Blogs de Ciência

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Archive for the Literatura e Ciência

Literatura e Ciência (20): José Cardoso Pires, a “prudência científica” e os porcos-voadores

A rubrica Ciência e Literatura regressa hoje, revisitando as palavras e o estilo de escrita rigoroso e minucioso de José Cardoso Pires. Ele próprio com um percurso pessoal se cruzou com o mundo científico (foi aluno de Rómulo de Carvalho [divulgador científico que apaixonou gerações e o mesmo que usava, na poesia, o pseudónimo de António Gedeão] ainda no Liceu e passou pela Faculdade de Ciências de Lisboa, onde frequentou (sem concluir) o curso de Matemáticas Superiores.
Talvez por isso, ou se calhar por nada disso, raramente abdica de piscar um olho, ainda que com a sua afiada ironia, ao pensamento científico. Mesmo que, como neste excerto (retirado de “Ascensão e queda dos porcos-voadores”, conto que integra a obra “A República dos Corvos” (1988)), a narrativa surja na sequência de um Juiz aposentado que tem a assombrosa visão de porcos-voadores com asas de morcego e decide partilhar a sua descoberta com um Cirurgião, ambos a frequentarem um “tratamento de águas numas termas”. Sem mais demoras: Andante, andante.

«E um dia, para seu assombramento, viu-os passar outra vez. A eles, aos porcos-alados. Em bando. Cruzando os céus à mesma hora e na mesma direcção das outras vezes. O Juiz regulou o binóculo até ao olho-limite, até à verdade impossível. E confirmou. Certo, os porcos do sol poente.
Com a alegria do investigador que acaba de comprovar a sua descoberta, correu à procura do Cirurgião Sequera. (…) o magistrado conduziu o médico à varanda do salão de música e ali, a sós, comunicou-lhe o acontecimento apenas no essencial, o resto ficaria para depois.
Este, na sua qualidade profissional, teve a natural hesitação do prático científico perante o fenómeno inesperado: não só pôs respeitosas reticências no tocante aos estranhos vultos alados como admitiu que a refracção das nuvens sangrentas do ocaso fosse a causa de tão intrigantes imagens. Consequentemente, punha à meritíssima consideração do Juiz a probabilidade, naturalíssima aliás, de ter sido vítima de qualquer miragem frente à solidão do oceano e à luz agonizante da tarde.
Visivelmente compreensivo, o Doutor Juiz manifestou todo o apreço pela prudência científica do Doutor Cirurgião em relação ao fenómeno. Reconhecia que, embora transmitido sob palavra do magistrado, o assunto tinha que se lhe dissesse. Óbvio. Em matéria de conclusões a dúvida era essencial. Indiscutível. Até aí não podia deixar de concordar. Não obstante, com Juiz de

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Literatura e Ciência (18): Jorge Sousa Braga e uma crença “cada vez mais ténue” nas ciências tradicionais


«Deixara de acreditar nas ciências tradicionais, desde que se sentara em frente de uma montanha e gritara morango e a montanha lhe devolvera cinquenta alperces, e ele gritava vermelho e a montanha lhe devolvera rosa rosa rosa, uma rosa cada vez mais ténue.»

Jorge Sousa Braga, O poeta nu [poesia reunida]

Publicado por Sílvio Mendes

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Literatura e Ciência (17): O que é que a Grécia tem? “Tudo”, diz alguém


Apaixonante livro de História, escrito (a pensar nos mais pequenos) por E. H. Gombrich e, às páginas tantas, uma quase declaração de amor pela Grécia Antiga. Em que ano estamos? Algures a partir de 444 a.C., num governo de Péricles.

«Já te ouço a perguntar: «Mas o que é que eles fizeram que fosse assim tão fabuloso?» Só tenho uma resposta: «Tudo». Havia no entanto duas coisas que tinham mais interesse para eles e que eram a verdade e a beleza.
(…)
Os Jónios das colónias já reflectiam há muito tempo sobre a matéria de que era realmente feito o mundo e sobre qual podia ser a causa de todos os fenómenos e acontecimentos.
É a este tipo de reflexão que se chama filosofia. No entanto, em Atenas, a reflexão – ou o filosofar – desenvolveu-se muito mais. Os Atenienses queriam saber como deviam agir as pessoas, o que era o bem e o que era mal, o que era justo e o que era injusto. Queriam encontrar uma explicação para a existência humana e descobrir a essência de todas as coisas. (…) Não se limitavam a imaginar o mundo de uma maneira diferente, viam-no de facto com olhos diferentes».

