OS ESCRITORES DE LITERATURA INFANTIL


Nova crónica da escritora Cristina Carvalho:…

Os escritores que dedicam as suas vidas a escrever para as crianças. Os escritores que percorrem um imaginário totalmente desconhecido , entretanto e aparentemente, tão próximo. Os escritores que já foram crianças. E cresceram. E continuam a querer desbravar um mundo ignorado, translúcido; um mundo a que, vulgarmente, poderemos chamar de “mágico” e que é feito de construção e de imaginação absolutamente enigmática. Um espaço que pertence apenas a um só. Um espaço de abrigo de gigantes – os adultos -, um apelo diário ao desconhecido, um transformar permanente de situações: as boas que se tornam más e as más que se tornam boas; um apelo em silêncio a qualquer palavra que mude a vida num momento. Apenas num momento.

Há um olhar muito inquietante do escritor de literatura infantil sobre o imenso planeta onde vivemos. Há o pressentir de visões de fantasmas longínquos, de cavernas, de homens animalescos; há as visitas aos sótãos e subterrâneos mais escondidos e indecifráveis das nossas primitivas e incendiárias memórias; há a grande escalada sempre em desequilíbrios nas volutas imprevistas dos nossos cérebros complexos.

A literatura infantil deve ser dos géneros mais difíceis. Porque escrever para crianças não é apenas desenhar aventuras complicadas e criar heróis, pequenos e grandes heróis. É isso e muito mais! É compreender, é entranhar-se profundamente num imaginário altamente complexo, é adivinhar as portas que se poderão abrir e as que nunca se abrirão; é deitar um olhar sincero, sem mágoas, sem intenção, de amor absolutamente incondicional pela criança em crescimento, pela sua inocente e desprotegida condição de ser crescente, de lua nova que um dia passará a lua cheia, cheia de luz!

Lembro-me, perfeitamente como se tivesse sido ontem, de muita angústia e do choro convulsivo que certas histórias infantis que eu ia lendo, me proporcionavam. Histórias classificadas como sendo clássicos para a infância.

Imagino que não seja possível poupar a delicadeza de um olhar infantil para certo texto. A condição de adulto desse escritor, de já conhecer e até ter experienciado certas situações bloqueará, certamente, o ato de poupar toda uma possível inquietação ao olhar de uma criança que começa a espreitar a leitura. É inevitável que não sucedam por exemplo, aventuras terríveis, descobertas impressionantes, até mesmo a morte. Então, como é que se poderia ou porque é que se deveria evitar a todo o custo essas sensações desagradáveis num espírito leitor tão novo? Continue a ler

POESIA CIENTÍFICA PARA OS MAIS NOVOS


Regina Gouveia foi durante muitos anos professora de Ciências Físico-Químicas no ensino secundário. A sua experiência profissional está bem evidente no livro Se eu não fosse professora de Física. Algumas reflexões sobre práticas lectivas (Areal, 2000) Colaborou com o Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, procurando sempre a melhor actualização científica e pedagógica. Em 2005, o Ano Mundial da Física, foi justamente distinguida com a Ordem da Instrução Pública.

Mas Regina Gouveia teve e tem uma second life, que poderia parecer desligada da sua first life, mas, vendo bem, não está. Ela é poeta. Encontram-se nas livrarias e nas bibliotecas vários livros da sua autoria, como Reflexões e Interferências (Palavra e Mutação, 2002) e Magnetismo Terrestre (Calendário, 2005). Os títulos dão conta da ligação entre as suas duas “vidas”: Os temas da sua predilecção são científicos. Poderemos, embora o nome possa enganar, falar de poesia científica. A autora tem-se, em particular, interessado pela poesia para os mais pequenos, como nas obras Era uma vez… Ciência e poesia no reino da fantasia (Campo das Letras, 2006) e Ciência para meninos em poemas pequeninos (Gatafunho, 2009), as duas com títulos elucidativos a respeito da temática dos poemas. Saiu no final do ano passado o seu terceiro livro de poesia científica infantil, Pelo sistema solar vamos todos viajar, com ilustrações do seu filho, o arquitecto Nuno Gouveia. Falemos dele, agora em que a literatura infantil está valorizada pela atribuição do Prémio Camões a Manuel António Pina.

O livro mais recente de Regina Gouveia está na linha das outras obras infantis, merecendo tal como a anterior figurar nas listas do Plano Nacional de Leitura. A editora, que o incluiu na colecção Ciência e poesia de mãos dadas, foi a mesma que publicou Um Rapaz Invulgar, uma biografia ilustrada de Einstein para infantes, no Ano Mundial da Física. Pelo sistema solar vamos todos viajar, pequeno como convém para gente pequena (só tem 36 páginas), tem papel de boa qualidade, o que valoriza tanto o texto como os desenhos a cores. O conteúdo reparte-se por dois poemas: Era uma vez o Sol e Era uma vez a Lua. O primeiro é uma visita guiada ao sistema solar em que o guia é o próprio Sol, ao passo que o segundo trata das observações da Lua por uma menina, a Gabriela, dona da gata Fofinha (a propósito: a editora, que tem como logotipo uma gata, usa também o imprint… de Gafafunho). Continue a ler

Ciência para Meninos em Poemas Pequeninos


Três poemas do livro “Ciência para Meninos em Poemas Pequeninos“, de Regina Gouveia (com ilustrações de Nuno Gouveia), que acaba de sair na editora Ana Paula Faria (colecção “Ciência e Poesia de Mãos Dadas“):

SOL DE INVERNO

O sol estava tão cansado
e viu mesmo ali ao lado,
uma nuvem tão branquinha.

