Talvez mais do que de outras vezes as questões de ciência e tecnologia são importantes no debate presidencial norte-americano. A revista "Physics Today", da Sociedade Americana de Física, abriu um sítio para seguir e participar nesse debate: aqui.
Em 2006 foi estreado um filme que arrepiou muitos nos Estados Unidos da América. A sinopse do filme Jesus Camp, indica que «Um número crescente de cristãos evangélicos acredita que está a decorrer um renascimento da América em que a juventude cristã tem de assumir a liferança do movimento conservador cristão. O filme Jesus Camp segue Levi, Rachael, Tory e mais algumas crianças no campo de verão Kids on Fire em Devil’s Lake, North Dakota, dirigido por Becky Fischer, em que crianças tão novas quanto 6 anos são ensinados a tornarem-se dedicados soldados cristãos do exército de deus. O filme segue as crianças no campo à medida que estas aperfeiçoam os seus dotes proféticos e são ensinadas em como retomar a América para Cristo. O filme dá uma visão inédita sobre o intensivo campo de treino que recruta crianças cristãs renascidas para tomarem um papel activo no futuro político dos Estados Unidos».O filme foi visualizado por David Byrne, que partilha no seu blog as impressões sobre o mesmo. Como refere, no campo Fischer diz às crianças que devem estar dispostas a morrer por Cristo e estas concordam obedientemente. Byrne, que indica ter Fischer ...
O excelente post da Palmira põe a nu o estado de mentira política em que vivemos, e é este aspecto que vejo nitidamente no caso do aquecimento global e de muitos outros.Num texto excelente que infelizmente não foi incluído na recente antologia que preparei para a Antígona, Orwell analisa cuidadosamente as razões que tem para pensar que a Terra é redonda. E descobre que não tem assim tantas.O que está em causa é o problema da divisão social do conhecimento. Ao longo da história, as pessoas, na sua maior parte, nunca souberam praticamente coisa alguma excepto o que é estritamente necessário para a sua vida quotidiana e para alimentar a sua actividade favorita: a mexeriquice. Mas hoje mesmo quem procura conhecer as coisas não pode saber realmente mais do que uma pequeníssima parte; no resto, tem de confiar em especialistas. Isto é maravilhoso, porque exibe a nossa profunda dependência mútua: o conhecimento está socialmente distribuído e eu preciso dos conhecimentos que outros têm, e eles dos meus.Mas é também politicamente perigoso, pois dá origem a perversões terríveis. Uma dessas perversões é a manipulação da verdade. A publicidade, ...
Desde o primeiro espectáculo em Lisboa que acompanho o fantástico grupo catalão La Fura dels Baus, que esteve este mês em Portugal com o Naumon. Todos os espectáculos dos La Fura contêm uma mensagem ou uma crítica, por vezes muito apropriada como no caso de um dos espectáculos de que mais gostei, o «OBS» que vi no Passeio Marítimo de Algés em 2001. O Obsesiones del ser humano é uma crítica à sociedade contemporânea do espectáculo, onde a substância da mensagem não interessa mas sim o espectáculo em que é travestida e transmitida. O OBS compara a sociedade actual imbecilizada pela televisão com as sociedades medievais. O enredo sugere que embora os tempos tenham mudado, a barbárie mantém-se, agora mantida não com golpes de espada mas sim golpes de concursos televisivos e propaganda publicitária.Não consegui ver o espectáculo XXX mas segui a celeuma que criou um pouco por todo o mundo - na Alemanha, por exemplo, o espectáculo foi cancelado por pressão de grupos cristãos. O espectáculo foi inspirado n'«A filosofia de Alcova», a obra do Marquês de Sade que o grupo escolheu para representar a sexualidade do Século XXI:...