E. H. Gombrich, Uma Pequena História do Mundo

Publicado por Sílvio Mendes

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Literatura e Ciência (16): O rei Dom Carlos e a paixão pela oceanografia


Hoje partilhamos o excerto de um conto para os mais pequenos que se centra nas ambições oceanógrafas do Rei Dom Carlos. Assinado pela bióloga marinha, Raquel Gaspar, o conto O Sonho do Rei Dom Carlos integra a compilação Histórias d’ouvir e contar…, editada pela Câmara Municipal de Sesimbra.

«Dom Carlos e o príncipe Alberto passaram muitos dias a falar sobre o mar. Ambos queriam descobrir como era o seu fundo. Imaginavam como seriam as fossas abissais. As fossas abissais são os sítios mais profundos do mar, têm uma forma parecida com a de um vale muito cavado. São tão fundas que a luz do sol não consegue lá chegar e também por isso eram sítios desconhecidos. Tinha sido há pouco tempo que os cientistas haviam descoberto existir vida a tais profundidades! Mas o rei sabia que os pescadores de Sesimbra já sabiam disto há muito tempo.
(…)
Se ele conseguisse descobrir que peixes lá viviam, com certeza encontraria criaturas fantásticas, desconhecidas para os cientistas. Se ele conseguisse saber como era o fundo do mar, poderia fazer um mapa com os seus altos e baixos, planícies e vales submarinos profundos.»

Raquel Gaspar, O Sonho do Rei Dom Carlos, in Histórias d’ouvir e contar…, Câmara Municipal de Sesimbra (2009)

Publicado por Sílvio Mendes

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Literatura e Ciência ( 15): surrealismo de Cesariny atira Newton para um buraco negro


SOMBRA DE ALMAGRE

Buraco-negro-com-barba-postiça-de-Newton
ou pirâmide de De?

A pirâmide de De
com saltos altos e rara elegância de meios
caminha um mililímetro por segundo
em direcção a Maar

O qual em movimento inverso se expande
(tahafut-ul-tahafut) à razão
de 2 tri-leões por sebe. Por
outro lado

Se houvermos por verídico o retrato
que Blake fez de Newton
este NÃO TINHA BARBA (relativamente) (nenhuma)
e assim

Não haverá
qualquer porção
de almagre

o espaço come porém não altera
que os poços escaleres
possam nunca afastar-se
(ou precipitar-se)

de De
ou de Maar »

Mário Cesariny, in Pena Capital

Publicado por Sílvio Mendes

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Literatura e Ciência (14): Sérgio Godinho «nunca tinha visto a lua tão perto de Vénus»

Sérgio Godinho começa a ser um caso sério neste blogue. Já o apresentámos em versão vídeo, em versão letrista de fado, e agora voltamos à carga com um poema, retirado do livro O Sangue Por um Fio (Assírio e Alvim, 2009).

«Noite de estrelas e planetas

Noite de estrelas e planetas
não estava previsto.
O certo é que tinha estafado os olhos
numa tarde ensanguentada
e agora quero ver como é por dentro:

Constelações alinhadas ao sol poente
por ordem do caos sem nome
prontas a aprumar-se ao mínimo clarim
por ordem da sua entrada
nos desenhos do universo
(ao sol poente
desce o sangue a outra morte, está previsto
e desenhado).

Nunca tinha visto a lua tão perto de Vénus
por cima de Júpiter já foge, a hora é fugaz –
ao sentimento fugaz desce a noite antiga
segue o rumo.

Avisei, durante o dia, para a noite e o seu tamanho
e já portanto
não há surpresa que escureça
a incandescência
(vês por dentro? são estrelas ou planetas?).
Luz própria é mensageira
luz reflexa quem a sorve.

Ou está tudo
os recados
por abrir?»

Publicado por Sílvio Mendes

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Literatura e Ciência (13): a descoberta da cura para o “vírus da vida” num conto de JP Simões

JP Simões, o aclamado artista português autor do álbum 1970, compõe, canta mas também escreve. O vírus da vida (2007) é uma compilação de contos (escritos em 1996) e conta com ilustrações de André Carrilho. U.P.S. é o conto que aqui transcrevemos, uma incursão do artista pelo mundo da ciência, recorrendo à ironia, ao humor, à ética e à criatividade.

