Sobre a língua portuguesa

Carlos Fiolhais @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, língua
É sempre um gosto ler Onésimo Almeida, professor na Universidade Brown, nos EUA. Eis um excerto de um seu artigo sobre a língua portuguesa e a lusofonia, que publicou aqui: "A língua é mais um reflexo, ou espelho, do que colectivamente somos, do que o inverso. Noutras palavras, não somos o que somos por causa da língua que falamos, e a nossa língua não é melhor do que as outras naquilo em que não formos melhores do que os outros. Os brasileiros desengravataram o português (como diria Vinicius de Morais) e a língua que tinham era a nossa, barroca, dos séculos XVII e XVIII. Os americanos arregaçaram as mangas ao inglês e vestiram-lhe jeans. A língua portuguesa não é mais ou menos fraterna do que as demais, nem mais ou menos dominadora ou dialogante que as suas congéneres (Alfredo Margarido cita o gramático João Ribeiro para quem o português não seria “uma língua de diálogo, mas de dominação e de ordens”[13]. Ela foi perra e atada no tempo do fascismo, e era a mesma descendente de Camões e de Eça. Hoje está solta (para alguns, ...

A “cicuta de Sócrates às colheres”: A polémica portuguesa do século XIX aos nossos dias

De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Livros, Política, língua
Nova crónica de Rui Baptista: “Um dia, quando olhares para trás, verás que os dias mais belos foram aqueles em que lutaste” (Sigmund Freud) A polémica com uma forte componente agonística tem raízes profundas na tradição portuguesa e no contexto europeu. Mas para que se afirme em toda a plenitude e riqueza argumentativa é condição, “sine qua non”, não haver despotismo que combata ferozmente a liberdade de expressão. Um ataque sem quartel a este direito teve lugar na Inglaterra, no decurso do século XVIII, quando o bispo e filósofo George Berkeley (1685-1753) escreveu e fez publicar, no jornal “Guardian”, uma série de artigos contra os livres pensadores. Passado mais de um século, neste rectângulo peninsular assistiu-se a uma polémica de grande escândalo nacional com o encerramento das chamadas “Conferências do Casino”, por ordem do tristemente célebre ministro Ávila e Bolama. Este “acto tolo” (Antero) suscitou o protesto veemente dos seus organizadores: “Em nome da liberdade de pensamento, da liberdade da ...

O “bullying” e os estrangeirismos

De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, língua
Novo post de Rui Baptista: Viajando em malaposta, as novidades vindas lá de fora levam o seu tempo a chegar até nós, mas quando chegam chegam em força. Num dos media (palavra latina adoptada pelos ingleses usada entre nós sem qualquer restrição, a ponto de hoje se escrever desnudada de aspas ou da grafia em itálico), é noticiado um novo caso de “bullying” da responsabilidade de um criança em transição para o período da adolescência: “O tema está em voga e os casos sucedem-se. O mais recente foi em Castanheira de Pera, onde um aluno de 12 anos da Escola Básica 2.º e 3.º Ciclo Byssaia Barreto agrediu uma professora. A situação foi de tal maneira grave que até a GNR foi chamada ao local” (“Diário as Beiras”, 19.Abril.2008). Dias atrás, vi-me confrontado com um comentário feito ao meu “post” – “A DREN e o segredo de polichinelo” (13.Abril,2009) –, em que me foi feita a proposta da substituição da palavra inglesa “bullying” por uma outra genuinamente portuguesa. Mas como traduzir em uma só palavra um conceito tão abrangente como “actos de agressão ...