Vídeo: Gustavo Lima abandona a vela.A propósito do post «Fatos do outro mundo feitos em Portugal» recebi algumas informações muito interessantes de leitores, nomeadamente no que diz respeito às canoas Nelo que equipam desde há algum tempo os especialistas da modalidade e são preferidas pela maioria das equipas que participaram nas provas olímpicas de canoagem. A Mar Kayaks, que comercializa a marca, é assim outra empresa nacional de sucesso no desporto de alta competição sendo, por exemplo, a fornecedora oficial da Sprint National Elite Team norte-americana através da sua sucursal neste país.Recebi ainda algumas reclamações, com imensa razão já que o post referido se focava na NASA e não enfatizava a importância da contribuição nacional para o sucesso dos fatos LZR Racer. Como refere Sérgio Neto, sócio-gerente da Petratex, este fato revolucionário:«É o resultado de três anos de trabalho e de um processo de desenvolvimento no qual colaboramos com a Speedo, a Nasa (Agência Espacial norte-americana) e o Instituto Australiano de Desporto».De facto, para além do tecido, o grande trunfo do LSR Racer assenta na tecnologia Nosew, patenteada pela ...
Fukuyama tornou-se famoso com o artigo, depois transformado em livro, "O Fim da História e o Último Homem". Além de defender a sua ideia hegeliana de um modo muitíssimo superficial, a própria ideia sempre me pareceu implausível e fundamentalmente sonhadora.Aparentemente outras pessoas pensam o mesmo e acaba agora de sair um livro de Kagan, com o título "O Regresso da História e o Fim dos Sonhos". Uma curta mas informativa recensão de James Kirchick (da excelente revista The New Republic) está aqui.
O nosso colaborador habitual Rui Baptista, na continuação do seu post anterior, esclarece sobre a necessidade de uma Ordem dos Professores:“Acabo por achar sagrada a desordem do meu espírito”.Jean RimbaudUm dos óbices levantados à criação de uma Ordem dos Professores tem residido no facto de ser entendido que o professorado não encaixa na tipologia das profissões havidas como liberais “lato sensu”, porque exercidas exclusivamente por conta própria. Contudo, uma simples consulta à Enciclopédia Portuguesa e Brasileira não se mostra tão restritiva: “Liberal, diz-se da profissão como a magistratura, a medicina, a advocacia, o ensino por oposição a profissões industriais e comerciais”.No desejo de encontrar o fio de Ariadne de uma controversa questão, afadiguei-me como postulante em buscas aturadas em fontes merecedoras de confiança. Deparei-me então com um parecer do Dr. Lopes Cardoso, à época bastonário da Ordem dos Advogados: “É necessário que, mesmo quando exercida em regime de contrato de trabalho, essa profissão seja reconhecida socialmente como relevando de grande valor precisamente porque exigindo, pelo menos, uma independência técnica e deontológica incompatível com uma relação laboral de pleno sentido. Com efeito, como tem sido definido doutrinalmente, a ...
Da coluna electrónica "What's New" do físico Bob Park, da Universidade de Maryland, EUA, de ontem: ´ "METAMORPHOSIS: INFAMOUS SERBIAN FUGITIVE ARRESTED. Thirteen years after his indictment in connection with the Srebrenica massacre and the deadly siege of Sarajevo, Radovan Karadzic was found with a beard and a new identity living openly in Belgrade. How could a mass murderer support himself for 13 years without drawing on his past? No problem. He practiced alternative medicine, which requires little more than a lack of scruples. He was fully qualified."
