A TEIA E A ARANHA

Carlos Fiolhais @ De Rerum Natura Categorias: Biologia, Ciência Geral, Poesia, revistas
O jornalista Rui Cardoso, do "Expresso", perguntou-me o que vejo nesta imagem e a minha resposta foi publicada no número de ontem. Reproduzo aqui a legenda que enviei, fazendo notar que um lapso na colocação das aspas fez atribuir a Fernando Pessoa uma frase que é minha depois de ter lido o poema "A Aranha" de Pessoa ("Mais apto será, então, quem conseguir ganhar ao destino"):"Darwin gostava de aranhas. Foi a observação, no Brasil, de luta entre uma aranha e uma vespa (ganhou a vespa) que o terá levado à ideia da sobrevivência dos mais aptos. Há também aranhas e teias metafóricas. Pessoa escreveu num poema: A aranha do meu destino / Faz teias de eu não pensar. Mais apto será, então, quem conseguir ganhar ao destino". Carlos Fiolhais, físico e director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, conclui o comentário da seguinte forma: "É feia a aranha e bonita a teia?" E deixa Alberto Caeiro responder: Ambos existem; cada um como é.

Vou-me embora pra Pasárgada

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Poesia
Passam hoje quarenta anos sobre a morte de Manuel Bandeira (1886-1968), o poeta natural de Recife, que dizia ter nascido para a vida em Petrópolis.Mas foi em Recife, ainda muito criança, que ele descobriu a poesia: "na companhia paterna ia-me eu embebendo dessa ideia que a poesia está em tudo - tanto nos amores como nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas".Ouvi o seu Vou-me embora pra Pasárgada, dito pelo próprio, logo de manhã, na rádio, na Antena 2. Aqui o recordo também, por escrito, precedido da nota biográfica dessa mítica Pasárgada, da lavra do poeta e que encontrei num precioso livro que me foi emprestado, que se intitula: Manuel Bandeira: Poesia completa e prosa.Biografia de Pasárgada"Mais de vinte anos depois, num momento de profundo cafard e desânimo, saltou-me do subconsciente este grito de evasão: «Vou-me embora pra Pasárgada!» Imediatamente senti que era a célula de um poema. Peguei do lápis e do papel, mas o poema não veio. Não pensei mais nisso. Uns cinco anos mais tarde, o mesmo grito de evasão nas mesmas circunstâncias. Desta vez o poema saiu quase ao correr ...

SEIS LIVROS DE RÓMULO DE CARVALHO

Carlos Fiolhais @ De Rerum Natura Categorias: Arte, Ciência, Ciência Geral, Livros, Poesia, divulgação da ciência
Em 2006, ano do centenário do nascimento de Rómulo de Carvalho, realizou-se na Maia, organizado pelo Instituto Superior da Maia, um colóquio internacional sobre António Gedeão / Rómulo de Carvalho. Eis a transcrição, encurtada e editada, da intervenção que aí tive a honra de fazer:Vou falar de alguns livros de Rómulo de Carvalho. A sua obra é tão vasta que só posso referir alguns, a meia dúzia de livros que me tocaram e tocam, esboçando a relação que esses livros tiveram e têm comigo.Começo com a obra de António Gedeão: a Obra Completa é uma edição muito cuidada, num só volume, da Sá da Costa. Seria estultícia da minha parte escolher um poema de entre tantos e tão bons, mas, como o primeiro poema tem sempre um significado particular, escolho o poema de 1956, que inaugurou o livro Movimento Perpétuo, o primeiro livro de Gedeão, publicado na Atlântida, quando Rómulo de Carvalho tinha 50 anos e ensinava em Coimbra no Liceu D. João III. Por acaso, é o ano em que nasci e por acaso estudei nesse liceu, embora só muitos anos depois. Como o mestre ...

