As vicissitudes de um símbolo

Estou digitando esta pequena nota num teclado QWERTY. Se você não sabe o que é um teclado QWERTY, olhe para o teclado do seu computador ou notebook e veja a sequência de teclas no canto superior esquerdo, a partir da tecla Tab (se você estiver na França a sequência será AZERTY, mas duvido muito que algum leitor deste blog esteja na França…). Essa sequência de teclas tem uma razão de ser, e remonta a uma época bem anterior à emergência da computação doméstica nas décadas de 70 e 80. Na verdade, remonta às primeiras máquinas de escrever, em que os tipos pressionavam uma fita de tinta contra o papel. A sequência QWERTY foi cuidadosamente criada, tendo em vista as letras mais comumente usadas, para reduzir ao máximo a possibilidade de os tipos engancharem uns nos outros durante a digitação. Acontece que não existem mais tipos móveis, digitamos em teclados que passam informações eletrônicas para os dispositivos de entrada do computador. Poderíamos, portanto, inventar uma nova disposição de teclas, baseada na ergonomia e na facilidade de uso; contudo, durante a emergência da computação doméstica, os teclados mantiveram-se QWERTY porque todas as pessoas que digitavam em máquinas de escrever já estavam bastante acostumadas a esse layout, e assim se mantêm até hoje.

O que nós temos aqui é um fenômeno extremamente comum em biologia evolutiva. Uma estrutura surge por um motivo, desempenhando uma dada função. Porém, ao longo do tempo, a função desempenhada pode já não mais existir, ou ter sido bastante modificada, de forma que a estrutura continua existindo como testemunha de um passado longínquo. Como a fossilização gênica é um fenômeno que rapidamente elimina estruturas sem função, o mais comum é termos uma mudança na função desempenhada por certa estrutura, o que em biologia evolutiva chamamos de exaptação.

É com esse fenômeno em mente que eu gostaria de falar do caduceu. Para quem não sabe, o caduceu é o bastão de Hermes (o Mercúrio romano), o deus mensageiro do olimpo. É um bastão ricamente trabalhado, com duas asas em seu topo e contendo duas serpentes enroladas. Por ser o bastão de Hermes, o caduceu é o símbolo do comércio, e é comumente usado até hoje como brasão nas faculdades de ciências econômicas, comércio exterior, contabilidade etc.

O bastão de Ascépio (the rod of Asclepius), à esquerda, e o caduceu (the staff of Hermes), à direita.

O símbolo da medicina, por outro lado, é o bastão de Asclépio (ou Esculápio).…

Continue a ler

A história da medicina através dos livros

  • Percursos na História do Livro Médico (1450-1800) Organização: Palmira Fontes da Costa e Adelino Cardoso, Editora Colibri, 2011.

Escolha bibliográfica de Carlos Fiolhais, gravada em video no Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho: http://nautilus.fis.uc.pt/rc/?p=334

Índice

Apresentação, Palmira Fontes da Costa e Adelino Cardoso

1. Os Livros e a Ordem do Saber Médico: Perspectiva Historiográfica, Palmira Fontes da Costa

2. Books, Erudition and Medicine, 1450-1700, Vivian Nutton

3. Reality and Metaphors in the Language of Renaissance Medicine: The Case of Rodrigo de Castro, Guido Giglioni

4. A apropriação de Colóquios dos Simples por dois médicos ibéricos de Quinhentos, Teresa Nobre de Carvalho

5. Prática médica e alimentação nos textos portugueses seiscentistas, Inês de Ornellas e Castro

6. Considerações sobre o Examen de Ingenios para las Sciencias de Juan Huarte , Rui B. Romão

7. Approches iconographiques du corps féminin dans le livre médical (XVIe-XVIIe s.). Essai d’iconogynie historique, Hervé Baudry

8. On the Artful, yet Pernicious Body: Anatomical Books in the Early Modern Dutch Republic, Rina Knoeff

9. O Método de Aprender Medicina, de Boerhaave, Adelino Cardoso

10. A Materia Medica de Jacob de Castro Sarmento, Hélio Pinto

11. O lugar do corpo no espaço público da razão: Livros, Leituras e Sátiras às Artes da Cura no Portugal do Século XVIII, Bruno Barreiros

