode).
A conclusão que se tira habitualmente dessas premissas é: Deus não existe.
Todavia, é argumentável que essa conclusão não é apoiada pelas premissas e que estas apenas apoiam uma conclusão mais modesta: mesmo que eventualmente Deus exista, este será um ser diferente da descrição feita pelas religiões teístas. Pode suceder que seja um ser poderoso mas não omnipotente, ou então pode tratar-se de um ser omnipotente mas malévolo ou pelo menos indiferente. Não é impossível também que ambas as alternativas sejam verdadeiras e Deus não seja nem omnipotente nem bom.
O problema colocado por esse argumento é conhecido como o problema do mal. Atribui-se a sua primeira formulação ao filósofo grego Epicuro (341-270 a. C.):
“Ou Deus quer impedir o mal e não pode, ou pode mas não quer. Se quer mas não pode, é impotente. Se pode, mas não quer, é malévolo. Mas se Deus pode e quer, de onde vem então o mal?”
Os teólogos e os filósofos crentes ensaiaram muitas tentativas para…
Continue a ler Se Deus existe porque é que acontecem coisas tão más?Provar a existência de Deus a partir de uma ideia: uma piada de mau gosto?
Alguns filósofos, como Santo Anselmo e Descartes, pretenderam demonstrar racionalmente a existência de Deus, analisando a ideia que possuímos desse ser na nossa mente – o chamado argumento ontológico.
Poderão essas tentativas ser consideradas apenas brincadeiras de mau gosto, levadas a cabo por pessoas sem sentido de humor?
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