A Ciência, a arte e os repentistas

geofagos @ Geófagos Categorias: Arte, Ciência Geral, Divulgação Científica, Geral, Poesia, Richard Dawkins, repentistas
Richard Dawkins gastou todo um livro tentando convencer os leitores de que a visão científica do mundo não é incompatível com a visão, por assim dizer, artística. O livro se chama “Desvendando o Arcoíris”, creio ser uma tentativa do autor de desmistificar as tais guerras culturais e pertence à fase em que ele era um excelente divulgador científico e ainda não se tornara pregador. Dawkins argumenta que a beleza vislumbrada por um cientista  ao desvendar algum aspecto do funcionamento do universo poderia encantar também artistas que se esforçassem um mínimo em sanar sua propalada iliterácia científica. Sinceramente, não vejo por que Ciência e Estética não se possam combinar ou por que entender e ver cientificamente o mundo tire algum encanto do mesmo. Pelo contrário. Esta aparente incompatibilidade é desmentida pelas obras de artistas de ficção científica como Arthur C. Clarke, Dan Simmons e Kurt Vonnegut; pelos ótimos escritos de Bráulio Tavares; pela excelente prosa de Charles Darwin, tanto no Origem das Espécies quanto em alguns livros menos conhecidos, como The Formation of Vegetable Mould; e antes que me esqueça, nos brilhantes ensaios de Stephen J. Gould na Natural History. Mas onde vi ...

Frio de Agosto

Ricardo Raele Categorias: Ciência Geral, Poesia, urbe
Há um telhado no qual chove.E na chuva que nele choveNão há água que nos console.Cinza de água cai...O dia de ontem foi frioE a réstia do frio de ontemHoje se mantém.Quais as notas de um céu tímido e bravio.Para debater esse post:http://www.ricardoraele.livreforum.com/Para conectar-se:Me adicionar no orkut Fonte: http://www.ricardoraele.blogspot.com

Dorival Caymmi (30/04/1914 - 16/08/2008)

Octavio Mateus @ A MATEMÁTICA ANDA POR AÍ Categorias: Ciência Geral, Música, Notícia, Poesia
Dorival Caymmi morreu hoje, com 94 anos. Seu filho, Dori Caymmi, canta a canção "É doce morrer no mar"É DOCE MORRER NO MAR (Dorival Caymmi)É doce morrer no marNas ondas verdes do marSaveiro partiu de noite foiMadrugada nao voltouO marinheiro bonito sereia do mar levouÉ doce morrer no marNas ondas verdes do marNas ondas verdes do mar meu bemEle se foi afogarFez sua cama de noivo no colo de IemanjaÉ doce morrer no marNas ondas verdes do marÉ doce morrer no marNas ondas verdes do mar

“The Large Hadron Rap” (letra)

De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Música, Poesia
A pedido de "várias famílias" aqui está a letra de "The Large Hadron Rap", da autoria da norte americana Katherine McAlpine (na foto), que se pode ouvir no post anterior:"Twenty-seven kilometers of tunnel under groundDesigned with mind to send protons aroundA circle that crosses through Switzerland and FranceSixty nations contribute to scientific advanceTwo beams of protons swing round, through the ring they ride‘Til in the hearts of the detectors, they’re made to collideAnd all that energy packed in such a tiny bit of roomBecomes mass, particles created from the vacuumAnd then…LHCb sees where the antimatter’s goneALICE looks at collisions of lead ionsCMS and ATLAS are two of a kindThey’re looking for whatever new particles they can find.The LHC accelerates the protons and the leadAnd the things that it discovers will rock you in the head.We see asteroids and planets, stars galoreWe know a black hole resides at each galaxy’s coreBut even all that matter cannot explainWhat holds all these stars together – something else remainsThis dark matter interacts only through gravity...

Lugares

Ricardo Raele Categorias: Ciência Geral, Poesia, urbe
Sinto saudades de lugares que nunca fuiHong Kong com seus neons alucinados sobre a baía de marMadagascar e suas noites doces com estrelas africanasTeerã e suas águas geométricas sobre pedras.O mundo todo enche-me de saudadenuma ânsia de andar por sobre o globocom a liberdade que um menino passeia num jardim.A aurora boreal luminescente nos céus do ÁrticoO suco doce das frutas de Belém do ParáA moleza da Bahia com suas moquecas picantesE claro, a cerveja de um dia de verão em Düsseldorf.Áustria, Viena e suas estátuas de ouro,Estive em lugares que não estive.E não estive em lugares que estive.Resta saber onde estou...São Paulo, sua metrópole malucaQue lugar é você se você é todo lugar?Tenho saudades do vazio dos lugares que são.Pois o que tudo é a nada pertenceE doce é seu sonho de estar.Para debater esse post:http://www.ricardoraele.livreforum.com/Para conectar-se:Me adicionar no orkut Fonte: http://www.ricardoraele.blogspot.com

