Crónica primeiramente publicada na imprensa regional.
Abraço o arco-íris com o olhar visível.
Crónica primeiramente publicada na imprensa regional.
Abraço o arco-íris com o olhar visível.
É lugar-comum pensarmos nas mudanças evolutivas como algo que leva milhares, milhões de anos para acontecer. Quem de nós já não ouviu, em nossas épocas de colégio, um professor de biologia dizer “esse processo não se dá da noite para o dia”, ou “essa transição demorou milhões de anos para ocorrer”. De fato, a ideia de que mudanças aparentemente inexplicáveis são possíveis quando associadas a um intervalo de tempo suficientemente longo foi um dos grandes trunfos da biologia evolutiva em sua aurora (período cuja figura central era Charles Darwin), época em que a biologia evolutiva lutava para se mostrar válida não apenas fora mas principalmente dentro do meio científico e acadêmico. O raciocínio, bastante familiar para quem já estudou a história da biologia evolutiva, é bem simples, e foi tomado de empréstimo da geologia: se pequenas forças, agindo por um período de tempo suficientemente longo, foram capazes de imensas alterações na estrutura geológica da terra, o que a seleção não poderia fazer com os seres vivos, dado um intervalo de tempo igualmente longo?
Dessa forma, quase todos nós que lidamos direta ou indiretamente com a biologia evolutiva colocamos em nossas cabeças que intervalos de tempo suficientemente longos são capazes das mais maravilhosas e absurdas modificações anatômicas e fisiológicas. Não há nada de errado com esse raciocínio, que por sinal está corretíssimo. O problema é outro: achar que mudanças morfológicas, e principalmente mudanças drásticas, requerem sempre intervalos de tempo longos. Os professores de biologia evolutiva, entre os quais eu me incluo, são peritos em usar milhões de anos para qualquer coisa: “Após alguns milhões de anos, as plantas colonizaram a terra”, “após alguns milhões de anos rastejando, surgiu a simetria bilateral”, “os vertebrados terrestres, após alguns milhões de anos fora d’água, desenvolveram o ovo amniótico”. Estamos tão fixados nos milhões de anos que costumamos quase sempre associar mudanças evolutivas (alguns perceberão o pleonasmo) a grandes intervalos de tempo. Mas nem sempre é o caso.
Há exemplos de processos evolutivos excepcionalmente rápidos, e não apenas nos cursos superiores, mas também nos colégios: A seleção de bactérias sob o uso de quimioterapia antibacteriana é um caso muitíssimo famoso. Mas aqui estamos lidando com um organismo extremamente simples, procariótico, unicelular, morfologicamente bem pouco complexo e cujo ciclo reprodutivo é bastante rápido. Não é exatamente desse tipo de organismo e desse tipo de evolução que eu quero falar. Quero evidenciar que alterações morfológicas em organismos anatomicamente complexos também podem ocorrer em intervalos de tempo muito menores do que imaginamos.…

Esta imagem/post, retirado e mais do que partilhado pela página de Facebook “I fucking love science” é uma excepção às suas excelentes e divertidas imagens-mensagem.
E porquê?
1 “You are the result of 3.8 billion years of evolutionary success”
O aparente topo evolutivo ocupado pelo ser humano, de alguma forma reflectido no texto desta imagem, não é verdadeiro, já que a nossa espécie é um acaso da História Evolutiva da vida na Terra.
Ao contrário do que está implícito, a Evolução da vida não tem o ser humano como o pináculo evolutivo, o seu porto de chegada, o seu mais perfeito representante, o final do caminho da vida sobre a Terra, isto apesar da nossa existência actual ser fruto de um sem número de sucessos intermédios.
Seremos tão pináculo evolutivo da História da Terra como outros seres vivos actuais – representantes no presente de várias linhagens de seres vivos que singraram ao longo do tempo.
2 Outra mensagem que poderá induzir em erro, e subjacente neste texto, é que a Evolução é sinónimo de um cada vez maior aperfeiçoamento e complexidade dos organismos, sendo o representante deste conceito nesta imagem/texto o ser humano.
Isto não é de todo verdade.
Embora existam casos de incremento de complexidade, a Evolução conduz* também a redução de complexidade biológica, à diminuição de estruturas, entre outras alterações morfológicas e/ou fisiológicas.