O presidente Cavaco Silva promulgou o acordo ortográfico (notícia do Público). Felizmente, tanto no Brasil como em Portugal, é previsível que a generalidade das pessoas não irá adoptar a nova ortografia. Como já referi, há três razões principais contra este acordo ortográfico.A primeira é que qualquer legislação sobre a ortografia é tão absurda como legislar sobre a gramática ou o léxico. Imaginem o que seria uma besta de um político determinar que palavras são ou não são portuguesas.A segunda é que este acordo ortográfico em particular é uma mentira política: apresenta-se como unificador da língua portuguesa, mas não o é, pois passamos a escrever de maneira diferente o que antes no Brasil e em Portugal se escrevia igual (os outros países de língua portuguesa sempre seguiram a ortografia e a gramática de Portugal).A terceira é que a reforma ortográfica proposta é incoerente, introduzindo vez mais elementos ilógicos na língua. Só a título de exemplo: o princípio organizador das mudanças ortográficas é fonético e é por isso que no Brasil se continuaria a escrever "aspecto", porque pronunciam o "c", ao passo que em Portugal as pessoas seriam obrigadas a escrever "aspeto", porque não pronunciam ...
"She is conscientious enough to provide readers with facts that blow her thesis to smithereens, yet at the same time she is deluded enough not to notice the rubble of her thinking on the floor", escreve Jonathan Chait na sua minuciosa recensão do último livro de Naomi Klein, The Shock Doctrine. Vale a pena ler...
Um relatório confidencial do Banco Mundial conclui que os biocombustíveis são responsáveis por 75% do aumento dos preços dos alimentos a que temos assistido a uma escala global.No relatório a que o Guardian teve acesso, foi feita uma análise exaustiva por um especialista do BM que indica sem sombra de dúvidas a ligação entre o aumento exponencial do preço dos cereais. Segundo o economista do BM, as razões para este aumento assentam no desvio de cada vez mais terra e cereal para a produção de biocombustíveis e na especulação financeira provocada por esta nova utilização dos cereais. O relatório menoriza as razões apontadas por alguns responsáveis políticos, nomeadamente G. W. Bush, para o aumento dos preços, como sejam o aumento do consumo em países em desenvolvimento, na China e na Índia, ou problemas nas colheitas devido a factores ambientais, a seca na Austrália, por exemplo.E de facto, nos últimos tempos o Banco Mundial tem sido fértil em avisos sobre os riscos dos biocombustíveis, nomeadamente no encontro do G8 que decorre no Japão, onde o tema figura proeminente na agenda. Também o Inter-Governmental Panel on Climate ...
Jorge Carreira Maia faz uma boa crítica à minha crónica de hoje no Público. Invoca Condorcet (1743–1794), que foi um dos defensores do ensino universal. Como John Stuart Mill (1806–1873) e outros filósofos que defenderam o ensino universal, Condorcet estava perfeitamente ciente dos perigos do controlo estatal do ensino e por isso distinguia cuidadosamente educação de instrução. A instrução seria o ensino de conteúdos e competências sem carga ideológica, ou com o mínimo possível de carga ideológica; no caso da história, por exemplo, seria o ensino tão objectivo quanto possível da história, e não de uma leitura ideológica da história. A educação, pelo contrário, competiria exclusivamente à família e não ao estado, precisamente porque envolve muito mais além dos conteúdos e competências independentes de opções pessoais, ideológicas, religiosas ou partidárias.A distinção de Condorcet (que Mill também faz no livro Sobre a Liberdade, que toda a gente devia estudar cuidadosamente) é sistematicamente violada por todos os estados e sempre o foi. É como ter o monopólio da imprensa, ou um quase monopólio, e ter a esperança de que o estado use esse poder de modo sábio e prudente. Isso é pura e simplesmente impossível.No ...
A minha crónica de hoje no Público:Até há algumas décadas, quase todos os países tinham ministérios da propaganda. Hoje, isso parece-nos inaceitável porque sabemos que um Ministério da Propaganda mais não é do que um Ministério da Mentira, que procura convencer os cidadãos das mentiras políticas do momento. Num futuro não muito distante, se entretanto não houver catástrofes que mudem os rumos do desenvolvimento democrático, as pessoas encararão a ideia de ter ministérios da educação com o mesmo assombro com que encaramos hoje a ideia de ter ministérios da propaganda.Há três razões para não desejar que os governantes interfiram na educação.Em primeiro lugar, é uma arma política demasiado poderosa. Não apenas porque muitas áreas curriculares se prestam a desvios ideológicos (filosofia, sociologia, economia, história, por exemplo), permitindo que os governantes persuadam os futuros votantes das mentiras políticas que quiserem, mas também porque a tentação de todos os governantes é controlar a sociedade do futuro controlando a educação: quando por alguma razão querem mais universitários e menos técnicos superiores, mudam o sistema educativo, para anos depois voltarem a mudar o sistema quando descobrem que era afinal boa ideia ter mais técnicos superiores.Em segundo ...
