Archive for the Filosofia da religião
D. MANUEL DO CENÁCULO, UM ILUMINISTA CATÓLICO

Foi o iluminista Voltaire que disse “Deus é um comediante a actuar para uma plateia assustada de mais para rir”. De facto, o espírito das luzes, que ganhou força na Europa no século XVIII, não conviveu bem com a religião dominante no Velho Continente. Mas houve muitos iluministas católicos e até um movimento com o nome de Iluminismo Católico que tentou trazer para dentro da Igreja, adaptando-o convenientemente, algum do espírito das luzes.
Um dos nomes maiores do Iluminismo católico português foi decerto D. Manuel do Cenáculo (1724-1814), que participou na Junta de Providência Literária que preparou a Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra e que dirigiu a Real Mesa Censória, um alto cargo na governação do Marquês de Pombal, e que foi também Bispo de Beja e de Évora. A principal marca que nos deixou foi a criação de bibliotecas, como a Biblioteca da Real Mesa Censória, a Biblioteca da Diocese de Beja e a Biblioteca Pública de Évora, que em 2005 celebrou os 200 anos.
D. Manuel do Cenáculo, de seu nome completo D. Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas Anes de Carvalho, deixou resmas de manuscritos, incluindo pormenorizados diários e correspondência trocada com um grande número de personalidades da época, que em boa parte se encontram guardados hoje na Biblioteca de Évora. Uma pequena mas significativa amostra desses escritos saiu há pouco no volume coordenado por Francisco António Lourenço, professor de história na Universidade de Évora, com o título “D. Manuel do Cenáculo. Instruções Pastorais, Projectos de Bibliotecas e Diário”, que é o número 8 da colecção “Ciência e Iluminismo” da Porto Editora. Essa colecção é um verdadeiro achado, para os leitores, como eu, que têm particular interesse e simpatia tanto pela ciência como pelo Iluminismo (os dois estão, como é sabido, muito próximos). A série abriu com a publicação de documentos de um outro iluminista, cientista botânico, o Abade José Correia da Serra, e continuou com textos, entre outros, de Domingos Vandelli, o químico e naturalista que de Pádua veio para Lisboa e Coimbra, e Diogo de Carvalho e Sampayo, o autor do curioso embora desconhecido “Sistema das Cores”.
Vejamos, em mais pormenor, a biografia do prelado que tem o seu retrato, merecidamente em grande, na Biblioteca Pública de Évora. Nasceu em Lisboa de origem humilde (o pai era serralheiro de Constantim, arredores de
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Continue a ler D. MANUEL DO CENÁCULO, UM ILUMINISTA CATÓLICOCândido na ilha da Madeira
Voltaire (1694-1778) escreveu uma novela chamada “Cândido” em que ridiculariza a ideia de que este mundo é o melhor mundo possível e que foi criado por uma providência sábia, que o governa com bondade e misericórdia. Um filósofo chamado Leibniz (1646-1716), para resolver o problema do mal, argumentara que seria contraditório considerar que Deus é omnipotente, omnisciente e sumamente bom e depois Continue a ler Cândido na ilha da Madeira
Abbé Pierre – A paz mundial
Para que serve escandalizarmo-nos com as guerras, as injustiças, a opressão política, económica e social, se nós negligenciarmos em conduzir ao interior de nós mesmos, a luta quotidiana pela libertação e pela paz interior? Eu estou convencido de que a paz social brotará da paz do coração. Se cada um progride na via de uma reconciliação interior aberta para a partilha, o respeito dos outros e a tolerância, então, necessariamente, saberemos criar juntos uma sociedade pacífica e fraterna. (…) Não é a paz mundial, a ausência de guerra, que eu reclamo, mas a paz do coração para cada homem. Porque é quando o coração dos homens estiver apaziguado que as guerras cessarão.
Abbé Pierre, Fraternidade, tr. Miriam Lopes, Editorial Notícias, p. 58.
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Abbé Pierre – o problema do mal
Toda a minha vida fui ensombrado pela questão do mal, e ainda hoje e não cesso de me interrogar acerca da contradição flagrante, incompreensível, entre a fé no Deus Amor e a existência do mal. (...)
O mais frequente é [um certo] tipo de apologias recusar a objecção de virar a manga do avesso, desculpando Deus de todo o mal e atirando a falta sobre os homens. Dito de outra forma, todo o mal proviria do homem que, pelo exercício da sua vontade e da sua liberdade, se desviaria do amor e do plano do criador para cometer o mal.
Isto é perfeitamente verdade no que toca às catástrofes que o homem provocou. Mas o argumento não faz caso dos tremores de terra, das colossais inundações na China que levam centenas de milhares de pessoas, das fomes em África, dos ciclones na América Central, etc. (…) Como explicar esta aparente indiferença do Todo-Poderoso? Como conciliá-la com o facto dele ser Amor? Ele dispõe de todos os meios e deixa serem levadas nas torrentes de lama, dizimadas por epidemias, milhares de crianças pequenas, de pais, de mães, crápulas e santos misturados? (…)
Isto é para mim, desde sempre, o tema de uma profunda e dolorosa interrogação. De uma busca, de uma súplica. Eu não posso encontrar nenhuma explicação racional para esta constatação e prefiro calar-me, diante do que permanece para mim incompreensível, do que procurar más desculpas para Deus.