As hélices

Octavio Mateus @ A MATEMÁTICA ANDA POR AÍ Categorias: Arte, Ciência Geral, Geometria, Poesia, arquitectura
É uma escada em caracolE que não tem corrimão.Vai a caminho do SolMas nunca passa do chão.Os degraus, quanto mais altos,mais estragados estão,Nem sustos nem sobressaltosservem sequer de lição.Quem tem medo não a sobeQuem tem sonhos também não.Há quem chegue a deitar foraO lastro do coração.Sobe-se numa corrida.Corre-se perigos em vão.Adivinhaste: é a vidaA escada sem corrimão.David Mourão Ferreira Matematicamente, a hélice é uma curva no espaço que conjuga dois movimentos: um movimento de translacção de um ponto e um movimento de rotação em torno desse ponto.Este é o movimento que as gavinhas das aboboreiras e videiras fazem quando procuram algo onde se elar.Sempre me encantaram as escadas em espiral ou escadas em caracol. A viagem agora é pelas escadas em caracol.Palácio da Regaleira (Sintra)Igreja da Sagrada Família (Barcelona)Arco do Triunfo (Paris)...

Estrada do Sol

Ricardo Raele @ A sábia beleza da natureza Categorias: Ciência Geral, Poesia
Sim é de manhã.Há a estrada do sol. Novamente a ser seguida. Choveu durante a madrugada inteira... Mas a força dos braços dourados arrastou para longe os cumulus escuros, cumulos de azul cobalto e branco e preto... cores de tinta óleo.Mas a manhã é de água clara e sol, sol sol em todos os lugares...Nas folhas há sol.No ar há cheiro de sol.Na terra o sol faz vida. E o marrom ganha brilhos irreais.Que nasça o dia. Nasça dessa mesma terra e deste mesmo céu.A vida é a junção da terra e do céu.Sempre.Para debater esse post:http://www.ricardoraele.livreforum.com/Para conectar-se:Me adicionar no orkut Fonte: http://www.ricardoraele.blogspot.com

Saudade

Ricardo Raele @ A sábia beleza da natureza Categorias: Ciência Geral, Poesia, literatura
É como se um prego enferrujado morasse no meu coração pulsante.Para debater esse post:http://www.ricardoraele.livreforum.com/Para conectar-se:Me adicionar no orkut Fonte: http://www.ricardoraele.blogspot.com

Crepúsculo

Ricardo Raele Categorias: Ciência Geral, Poesia, literatura, natureza
O dia cansado do seu dia de hoje,Boceja ventos violetas do crepúsculo...Sonos estelares, elas pestanejam!O firmamento é a maior de todas as coisas que Deus nos permitiu ver,ainda que o Deus de qualquer homem não seja do seu tamanho...É o que chamamos de universo!Ele está lá, é só olhar...Seus atóis de fogo verde...E tudo se mexe é vivo!O universo é tão vivo quanto eu.Para debater esse post:http://www.ricardoraele.livreforum.com/Para conectar-se:Me adicionar no orkut

Segredo de um dia chuvoso em São Paulo

Ricardo Raele Categorias: Ciência Geral, Poesia, urbe
Quer saber um segredo?Tão vasto, tão vasto,que põe minha alma em degredo?Que vira os astros, os vira,e infinitamente no firmamento os pira?Que compõe música de água, chuva,no interior do amor com vinhas de uva?Ou na pele o suor do gelo, garoa,que me enclausura num apê de tédio à toa?São Paulo polui santamente, fumaça,como derrama sobre nós a tua divina graça?Tempestade de vinho, ácida meca,ou flores amarelas num vento sapeca?Ei-lo: tú és imenso, chão meu, sem face,início ou fim, com raras amadas,que nas esquinas da memória me armam ciladas...Para debater esse post:http://www.ricardoraele.livreforum.com/Para conectar-se:Me adicionar no orkut Fonte: http://www.ricardoraele.blogspot.com