Como foi que apareceu
esta almofada tão fofinha?
Vou dormir uma soneca.

Um pastor olhou para o céu.
Onde é que o sol se meteu?
Preciso do calor seu,
já não me basta a jaleca.

ARCO-ÍRIS

Era uma vez um dia de Abril,
um dia de chuva, com o sol a espreitar
e no céu, a brilhar, um arco de cores.
Uma era vermelha, outra alaranjada,
havia uma verde, uma amarelada,
uma violeta, uma era azulada
e uma outra anil.
Que arco tão lindo brilhava no céu!
O nome arco-íris não sei quem lho deu.

AVESTRUZ

A avestruz tentou voar mas,
catrapuz, caiu no chão.
Deu um grande trambolhão.

Pôs-se logo a cogitar:
Não nasci para voar.
E foi então, ligeirinha,
dar mais uma corridinha.

O blogue da autora é aqui.

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ALICE E A MATEMÁTICA

Na “New Scientist” de 16 de Dezembro, Melanie Bayley escreve sobre “Alice no País das Maravilhas” do clérigo e matemático Lewis Carrol, argumentando que é preciso saber a história da matemática no século XIX para compreender a ficção. Um excerto:

“Take the chapter “Advice from a caterpillar“, for example. By this point, Alice has fallen down a rabbit hole and eaten a cake that has shrunk her to a height of just 3 inches. Enter the Caterpillar, smoking a hookah pipe, who shows Alice a mushroom that can restore her to her proper size. The snag, of course, is that one side of the mushroom stretches her neck, while another shrinks her torso. She must eat exactly the right balance to regain her proper size and proportions.

While some have argued that this scene, with its hookah and “magic mushroom”, is about drugs, I believe it’s actually about what Dodgson saw as the absurdity of symbolic algebra, which severed the link between algebra, arithmetic and his beloved geometry. “

Ler tudo aqui.

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A Odisseia adaptada para jovens

Frederico Lourenço prossegue o seu intuito de divulgação dos clássicos com a adaptação da Odisseia para os leitores mais jovens.
Esta obra foi publicada pela Editora Cotovia, que tem promovido nos últimos anos traduções, por especialistas, de obras clássicas.

Reveja-se o catálogo aqui.

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Livro e Leitura entre os Jovens

Informação recebida da Imprensa da Universidade de Coimbra

O colóquio Livro e Leitura entre os Jovens terá lugar nos próximos dias 17 e 18 (3.ª e 4.ª feira) de Novembro.

Esta iniciativa visa lançar a discussão entre Ministério da Educação, professores, responsáveis por bibliotecas, escritores, jornalistas, bloggers, editores e jovens universitários acerca da evolução dos hábitos de leitura entre a juventude portuguesa e das implicações desta realidade na sua capacidade de expressão escrita e oral.

Para consultar o programa clicar aqui.

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As fadas gostam da cor verde…

A fantasia humana tem gerado inúmeras e admiráveis criaturas: belas, horríveis, malignas, perspicazes, ternas, caprichosas, vingativas, alegres, vaidosas, justas, paradoxais…

Jorge Luís Borges, numa viagem pela escrita que tem sobrevivido aos tempos, revela algumas das que emergiram nas mitologias e nas religiões em vários cantos do mundo, entre helénicos, judeus, persas, egípcios, chineses, nórdicos, europeus ocidentais, africanos, árabes, americanos do norte e do sul, esquimós…

O resultado é O Livro dos Seres Imaginários, que, com a colaboração de Margarita Guerrero, foi terminado em 1967.

Nele, Borges relembra entidades tão antigas, que não é possível deslindar as origens, mas também evoca algumas recentes, ainda ligadas aos seus criadores (Franz Kafka, Edgar Allan Poe, por exemplo). Umas são-nos mais estranhas e outras mais familiares, mas, mesmo estas podem ter facetas que poucos conhecem: é o caso das Fadas. Escreveu o autor:

O seu nome vincula-se à palavra latina fatum («fado», «destino»). Intervém magicamente nos sucessos dos homens. Diz-se que as Fadas são as mais numerosas, as mais belas e as mais memoráveis das divindades menores. Não estão limitadas a uma única região ou só a uma época. Os antigos Gregos, os Esquimós e os Peles-Vermelhas narram histórias de heróis que conseguiram gozar do amor destas fantásticas criaturas. Tais aventuras são perigosas: a Fada, uma vez satisfeita a sua paixão, pode causar a morte aos seus amantes.
Na Irlanda e na Escócia atribuem-lhe moradas subterrâneas, onde se juntam aos filhos e aos homens que costumam sequestrar. As pessoas acreditam que possuíam as pontes de flechas neolíticas que exumam nos campos e as dotam de infalíveis virtudes medicinais.
As Fadas gostam da cor verde, do canto e da música. Em finais do século XVII, um eclesiástico escocês, o reverendo Kirk, de Alberboyle, compilou um tratado intitulado A secreta República dos Elfos, das Fadas e dos Faunos. Em 1815, Sir Walter Scott mandou imprimir essa obra manuscrita. Do senhor Kirk diz-se que as Fadas o arrebataram porque tinha revelado os seus mistérios (…).”


Estas Fadas pouco têm a ver com as criaturas doces e maravilhosas do mesmo nome que habitam os livros que as nossas crianças lêem e que passam para o seu imaginário. Pois é, as criaturas mudam em função da vontade dos humanos e em tempos mais recentes, os humanos preferem as Fadas etéreas, intrinsecamente puras, que, na sua generosidade, acompanham e amparam os bons e desprotegidos nos seus desejos e dificuldades. Continue a ler