«Algures num laboratório subterrâneo nas imediações de Dallas, Thompson King, destacado investigador de Biologia, descobriu a cura para a mais tortuosa doença que a humanidade conheceu até hoje: o Vírus da Vida.

Depois de 20 anos de trabalho árduo ao serviço da multinacional Up-We-Go Products Society (U.P.S.), depois de perder o cabelo e a cor da pele infligindo experiências biomoleculares a si mesmo, King sentiu o fulgor da descoberta e ligou imediatamente para a comissão administrativa de modo a convocar uma reunião extraordinária.

Reunidos os gestores, num escritório subterrâneo com acesso a um casino em Las Vegas, logo eficazes executivos delinearam estratégias de comercialização. Como a cura para a famigerada doença só estava prevista para dali a dez anos, avançou Bill Software, a melhor coisa a fazer seria ir lançando novos produtos intermédios até chegar à cura, rentabilizando assim a descoberta… e por dez a quinze anos! Para tal, têm de se fornecer pistas desviantes às companhias concorrentes para que não cheguem entretanto ao mesmo resultado; simular experiências falhadas em doentes profundos, provocar explosões nos próprios laboratórios, criar associações de solidariedade de modo a sugerir a falta de confiança nas investigações. Enfim, brindaram ao sucesso da empresa e foram todos divertir-se para a roleta, gastando já o lucro futuro com animado optimismo.

Só uma coisa os afastava do plano perfeito: as minhoquices éticas de Thompson King, que ameaçou deitar tudo a perder em nome da humanidade e de outras patranhas que já ninguém recordava o que significavam. Talvez uma explosãozinha, atalhou um dos gestores. Mas Software, mais hábil e polido, já tinha a solução, «Basta curá-lo!». E a roleta girou.»

Publicado por Sílvio Mendes

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Ciência e Literatura (12): a memória de Luis Buñuel

Em “O Meu Último Suspiro”, livro semibiográfico, Luis Buñuel viaja pelas memórias de uma vida recheada de episódios, encontros e desencontros: Llorca, Breton, Dali, Hollywood, a sua infância em Espanha, o amor, os sonhos e o surrealismo, entre outros.

Relevante e curioso é o facto de Buñuel dedicar um capítulo para falar da memória, e da sua fiabilidade ou falsidade.

Tendo em conta o constante recurso à imaginação e ao devaneio nas suas criações artísticas, poder-se-ía pensar que este seria para Buñuel um terreno pantanoso, e por isso, a evitar.
Mas logo de ínicio, antes de começar a evocar o passado, Buñuel adverte o leitor para a possibilidade de haverem falsas recordações evocadas nas páginas seguintes:

” (…) Uma vida sem memória não seria vida. (…) A nossa memória é a nossa coerência, a nossa razão, a nossa acção, o nosso sentimento. Sem ela, não somos nada.
(…) Indispensável e omnipotente, a memória é também frágil e ameaçada. Ameaçada não só pelo esquecimento, o seu velho inimigo, mas também pelas falsas recordações que a invadem dia após dia. Um exemplo: durante muito tempo contei aos meus amigos o casamento de Paul Nizan. Via perfeitamente a igreja de Saint-Germain-de-Prés, a assistência de que eu fazia parte, o altar, o padre, Jean-Paul Sartre enquanto testemunha do noivo. Um dia, pensei bruscamente: mas é impossível! Nunca o Paul Nizan, marxista convicto e a mulher, que pertencia a uma família de agnósticos, casariam pela Igreja! Era absolutamente impensável! Teria então transformado uma recordação? Tratar-se-ía de uma recordação inventada? De uma confusão? Ainda hoje não sei.
A memória é constantemente invadida pela imaginação e pelo devaneio, a assim como existe a tentação de acreditar na realidade do imaginário, acabamos por fazer da nossa mentira uma verdade. O que é, aliás, de uma importância relativa, já que uma e outra são igualmente vividas e pessoais.
(…) Sou composto pelos meus erros e dúvidas, a par das minhas certezas. Não sendo historiador, não recorri a quaisquer apontamentos ou a qualquer livro. O retrato que aqui proponho será sempre o meu, com as minhas afirmações, hesitações, repetições a lacunas, com as minhas verdades e as minhas mentiras, numa palavra: a minha memória.”

Publicado por Pedro Falcão

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Ciência e Literatura (11): (Outra vez) Cardoso Pires, O Delfim e o cosmonauta Edwin Aldrin

«Edwin Aldrin encara-me: Com os seus lábios brancos de americano engarrafado em aço.»

