Blogs de Ciência

Blogs de Ciência – Divulgação de todos os blogs em Português que versam a ciência. Parte do Projecto Divulgar a Ciência(.com)

Archive for the Ensino Superior

OS PROBLEMAS DE PORTUGAL 2

Ainda de Vitorino Magalhães Godinho, do livro "Mudar de Rumo" (Colibri, 2009):

"Sobre o caos em que se abateu o ensino universitário abateu-se o chamado processo de Bolonha, obcecado pela uniformização, baralhando os títulos e graus, e eivado por uma pedagogia simplista. O primeiro acto de qualquer governo com um mínimo de sensatez tem de ser a revogação das abstrusas disposições deste pseudo-acôrdo feito à revelia de professores e investigadores, que não tiveram a coragem de o rejeitar e se sujeitaram a passar sob as forcas caudinas. Uma das riquezas culturais da Europa são as suas escolas superiores diversas - como a École des Hautes Études ou a École des Chartes de Paris, a London School of Economics de Londres, o Collège de France. Não interessa equiparar títulos, o importante é reconhecer o seu valor universal. Como não interessa que os estudantes saltem de universidade em universidade para seguir os mesmos cursos. Só depois de adquirida sólida formação é que se está apto a beneficiar da frequência de escolas e centros diferentes, que aliás devem ser criteriosamente seleccionados. tenha-se o bom senso de não cair no turismo universitário. Temos de regressar à licenciatura como termo de um curso completo, e não etape sem significado. os mestrados não podem confundir-se com cursos profissionalizantes ou, pior, toimar o lugar de licenciaturas; devem ser preparações exigentes à investigação. A formação ou o aperfeiçoamento profissional devem ter os seus cursos próprios."Continue a ler OS PROBLEMAS DE PORTUGAL 2

HUMOR: Portugal mais próximo da meta de uma universidade por aluno


17 instituições de ensino superior por milhão de habitantes colocam o nosso país à frente de outros mais atrasados no que diz respeito ao ensino superior personalizado, como o Reino Unido (apenas 2,9 universidades por milhão de habitantes). As correspondentes 5000 denominações de cursos fazem também de Portugal uma das culturas mais ecléticas do mundo, sendo explorados todos os nichos de saber (mesmo os muito parecidos). Com a diminuição da taxa de natalidade e baixos níveis de escolaridade, a ideia é que no século XXI haja uma universidade e um curso por aluno, versando os seus interesses muito específicos. Por exemplo: Universidade João Alfredo, licenciatura em lazer na óptica do utilizador, para o aluno João Alfredo (númerus clausus: 1).

(Na imagem: representação artística de uma tuna unipessoal)
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Forma suprema do viver intelectual

Tal como em relação ao Ensino Básico e Secundário, também em relação ao Ensino Superior e, nomeadamente, ao Universitário vários intelectuais têm, nas décadas mais próximas, disssertado sobre o seu lugar, identidade e destino. Um deles é Eduardo Lourenço que, à margem do utilitarismo e aplicação dos saberes que ela pode produzir e veicular, põe a tónica na sua vocação que se revela na "forma suprema do viver intelectual."

"Assistimos nós à morte da Universidade (…)? De algum modo, sim. Uma certa figura de Universidade desapareceu no horizonte arrastada pela exigência mesma de uma democraticidade do acesso ao saber. Dessa morte não devemos ostentar o luto. Mas seria trágico se nessa metamorfose da ideia e da realidade a Universidade, enquanto forma suprema do viver intelectual europeu, não pudéssemos controlar, ou antes guiar, o movimento dessa vaga e fôssemos arrastados por ela aceitando passivamente a proliferação de saberes sem emprego, no seu duplo sentido de sem finalidade e sem inserção no mercado simbólico da comunidade intelectual e humana que chamamos latamente a Cultura e que constitui o espaço teórico-prático da sociedade no seu conjunto”.
Eduardo Lourenço, 1988

Referência bibliográfica: Lourenço, E. (1988). Nós e a Europa ou as duas razões. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 73-77.
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“A obrigação dos professores é ensinar”

A leitura do texto de Carlos Fiolhais Investigação: a construção do saber, que incide na função primordial do professor universitário, fez-me procurar, e felizmente encontrar, um artigo de Manuel F. Canaveira publicado em 1998, na revista Ler. Ainda que tenham passados doze anos, o retrato que faz do lugar e do sentido do ensino na universidade mantém sua actualidade. Ou, ter-se-á agravado?