Biblioteca Joanina Virtual

De Rerum Natura Categorias: Arte, Ciência Geral, Tecnologia, língua
Outro despacho recente da Lusa, desta vez sobre a Biblioteca Joanina:Coimbra, 22 Fev (Lusa) - Uma visita virtual à Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra vai ser possível na Internet e num DVD que mostra o monumento do barroco português em três dimensões, desvendando até alguns aspectos normalmente inacessíveis. A visita em ambiente virtual permitirá apreciar pormenores do monumento não visíveis a olho nu - como os frescos dos tectos - e até penetrar em espaços não acessíveis ao público, nomeadamente os seus dois pisos subterrâneos.Carlos Fiolhais, director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC) - que integra a Biblioteca Joanina - disse à agência Lusa que o DVD deverá estar concluído em Março e será distribuído em seis línguas. Além de permitir a visualização do monumento nacional, incluirá também a digitalização integral de um conjunto de 21 obras, seleccionadas entre as mais raras e valiosas do "rico espólio bibliográfico e documental" da Biblioteca Geral.Entre as primeiras edições que se poderão "folhear" no DVD e no sítio na Internet constam a "Peregrinação" (1614), de Fernão Mendes Pinto (o original foi recentemente mostrado ao Presidente da República na ...

Filosofia Palatável

Gilberto Miranda Jr. @ Filosofando na Penumbra - Miranda Categorias: Ciência Geral, Filosofia, língua
Há algum tempo atrás escrevi um poema (quando participava da Companhia Literária Mote Perpétuo em 99 – com meus amigos diletos Alaércio, César e Cláudio), que falava justamente sobre o poder da língua, da boca. Parece-me hoje que valha a reprodução:Se quiser ouvir essa poesia, clique em Play abaixoA boca escreve das coisasSó o que as coisas têm de inefáveis,A boca come, ingere, mastiga...Ela mente, xinga, ri e trai...A boca regurgita, aspira ao pulmãoCoisas que nos mantém vivos.A boca desenha a vida em nossas almas,A boca abocanha, escancarada,A vida brotando nela, engoleA mixórdia do mundo kaos...A boca é caos com K, Grecolatinamente boca,Cantada, decantada, encantadaBoca sem dente, luva desbocada,Amada boca, de palato e salivaDe solitude e palavras,De sotaque e SomáliasFamintas e certeiras...Boca que procura bico,Tórax; da cópia, coronária,Canária, canto úmido das bocas sedentas...Sandálias, da boca pescadora, do peixeQue morre pela boca, mas não escreveQue mata, mordendo o manto da morteBoca morta, entreabertaEm arcadas jogadas, exumadas,Ex humanos de bocas caladas,Na calada dos guetos, boca do lixo......

O exame de acesso à carreira docente

De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Ensino, Sistema educativo, língua
Já faltava esta semana a habitual colaboração de Rui Baptista sobre questões pedagógicas. Aqui está:“A resignação passiva, por ensurdecimento progressivo do ser, é o falhanço completo e sem remédio” - Sophia de Mello Breyner.A formação dos futuros professores deixa muito a desejar. Segundo notícia do “Expresso” (9.Fev.2008), intitulado “Erros nas universidades”, os alunos mais responsáveis da Faculdade de Letras de Lisboa queixam-se de que os “maus tratos do Português chegam ao corredor da universidade. Temos colegas que dizem ‘púzio’ (em vez de ‘pu-lo’(…). ‘Fizestes’, ou ‘dizestes’, em vez de ‘disseste’ ou’ fizeste’, ‘derivado a…’ ou ‘ténhamos’ são mais alguns exemplos do que os estudantes escutam a toda a hora” . Se é assim que falam, difícil não me parece descortinar erros de palmatória no que concerne a textos seus manuscritos numa sociedade em que os correctores de texto dos computadores “escrevem” pelo autor.O “púzio” vem mesmo a calhar para “certificar” uma história passada numa escola secundária. Um docente chega à sala de professores com ar de ferrabrás, e diz: “Hoje um aluno portou-se mal na aula e eu ‘púzio’ na rua”. Estava presente um outro professor que ...