Quase todos os observadores portugueses parecem convencidos de que os exames nacionais são uma mentira política. Há três tipos de indícios de que os actuais exames são realmente uma mentira política: a obsessão dos altos responsáveis do Ministério da Educação pelo que chamam “sucesso escolar” (que para eles quer dizer apenas “transitar de ano” e não “dominar os conteúdos relevantes”); resultados estatisticamente muito desviantes relativamente a anos anteriores; e perguntas de pacotilha, tão evidentemente fáceis que estudantes médios do 9.º ano respondem correctamente a perguntas de exames do 11.º ano.O que importa esclarecer é a razão de ser desta mentira política. É importante recordar que os exames são um legado do ex-ministro David Justino, que se bateu corajosamente por eles, contra os técnicos do seu próprio ministério. Surpreendentemente para os actuais dirigentes ministeriais, a sociedade não só acolheu a ideia de David Justino de que era necessário reintroduzir os exames, como condenou a primeira tentativa da actual equipa ministerial para cancelar os exames (acabaram por cancelar apenas um exame, o de filosofia, e por desvalorizar os exames do 9.º ano, atribuindo-lhe um peso irrelevante — o que significa que os alunos podem reprovar nos exames, mas transitar de ...
Na discussão pública argumenta-se por vezes de um modo enganador. É o tipo de coisa que acontece na seguinte situação: uma pessoa defende uma ideia X. Como é natural e saudável, há pessoas que discordam de X. Mas quem discorda de X argumenta por vezes procurando mostrar que tal ideia pertence a um “ismo” detestado: liberalismo, comunismo, socialismo, capitalismo, etc.Já me vi muitas vezes nessa situação. Não sendo um neoliberal (sou de esquerda, mas não me reconheço nas tolices da esquerda nacional), algumas das ideias que defendo são por vezes sumariamente executadas por serem aparentemente neoliberais. Outras vezes, as minhas ideias são sumariamente executadas precisamente por não serem neoliberais, o que pelo menos ajuda a equilibrar as coisas e dá para fazer algum humor. Mas estes equívocos escondem uma concepção profundamente errada da discussão pública.A discussão pública de ideias é o melhor método que temos para testar a plausibilidade das nossas ideias. Não somos omniscientes — todos sabemos disso. Mas, como argumenta John Stuart Mill no maravilhoso Da Liberdade (Edições 70) (que não é um manifesto neoliberal, mas uma obra de esquerda — basta ler o que ele defende sobre ...
Na entrevista que o Miguel refere, o Gilberto Gil, actual ministro da cultura do Brasil, não compreende uma coisa óbvia: que os ajustes na língua são naturalmente feitos por quem a usa sem precisar de supervisão política. Isso acontece com a língua inglesa, que é muitíssimo mais importante do que a portuguesa no plano das ciências, da cultura, das artes, da tecnologia e da política.O ministro é obviamente vítima da mentalidade antidemocrática, segundo a qual precisamos de comissões de sábios para supervisionar a língua, armados do Diário da República. Não precisamos disso. Precisamos apenas de implantar hábitos de discussão pública. De fazer como faz o Miguel no seu blog; de criar sites como o Ciberdúvidas; ou sites como a secção de linguística do Público.Precisamos de cuidar todos da língua, mas não cuidaremos dela se o fizermos ditatorialmente, através de comissões de sábios, de Diário da República em punho. Pois se o fizermos, estaremos a matar o natural dinamismo da língua, a matar a sua democraticidade intrínseca; estaremos a imobilizar a língua e a dar a algumas pessoas um poder inusitado de impor a todas as outras pela força da lei as suas idiossincrasias....
