A ética indolor

Será que nesta época em que vivemos o cumprimento do dever foi ofuscado pela fruição do prazer individual, que nos tornámos indiferentes ao sofrimento alheio, que as atitudes altruístas se esfumaram?

Lipovetsky, na obra O crepúsculo do dever: A ética indolor nos tempos democráticos (1994) afirma que as lições intransigentes da moral desertaram do espaço público e privado, o imperativo maximalista do coração puro, os apelos à dedicação absoluta, o ideal hiperbólico de viver para o outro, todas estas exortações deixaram de ter ressonância colectiva; a hora é da desvitalização da forma-dever, do estiolamento do mandamento moral infinito (p. 147).
Porém, se olharmos para a realidade circundante constatamos uma pluralidade de acções humanitárias e de beneficência. Em particular, os media,com destaque para a televisão, lançam constantemente campanhas de solidariedade, sempre que ocorrem catástrofes naturais ou outras, bem como desnortes económicos. Este olhar não pode deixar de nos dar ânimo: afinal não vivemos num quadro apocalíptico configurado pelo vazio axiológico total. Lipovetsky talvez esteja errado.
Um pouco mais adiante (p. 148-150), este auto resclarece esse quadro: a “ética beneficia de uma legitimidade readquirida, isso não significa a reinserção, no coração das nossas sociedades, da boa e velha moral dos nossos pais, mas sim a emergência de uma regulação ética de um tipo inédito”. Aquilo a que assistimos é uma pós-moralidade, traduzida na substituição do “imperativo altruísta” pela agitação caritativa, assente, esta, numa “moral sem obrigações nem sanções”.
O sujeito não tem relutância em afirmar o desejo de viver prioritariamente para si, de afirmar o seu hedonismo narcisista, o qual, por mais acentuado que seja, não aparece como imoral e, ao contrário de ser censurado, é legitimado pelo contexto individualista. Nesta cultura pós-moralista o sujeito tem sobretudo direitos subjectivos e não deveres de abnegação.
Mas, voltando acima, será que o sujeito contemporâneo recusa fazer o Bem? A opinião de Lipovetsky é que esse sujeito, cada um de nós, não renuncia à dádiva e à solidariedade, mas apenas em situações excepcionais de urgência, devida ou e morte, e na condição disso não representar um grande sacrifício ou uma renúncia aos seus próprios prazeres. A “generosidade é circunstancial”, exteriorizada somente em situações de grande sofrimento humano”, a “preocupação ética, gera,no mais fundo de si mesmo, um altruísmo indolor de massas” (p. 153 e 157).

Deixámos de louvar a exigência permanente de nos consagrarmos ao outro.

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O poder da ciência ao serviço do poder político?

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O último livro do físico João Magueijo

Há portugueses que falam e (ao contrário do que se diz no post anterior) dizem muitas coisas interessantes. Veja-se o caso do físico João Magueijo no vídeo seguinte. João Magueijo é professor de Física Teórica no Imperial College de Londres. O seu novo livro, “O Grande Inquisidor – A vida extraordinária e o desaparecimento misterioso de Ettore Majorana, génio atormentado da era nuclear”, é uma… Continue a ler

Uma mensagem para as gerações futuras

Num programa de televisão foi perguntado a Bertrand Russell, um grande filósofo e matemático inglês, que mensagem deixaria para as gerações vindouras. A resposta dele foi que diria duas coisas: uma intelectual e outra moral. Se querem saber quais são vejam o vídeo. É um espantoso testemunho, pela inteligência e pela simplicidade. Palavras imperdíveis e, verdadeiramente, inspiradoras.… Continue a ler

A opinião dos alunos sobre a moralidade ou a imoralidade da mentira

Na minha opinião, mentir não é moralmente correto. Mas isso não significa que não o possamos fazer quando enfrentamos situações em que mentir é a nossa única opção para que ninguém – próximo de nós e de quem gostamos – saia prejudicado. Para responder a esta questão temos de analisar as hipóteses mais extremas e depois criar, se for possível, uma hipótese aplicável a todos os casos. Assim, se… Continue a ler

A opinião dos alunos sobre a pena de morte

Eis algumas das opiniões apresentadas pelos alunos, em resposta ao desafio colocado no Dia da Filosofia [Debater ideias online (1)]: Na minha opinião, a pena de morte é correta e devia ser aplicada em todos os estados. Um indivíduo que mate, torture ou viole repetidamente e vezes sem conta, não devia continuar vivo. Não defendo que seja aplicada a qualquer crime, mas deve sê-lo a todos os… Continue a ler

Brasil Fracassa no Combate ao Crack

Em meio à epidemia de crack, Brasil fracassa em tratamento para dependentes. Imagem da Cracolândia, no centro de São Paulo

Menos de 20 meses após o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter lançado o Plano Nacional de Combate ao Crack, o governo anunciou no dia 07 de dezembro de 2011 mais um programa de combate a essa e outras drogas. As mudanças devem atingir a atual rede de assistência a dependentes químicos, que é deficitária e sofre acusações de desrespeito aos direitos humanos.

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Levantamento feito pelo iG mostra que o Brasil possui apenas um Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) para cada 7 milhões de pessoas. O Estado do Amazonas, por exemplo, não possui nenhuma unidade de Caps AD.
Pesquisa divulgada pela Confederação Nacional de Municípios revela que ao menos 74,3% das cidades brasileiras enfrentam problemas com o consumo de drogas. A pesquisa também mostrou que o crack começa a substituir o álcool nos municípios de pequeno porte e áreas rurais e que uma pedra custa menos de R$ 5.
Um dos pilares da reforma psiquiátrica de 2001, que prevê internação apenas em casos extremos, o Caps AD promove o acompanhamento clínico, tratamento ambulatorial e a internação de curta duração de pessoas com transtornos pelo uso de crack e outras drogas. Atualmente, existem 271 Caps AD no País.Para Arthur Guerra de Andrade, médico psiquiatra, especializado em dependência química, a ideia do Caps AD é boa, mas a rede não foi feita de forma eficiente. “É preciso ter uma pulverização desses Caps”, diz.
Previstos para serem instalados em municípios com pelo menos 70 mil habitantes, os Caps AD não estão presentes em 423 cidades com esse mínimo populacional. O Estado de São Paulo, por exemplo, tem 100 municípios com mais de 70 mil habitantes e apenas 66 unidades de Caps AD. O Rio de Janeiro, que conta com 35 cidades com esse volume populacional, possui 18 Caps AD, e o Pará, com 20 municípios de médio ou grande porte, tem seis Caps AD. O Ministério da Saúde forneceu dados por Estado e não por município, portanto uma cidade pode ter mais de uma unidade de CAPs AD, como o município de São Paulo.
O presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP), Humberto Verona, defende os Caps AD como uma possibilidade “da pessoa continuar o tratamento e ter sua liberdade respeitada”.
Segundo o ministério, equipes de Saúde da Família, consultórios de rua, Casas de Acolhimento Transitório (CATs) e Comunidades Terapêuticas compõem a rede de assistência à saúde de dependentes químicos.…

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Plágio e Remix: Uma narrativa de duas culturas.

No dia 02 de outubro o blog de ciências da Folha, o Laboratório, soltou um post chamado Educar para não plagiar. O texto chama atenção para um congresso sobre plágio e má conduta científica e aponta algumas conclusões tiradas durante o evento. A primeira conclusão é a de que hoje em dia, por conta da [...]


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