Vale a pena ler

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, língua
Título: Empires of the Word: A Language History of the WorldAutor: Nicholas OstlerLondres: Harper Collins, 2005, 615 pp.As dez línguas mais faladas no mundo são as seguintes: o chinês (mandarim), com 1052 milhões de falantes; o inglês, com cerca de metade de falantes (508 milhões), seguido de perto pelo hindi (487 milhões) e pelo espanhol (417 milhões), e depois pelo russo (277 milhões), bengali (211 milhões) e português (191 milhões). O alemão, o francês e o japonês ocupam as últimas três posições. As doze línguas mais faladas do mundo ocupam cerca de metade da população da Terra, e todas tiveram origem na Ásia ou na Europa. As línguas morrem, renascem, adaptam-se e alteram-se e este livro procura ajudar a compreender melhor esta dinâmica. Pleno de factos, mas também de ideias, as suas mais de 600 páginas de grande formato abordam a dinâmica linguística simultaneamente em termos sincrónicos e diacrónicos. O autor conduz-nos por uma história das grandes e pequenas civilizações, da primeira língua clássica — o sumério — à actualidade. A sua preocupação fundamental é compreender como as línguas se cruzam, adaptam, morrem e sobrepõem.O autor defende que não se ...

Governador demite gerúndio

De Rerum Natura Categorias: Política, língua
Por vezes há notícias demasiado curiosas para não serem referidas. Não sabemos se esta em especial terá alguma consequência no Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, pelo que deixamos à análise dos nossos leitores esta possibilidade.Em causa está um decreto publicado na edição de 28 de Setembro do Diário Oficial do Distrito Federal, em que o governador José Roberto Arruda demite o gerúndio de todos os órgãos do GDF. De acordo com a assessoria do governador, tão radical medida deve-se a alguns assessores que estão sempre «fazendo, providenciando, estudando, preparando, encaminhando», mas nunca concluem um trabalho ou estabelecem um prazo para a sua finalização. Arruda perdeu a paciência e proibiu o uso do gerúndio «para desculpa de ineficiência», como se pode ler no texto do decreto que transcrevemos:Decreto nº 28.314, de 28 de Setembro de 2007Demite o Gerúndio do Distrito Federal, e dá outras providências.O GOVERNADOR DO DISTRITO FEDERAL, no uso das atribuições que lhe confere o artigo 100, incisos VII e XXVI, da Lei Orgânica do Distrito Federal, DECRETA:Art. 1º Fica demitido o Gerúndio de todos os órgãos ...

PROVAS DE AFERIÇÃO POR COMPETÊNCIAS E/OU POR CONTEÚDOS?

Categorias: Ensino, Matemática, língua
Entre as vacilações conceptuais que encontramos no nosso sistema educativo - que são muitas e que não são exclusivas dele -, destaca-se uma que tem desencadeado grande controvérsia nos planos político, académico e prático: “o ensino deve ser orientado por competências e/ou por conteúdos?”. Como seria de prever, a falta de uma resposta inequívoca tem tido repercussões na estruturação das provas de avaliação da aprendizagem com carácter nacional. Passo a exemplificar.No documento “Informação sobre as Provas” de aferição de Língua Portuguesa e Matemática para o Primeiro Ciclo do Ensino Básico disponibilizado no sítio http://www.gave.min-edu.pt/np3/7.html, verifico o seguinte: a prova de Língua Portuguesa está organizada a em função de competências (que são em número de três: “compreensão da leitura”, “conhecimento explícito da língua” e “expressão escrita”), não havendo referência a conteúdos; a prova de Matemática está organizada em função de conteúdos (mais precisamente, de “áreas temáticas” que são em número de quatro: “números e cálculo”, “geometria e medida”, “estatística e probabilidades” e “álgebra e funções”), não se fazendo referência a competências (ainda que, do global da informação, se consigam inferir essas competências, que são: “compreensão de conceitos e procedimentos”, “raciocínio matemático”, “comunicação matemática” ...