A minha crónica do Público de hoje:Dei um exemplo na última crónica de como o novo dicionário de português da Porto Editora, redigido de acordo com o Acordo Ortográfico, não resolvia o isolacionismo linguístico, ao ignorar um dos significados da palavra “fato”, que no Brasil não é um género de roupa. Fui prontamente alertado pela Porto Editora de que o dicionário grafa o significado brasileiro de “fato”, o que é verdade. Peço desculpa por ter inadvertidamente enganado os leitores. Consultei a versão do dicionário que a editora disponibiliza na Internet, e o significado brasileiro de “fato” não é facilmente visível por não se encontrar junto da definição do significado português do termo.Tenho escrito sobre o Acordo Ortográfico porque há dois aspectos cruciais que não têm sido discutidos. Tanto os críticos como os defensores do Acordo Ortográfico parecem concordar nestes dois pontos: que uma reforma ortográfica bem feita e imposta legislativamente é legítima; e que a desejável aproximação entre o Brasil e Portugal se consegue dando um primeiro passo legislando sobre a ortografia.Ora, parece-me que estas duas ideias são não apenas falsas, mas constituem o tipo de falsidades que denota um certo tipo de mentalidade ...
É um chavão, mas vá lá: normalmente quando se fala em África a maioria das pessoas vai logo pensando em hordas famélicas num ambiente árido e sem esperança. E então elas se perguntam se não têm culpa neste sofrimento, pois afinal, além da escravização de boa parte da sua força de trabalho, o ocidente colonizou seus países explorando suas veias abertas, para enriquecimento das nações além mar. Mas será que foi, ou continua, desta forma?
Robert Guest, editor de assuntos africanos para a The Economist em seu livro The Shackled Continent – Africa’s past, present and future (Ed. Macmilian, 280p., 2003, 11 libras e ainda não traduzido para o português, mas que poderia ter como título: “O Continente Acorrentado - O passado, presente e futuro da África”), tenta reverter a pergunta do porquê a África é tão pobre, para: por que a África é tão improdutiva? Por que mesmo representando aproximadamente 10% da população mundial este continente contribui com apenas 2% para o comércio mundial? Robert Guest morou em alguns países africanos durante três anos, e em 2004, após a publicação ...
Muito se fala sobre a riqueza da natureza. Sobre seu valor monetário. Ecológico. Uma árvore pode ser vendida e transformada em dinheiro, pode ainda ser mantida em pé, no intuito de cumprir seu papel na teia da vida, nitrogenando o solo, dando abrigo aos pássaros e frutos aos homens... Hoje em dia, diversas correntes de cientistas e economistas debatem sobre a proximidade entre a ecologia humana e a economia, dado que estão umbilicalmente conectadas. A economia é o estudo dos recursos escassos, das trocas materiais e energéticas entre os homens. A ecologia também, embora enfoque um ponto de vista mais abrangente e inclui todos os organismos vivos na "economia" de energia e materiais orgânicos e inorgânicos do planeta Terra.Concorco completamente com a visão de que economia e ecologia humana estão muito, muito próximas. Creio que não há solução para o problema econômico do ser humano sem considerar-se a ecologia. Na natureza todos os organismos vivos, absolutamente todos, fazem parte de um ciclo material movimentado pela energia solar, basicamente. Na natureza não há exclusão. Todos participam. Na ecologia natural não há idéia de lixo. Os organismos e dejetos são reciclados, dando oportunidade para a vida dos organismos que virão....