“Os políticos não precisam de conhecer as razões por que a universidade portuguesa está caduca e necessita de urgente reforma, conforme eles próprios têm afirmado nos últimos cento e cinquenta anos. No fundo, foram eles que, com a sua proverbial demagogia, criaram o imbróglio quando convenceram a pequena burguesia oitocentista e a chamada classe média do pós-guerra de que era preciso «tirar um curso» e ser doutor para subir na vida.

Já meu pai, em meados do século dos anos sessenta, nos colocava, a mim e ao meu irmão — dois adolescentes ainda imberbes —, perante a seguinte «alternativa»: “Ou tiras o «canudo», ou serás marçano na mercearia cá do bairro”. Graças a Deus licenciei-me, até porque a dita venda faliu quando Lisboa ficou cercada de hipermercados. Hoje está tudo muito mais sofisticado: os pais, padrinhos, ou quem quer que seja, quando o jovem atinge o décimo ano (…) avisam-no logo: vê lá se consegues a média necessária para entrares no Ensino Superior; tira o curso (seja ele qual for; de preferência o mais curto e que aches mais fácil) e deixa o resto por minha conta, que eu arranjo-te emprego na minha empresa, na banca, nos seguros ou noutro sítio qualquer; onde possa mostrar, urbi et orbi, que és um doutor a sério.

Os «meninos» levam os adultos a sério e, quando transpõem o umbral da faculdade, pública, privada ou católica (tenho a impressão que eles nem se importavam que fosse protestante, budista ou xintoísta, desde que fosse universidade), dizem para com os seus botões: “Estou quase safo, e se vencer este primeiro e último obstáculo, o «fulano» de tal mete uma cunha onde quer que seja para eu ter um ordenado de largas centenas, carro topo de gama, telemóvel e tudo o mais que um jovem de sucesso deve possuir neste final de milénio. Se o «fulano» não conseguir, o «sicrano» ou o «beltrano» resolvem o problema.”

Confiantes, sentam-se nos anfiteatros, e surge um sujeito com idade do irmão mais velho (o assistente estagiário), do pai

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INVESTIGAÇÃO: A CONSTRUÇÃO DO SABER


Agora que se está a tratar da avaliação dos professores do ensino superior é oportuno voltar ao tema da missão da universidade. Recupero, para isso, um texto, que publiquei em "A Coisa Mais Preciosa que temos" (Gradiva, 2002), um volume quase esgotado:

O sociólogo António Barreto elencou numa página do jornal “Público”, para melhor as sujeitar a exame, algumas ideias feitas sobre o ensino em Portugal. Uma delas é que “a universidade existe para ensinar”. Logo um professor do ensino secundário lhe saiu ao caminho, admiradíssimo, interrogando-se e interrogando-nos: “Mas para que mais é que pode servir?”

A culpa da ignorância do professor poderá não ser só dele. Será obviamente também da universidade onde deve ter andado pelo menos quatro anos, tempo esse que, pelos vistos, não foi suficiente para ter reparado na primeira função dessa escola superior. Podia ao menos ter lido os livros do autor que pretendia contradizer, para melhor preparar a sua crítica. Se o tivesse feito, teria reparado que António Barreto, no seu livro “Os Silêncios do Regime”, saído em 1992 na Editorial Estampa, fazia a necessária pedagogia:

“As Universidades portuguesas sempre fizeram sobressair, entre todas, a função primordial do ensino. Isto, em detrimento do que deveria ser o seu principal objectivo: o conhecimento. Ou, noutras palavras, a aquisição, o desenvolvimento, a crítica e a renovação do conhecimento. (...) Consagrado o primado do ensino, termos como ‘cientista’ ou ‘investigador’ têm pouco uso nas nossas escola, ao contrário de ‘docente’ na sua mais redutora visão.

Um outro autor, o matemático João Queiró (in “A Universidade Portuguesa – Uma Reflexão”, Gradiva, 1995) disse o mesmo por outras palavras:

“A universidade é um sítio onde se estuda. Não é um sítio onde se ensina, muito menos um sítio onde se avalia, muito menos ainda um sítio onde se passam diplomas.

Essa função primordial da universidade não é nova. Foi enunciada pelo alemão Alexander von Humboldt no século XIX: a universidade serve, em primeiro lugar, para investigar, serve para disseminar cultura e serve, ainda, para ensinar. Esta missão plural da universidade contrasta com a função exclusiva de formação profissional, que prevaleceu na Idade Média quando as faculdades principais eram Teologia, Cânones (Direito Canónico), Leis e Medicina. Modernamente acrescenta-se à trilogia de Humboldt a prestação de serviços à comunidade, a qual nem sempre se faz sem prejuízo da criação de

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ensino superior? não queira imaginar o inferior…


Li ambos os artigos no Jornal da Ciência de ontem. O primeiro parece uma má notícia, não?

