Blogs de Ciência

Blogs de Ciência – Divulgação de todos os blogs em Português que versam a ciência. Parte do Projecto Divulgar a Ciência(.com)

Archive for the Peter Singer

Sobre uma nova forma de ver o mundo: ratos e baratas.

Fico na indecisão sobre uma ou outra, mas de fato as duas coisas são uma só: será que eu gosto tanto de falar sobre cladogramas por causa das características e propriedades desses sistemas ou por que os cladogramas deitaram uma boa pá de cal nessa herança capenga e nefasta que é a scala naturae? Que ambas as opções são uma e a mesma é fácil perceber quando se estuda a sistemática filogenética e, sobretudo, quando se concebe as conseqüências absurdas que emanam da utilização da “great chain of being”.

A scala naturae é absurda não apenas porque ela é biologicamente errada, mas sobretudo porque ela é injusta e moralmente inaceitável. Para grande parte dos machos adultos e brancos, é difícil perceber à primeira vista essa injustiça, pois o que pode haver de errado em ser considerado o mais perfeito dos seres, o apogeu da criação, em ser petulantemente alçado ao topo do mundo, à elite? Nada mais natural, pois a maioria de nós se vê com muito bons olhos e se pinta com cores mais belas do que o realismo aconselharia (como disse Hamlet para Polonius, “use every man after his desert, and who should ’scape whipping?”). Mas como seria para um africano, no século XIX ou mesmo no século XX, observar a scala e se ver abaixo do europeu, qualquer que seja o europeu? Como seria para uma mulher se ver abaixo dos homens machos, apenas por ser mulher? E como seria, se após um hercúleo trabalho fôssemos capazes de romper a barreira comunicativa da etologia cognitiva e conseguíssemos nos comunicar com os chimpanzés ou bonobos, a tentativa de explicar para eles que sua posição é acima do gorila mas abaixo de nós, abaixo dos negros e das mulheres, ou quem sabe das mulheres negras?

Talvez tenha sido um exagero meu falar em pás de cal, pois a scala naturae ainda está bem viva no imaginário de boa parte das pessoas, quando essas divagam sobre a biodiversidade… Ainda assim, a presença dos cladogramas em salas de aula, cada vez mais comum, é um movimento felizmente sem volta, que se aplicado e compreendido corretamente nos fará de uma vez por todas abandonar termos como plantas superiores, plantas inferiores, animais superiores, mais evoluídos e menos evoluídos.

O que um cladograma nos mostra é muito claro: estamos todos conectados por (diversos) graus de descendência comum. As regras para a interpretação de…

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Por que sou utilitarista


Quando estou numa aula de biologia evolutiva, ou num seminário sobre evolução, ou mesmo nos intermináveis debates sobre criacionismo versus ciências, percebo que há dois conceitos-chave das idéias de Darwin e da biologia evolutiva atual (pois, como é adequado lembrar, são coisas diferentes) que incomodam bastante aqueles que têm um pensamento mais profundamente religioso, mais místico, e que são mais devotos de forma geral. Uso aqui o termo religioso em sua concepção mais simples, referindo-me àquele que tem escrúpulos religiosos, em oposição ao humanista; poderíamos pensar em qualquer religião moderna, mas baseado em minhas experiências pessoais, estou aqui me referindo às variantes cristãs, o catolicismo e o protestantismo.

O primeiro desses conceitos-chave é o da descendência comum, que tira o ser humano de uma posição confortavelmente privilegiada, onde ele mesmo se colocou, para posicioná-lo em meio ao mundo vivo, como (apenas) mais um ramo terminal de uma árvore complexa. Freud já havia comentado, naquele famoso parágrafo em seu texto sobre as resistências à psicanálise, que esse foi o golpe biológico contra o amor-próprio humano… De fato, não é um golpe muito fácil de ser assimilado, principalmente por quem tem problemas sérios em aceitar que não é superior, que não é privilegiado e que não é o centro do mundo, para nos referirmos aqui ao golpe cosmológico de Copérnico.

O segundo conceito-chave, sobre o qual quero aqui me debruçar, é a questão da competição, da luta pela vida, a incessante batalha pela sobrevivência. Praticamente todas as populações tendem a crescer exponencialmente, se não são restringidas; contudo, as restrições são reais, e não apenas abstrações matemáticas. A conclusão que daí advém é bastante elementar: nem todos os organismos que nascem terão chance de chegar à fase adulta, muito menos de se reproduzir e gerar descendentes. Isso, para a maioria das pessoas que procura uma intrínseca harmonia na natureza, e que lutam por um mundo menos brutal, em busca de uma nova age d’or, é inadmissível. Custa bastante aceitar que o equilíbrio (e não a harmonia) da natureza é atingido pela constante luta entre seus componentes constituintes, onde há morte e dor onde quer que se olhe. Evolução, como muitos biólogos evolutivos bem sabem, não é “a natureza rubra em dentes e garras” de Tennyson (Who trusted God was love indeed / And love Creation’s final law / Tho’ Nature, red in tooth and claw / With ravine, shriek’d against his

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Os animais não humanos têm direitos?