Máquina Viva

Ricardo Raele Categorias: Ciência Geral, Poesia, urbe
Ah! Este fim de dia nos aquários da metrópole!Arranha-céus que coagulam o crepúsculo em plasma amarelado,as fitas de cimento que embrulham o chão,o redondo do pôr-do-sol fresado pelas persianas metálicas,o cheiro gelado dos ares condicionados.E tudo que nos protege da simplicidade da própria existência... Que estado letárgico é este em que fora do circuito do mundo se assiste a modernidade anoitecer?Escoando luz, escoando luz, escoando luz...Dos fachos brilhando mais intensamente,das sirenas girando birutas com a cara azul,da polícia cantando ladainhas baianas, ióióióióióióióióió...O efeito-Doppler das ambulâncias cardíacas.Os cachorros-loucos costurando o trânsito em suas motocicletas e os robôs impiedosos cosendo chapas de aço:. . . . . . . . . . . . . . . . . . .Trabalhadores pensantes que tem, cada um deles, um certo metro quadrado para irem pensar e um acelerador fisiológico de partículas que consome trinta watts de glicose.Quarteirões, edifícios, andares, escritórios, baias, casulos, monitores, óculos, cristalinos, retinas, bastonetes, rodopsinas, fótons-íons, pulsos, vias de axônios, arquiteturas neurais que irmanadas pela energia na velocidade da luz, rompem a terceira dimensão emanando campos imagéticos no ...

Viver

Ricardo Raele Categorias: Ciência Geral, Poesia, literatura
De viver se viveporque se ama amandode vez em quando.Para debater esse post:http://www.ricardoraele.livreforum.com/Para conectar-se:Me adicionar no orkut Fonte: http://www.ricardoraele.blogspot.com

Terra

Ricardo Raele Categorias: Ciência Geral, Poesia, literatura, natureza
Ah! Esse jardim redondo a girar em torno do sol,Gota d’água com baleias, peixes e serpentes marinhas,Suas ondas de mágico azul-claro.Pedras esculpidas com o vento,Pássaro, anêmona noturna, filhote de grilo verde.Pérola do universo,A Terra e meu pequeno verso.Para debater esse post:http://www.ricardoraele.livreforum.com/Para conectar-se:Me adicionar no orkut

Alegria

Ricardo Raele Categorias: Ciência Geral, Poesia, literatura, natureza
Alegria é um furacão de arco-íris.Para debater esse post:http://www.ricardoraele.livreforum.com/Para conectar-se:Me adicionar no orkut

Um pequeno mito

Ricardo Raele Categorias: Ciência Geral, Poesia, literatura, natureza
Criança é a libertação da liberdadeÉ a coragem inocente em ser o que éVoar à toa com os braços em asa echegar sujo de alegria em casa.No travesseiro, desejar mais que tudo o amanhãCheio de praia, de pipa, de nuvens vivas...Porque o mundo é tão interessantee curioso,e secreto, e mágico,tão inesperadamente bonito,que antes,só pode ter sido imaginado por uma criança.Para debater esse post:http://www.ricardoraele.livreforum.com/Para conectar-se:Me adicionar no orkut

O Vento

Ricardo Raele @ A sábia beleza da natureza Categorias: Ciência Geral, Poesia, literatura, natureza
Você já sentiu o carinho do vento?Para debater esse post:http://www.ricardoraele.livreforum.com/Para conectar-se:Me adicionar no orkut Fonte: http://www.ricardoraele.blogspot.com

Soneto de José Anastácio da Cunha

Carlos Fiolhais @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Poesia
Como falei aqui do matemático e escritor setecentista José Anastácio da Cunha, vale a pena transcrever um soneto dele, de inspiração botânica, que Aquilino Ribeiro classificou como "gema rara" (na foto um grande pinheiro manso de Benagouro, Vilarinho da Samardã, Vila Real, que provavelmente já existia no século XVIII):Copado, alto, gentil Pinheiro Manso;Debaixo cujos ramos debruçadosDo sol ou lua nunca penetrados,Já gozei, já gozei mais que descanso...Quando para onde estás os olhos lanço,Tantos gostos ao pé de ti passadosVejo na fantasia retratados,Tão vivos, que jàmais de ver-te canso!Ah! deixa o outono vir; de um jasmineirote hei-de cobrir, terás cópia crescidaDe flores, serás honra dêste outeiro.E para te dar glória mais subida,No meu tronco feliz, alto Pinheiro,O teu nome escreverei de Margarida.