A POESIA NO 1.º CICLO DO ENSINO BÁSICO

Categorias: Ensino, Poesia, literatura, língua
No Curriculo Nacional do Ensino Básico, datado de 2001, e relativamente ao 1º Ciclo, não consta qualquer referência explícita ao ensino e à aprendizagem da poesia, cabendo esta todavia dentro dos enunciados genéricos das competências transversais da Língua Portuguesa, como “descobrir a multiplicidade de dimensões da experiência humana, através do acesso ao património escrito legado por diferentes épocas e sociedades, e que constitui um arquivo vivo da experiência cultural, cientifica e tecnológica da humanidade”; “assumir o papel de ouvinte atento, de interlocutor e locutor cooperativo na procura de regularidades linguísticas e na formulação das generalizações adequadas para as captar”; “exprimir-se oralmente e por escrito de uma forma confiante, autónoma e criativa”; ou de competências específicas, acentuadamente pouco específicas, como “capacidade para produzir textos escritos com diferentes objectivos comunicativos” e “conhecimento de técnicas básicas de organização textual”; ou ainda de experiências de aprendizagem ou situações educativas, como “audição orientada de registos diversificados de extensão e grau de formalidade crescentes”, “actividades de leitura silenciosa e em voz alta de diferentes tipos de textos”, “actividades de elaboração de vários tipos de textos compositivos”, entre outras.Uma análise do Programa de Língua Portuguesa do 1º Ciclo do Ensino Básico, datado de 1991, permite-nos ...

PARA ESCREVER BEM… É FUNDAMENTAL ESCREVER

Categorias: Livros, cultura, língua
Partindo do princípio que para “escrever bem… é fundamental escrever”, a Editora MinervaCoimbra decidiu lançar uma nova colecção de livros da autoria de jovens, destinada (essencialmente) a leitores jovens e coordenada por jovens.Informam os editores – Isabel e João Manuel Garcia – que nessa colecção, designada por Geração 21, cabe qualquer tema ou estilo literário, mas os textos devem apresentar manifesta qualidade e originalidade. Acrescentam a garantia duma revisão cuidada por professores de Língua Portuguesa.Assim, quem tiver talento e idade compreendida entre 12 e os 21 anos, poderá enviar os seus originais para o seguintes endereços: minervacoimbra@gmail.com, ou Edições MinervaCoimbra, Rua de Macau nº 52, 3030-059 Coimbra.

É ERRADO NÃO PENALIZAR OS ERROS DE ORTOGRAFIA?

Categorias: Ensino, erros, língua
As Provas de Aferição de Língua Portuguesa desencadearam na passada semana uma interessante polémica: devem ou não os erros ortográficos ser objecto de penalização?Neste post convidado, Maria Regina Rocha, professora de Português, apresenta a sua opinião, que foi antes publicada no sítio Ciberdúvidas e transmitida no programa de rádio da Antena 2, “Páginas de Português”, no dia 3 de Junho. “Na Comunicação Social foi referido o facto de, nos critérios de classificação das Provas de Aferição de Língua Portuguesa do 4.º e do 6.º Ano, não haver penalização pelos erros de ortografia numa parte da prova, a que dizia respeito à Leitura, o que suscitou algumas críticas.Como ponto prévio, deverá dizer-se que as provas de aferição não são provas de exame. Aferir significa cotejar com um determinado padrão, verificar se algo está conforme um determinado parâmetro de referência.Ora, segundo o que é referido pelo Gabinete de Avaliação Educacional do Ministério da Educação, as provas destinam-se a avaliar o domínio, por parte dos alunos, de competências essenciais em cada ciclo.No caso da Língua Portuguesa, com estas provas poderá verificar-se:- o domínio dos alunos na compreensão de texto ...

O PORTUGUÊS, LÍNGUA DE CIÊNCIA

Carlos Fiolhais @ De Rerum Natura Categorias: História da Ciência, língua
Texto escrito em colaboração com Décio Ruivo Martins, baseado na intervenção que fiz na "Expolíngua" de Praga em 2006, a convite do Instituto Camões: “O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente a dar por isso”. Álvaro de Campos O Português, a sétima língua mais falada do mundo, é, sem dúvida, uma língua de referência da literatura: da poesia ao romance, do
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