Evolução biológica não é sinónimo de maior complexidade – pode ou não sê-lo.
3 Ainda outra mensagem subjacente é a de cariz moral/comportamental. Devemos actuar em função do sucesso obtido pelos nossos antepassados, sejam eles mais ou menos distantes.
O que não me agrada nesta mensagem é a mistura entre sucesso evolutivo e a matrizes de comportamento moral/ético. Isto talvez possa justificar parte do sucesso evolutivo recente dos nossos antepassados, mas não justifica a esmagadora maioria do tempo geológico.
O singrar de um organismo e o sucesso de um código de conduta, embora possam estar interligados, são questões distintas, sendo perigoso generalizá-los.
Se nos focarmos no comportamento humano e na diversidade de valores éticos e morais existentes, então estaremos de certeza a misturar alhos com bugalhos quando afirmamos que nos deveremos comportar em função do sucesso biológico de um passado tão longínquo como o de há centenas ou milhares de milhões de anos.
Apenas alguns devaneios evolutivos…já há muito debatidos e analisados por outros muito melhores do que eu.
* a utilização deste vocábulo é exagerada, sendo aqui utilizada por simplificação na leitura.…
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| Spencer Wells, director of the Genographic Project speaks to an audience backed by a classic (though simplified) illustration of the human evolutionary path. Photo courtesy NGS. Complete article here. |
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| A cada geração, as mudanças se acumulam, mas as mulheres em sua linha ancestral de dezenas de milhares de anos atrás seria indistinguível destas mulheres de hoje em Tajiquistão. Foto por David Evans. |
Há alguns anos escrevi aqui neste blog duas breves notas sobre fossilização gênica (que podem ser lidas aqui e aqui). De forma bastante resumida, coisa que compromete a acurácia da explicação, a fossilização gênica ocorre quando a pressão seletiva exercida sobre um gene é reduzida ou eliminada. Isso ocorre por que o processo seletivo não é apenas responsável pela manutenção das variantes mais adequadas, ele é também responsável pela própria integridade informacional dos genes responsáveis por tais variedades. Explicando de outra forma, o processo seletivo limpa continuamente o reservatório gênico, fazendo uma faxina e eliminando as mutações deletérias. Quando um determinado gene não exerce mais nenhuma função aparente, as mutações começam a se acumular (ou, em termos físicos, a entropia aumenta), a informação genética é irreversivelmente degradada e, finalmente, o gene acaba por desaparecer, podendo eventualmente deixar alguns resquícios, ou fósseis, no material genético. Analisar algumas alegações recentemente divulgadas pela mídia à luz da fossilização gênica é o fito desta breve postagem.
O artigo científico intitulado “Our fragile intellect” foi publicado na Trends in Genetics de novembro de 2012. Como nós, meros mortais, não temos acesso ao artigo completo (e o abstract é desapontadoramente curto), tive que obter informações nas entrevistas dadas pelo autor, Gerald Crabtree, a jornais não especializados. De forma geral, o autor alega que nossas capacidades intelectuais e cognitivas dependem de um grande número de genes, algo entre 2000 e 5000 genes, e que pelo fato de nós, seres humanos, não estarmos mais submetidos às pressões seletivas pré-civilização, há um acúmulo de mutações que não são eliminadas (ou seja, há uma tendência à fossilização genética), e esse acúmulo de mutações pode levar à deterioração de nossa capacidade intelectual e cognitiva. Apesar de não ter tido acesso ao paper original, pude achar o press release, divulgado pela Cell Press (editora da Trends), que é bem explicativo:
Human intelligence and behavior require optimal functioning of a large number of genes, which requires enormous evolutionary pressures to maintain. A provocative hypothesis published in a recent set of Science and Society pieces published in the Cell Press journal Trends in Genetics suggests that we are losing our intellectual and emotional capabilities because the intricate web of genes endowing us with our brain power is particularly susceptible to mutations and that these mutations are not being selected against in our modern society.
“The development of our intellectual abilities and the optimization of thousands of intelligence genes probably occurred in relatively non-verbal, dispersed groups of peoples before our ancestors emerged from Africa,” says the papers’ author, Dr.
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