Terminamos o último post no momento em que nos dávamos conta da reviravolta que Lacan operou no entendimento do que se passa no conflito edípico. Se para Freud, a situação da qual emergia o complexo de Édipo estava ligada a um estágio de maturação psicossexual em que a libido se concentrava sobre o pênis (no menino) e sobre o clitóris (na menina), isto é, ao estágio comumente denominado de “fase fálica”, para Lacan o conflito edípico se trata muito mais de uma condição do sujeito, que perpassa sua existência desde o nascimento até a morte. Isso porque Lacan se apercebe que “no princípio” não era o desejo da criancinha de cinco anos pela mãe, mas sim o desejo da mãe pelo bebê. Evidentemente, o bebê adora todo esse desejo que a mãe lhe deposita, porquanto suas necessidades encontrem sempre um objeto com o qual se saciar, de modo que o bebê ainda não tem que lidar com a angústia da transformação da necessidade em desejo, isto é, de um ímpeto que pode ser saciado em outro em que isso é impossível. A mãe, por sua vez, usualmente nutre a fantasia de que está completa por estar com o bebê, fantasia que é construída desde a gravidez. A criança, portanto, ocupa no imaginário da mãe o lugar de um objeto que sacia completamente o desejo, o que, em psicanálise se convencionou chamar de falo. Aliás, é justamente esse objeto que será o motor principal da situação edípica para Lacan. É o falo que circulará na cabecinha do bebê e nas cabeçorras de papai e mamãe como o grande objeto de desejo.
Essa primeira situação em que a mãe toma o bebê como objeto fálico e estabelece com ele uma relação quase de simbiose Lacan a chamou de “primeiro tempo do Édipo”. Nela, o problema do falo ainda não é uma questão para a criança visto que, ainda que fantasisticamente, ela é o falo. No que Lacan vai chamar de “segundo tempo do Édipo” ocorre a introdução de um “penetra” na festa que rolava entre mãe e bebê. “Quem é ele?”, como perguntaria Zeca Pagodinho. Não, apressadinhos, não é o Pai. É nesse ponto que Lacan mais uma vez ultrapassa – e ajuda Freud – pois se fosse o Pai de carne e osso o penetra da festa, os pobres bebês cujos pais morreram antes de nascerem ou se mandaram sabe-se lá por que motivos, ficariam reféns da festinha da mãe pra sempre.…




Encerramos o post anterior com uma afirmação que, após uma segunda leitura, julguei que poderia levar a um mal-entendido: a afirmação de que há dois tipos de seres humanos: os que têm o falo (os homens) e os que não têm o falo (as mulheres). Essa pode ser a fantasia de muitos homens mas, na verdade, ninguém tem o falo! E isso se deve ao fato de que uma das formas que temos de pensar o falo é tendo em mente a possibilidade de não tê-lo. Sim: é só se lembrar do menininho e da menininha. O menino morre de medo de ser castrado e a menina tem inveja do menino porque já nasceu castrada.
No último post, interrompemos nosso relato mítico no momento em que meninos e meninas estavam lá no paraíso infantil, cada qual se divertindo como podia: o menino com seu recém-descoberto pênis e a menina com seu também recém-descoberto clitóris. Mas eis que em determinado momento eles se encontram e percebem que em relação a esse tipo de diversão eles não são iguais.
No último post apresentei algumas considerações que seriam explicadas em maiores detalhes subsequentemente. Neste post, apresentarei alguns pressupostos que permitirão esclarecer a primeira e a terceira teses: a de que o falo é apenas uma representação e que tal representação só existe porque os órgãos genitais de homens e mulheres são como são. Então, vejamos.
Desde o final do século XIX quando Freud inventou essa coisa chamada Psicanálise – que em termos de conhecimento sobre o que é o humano só é superada pela religião - os termos psicanalíticos vêm gradativamente se incorporando ao senso comum, ao falatório cotidiano, a esse blábláblá característico de um ônibus lotado.
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