«Talvez chegue o dia em que a restante criação animal venha a adquirir os direitos de que só puderam ser privados pela mão da tirania. Os Franceses já descobriram que o negro da pele não é razão para um ser humano ser abandonado sem remédio aos caprichos de um torcionário. É possível que um dia se reconheça que o número de pernas, a vilosidade da pele ou a terminação do os sacrum [a cauda no caso de muitos animais não humanos] são razões insuficientes para abandonar um ser sensível ao mesmo destino. Que outra coisa poderia traçar uma linha insuperável? Será a faculdade da razão ou, talvez, a faculdade do discurso? Mas um cavalo adulto é, para além de toda a comparação, um animal mais racional, assim como mais sociável que um recém-nascido de um dia, de uma semana ou mesmo de um mês. Mas suponhamos que não era assim; de que serviria? A questão não está em saber se eles podem pensar ou falar, mas sim se podem sofrer.»

Jeremy Bentham, citado por: Peter Singer, Ética Prática, Gradiva, Lisboa, 2000, pág. 77.

cartaz direitos dos animais erro ético Quando se fala de Ética normalmente pensa-se nos seres humanos. Mas será que só nós é que somos dignos de respeito e de consideração ética? Haverá razões para excluir os animais não humanos dessa consideração?

O filósofo inglês Jeremy Bentham (1748- 1832) respondeu que não a essas questões, argumentando que o factor decisivo para um determinado ser merecer respeito e consideração ética é o facto de ser senciente, ou seja, poder sofrer. Na sua opinião, a racionalidade não é uma condição necessária. Terá razão?

A lista de argumentos e contra-argumentos é longa. Seja como for, é uma discussão que poderá influenciar a ementa do seu jantar, caro leitor.

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“Sair para o mundo e fazer algo que mereça a pena”

«Até à minha chegada a Nova Iorque [em 1973, para dar aulas de Filosofia na Universidade de NI], nunca conhecera ninguém que fizesse psicoterapia uma vez por semana; mas, quando travei conhecimento com o círculo de professores nova-iorquinos e suas esposas, depressa descobri que muitos deles faziam psicanálise diária. Cinco dias por semana, onze vezes por ano, tinham uma consulta de uma hora, que não podia ser cancelada por nada deste mundo, salvo numa emergência de vida ou de morte. (…) E isto não era nada barato. Alguns dos meus colegas, académicos bem remunerados e bem sucedidos, entregavam um quarto do seu ordenado anual aos seus analistas! Isto era para pessoas que, tanto quanto me era dado perceber, não eram nem mais nem menos perturbadas do que as que não faziam análise, e, com excepção do seu empenho na análise, não me pareciam diferentes das pessoas que eu conhecera em Oxford ou em Melbourne.

Perguntei aos meus amigos por que razão faziam aquilo. Responderam-me que se sentiam reprimidas, ou tinham tensões psicológicas por resolver, ou que não viam sentido para a vida.

Deu-me vontade de pegar nelas e abaná-las. Estas pessoas eram inteligentes, talentosas, abastadas e viviam numa das cidades mais estimulantes do mundo. Estavam no centro do maior centro de comunicações da História. O New York Times informava-os todos os dias do estado do mundo real. Sabiam, por exemplo, que em vários países em vias de desenvolvimento havia famílias que não sabiam de onde viria a sua comida para o dia seguinte e crianças que estavam a crescer física e mentalmente atrofiadas pela malnutrição. Sabiam, também, que o planeta podia produzir comida suficiente para cada ser humano ser adequadamente alimentado, mas esta encontrava-se tão mal distribuída que tornava risível qualquer referência a justiça entre nações. (Por exemplo, em 1973, o Produto Interno Bruto per capita dos Estados Unidos era de 6200 dólares e o do Mali 70 dólares.)