Voltamos à obra-prima de José Cardoso Pires. Não há muito que possa ser dito sobre um livro em que cada página é um tesouro, aqui desviado para os nossos interesses de Ciência e Literatura.
Na Gafeira (localidade imaginária onde se desenrola a narrativa d’ O Delfim), em véspera de dia de caça, o narrador abre um jornal. E reflecte, baralha e partilha tudo. O excerto (ainda que amputado) ainda é grande, mas a Obra justifica-o. Aqui vem, ele entre aspas.

«Só agora, dezoito horas catorze minutos, chegam os jornais da tarde, e faço votos que com notícias de bom tempo. Oxalá. Para honra e glória do melhor ganso da época, é indispensável que a criadita me traga um bom Diário de Lisboa ou um bom Diário Popular que não me falem de chuva nem vento forte e ainda menos de trovoada.
(…)
Estendo-me na cama a ler o jornal.
(…)
Este, em particular, vem exausto. Mensageiro maltratado mas convencido (em artigos de fundo e notas do dia) do seu Valiosíssimo Papel de Órgão de Informação nas Estruturas Nacionais, chegou à Gafeira muito composto de bom senso e com a autoridade de ter preenchido as vinte e quatro páginas que lhe competem. Chegou cansado; sem voz, pode dizer-se. Abre-se e pouco adianta, a não ser para os desconfiados leitores das entrelinhas. Mas, vá lá, mal ou bem sempre faz um prometedor boletim meteorológico. Esperemos que não falhe. Que, ao menos, não seja tão desastrado como certas previsões da NASA – lembro-me eu, deparando com a fotografia de Edwin Aldrin a sorrir a duas colunas na primeira página.

UM LAVRADOR FESTEJOU O NASCIMENTO DE UM FILHO VARÃO

Beja, 30 – Mais de 500 convidados festejaram no Monte de Santa Eulália, propriedade do Sr. Patrício Melchior, o nascimento do primeiro filho varão daquele lavrador.
Consumiram-se, entre outras iguarias, doze perus, vinte e quatro cabritos, quinze leitões, trinta e um frangos e cem quilos de borrego. Beberam-se cem litros de vinho, quatrocentas cervejas, duzentas garrafas de whisky…

… e isto, parecendo que não, é um desafio ao sorriso de Edwin Aldrin. Ri-te cosmonauta inacessível, das vitórias que se ganham cá em baixo, e não te espantes. Conheço, meã culpa, vários cidadãos de lavoura-e-cabaré capazes de pensar como o

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B Fachada, o músico em ascensão que trocou o estudo da Física pelas aulas de Literatura

(c) Foto de Vera Marmelo

Em entrevista publicada na edição de Dezembro da revista Aula Magna, o músico da Flor Caveira explica por que razão abdicou de uma Licenciatura em Física para poder dedicar-se ao estudo da Literatura. As razões são mais de ordem afectiva e B Fachada até sustenta que a sua passagem pela universidade não tem em vista uma profissão, mas ainda assim vale a pena conferir o que diz sobre o assunto um dos mais promissores músicos da nova vaga nacional.

«Por que razão escolheste o curso de Literatura?
Estive em Física primeiro, no Instituto Superior Técnico, e só mudei para Literatura, já na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, passados dois anos e meio.

Foi uma mudança drástica.
Era o que fazia sentido. E devia ter ido para Literatura desde o início. Mas acabei por decidir só a meio. Escolhi a Universidade Nova de Lisboa por causa do [poeta e ensaísta] Alberto Pimenta.

Como foi a experiência de física?
Curta, mas boa. Estar numa universidade a sério, que funciona bem, em que nunca se está mais de 10 minutos na fila para a secretaria, ter colegas que percebem do que se está a estudar, é algo que nunca se esquece. É uma experiência que se deve ter pelo menos uma vez na vida.

O que te interessou inicialmente na física?
Segui Ciências [no secundário] e dentro dessa área a única coisa que fazia sentido para mim era Física, sobretudo a parte experimental e de laboratório. Era algo de que gostava muito. Na altura a minha perspectiva era estudar por estudar e, nesse sentido, fui para Física. A minha passagem pela universidade nunca teve em vista uma profissão. O mesmo se passa agora com a licenciatura em Literatura. Apenas quero passar uns tempos a estudar e esticar esse período o mais possível.»

Publicado por Sílvio Mendes

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