Quero que preste atenção aos padrões

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência, Ciência Geral, Observação, Poesia
Richard Feynman, o físico teórico premiado, o inventor perspicaz, o professor talentoso, o divulgador de ciência, o músico amador, também escreveu poesia, desenhou e pintou.Podemos perguntar, o que há de comum em todas estas actividades, que se afiguram como distintas? A resposta pode ser: observar com precisão e tentar compreender, sem excluir a imaginação, claro. Feynman reconheceu que devia essas aprendizagens, em primeiro lugar, ao pai."Conta-se que, quando a minha mãe estava grávida — não tive conhecimento directo da conversa, bem entendido —, meu pai disse um dia: «Se for rapaz, será cientista. Como é que ele conseguiu isto? Nunca me disse que devia ser cientista». De facto, meu pai não era cientista, era um homem de negócios, chefe de vendas de um armazém de uniformes militares. No entanto, lia e tinha uma verdadeira paixão pela ciência. Quando era miúdo — a primeira história que conheço —, quando ainda comia numa cadeira de bebé, meu pai, depois do jantar, costumava brincar comigo um jogo. Tinha trazido vários azulejos rectangulares de casa de banho de um lugar qualquer da cidade de Long Island. Colocávamo-los de pé, um após outro, todos ...

“E ela dança”

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Poesia, dança, pintura
“Às vezes, quando a casa estava adormecida à noite, ela dançava pela sala fora (…). E ela dançará. Ao longo das sílabas dos poemas, como dançava na minha infância.” Miguel Sousa Tavares No dia de hoje, em que se comemora essa arte magnífica que é a da dança, lembro-me de um poema - Por delicadeza - e de um quadro - O baile - de duas senhoras que representam duas outras artes magníficas: Sophia de Mello Breyner Anderson e Paula Rego.Bailarina fuiMas nunca danceiEm frente das gradesSó três passos deiTão breve o começoTão cedo negado Dancei no avessoDo tempo bailadoDançarina fuiMas nunca baileiDeixei-me ficarNa prisão do reiOnde o mar abertoE o tempo lavado?Perdi-me tão pertoDo jardim buscadoBailarina fuiMas nunca baileiMinha vida todaComo cega erreiMinha vida atadaNunca a desateComo Rimbaud disseTambém eu direi:«Juventude ociosaPor tudo iludidaPor delicadezaPerdi a minha vida»(Citação de Miguel SousaTavares in Jornal Público, 12 de Junho ...

Dois sonetos de Pessanha

Carlos Fiolhais @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Poesia
Passagem do Inverno (segundo a versão original, de 1920, do livro “Clepsydra”, Lusitânia; respeitou-se a grafia de então).IPassou o outono já, já torna o frio...--Outono do seu riso maguado.Algido inverno! Obliquo o sol, gelado...--O sol, e as aguas limpidas do rio.Aguas claras do rio! Aguas do rio,Fugindo sob o meu olhar cançado,Para onde me levaes meu vão cuidado?Aonde vaes, meu coração vazío?Ficae, cabellos d'ella, fluctuando,E, debaixo das aguas fugidias,Os seus olhos abertos e scismando...Onde ides a correr, melancolias?--E, refractadas, longamente ondeando,As suas mãos translucidas e frias...IIÓ meu coração torna para trazD'onde vaes a correr, desatinado?Meus olhos incendidos que o peccadoQueimou... Voltae horas de paz.Vergam da neve os olmos dos caminhos,A cinza arrefeceu sobre o brazido.Noites da serra, o casebre transido...--Scismae meus olhos como dois velhinhos...Extìnctas primaveras evocae-as:--Já vae florir o pomar ...