Se estes nova-iorquinos capazes e abastados tivessem saído dos divãs dos analistas, deixado de pensar nos seus próprios problemas e feito qualquer coisa quanto aos verdadeiros problemas enfrentados por pessoas menos afortunadas no Bangladesh ou na Etiópia – ou mesmo em Manhattan, umas poucas paragens de metro mais adiante -, ter-se-iam esquecido dos seus próprios problemas e talvez tivessem tornado também o mundo um…

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Imoral não quer dizer sexual

“Algumas pessoas pensam que a moral está ultrapassada nos dias que correm. Encaram a moral como um sistema de proibições puritanas descabidas que se destinam sobretudo a evitar que as pessoas se divirtam. Os moralistas tradicionais pretendem ser os defensores da moralidade em geral, mas o que defendem na realidade é um determinado código moral. Apropriaram-se desta área a tal ponto que, quando uma manchete de jornal insere o título BISPO ATACA A DECADÊNCIA DOS PADRÕES MORAIS, pensamos logo que se trata de mais um texto sobre promiscuidade, homossexualidade, pornografia, etc., e não sobre as verbas insignificantes que concedemos para a ajuda internacional às nações mais pobres nem sobre a nossa indiferença irresponsável para com o meio ambiente do nosso planeta.

Portanto, a primeira coisa a dizer da ética é que não se trata de um conjunto de proibições particularmente respeitantes ao sexo. Mesmo na época da Sida, o sexo não levanta nenhuma questão ética específica. As decisões sobre o sexo podem envolver considerações sobre a honestidade, o respeito pelos outros, a prudência, etc., mas não há nada disso nada de especial em relação ao sexo, pois o mesmo se poderia dizer de decisões respeitantes à condução de um automóvel.”

Peter Singer, Ética Prática, Gradiva, Lisboa, 2000, pág. 18.

 

“Quando as pessoas falam de ‘moral’ e sobretudo de ‘imoralidade’, oitenta por cento das vezes – e estou com toda a certeza a calcular por baixo – o sermão trata de alguma coisa que tem a ver com sexo. Tanto assim é que há quem julgue que a moral se dedica antes de mais a ajuizar o que as pessoas fazem com as suas partes sexuais. O disparate não podia ser maior (…). No sexo, por si próprio, nada há de mais ‘imoral’ do que comer ou passear no campo; claro que uma pessoa pode comportar-se imoralmente com o sexo (utilizando-o para prejudicar outra pessoa, por exemplo), do mesmo modo que há quem coma a parte do vizinho ou aproveite os seus passeios para planear atentados terroristas.”

Fernando Savater, Ética para um Jovem, 14ª edição, Dom Quixote, Lisboa, 2007, pp. 115-116.

 

A respeito desta questão veja também o post "O que é realmente imoral: o sexo ou a miséria extrema?"

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O paradoxo do hedonismo e o Dia dos Namorados

On A Claire Day by Carla Ventresca and Henry Beckett



“A maioria das pessoas não seria capaz de encontrar a felicidade ao decidir deliberadamente gozar a vida sem se preocupar com ninguém nem com coisa alguma. Os prazeres assim obtidos pareceriam vazios e em pouco tempo tornar-se-iam insípidos. Procuramos um sentido para a vida que vá para além do prazer pessoal e sentimo-nos realizados e felizes quando fazemos as coisas que consideramos plenas de sentido. Se a nossa vida não tiver sentido algum para além da nossa própria felicidade, é provável que, ao conseguirmos aquilo que julgamos necessário para essa felicidade, constatemos que a própria felicidade continua a escapar-nos.

Tem-se dado o nome de “paradoxo do hedonismo” ao facto de as pessoas que procuram a felicidade pela felicidade quase nunca a conseguirem encontrar, ao passo que outros a encontram numa busca de objectivos totalmente diferentes.”

Peter Singer, Ética Prática, Gradiva, 1ª edição, 2000, pág. 357.


Ao defender que podemos encontrar a felicidade e o sentido da vida quando tentamos pôr em prática objectivos a que atribuímos sentido e valor, Peter Singer tem em mente objectivos de natureza ética: ajudar pessoas necessitadas, combater a pobreza, combater algumas das várias formas de desigualdade e discriminação existentes no mundo, contribuir para a preservação do ambiente, etc.

A ideia é que o mero prazer pessoal não é suficiente e que precisamos de objectivos mais amplos e mais vastos que a nossa própria vida.

Muitas pessoas não seriam de facto capazes de “encontrar a felicidade ao decidir deliberadamente gozar a vida sem se preocuparem com ninguém nem com coisa alguma”, pois não são psicopatas dispostas a fazerem tudo aquilo que lhes der satisfação pessoal, mas não parecem ter os objectivos de natureza ética valorizados por Peter Singer.

Há muitas pessoas que são como as personagens do Cartoon: valorizam acima de tudo algumas relações afectivas – o amor pelos pais ou pelos filhos, o amor pela pessoa por quem se apaixonaram, etc. Para elas, mesmo que não seja o Dia dos Namorados, a pessoa amada é sempre o centro do mundo. Mas não procuram combater a pobreza nem se empenham na preservação do meio ambiente.

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