O Mistério Feminino…
O enunciado proposto por Simone de Beauvoir -- "Ninguém nasce mulher: torna-se mulher" -- provocou um deslocamento da naturalização da condição feminina construída nos séculos XVIII e XIX e abriu um leque de possibilidades para pensar "o que o sujeito pode se tornar, sendo (também)mulher". O efeito social provocado pelas mulheres na luta por seus direitos introduziu a necessidade de pensar sua história. A partir daí, incorporou-se no horizonte do trabalho reflexivo o efeito histórico da relativização da 'essencialização' do feminino. Na medida em que foi sendo tecida uma história coletiva, puderam-se reconstruir histórias individuais e reinventar projetos para o futuro.
A mulher e o Ser Feminino colocam-se diante do masculino como um mistério. Tentativas exaustivas existiram para saber tanto o que representa a mulher para o mundo masculino, quanto o que a mulher deseja. O homem, tomando a si próprio como referência, jamais chegará nem perto de descobrir. Tirando a voz da mulher e sua possibilidade de construção responsável de si, muito menos.
Como uma mulher poderia dizer o que deseja se grande parte do que ela deseja foi engendrada nela a partir de um universo que apenas lhe tange e não a abriga como sujeito? Confundimos as referências das mulheres, impondo-nos a nossa referência, e exigimos que elas se expliquem.
Claro é que o homem não pode se definir afastado e isolado da mulher, assim como pouco provável seria a mulher conseguir isso de forma isolada. Se ambos dividem o mesmo espaço em uma relação recíproca, a simbólica não pode ser unilateral, com pena de um dos lados perder sua própria identidade e ser chamado de confuso e/ misterioso. Triste isso, mesmo que adquira um ar romântico.
Uma grande dívida da Filosofia foi tomar o referencial de quem a fazia para construir o estatuto ontológico do ser humano. Essa dívida, espero, pode ser paga a partir da inserção cada vez mais crescente das mulheres nesse campo. Mas é preciso que elas possam, sobretudo, problematizar essa questão e terem sob suas perspectivas a arbitrariedade que é considerar a questão da sexualidade como mero acidente na construção ontológica.
Mas como fariam isso se é ainda a sociedade falocêntrica que determina os interesses de pesquisa para a manutenção do status quo?…
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