O ESSENCIAL SOBRE CAMILO PESSANHA

Carlos Fiolhais @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Livros, Poesia, literatura
No ano passado assinalaram-se os 140 anos do nascimento, em Coimbra, do poeta Camilo Pessanha. A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra teve patente uma exposição sobre o poeta, intitulada “Um poeta ao longe”, criada pela Associação Wenscelau de Morais e que teve o apoio da Fundação Oriente. Um pequeno livro acabado de sair, na muito útil colecção “Essencial” da Imprensa Nacional, da pena do crítico literário, escritor e professor brasileiro Paulo Franchetti, faz um resumo da vida do poeta e comenta brevemente a sua obra. Franchetti, que é professor na Universidade de Campinas, já tinha sido o autor da edição crítica da “Clepsydra”, o único livro de Pessanha, na editora Relógio d’Água. O livro-resumo sobre Pessoa está na grafia e sintaxe do português europeu. O livro “O Essencial sobre Camilo Pessanha” está mais ou menos dividido ao meio, com os três capítulos iniciais dedicados à vida e três capítulos finais dedicados à obra. A vida de Pessanha tem estado envolta em lenda. tal se deve por um lado à escassez de fontes fidedignas e por outro lado ao “exotismo” da sua biografia, ...

FILHOS DO CÉU

Carlos Fiolhais @ De Rerum Natura Categorias: Astronomia, Ciência Geral, Filosofia, Livros, Poesia
O título “Filhos do Céu”, com um tom algo religioso, é um diálogo sobre a nossa actual visão do cosmos entre um sociólogo e filósofo francês bem conhecido, Edgan Morin (nascido em Paris em 1921, na foto), e um astrofísico também francês, que merecia ser mais bem conhecido, Michel Cassé. A conversa entre os dois teve lugar aos microfones da rádio France Culture antes de ter passado a livro no prelo da Editora Odille Jacob.Em língua portuguesa esta obra saiu como um número redondo (250) da colecção “Epistemologia e Sociedade” do Instituto Piaget, que tantas e por vezes tão boas edições nos tem proporcionado (já me tenho interrogado como é possível a uma editora de cunho universitário publicar tal profusão de títulos). Saúda-se a longevidade dessa colecção. Edgar Morin, que é membro honorário do Instituto Piaget do qual recebeu em 2002 o prémio “Poética do Pensar”, tem vários livros publicados na mesma colecção, que se somam a outros livros que tem noutras editoras, como “O Método”, em vários tomos, que saiu na Europa-América. Morin, muito atento aos desenvolvimentos da ciência contemporânea, tem sido arauto do chamado pensamento da complexidade, sobre o ...

Ciência e poesia

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência, Ciência Geral, Poesia
Tigre, tigre, chama puraNas florestas, noite escura,Que olho ou mão imortal criaTua terrível simetria?De que abismo ou céu distanteVem tal fogo coruscante?Que asas ousa nesse jogo?E que mão se atreve ao fogo?(…)O Tigre, magnífico poema de William Blake (1757-1827), de que acima reproduzi o princípio, talvez tenha prendido demoradamente a atenção de Jacob Bronowski. Por alguma razão, imagino-o a deter-se nele, a lê-lo várias vezes, a decorá-lo.... Na verdade, a força da escrita do poeta-artista inglês impressionou o matemático-filósofo ao ponto de lhe ter dedicado, tanto quanto sei, dois livros (um datado de 1944 – William Blake. A Man Without a Mask – e outro de 1958 – Selections from William Blake).A convivência, quando era ainda muito jovem, com as obras de escritores como Blake, Goethe ou Dickens despertou em Bronowsky uma enorme curiosidade pela literatura e, em particular, pela poesia. A natureza destas formas artísticas era, no seu entender, perfeitamente conciliável com a natureza da ciência, porquanto ambas as actividades decorrem da imaginação e da capacidade de construção do saber que, como humanos, possuímos. O modo como ...

