Ago 20
O carcereiro libertário
Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Filosofia
A minha habitual crónica das terças-feiras do Público está publicada aqui.
Vale a pena ler a recensão de Marc Kaufman à biografia de Giordano Bruno, a publicar este mês, da autoria de Ingrid D. Rowland, com o título Giordano Bruno: Philosopher & Heretic (Farrar Straus Giroux).Bruno foi condenado por heresia pela Inquisição, tendo sido queimado vivo. Crime? Ideias, em parte inspiradas pelos atomistas gregos, que nunca foram queimados vivos por elas. Que ideias? Que o universo é infinito no espaço e no tempo, que há outros planetas que poderão ter vida como na Terra, que Deus é imanente ao próprio universo. Eram estas ideias assim tão perigosas? Não, a questão era meramente política: a Igreja Católica queria afirmar o seu controlo sobre a sociedade. Bruno não era menos honestamente crente do que as bestas que o condenaram, e era muito provavelmente mais.Entre outras razões, o caso de Bruno é interessante por causa do paralelo com o debate actual sobre o criacionismo. Não acredito que os criacionistas estão realmente interessados em ideias; penso que fazem do criacionismo um cavalo de Tróia político, apenas, como a Igreja Católica fez com Bruno. E é particularmente risível que o Steven Fuller, um sociólogo que dá ...
Na sequência dos meus posts “Dogmatismo, Mas de Quem?” e “O Que Fazer com os Dons Casmurros?” vamos fazer um passatempo sugerido pelo leitor Medina Carreira. Oferecemos dois exemplares do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, às duas melhores respostas e comentários a esta pergunta:O que podemos fazer para potenciar a inovação académica, sem com isso abrir as portas ao puro disparate?Contam as respostas que tenham data até terça-feira, às 23:59. O que conta é a data e hora que surge no próprio comentário, por isso fique atento à diferença entre essa data e a data do país em que vive.Bom trabalho!
Um leitor anónimo, a propósito do meu post anterior, levanta a questão de saber o que podemos fazer perante os casmurros, que entopem os sistemas académicos, impedindo a criatividade e a inovação. E faz algumas sugestões com as quais concordo. Mas há dois aspectos que importa sublinhar.Primeiro, o que eu descrevi não se aplica apenas à ciência, mas a qualquer actividade cognitiva — história, filosofia, economia, matemática, etc. Há uma tendência, sempre que se fala em peer-review, de pensar apenas em ciências como a física ou a biologia, e isto é de um provincianismo atroz. O mesmo sistema de peer-review existe em filosofia — bem ou mal feito, mais a fingir ou mais genuíno real, mas existe. Até há poucos anos, tal coisa era relativamente desconhecida em Portugal, nos meios filosóficos, quando ajudei a fundar a revista Disputatio. Mas hoje já nem em Portugal isso é desconhecido nesses meios, e é certamente bem conhecido no Brasil, onde agora trabalho.Segundo, um aspecto crucial do sistema é... haver vários sistemas. É crucial que haja várias agências de apoio à investigação, várias universidades, vários grupos de trabalho. Esta diversidade é crucial e ...
Acaba de ser lançado em Portugal o livro Que Diria Sócrates?, org. por Alexander George, com tradução de Cristina Carvalho e revisão científica de Aires Almeida, na colecção Filosofia Aberta, da Gradiva. Este livro colige algumas das perguntas e respostas mais interessantes que surgiram no site askphilosophers.org e mostra bem como reagem os filósofos de hoje às perguntas que as pessoas comuns lhes fazem. Da morte à arte, da ética à ao sexo, do terrorismo à liberdade, vários temas de interesse comum são abordados por vários filósofos neste original livro.
Reagindo à minha última crónica do Público, um leitor queixa-se do dogmatismo de muitos cientistas, que impedem assim o trabalho criativo dos cientistas jovens. Isto é sem dúvida verdade, e é verdade em todas as áreas: nas artes, nas ciências, na filosofia. Em todas estas actividades se depende de praticantes mais velhos dessas mesmas disciplinas que decidem que apoios se dá a quem, o que é e o que não é publicado, quem é e quem não é aprovado para fazer um doutoramento ou um pós-doutoramento ou um projecto de investigação. Evidentemente, não há outra maneira de fazer as coisas, dado que não há recursos para aceitar tudo o que qualquer pessoa queira fazer. Alguém tem de decidir e as melhores pessoas para decidir isso têm de ser as pessoas que são da própria área, ao invés de burocratas ou políticos ou algo desse género. Chama-se a isto “peer-review”, em inglês, e eu não sei como se diz em português.Como a democracia, nenhum sistema de peer-review é perfeito — porque as pessoas não são perfeitas. Muitas pessoas são obstinadas, dogmáticas, retrógradas, motivadas por ódios e amores pessoais, tolas, pouco profissionais, com ...