Existe contudo uma coisa que eu quero dizer a este propósito. Ela não justifica em nada o mal e o sofrimento, trata-se de uma simples constatação que alimenta a minha meditação e que eu queria partilhar. Eu fui tocado na minha vida com frequência ao ver que muitas vezes o mal suscita o bem, que sempre que somos confrontados com o mal acontece que o amor se desenvolve.
Abbé Pierre, Fraternidade, tr. Miriam Lopes, Editorial Notícias, pp. 81-83.
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O BISPO E O TERRAMOTO

Nas imagens terríveis que nos chegam pela televisão e pela Internet, o mal causado pelo terramoto do Haiti parece-nos incomensurável. Tendo lido há pouco tempo a "Ira de Deus", de Edward Paice (Casa das Letras, 2009), que relata os horrores do grande terramoto de Lisboa de 1755, parece-me ver agora uma repetição das cenas de Lisboa (uma delas, com um templo a ruir, representada na gravura).
Tal como na catástrofe setecentista também o recente terramoto no Haiti tem originado acesas discussões de natureza teológica sobre o significado do "mal". Têm, por exemplo, causado bastante polémica as declarações de D. José Ignacio Munilla (JIM), bispo de Palencia que foi recém-nomeado bispo de S. Sebastian (Donostia), à cadeia de rádio SER. Vários jornais titularam que, segundo o bispo, havia males piores do que o que foi e está a ser sofrido pela população do Haiti, designadamente a "nossa pobre situação espiritual":
"Existen males mayores que los que esos pobres de Haití están sufriendo estos días. (...) Quizá es un mal más grande el que nosotros estamos padeciendo que el que los inocentes también están sufriendo."O prelado retorquiu, logo no dia seguinte, dizendo que as suas declarações tinham sido retiradas do respectivo contexto e profundamente distorcidas. Procurei, por isso, a transcrição integral e, para que se possa avaliar melhor o que está em causa, deixo aqui o registo ipsis verbis da pergunta e da respectiva resposta, que a rádio gravou (as duas frases de cima estão aqui destacadas em bold, mostrando que não foram inventadas):
SER- "Esta mañana en su programa de Radio María algún oyente le preguntaba sobre este tema (la tragedia de Haití), la perplejidad en la que se sumen los católicos cuando se preguntan por qué Dios permite estas calamidades".
JIM- "Así es, sí, en Radio María las llamadas entran en directo, allí no hay filtro. Es una pregunta que ha respondido a una pregunta que todos llevamos dentro de nosotros, si existe Dios porque existe también el mal. A veces parece que el mal se ceba en los más inocentes.
He querido recordar cómo Jesucristo fue el inocente, el justo de Dios y también fue injustamente perseguido e injustamente condenado a muerte. Y la respuesta que le he dado a esa oyente es que, desde luego, si el mal tuviese la última palabra, sería incompatible
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Continue a ler O BISPO E O TERRAMOTOViver para quê? – Ensaios sobre o sentido da vida,
A felicidade é a finalidade última da nossa existência: esta ideia tem sido defendida muitas vezes ao longo da história da filosofia. Ao abordarmos esta questão, convém, no entanto, não deslizar para o subjectivismo recusando a possibilidade de haver um carácter objectivo no conteúdo da felicidade que vale a pena perseguir como objectivo de vida. Equilibrar o nosso discurso nem sempre é fácil. Vem isto a propósito do recente livro traduzido e organizado por Desidério Murcho «Viver para quê? - Ensaios sobre o sentido da vida». Na introdução a este livro o autor elabora um mapa conceptual do tema rigoroso e esclarecedor da sua profundidade. Imprescindível para qualquer professor que aborde este assunto nas suas aulas.
«Porque a nossa felicidade pode rapidamente ser vista como uma finalidade última, pode-se ser levado a adoptar uma perspectiva subjectivista das finalidades últimas, que seriam então seja o que for que nos faça feliz, sem que a nossa felicidade tenha qualquer conexão com a realidade e com a racionalidade.
Contudo é uma ilusão pensar que uma coisa se segue facilmente da outra. Podemos perfeitamente defender que a nossa felicidade é uma finalidade última, mas ao mesmo tempo reconhecer que, por sermos agentes racionais e por estarmos inseridos numa realidade, a nossa felicidade mantém uma conexão essencial com a racionalidade e a realidade. Ou seja, podemos recusar que no que respeita à nossa felicidade tudo conta; podemos defender que a nossa felicidade depende crucialmente da conexão da nossa vida com a realidade e da capacidade que temos para justificar as nossas opções.»
Desidério Murcho, «Introdução», em Viver para quê? – Ensaios sobre o sentido da vida, Dinalivro, p. 22.
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John Locke – Fé e tolerância
Se alguém quiser que uma alma, cuja salvação deseja ardentemente, expire na tortura antes mesmo de se ter convertido, isso espanta-me e espantará, penso eu, outros comigo; mas, contudo, é uma atitude tal que jamais alguém julgará que possa provir do amor, da benevolência ou da caridade. (…) Se, tal como o Capitão da nossa salvação, desejassem sinceramente a salvação das almas, trilhariam as suas pegadas e seguiriam o perfeito exemplo do Príncipe da Paz, o qual, ao enviar os seus companheiros para subjugar as nações e as fazer entrar na Igreja, os armou, não com o ferro, a espada ou a violência, mas com o Evangelho, com o anúncio da paz e com a santidade e o exemplo dos seus costumes.
John Locke, Carta sobre a tolerância, tr. João da Silva Gama, Edições 70, p. 91
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