Uma sugestão de leitura

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Poesia
Os sonetos a Orfeu e Elegias a DuínoDe Rainer Maria RilkeTradução de Vasco Graça MouraEdição: Bertrand (2007).Rilke (1875-1926) nasceu, cresceu, fez estudos universitários e escreveu os seus primeiros poemas em Praga. Jovem, com vinte anos, rumou à cosmopolita Munique, onde se embrenhou num novo e fascinante mundo de arte. Nesse mundo, por influência de uma paixão, a bela e impetuosa Lou Andreas-Salomé, mudou o nome de Réne para Rainer e passou a dedicar-se inteiramente à escrita.Entre as suas obras mais marcantes contam-se Elegias a Duíno, iniciada em 1912 e terminada uma década depois, no ano em que escreveu Os Sonetos a Orfeu. Vasco Graça Moura traduziu ambas as obras para a nossa língua, que se reuniram num só livro, em edição bilingue.No prefácio desse livro, João Barreno escreveu o seguinte sobre este trabalho de tradução: “O que o leitor d´Os Sonetos a Orfeu e das Elegias de Duíno reterá de Vasco Graça Moura, para além do pormenor, é um conjunto notável que veste estes dois ciclos de Rilke como uma segunda pele. A pele visível, e a mais actual, de Rilke em português. ...

MAIS CIÊNCIA E POESIA

Carlos Fiolhais @ De Rerum Natura Categorias: Ciência, Ciência Geral, Poesia
A eventual oposição entre ciência e poesia encontra-se poeticamente retratada num poema do brasileiro Manuel Bandeira (na foto a Lua e Vénus):"Fim de tarde.No céu plúmbeoA Lua baçaPairaMuito cosmograficamenteSatélite.Desmetaforizada,Desmistificada,Despojada do velhe segredo.Não é agora o filão de cismas,O astro dos loucos e dos enamorados.Mas tão-somenteSatélite.Ah! Lua deste fim de tarde,Demissionário de atribuição romântica,Sem show as disponibilidades sentimentais!Fatigado de mais-valia,Gosto de ti assim:Coisa em si:-Satélite".Encontrei este poema no livro de Ronaldo Mourão "Astronomia e Poesia", Difel, Rio de Janeiro, 1977 (Gilberto Gil, actual Ministro da Cultura do Brasil, tem um poema de sentido semelhante).

A FÍSICA, A METAFÍSICA E A POESIA

Carlos Fiolhais @ De Rerum Natura Categorias: Filosofia, Física, Livros, Poesia
Pré-publicação do meu prefácio ao livro “Metafísica [Poética]”, de Vicente Ferreira da Silva, que vai sair em breve na editora Papiro do Porto.Pedem a um físico umas palavras sobre metafísica e poesia, ou melhor, sobre esta “Metafísica [Poética]” de Vicente Ferreira da Silva, doutorando na Universidade do Minho.Que tem um físico a dizer sobre metafísica? De facto, Física e Metafísica têm “física” em comum. Mas Aristóteles (384-322 a.C.), o grande físico e metafísico de Estagira (Grécia), usou o termo física (que significa natureza), mas não metafísica (à qual chamou filosofia primeira). Os escritos de Física (ou filosofia natural) englobam os livros “Do Céu” e “Mecânica”. Os escritos de Metafísica vêm a seguir no “Corpus aristotelicum”: Metafísica significa não “para além da Física”, como pensaram alguns escolásticos medievais, mas sim “depois da Física”. Foi Andrónico de Rodes o organizador das obras de Aristóteles o responsável pela designação de Metafísica. A “Poética”, incluindo a tragédia e a poesia épica, aparece só por último.A Metafísica procura tradicionalmente responder a questões perenes como: o que é o real? ...

PÓ DE ESTRELAS

Carlos Fiolhais @ De Rerum Natura Categorias: Astronomia, Poesia
Três poemas cósmicos de Jorge Sousa Braga ("Pós das Estrelas", Assírio e Alvim, 2004)ORIONUma nebulosaé uma nuvem de gases e poeirauma espécie de chocadeiracom tudo o que é precisopara fazer não uma mas um milhão de estrelase uma rosaBURACOS NEGROSAs estrelas também gostam de brincaràs escondidasA maioria das vezes escondem-se umas atrás das outrasou nas imediações de um quasarMas não há melhor lugarpara uma estrela se esconderque num buraco negroElas vêm as outrase ninguém as consegue verO UNIVERSOUns dizem que é abertooutros que é fechadooutros ainda que é planoCada um consoante o seu desejoPara mim o universotem a forma de um beijo.
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