Brasil não atingirá meta para ensino superior, diz MEC

Plano Nacional de Educação para 2011 almejava pelo menos 30% da população de 18 a 24 anos na universidade; taxa líquida de 2008 é de 13,71%.

O segundo parece pior, não?

Cresce total de alunos em universidade ruim

Instituições com notas baixas em avaliações federais tiveram aumento de 11% nas matrículas em 2008, segundo censo do MEC.

Ao ler isso, alguém mais lembrou que o último concurso para contratação de garis no RJ atraiu 45 candidatos com doutorado, 22 com mestrado, 1.026 com superior completo e 3.180 com superior incompleto?

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Caso você queira mesmo imaginar o “inferior”, tem um um pouco aqui nesse outro post: a educação dos educadores.

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OPOSIÇÃO AO PROCESSO DE BOLONHA

Primeiro foi a Espanha, a Itália, a Finlândia e a Dinamarca. Agora, por este sítio francês sobre estudos literários, tomo conhecimento de que é a Áustria. O processo de Bolonha está a encontrar na Europa oposição. Em Portugal, Nuno Crato já se pronunciou, levantando polémica. Mas julgo que Bolonha ainda fará correr muita tinta...Continue a ler OPOSIÇÃO AO PROCESSO DE BOLONHA

O rumo das letras

Depoimento que dei ao Jornal Universitário de Coimbra A Cabra, para preparação dum artigo da autoria de Vasco Batista e João Ribeiro, intitulado O rumo das letras, publicado em 20 de Outubro passado.

P: Actualmente encaram-se os cursos de letras como segundas opções?

R: Penso que podemos dizer que sim, que os cursos de Letras, de Humanidades, de Ciências Sociais e Humanas são, no presente, menos requeridos do que os de Ciências Físicas e Naturais e de Tecnologias. Haverá duas razões para tal, as quais, parecendo muito diferentes, estão interligadas. Uma é a desvalorização que, no plano social, fazemos dos primeiros. Entendemos que, em geral, esses cursos são teóricos, muito abstractos e centrados em saberes distantes da nossa realidade, como é o caso das Clássicas ou da História. Ora, nós queremos resolver problemas concretos do nosso quotidiano e entendemos que saberes das letras não nos podem ajudar, pelo menos no imediato; entendemos que aqueles que nos ajudam são os saberes científicos e técnicos. A outra razão é que esses cursos não parecem ter utilidade para a entrada no mercado de trabalho e, nessa medida, não os entendendo como uma mais valia em termos de enriquecimento pessoal, nem como uma possibilidade de, como humanidade, mantermos viva uma parte da nossa cultura, consideramo-los como um investimento sem retorno.

P: É por isso que as médias são em geral bastante baixas na Universidade de Coimbra?

R: Não é uma característica distintiva desta universidade, está presente em todas as universidades do país, pois o modo de pensar social que referi está longe de ser regional. Por outro lado, nem todos os cursos de Letras, de Humanidades, de Ciências Sociais e Humanas exigem a mesma média de entrada.

P: A Universidade de Coimbra vive de um estatuto adquirido pelo seu passado ou ainda faz jus à sua fama?

R: Essa pergunta tem sido recorrente nos últimos dias, devido à publicação do ranking das universidades. É muito difícil responder... Uma coisa é certa: a Universidade de Coimbra tem investigação de ponta em alguns sectores. Outra coisa é certa: há sectores que estão apostados em melhorar, em chegar a um nível de excelência.

P: Que estratégias deveriam ser adoptadas pela Universidade de Coimbra para atrair estudantes e adequar-se às novas exigências dessas áreas?

R: Não lhe sei responder de modo preciso sem pensar…

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Bolonha, o paradigma perdido


Novo texto de Rui Baptista, sobre a bolonhização do ensino superior (na foto, as "torres gémeas" de Bolonha):

“Trata-se evidentemente de reflexão, e a irreflexão parece-me uma das principais características do nosso tempo” (Hannah Arendt, 1906 - 1975).