12. Los fundamentos científicos de un debate ilustrado: cementerios en España y Portugal, Antonio Carreras Panchón

13. José Pinto de Azeredo: a cosmopolitan physician from Rio. Revisiting his Ensaios Sobre Algumas Enfermidades de Angola, Manuel Silvério Marques e António Braz de Oliveira

Continue a ler

O FUTURO ESTÁ NOS GENES


Minha crónica no “Sol” de hoje (revista “Tabu”):

Depois da descodificação do genoma humano, terminada em 2003, a decifração do genoma humano por menos de mil dólares era uma das metas mais perseguidas pela medicina. Previa-se para 2014 mas foi há pouco atingida com o anúncio pelo norte-americano Jonathan Rothberg de uma nova máquina de sequenciar. A decifração de um só genoma passou não apenas a ser mais barata (actualmente custa cerca de 5000 dólares) como também mais rápida: demora horas em vez de semanas. Steve Jobs tinha pago cem mil dólares pela sequenciação do seu genoma. Com os preços agora anunciados, a sequenciação tornou-se acessível. E já se fala em máquinas que poderão sequenciar por menos de cem dólares com resultados a demorarem minutos.

Para que serve a sequenciação do genoma? Cada um de nós distingue-se pelo ADN, uma molécula finíssima, mas muito longa, que existe em cada uma das suas células. Somos todos iguais, pois o genoma humano é quase todo igual, mas somos todos diferentes, pois as alterações individuais, apesar de pequenas, são significativas. A cor dos olhos está no nosso genoma. E algumas doenças e, principalmente, a predisposição para muitas outras também lá estão. O conhecimento científico está a aumentar rapidamente neste domínio, sendo necessário criar “interfaces” de uso fácil pelos médicos para interpretação do genoma. Conhecendo o perfil genético de cada doente, os médicos poderão, além de efectuar diagnósticos mais precisos e prescrever medicamentos à medida, praticando a chamada medicina personalizada. Por outro lado, o tratamento estatístico dos dados anonimizados permitirá às empresas farmacêuticas conhecer melhor o perfil das populações e fabricar fármacos mais adequados para elas. O próprio poderá, conhecido o seu perfil genético, mudar o seu estilo de vida, preferindo por exemplo alimentos melhores para si. É um “admirável mundo novo” que se anuncia com a revolução em curso que, bem aproveitada, permitirá prestar melhores cuidados de saúde a um custo desejavelmente mais baixo.

Um relatório divulgado há cerca de um mês no Reino Unido em resposta a um apelo da Câmara dos Lordes recomendou a introdução de testes genéticos no Sistema de Saúde Inglês, o que implica a construção de uma plataforma informática que dê todas as garantias de segurança para armazenamento do genoma dos utentes e sua consulta. Entre nós, um projecto desse tipo, da responsabilidade de um consórcio formado pela Critical Software, pelo Biocant e pela Universidade de Coimbra, já tinha sido anunciado em Novembro passado. Continue a ler

PALESTRA SOBRE IMUNOLOGIA: O NOBEL DE 2011


Hoje, dia 23 de Março, às 21h15min, realiza-se no Centro Ciência Viva Rómulo de Rómulo de Carvalho, no Departamento Física da Universidade de Coimbra, a palestra “Imunologia”, pelo Doutor Manuel Santos Rosa, Professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, no âmbito do Projecto Quark! Escola de física para jovens. A entrada é livre, condicionada ao tamanho da sala.

Continue a ler

Sobre Ferreira de Mira (1875-1953)

Mais um post de António Mota de Aguiar sobre a história da ciência no século XX (na foto, Ferreira de Mira):

Mathias Boleto Ferreira de Mira, nasceu em Canha (Montijo) e estudou em Lisboa na Escola Médico-Cirúrgica, onde terminou o seu curso em 1898. Depois de uma curta passagem pelo Hospital da Misericórdia da vila de Canha, veio residir para Lisboa em 1910, e, já no âmbito das actividades da nova Faculdade de Medicina de Lisboa, assumiu, em 1912, a cadeira de segundo Assistente provisório de Fisiologia.

Esta data marca o começo da brilhante carreira científica de Ferreira de Mira, primeiro, regendo cursos práticos de Fisiologia e Química biológica, a seguir, como investigador científico, mas não só, porque também exerceu funções no Município de Lisboa no pelouro da Instrução primária, além de ter sido deputado à Assembleia da República de 1921 a 1923.

