Cultura ou Biologia?
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| A senhora que descobriu a origem da bondade | |||
Marina Lencastre tem as suas raízes em Cabeceiras de Basto. Viveu na Bélgica durante a sua licenciatura e doutoramento e em 1986 escolheu a área do Porto para viver e trabalhar. É psicóloga e passou pela educação ambiental nos anos 90. Não foi uma passagem fugaz e muito menos inusitada. Pelo contrário, a entrada na área foi natural no percurso da sua carreira académica e com ela abriram-se novas perspectivas. A educação ambiental conquistou até hoje uma rigorosa investigadora com um certo tom crítico e Marina Lencastre ganhou coragem para dar o passo seguinte - interligar o ambiente e a psicologia em nome do “bem-estar humano”. | |||
Num tópico anterior sobre probabilidades aleguei que a percepção correta das probabilidades associadas a determinados eventos e o estabelecimento (quando existem) de correlações entre eventos dados não é algo intuitivo entre os seres humanos, e provavelmente nem para os demais primatas.
Faz pouco tempo que me rendi a esse fenômeno moderno que são os blogs, e devo confessar que, apesar dos vários aspectos negativos dessa nova tecnologia, há algumas vantagens fantásticas. Uma delas é a possibilidade de receber, quase que imediatamente, as impressões e as opiniões do leitor (o famoso e desnecessário anglicismo “feedback”). Claro que isso também era (e continua sendo) possível com um livro impresso, mas há uma enorme diferença entre escrever, envelopar e postar uma carta para o autor, e encontrar logo após a leitura de um texto um convidativo “deixe seu comentário”…
Assim sendo, nesse tópico anterior sobre probabilidades entrei num diálogo com um colega, em que ele argumentava que a percepção das probabilidades é intuitiva, e eu mantinha minha posição. Revi alguns conceitos, e penso que há outra forma de defender minha suposição. Explaná-la é o fito dessa breve nota.
Nós conseguimos determinar probabilidades e estabelecer relações através de um processo laborioso de coleta de dados, seguido pelo não menos complexo trabalho de análise estatística desses dados coletados. Essa atividade de análise de dados é um processo científico, construído por décadas e décadas através do acúmulo de conhecimentos sobre esse ramo das ciências e da matemática. Meu ponto de vista é que a mente de um mamífero (vou aqui deliberadamente trazer a análise para um grupo mais inclusivo…) como a do ser humano não é capaz, intuitivamente, de perceber essa montanha de dados, de construir estatísticas descritivas e de ponderar probabilidades. Não estou chamando os mamíferos de burros, um apaixonado pela etologia que sou jamais faria isso. O que quero dizer é que os mamíferos, ou especificamente os primatas, não são intuitivamente capazes de estabelecer probabilidades, e que nem precisam disso: haverá alguma forma mais simples e ao mesmo tempo mais eficaz de se analisar uma montanha gigantesca de dados, num período de tempo indefinido, e se estabelecer correlações? Penso que sim, e a resposta pode ser bastante simples: o processo de seleção.
Para explicar e defender minha suposição, preciso inicialmente estabelecer o conceito de módulo comportamental, que seria uma estrutura etológica geneticamente determinada. Em outras palavras, um determinado comportamento geneticamente…
Continue a ler Mais sobre probabilidades: a questão do incestoEm seu livro escrito num campo de prisioneiros russo (intitulado postumamente como “The natural science of human species”, mas que eu chamo simplesmente de “Manuscrito russo”), Lorenz defende uma união das psicologias em suas várias abordagens, uma união que se dê no seio de uma ciência mais abrangente, na qual as psicologias (o plural aqui é proposital) seriam inseridas, sendo essa ciência mais abrangente a biologia. O que Lorenz propôs não foi uma subordinação das psicologias à biologia, muito menos que se implementasse na psicologia esse tão nefasto e indesejável fenômeno chamado reducionismo (vale lembrar que Lorenz era um incansável crítico do behaviorismo e de seu reducionismo positivista). O que Lorenz propunha, isso sim, é que as psicologias entendessem o ser humano como uma entidade natural, dentro de um mundo orgânico evolutivamente diversificado. A mente humana, bem como a mente de outros mamíferos, não pode ser “reduzida” ao funcionamento de seus neurônios; apesar disso, dentro de uma perspectiva materialista, a mente dos animais (homem incluído), por mais complexa que seja, resulta de processos biológicos. Freud tece uma opinião semelhante (até certo ponto…) em seu “Projeto para uma psicologia científica” de 1895.
Quando comecei a ouvir falar da psicologia evolutiva (ou P.E.), pensei que essa pudesse ser uma possível aproximação de um ramo da psicologia à biologia de forma geral, algo como uma etologia humana que não fosse propriamente uma etologia, e que tivesse seus paradigmas voltados à psicologia de forma geral: em suma, uma vertente da psicologia que ensaiasse o movimento defendido por Lorenz. Contudo, o que vejo hoje é uma vertente da psicologia que nem agrada aos psicólogos de escolas como a psicanálise, a gestalt ou o behaviorismo, nem utiliza corretamente os conceitos da biologia evolutiva.
Penso que uma psicologia evolutiva que valesse o nome devesse ser, antes de tudo, uma psicologia que compreendesse a conexão histórica entre os organismos desse planeta, id est, suas ancestralidades comuns, e percebesse que certos comportamentos, como características morfológicas, podem ser homólogos tomando-se duas espécies diferentes (ou seja, que tal comportamento era presente no ancestral comum). Além disso, que compreendesse que características podem ser alvo de exaptações, exercendo assim uma função bem diferente da função primordialmente executada, quando tal caráter surgiu. Finalmente, mas muito importante, que compreendesse que nem todas as características são adaptações, e que assim sendo uma boa quantidade de comportamentos não têm função alguma, ou mesmo são disfuncionais.
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Continue a ler Psicologia evolutiva, oogamia, homossexualidade e outros assuntos![]() Different versions of many genes likely explain the differences between wild and domesticated animals. |
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