A minha habitual crónica das terças-feiras do Público:Num livro que todas as pessoas deveriam estudar atentamente, Sobre a Liberdade (Edições 70, 2006), John Stuart Mill (1806–1873) defende a liberdade de discussão e expressão com argumentos epistémicos muitíssimo engenhosos e importantes. No coração da sua argumentação está uma banalidade epistémica: somos falíveis. Contudo, Mill mostra que apesar de qualquer pessoa aceitar em conversa prontamente que é falível, age depois como se não o fosse, e são essas pessoas precisamente que não conseguem compreender o valor fundamental da liberdade em geral e da liberdade de discussão em particular.Há uma tendência infeliz para se presumir que alguns seres humanos têm um acesso privilegiado à verdade. Isto é a negação directa da banalidade anterior, pois se fosse verdade que alguns seres humanos têm um acesso privilegiado à verdade, seria falso que somos todos falíveis. A ideia de que houve génios no passado (inspirados ou não pelo Espírito Santo) é uma encarnação da mesma ideia directamente contraditada pela banalidade que todos dizem aceitar. Daí que algumas pessoas dediquem anos de estudo dogmático à arqueologia do pensamento de um determinado autor, pois estão convencidas de que esse autor ...
Acabo de saber que a minha tradução do clássico de Russell, Os Problemas da Filosofia, editada pelas Edições 70, está já disponível nas livrarias brasileiras. Em Portugal deverá estar disponível em breve. Além de traduzir, escrevi uma introdução (que espero ajudar a compreender melhor as ideias e argumentos apresentados por Russell), assim como algumas notas explicativas.Espero que estudantes, professores e público em geral goste desta edição, que fiz com muito carinho por gostar imenso da prosa de Russell e da solidez do seu pensamento.Para esta edição tive a colaboração crucial do meu amigo e colega Sérgio R. N. Miranda, da UFOP, que traduziu um prefácio alemão de Russell; da Palmira e do Carlos, companheiros deste blog, no que respeita ao esclarecimento da relação entre Einstein, o éter e a experiência de Michelson-Morley; e também de Kenneth Blackwell e Sheila Turcon, dos Arquivos de Bertrand Russell da Biblioteca da Universidade de McMaster (Canadá).Aqui encontra-se um excerto da minha algo longa introdução, assim como um excerto do próprio texto de Russell. Como sempre, todas as críticas e sugestões são bem-vindas.Por ser uma obra clássica e ao mesmo ...
No livro “Grandes Ideias Perigosas”, recentemente saído em Portugal, mais de uma centena de cientistas, desafiados pelo sítio “Edge” de John Brockman, o “apóstolo da Terceira Cultura”, lançam outras ideias, tão ou mais perigosas do que as 23 ideias subjacentes às questões de Steven Pinker, por remarem de algum modo contra correntes maioritárias. Quer se concorde ou não com as respostas dadas, não há dúvida de que as questões são intelectualmente estimulantes. Ele próprio, além de ter redigido a Introdução, é um dos autores que apresentam as suas ideias perigosas favorita. Trata-se no seu caso de uma generalização da questão 1: “Os grupos humanos podem diferir geneticamente nos seus talentos e temperamentos médios”. Segundo ele, as diferenças entre géneros são “razoavelmente fortes”, ao passo que as diferenças raciais e étnicas “são-no bastante menos”. Lembro que 2005 o Reitor da Universidade de Harvard, Lawrence Summers, se viu obrigado a demitir-se por ter expresso, ainda que de forma suave, essa ideia. Apesar de Pinker e (poucos) outros o terem defendido, o clamor de indignação foi tremendo e talvez tenha sido mais do que uma coincidência o facto de a ter sido escolhida ...