A sua carreira de jornalista começa por volta de 1912, essencialmente nos jornais A Lucta, Diário de Notícias e Seara Nova, onde escreveu dezenas de artigos de vulgarização científica, na área da biologia e de outras ciências.

O Professor Luís Rebelo, da Faculdade de Medicina de Lisboa, considera “Ferreira de Mira, à época o mais importante historiador de medicina portuguesa (…)” e, sem dúvida, não se enganou, pois, por essa altura, Ferreira de Mira tinha um muito atento leitor, o multimilionário Bento da Rocha Cabral (1847-1921), que lhe iria deixar em testamento uma considerável fortuna para obras de investimento científico.

Contudo, não se pode falar de Ferreira de Mira sem o inserir na geração médica de 1911, que elevou a medicina portuguesa ao mais alto nível do que havia de melhor pelo mundo. Geração essa que arrancou, ainda no século anterior, com Sousa Martins e Miguel Bombarda e que, participando activamente na Assembleia da República, promulgou, em 1911, as leis que reformavam os estudos médicos e criavam novas Universidades e novas Faculdades, pondo fim às escolas médicas de Lisboa e Porto, que se transformaram em Faculdades, com estatuto universitário.

Em 1911 estava constituída, em pessoas e instalações, a nova Faculdade de Medicina de Lisboa com as suas cadeiras laboratoriais:

“Era um real progresso, uma transformação quase milagrosa dum ensino e duma medicina anacrónicos, numa medicina francamente moderna; dum espírito decadente passara-se a um espírito empreendedor e progressivo; de instalações decrépitas passava-se a um edifício moderno e de bela arquitectura; duma medicina parasitária a uma ciência com expressão própria.… Continue a ler

"LASERLEAP": O FIM ANUNCIADO DAS SERINGAS?

Entrevista ao fotoquímico Carlos Serpa, publicada primeiramente no Diário de Coimbra:

O investigador Carlos Serpa, e o grupo a que pertence no Departamento de Química da Universidade de Coimbra, acabam de regressar do “Photonics West 2012” com um prémio na bagagem: o projecto designado por “LaserLeap” foi um dos dois vencedores num concurso tecnologicamente muito competitivo. Mas afinal o que é e para que serve o LaserLeap?

António Piedade (AP) – O que é a fotónica e quais as áreas multidisciplinares necessárias para o seu desenvolvimento?
Carlos Serpa (CS) – Fotónica refere-se genericamente à geração, manipulação e utilização de luz, cobrindo todas as aplicações de luz deste o ultra-violeta, passando pelo visível até ao infra-vermelho. Na prática a Fotónica enquanto disciplina científica está muito relacionada com a invenção do laser e o inicio da sua utilização em ciência e tecnologia, nos anos 60. Naturalmente os desenvolvimentos na área são muito devedores à disciplina Física de Óptica, mas actualmente pode-se considerar uma área transversal, com o domínio da Biofotónica (interacção de tecidos biológicos e luz) e as aplicações em tecnologia de informação a serem áreas emergentes.

AP – Como surgiu a ideia de utilizar conhecimentos desta área científica para aplicações na medicina?
CS – O grupo de investigação, do qual sou membro, tem uma experiência de cerca de 20 anos na disciplina de Fotoacústica. O que levou ao desenvolvimento da tecnologia LaserLeap é essencialmente devedor desta ampla experiência. Mas o acontecimento específico surgiu com uma necessidade de fazer passar rapidamente pela pele uma entidade molecular que estava em desenvolvimento no Departamento de Química da Universidade de Coimbra. Surgiu de facto de uma necessidade! Havia alguma evidência na literatura científica que ondas de pressão poderiam ajudar à permeação da pele. Como nós tínhamos experiência acumulada na produção de ondas de pressão resolvemos experimentar, tendo obtido resultados bastante bons inicialmente e que temos vindo a optimizar.

AP – Em que consistiu a Vossa participação na Photonics West 2012?
CS – O “SPIE Photonics West” reuniu em São Francisco com cerca de 20 000 participantes. Trata-se de um conjunto de conferências científicas e também uma feira onde produtores de lasers e óptica mostram os últimos desenvolvimentos (por exemplo, a empresa portuguesa Multiwave tinha um stand na exposição). Nós apresentámos uma comunicação cientifica mas também resolvemos corresponder ao desafia de mostrar (em 3 minutos) uma tecnologia prometedora em termos de utilização prática, no mundo real.… Continue a ler