Um artigo imperdível do tradutor João Roque Dias, "Afinal, Ensaio Sobre a Cegueira não é apenas um romance".Mas faltou dizer o seguinte: o que provoca as imensas diferenças linguísticas entre Portugal e o Brasil (os restantes países de língua portuguesa seguem a norma portuguesa), diferenças que não são principalmente ortográficas, é o isolacionismo dos dois países. Portugal está-se nas tintas (uma expressão desconhecida no Brasil) para o Brasil, e vice-versa. Os livros não circulam, as ideias não circulam, os intelectuais não publicam nos dois países, os jornais não são lidos por uns e outros apesar de estarem disponíveis na Internet. Portugal não quer saber do Brasil e o Brasil não quer saber de Portugal. Esta é uma realidade má para ambos os países, mas nada há que os governantes possam fazer, e sobretudo não vão conseguir mudar isso com tolices ortográficas. Faz parte da mentalidade isolacionista dos dois povos.O Brasil é um mercado imenso quase completamente fechado ao exterior. Às vezes dá-me a impressão que o mundo poderia acabar e nós no Brasil só saberíamos disso umas semanas depois, o que até é agradável (a imensa crise do petróleo, depois da crise prolongada provocada pela ...
Eis a minha crónica de hoje do Público:O acordo ortográfico que alguns linguistas nos querem impor à força começa com esta contradição delirante: 1) vamos reformar a ortografia para dar um passo na direcção da unificação ortográfica e 2) vamos seguir o princípio fonético nessa reforma. 1 é incompatível com 2 pela simples razão que as maiores diferenças entre o português de Portugal e o dos outros países é precisamente a fonética. Daí que o acordo tenha o resultado de desunificar quando pretendia o oposto: hoje escrevemos todos, no Brasil, Portugal e nos outros países, “aspecto”. Mas com o acordo os brasileiros continuam a escrever do mesmo modo, porque ao falar pronunciam o “c”; mas nós deixaremos de escrever o “c” porque não o pronunciamos.Uma pessoa ingénua poderá pensar que um acordo ortográfico que parte destes dois princípios contraditórios só pode ter sido arquitectado por palermas, e poderá ter razão. Mas não tem toda a razão. Outra explicação plausível é que os linguistas que fizeram este acordo o fizeram por razões diferentes das que usam para o vender aos políticos. Aos políticos, falam da unificação da língua e acenam com a maravilha do Quinto Império Linguístico. ...
O Guardian publicou uma interessante notícia sobre um estudo publicado na revista Science, conduzido por Paola Sapienza, da Universidade de Northwestern (EUA). Segundo este estudo, os resultados que mostram que as estudantes do sexo feminino são piores a matemática do que as suas contrapartes masculinas devem-se a diferenças culturais e não à natureza. Em sociedades mais igualitárias, as estudantes têm resultados quase tão bons a matemática quanto os estudantes.E eu não acredito nesta ciência. Porquê? Porque me parece ideologicamente motivada, para conduzir precisamente à conclusão que a investigadora queria desde o início: segundo as suas próprias palavras, “A nossa investigação mostra que em sociedades com maior igualdade sexual as raparigas ganham uma vantagem absoluta em relação aos rapazes” (itálico meu). E a mesma investigação que “provou” que as raparigas afinal são tão boas a matemática quanto os rapazes, não fosse a infeliz discriminação, não se incomodou em mostrar que os rapazes são tão bons quanto as raparigas na leitura, em sociedades com menos preconceitos machistas contra a leitura. Efectivamente, os estudos comparativos mostram sistematicamente que as raparigas sabem ler melhor do que os rapazes — mas ninguém tenta mostrar que esta ...