São cumpridos dez anos sobre a Declaração de Bolonha justificativos de uma reflexão crítica, ainda que pontual. Mas porque, como reconheceu T.S, Eliot (1888 - 1965), “o tempo passado e o tempo presente, fazem todos parte do tempo futuro”, não encontro motivo para festejar a efeméride por entender ter sido desperdiçada uma ocasião soberana para uma correcta adaptação do modelo do ensino superior português ao Processo de Bolonha (daqui a apropriação que faço de um título de um livro de Edgar Morin, O Paradigma Perdido).

No que concerne aos dois primeiros ciclos do ensino superior, assim sucedeu contra o espírito original “da adopção de um sistema de graus comparável e legível: bachelor/ master” (p. 9 de um documento orientador, emanado do então “Ministério da Ciência e do Ensino Superior”). Ora, como muito bem reconheceu Adriano Moreira, “a problemática deixou de ser estritamente nacional, porque a regência política se europeíza, porque o mercado é transnacional, porque a competitividade se define entre grandes espaços, porque as pressões sistémicas ultrapassam o regionalismo soberanistas do passado” (Fórum Regional das Profissões Liberais, em 12/11/2004, com o título Bolonha e as Profissões Liberais).

Mas pela não certificação da tradução da palavra inglesa bachelor (bacharel), embora com ampla tradição no historial português - Eça de Queiroz foi bacharel em Leis pela Universidade de Coimbra - e adoptada, ainda que durante escassos anos após o 25 de Abril, é-se defrontado, na p. 17, com a incompatibilidade léxica da licenciatura portuguesa com os graus académicos definidos, à partida, para Bolonha (bachelor, bacharel, e master, mestrado).

De facto, na p. 44 , é feita referência à nossa Lei de Bases com os seguintes graus académicos: licenciado e mestre. Em nome de um disputa nacionalista, havia que levar avante estes desígnios “patrióticos” nem que para tanto se tornasse necessário a utilização de uma tabela de reconversão para uso nacional e estrangeiro, na língua dos diversos países aderentes ao Processo de Bolonha, estabelecendo a relação entre os graus académicos portugueses e dos outros países europeus, num processo já de si complicado em fronteiras lusitanas. A título

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O currículo de Bolonha


Texto que continua dois antes aqui e aqui publicados. Neste resumem-se os aspectos orientadores da organização curricular que deverá decorrer da Declaração de Bolonha.

Para se perceber como as instituições de ensino superior organizam os seus planos curriculares de modo a estarem de acordo com as orientações patentes na Declaração de Bolonha, deve partir-se daquilo que se indica na própria Declaração e na legislação portuguesa a ela concernente (Subsecção IV da Lei 49/2005 de 30 de Agosto – Lei de Bases do Sistema Educativo –, Decreto-Lei n.º 42/2005, de 22 de Fevereiro e Decreto-Lei nº 74/2006, de 24 de Março).

Na leitura desses documentos no sentido de compreender o aspecto assinalado, é importante usar uma grelha que oriente a resposta às seguintes perguntas: (1) Que objectivos gerais se devem traçar? (2) A que métodos pedadógico-didácticos se deve recorrer? (3) Que avaliação das aprendizagens se deve realizar? (4) E que atitudes se devem requerer dos alunos?

Vejamos que respostas se podem encontrar nos documentos acima identificados:

1. No que respeita aos objectivos preconiza-se claramente que os alunos não devem limitar-se a adquirir conhecimentos, devendo, sobretudo, aprender a aplicá-los. Devem, como se refere, desenvolver competências. De entre estas, destacam-se as que se requerem para resolver problemas de diversa natureza e com um grau de complexidade elevado, para argumentar e comunicar nas mais variadas situações, para empreender pesquisas de modo mais ou menos alargado e profundo, para usar as novas tecnologias de informação como recurso e inovação.

Espera-se que, ao trabalharem e cimentarem tais competências, se motivem para a aprendizagem e se sintam responsáveis por ela. Que sejam, enfim, capazes de escolher, de forma responsável, os seus próprios percursos educativos e formativos, o que passa, em larga medida, pelo contacto com outras realidades e se concretiza na mobilidade inter-universidades. Complementarmente, espera-se que se sintam preparados para ingressar no mercado de trabalho nacional e internacional, perspectivando-se como agentes de desenvolvimento económico e social.

2. Quanto aos métodos pedadógico-didácticos, sem excluir momentos de exposição magistral, as propostas incidem em aulas práticas/laboratoriais, na resolução de exercícios sob orientação do professor; no trabalho autónomo na aula, no trabalho prático em contexto externo, em seminários, estágios/ observações em contextos profissionalizantes, na orientação tutorial, e no estudo individual e auto-orientado.

Trata-se

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