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Archive for the Miguel Torga

Ciência e Literatura (5): Miguel Torga e o progresso da medicina


«Coimbra, 6 de Março de 1953 – Piorei da saúde. A máquina, à medida que os anos passam, vai pondo à mostra o desgaste dos rodízios. O caruncho começa a esfarelar o travejamento do corpo. Os inevitáveis sinais duma velhice que se aproxima, e de que tenho um terror que só ela sabe… Mas ao averiguar esta manhã o grau de mazelas que me roem, confesso que não foi o meu caso em si o que mais me interessou. Embora habituado, por ofício, a análises e radiografias, impressionou-me sobretudo o aspecto impessoal do problema. Época diabólica esta, em que podemos assistir num laboratório ao doseamento da energia que nos resta!

Dantes, a morte parecia-nos vir de fora, num ataque bruto e frontal. Agora, não. Agora conseguimos vê-la crescer em nós, milimetricamente, insidiosamente, como uma semente na terra ou um afecto no coração.

A olhar tubos de reacção alinhados e coloridos, onde uma subtil turvação é uma sentença sem apelo, até me esqueci de que o sangue era meu, empolgado como fiquei pelo progresso metódico de uma ciência universal, inexorável, que vai devassando esta última intimidade do mundo que era a vida. Abdiquei do meu próprio terror, encadeado pelo brilho da alquimia. Mais uns passos, e seremos transparentes como cristal. Transparentes à semelhança dos relógios, garantidos por um determinado tempo. Ao lado da data de nascimento, da altura e da cor dos olhos, teremos no cartão de identidade mais esta indicação preciosa: o dia prefixo do óbito.»

Miguel Torga, Diário VI, Coimbra, 1953, p. 178 e 179

Publicado por Sílvio Mendes
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Vida

. bolota de Quercus coccifera (Arrábida 2001) Do que a vida é capaz! A força de um alento verdadeiro! O que um dedal de seiva faz A rasgar o seu negro cativeiro! Ser! Parece uma renúncia que ali vai, É um carvalho a nascer Da bolota que cai! Miguel Torga Diário IIContinue a ler Vida

“o fruto dos frutos”

. Tibães- Novembro 2006 «[...] Mas o fruto dos frutos, o único que ao mesmo tempo alimenta e simboliza, cai dumas árvores altas, imensas, centenárias, que, puras como vestais, parecem encarnar a virgindade da própria paisagem. Só em Novembro as agita uma inquietação funda, dolorosa, que as faz lançar ao chão lágrimas que são ouriços. Abrindo-as, essas lágrimas eriçadas de espinhos deixam ver Continue a ler “o fruto dos frutos”

Mensagem

Vinde à terra do vinho, deuses novos! Vinde, porque é de mosto O sorriso dos deuses e dos povos Quando a verdade lhes deslumbra o rosto. Miguel Torga Continue a ler Mensagem

Tribunal

Somos nós os culpados do que somos. E é de mim que me queixo. Tão intensa foi sempre a minha voz, que ninguém a entendeu. Por isso, quanto mais água pedi, Mais distante me vi De cada fonte que me apeteceu. E agora é tarde, já nem sede tenho. Ou tenho-a como os cactos: Eriçada de espinhos. Olho de longe a bica tentadora, Adivinho-lhe o gosto e a frescura, E é de borco na areia abrasadora Que Continue a ler Tribunal

A um Negrilho

. S. Martinho de Anta, 26 de Abril de 1954 Na terra onde nasci há um só poeta. Os meus versos são folhas dos seus ramos. Quando chego de longe e conversamos, É ele que me revela o mundo visitado. Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada, E a luz do sol aceso ou apagado É nos seus olhos que se vê pousada. Esse poeta és tu, mestre da inquietação Serena! Tu, imortal avena Que harmonizas o ventoContinue a ler A um Negrilho

Anunciação

Muscari armeniacum, Serralves A neve derreteu Nos píncaros da serra; O gado berra Dentro dos currais, A lembrar aos zagais O fim do cativeiro; Anda no ar um perfumado cheiro A terra revolvida; O vento emudeceu; O sol desceu; A primavera vai chegar, florida. Miguel Torga, Diário XI (1969)Continue a ler Anunciação
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