O Brasil está sob um grande desafio. Várias minorias étnicas que vivem na floresta amazônica estão se chocando com grupos de agricultores, madedeiros, garimpeiros... e claro, atrás de toda essa gente há interesses de poderosos, políticos, empresários... Entretanto o problema está longe de ser simples assim, dividido entre duas facções. Além dos índios e dos "brancos" brasileiros, soma-se ao caldo militares brasileiros e missionários estrangeiros. Pois bem. Os índios reinvindicam sua posse de terra em largas extensões. Os civis brancos que lá vivem (são mais de vinte milhões de pessoas na floresta amazônica brasileira) querem implantar nosso falido modelo de "civilização econômica". Os estrangeiros, missionários, voluntários de ONGs, dizem que querem ajudar os índios. Finlmente os militares brasileiros preocupados com a soberania, acusam os "voluntários estrangeiros" de servirem a interesses políticos de seus países de origem e que desejam a internacionalização da Amazônia brasileira. Veja caro leitor. Se o o gringo não quisesse a internacionalização da Amazônia não vinha até aqui, tentar fazer da amazônia sua casa. A casa de um estrangeiro. Xenofobias postas de lado, e bem longe, é claro que há estrangeiros e estrangeiros... Agora uma coisa é certa. Um Major da ...
Os organizadores do Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa entregaram hoje ao Presidente da República pareceres científicos contrários ao Acordo Ortográfico. Notícia aqui.O Manifesto conta já quase com 50 mil assinaturas, ultrapassando em muito as 4 mil assinaturas necessárias para obrigar legalmente a Assembleia da República a discutir o Manifesto. Note-se que o Presidente da República pode ainda vetar o Acordo Ortográfico, aprovado pela Assembleia da República.Há dois aspectos diferentes que estão em causa.O primeiro é puramente linguístico: o acordo propõe mudanças ortográficas absurdas, que retiram poder expressivo à língua, como passar a escrever "veem" quer para dizer que as pessoas vêem os lírios do campo quer para dizer que as pessoas vêm juntas à festa. Quem usa a língua profissionalmente como eu para mais do que comprar batatas sabe que a língua portuguesa já está depauperada tal como está, dada a quase ausência de produção científica e cultural sofisticada em português. Este acordo torna a língua ainda mais pobre e ridícula. Não por causa do "ótimo", que não vejo problema algum em passar a escrever sem "p", mas por muitas outras palermices, como a referida.O segundo é puramente político: ...
Eis um testemunho muitíssimo relevante para se entender quão sofístico é o argumento de que o Acordo Ortográfico será um passo para unificar as variantes da língua portuguesa: "Português Neutro", de Helena Araújo. Só não vê isto quem é cego, como é o caso do Miguel RM: tratando-se de alguém que escreve com tino e calma sobre o tema, não consegue contudo articular um único argumento minimamente plausível a favor do Acordo Ortográfico.
Daqui do Brasil chega-me esta interessante opinião de Hélio Schwartsman sobre o Acordo Ortográfico. É um dos poucos autores que vê o problema central onde eu o vejo: na ingerência inadmissível do estado na língua. Leia aqui. (Agradeço a José Costa Júnior por me enviar o artigo.)
Minha crónica do "Público" de hoje:A 2 de Janeiro passado o barril de petróleo passou a mítica fronteira dos 100 dólares. No dia em que escrevo, 21 de Maio, o preço do crude atingiu o preço recorde de 130,04 dólares. No dia em que o leitor ler este texto, estará, provavelmente, mais caro. As previsões indicam o valor de 150 dólares ainda este ano. E há quem fale já do petróleo a 200 dólares em menos de dois anos, como Arjun Murti, o “guru” da Goldman Sachs que tem sempre acertado nas suas previsões de preços. As causas são conhecidas: a baixa do dólar, a crise e a especulação nos mercados internacionais, assim como o aumento da procura (nomeadamente em potências emergentes com a China e a Índia) sem o correspondente acréscimo de oferta (no Iraque a produção nunca voltou ao que era antes da guerra e na Nigéria há instabilidade). Quaisquer que sejam as causas, o cidadão que vai à bomba de gasolina sente no bolso os aumentos de combustíveis. O meu carro, que ficava satisfeito, quando o comprei há quatro anos, com cerca de 50 euros de ...
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