Na sua Introdução ao livro ”Grandes Ideias Perigosas” (coordenação de John Brockman e posfácio de Richard Dawkins), recentemente publicado pela editora Tinta da China de Lisboa, o psicólogo canadiano, professor da Universidade de Harvard, Steven Pinker, coloca 23 questões perigosas, algumas delas muito perigosas, que aqui apresento de forma numerada como desafio ao leitor. Se o leitor se sentir provocado por estas questões, julgo que Pinker terá alcançado o seu objectivo: inquietar. Terão as mulheres, em geral, um perfil de aptidões e emoções diferentes do dos homens? Será que os acontecimentos descritos na Bíblia foram fictícios – não só os milagres, mas também os que envolvem reis e impérios? Terá o estado do meio ambiente melhorado nos últimos 50 anos? Será que, na sua maioria, as vítimas de abuso sexual não sofrem danos que duram para o resto das suas vidas? Será verdade que os americanos nativos praticavam ...
Quando se diz que a Metafísica é a ciência do Ente enquanto Ente, ou do Ser enquanto Ser, este “enquanto” que formata a idéia exprime o ponto de vista do qual se considera o Ente, o Ser, formalmente. Nesse aspecto, a Metafísica estuda e entende o Ser na medida em que ele é tomado em si mesmo, independente de como ele se manifesta em sua diferença, variedade, diversidade, ou em qualquer categoria determinada e particular em que ele possa ser tomado e identificado. Existencialmente, poderíamos dizer que a metafísica preocupa-se com a essência e não com o acidente que pode nos mostrar um Ser numa variedade que o vele, o esconda atrás de aparências.Até aqui, tudo bem. No entanto, ela se configura aos olhos incautos como “viajante” na medida em que parte de pressupostos indemonstráveis, e assuma uma dualidade natural transcendente que coloca o Ser de algo fora do escopo de sua expressividade existencial. Como nós, humanos, temporais e finitos em nossa existência corporal, podemos inferir, assumindo apenas uma tradição introjetada culturalmente, que, além de nós, exista de forma necessária e suficiente uma essência anímica apartada e dialeticamente expressa em nós enquanto ...
O livro merece uma recensão, mas fica aqui desde já a informação, recebida da Tinta da China, da publicação do livro "Grandes Ideias Perigosas", com introdução de Steven Pinker, posfácio de Richard Dawkins, ooordenação de John Brookman e contribuições de cerca de uma centena dos cientistas actualmente mais influentes:A história da ciência está cheia de descobertas que, na sua época, foram consideradas social, moral ou emocionalmente perigosas: as revoluções concretizadas por Copérnico ou por Darwin são as mais óbvias. Qual é a sua ideia perigosa? Uma ideia em que tem meditado e que acha que é perigosa, não porque se presume que é falsa, mas porque pode ser verdadeira?Foi este o mote para a compilação de «Grandes Ideias Perigosas». Mais de cem eminentes cientistas de diversas áreas – genética, biologia, matemática, neurologia, informática, cosmologia, física, filosofia, psicologia, antropologia – respondem a esta questão.De leitura acessível e tão estimulante quanto o seu antecessor – «Grandes Ideias Impossíveis de Provar"– esta nova compilação apresenta uma perspectiva fascinante sobre algumas das inquietações que assolam as mentes mais brilhantes da actualidade:- «Terão os homens, em geral, um perfil de ...
Do que serve a filosofia se não for para transportá-la em nosso dia a dia e lançar um olhar diferente sobre o mundo? O conhecimento, a verdade, a realidade, a sociedade e nossas relações; desde a Grécia antiga vem sendo investigados, ponderados, analisados e reconstruídos pelo pensamento filosófico; e aspirantes a filósofos precisam exercitar esse novo olhar, sobretudo, usando sua própria vida, em princípio, e abarcando esse olhar a tudo que chega às suas percepções.Esse ano, dei-me por mim como um ser que viveu à beira da estrada por quase toda minha vida. Desde minha mudança da Vila Guilherme em São Paulo, para uma passagem rápida até os 8 anos na Penha, mudei para Guarulhos e vivi até os 30 anos, quando mudei para o Vale do Paraíba a trabalho. De lá para cá, lá se vão 32 anos vivendo com a Rodovia Presidente Dutra ao meu redor.Não sei até que ponto a proximidade de uma estrada pode influenciar nosso pensamento, mas agora, estudando academicamente Filosofia, me deparo com uma característica cética e relativista em meu pensamento que me faz buscar essas referências em mim. Sou um filho da Dutra. ...
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