Blogs de Ciência

Blogs de Ciência – Divulgação de todos os blogs em Português que versam a ciência. Parte do Projecto Divulgar a Ciência(.com)

Archive for the educação escolar

Um lugar impossível


Tem sido notícia o suicídio de um aluno de doze anos e de um professor de cinquenta e um. É o tipo de notícia que esperaríamos que viesse de fora e não de dentro deste país, que temos por pacato.

A razão apontada é a violência a que tanto um como outro estariam sujeitos nas suas escolas.

Não posso, obviamente, afirmar que essa tenha sido a razão determinante, mas também não ficarei admirada se se vier a concluir nesse sentido.

Digo que não ficarei admirada porque, desde há muito tempo, admitia que, mais cedo ou mais tarde, este tipo de tragédias começassem a acontecer. Na verdade, estando frequentemente em contacto com escolas, não posso deixar de perceber os sinais evidentes do problema global, enorme, assustador que envolve toda a educação formal, desde o ensino básico até ao superior.

Eu diria que o primeiro aspecto desse problema, que dita todos os outros, é de cariz filosófico, e tem a ver com os fins da educação, aqueles que uma sociedade elege como os melhores para preparar as novas gerações, e que se traduz numa pergunta tão simples como esta: para que vão as crianças e jovens à escola?

Os discursos, sabe-se, dão respostas variáveis, mas, no seu conjunto, fazem passar a ideia de que as crianças e jovens vão à escola, não para adquirirem conhecimentos nem para desenvolverem a inteligência, mas sim para, autonomamente, aperfeiçoarem competências (das quais, numa certa gíria pseudo-pedagógica, não se esclarece o significado nem o sentido). E é para as competências sociais que se tende, com o argumento de que isso lhes proporcionará a integração em contextos vários.

Trata-se de um aspecto que não podemos desligar das contingências políticas e sociais, pois são as primeiras que o acolhem e legitimam, e as segundas que lhe dão força. Por exemplo, a pressão para se produzirem rapida e eficazmente diplomas, independentemente do valor que tenham, não sendo aplaudida por todos, é tolerada por muitos.

Deste aspecto não podemos excluir também o pensamento epistemológico dominante, no qual todo e qualquer saber disciplinar e axiológico se relativiza, se subjectiviza e, portanto, se faz equivaler, não havendo outra possibilidade a não ser tomar cada sujeito como o referencial das e para as suas próprias aprendizagens, que se afirma terem de decorrer dos seus interesses e necessidades e de serem significativas, em função da sua individualidade.

Este quadro traça

Continue a ler Um lugar impossível

BULLYING, Guerra na Escola

Informação recebida da Gradiva:

BULLYING, Guerra na Escola, de Nora Ethel Rodríguez

Uma onda de violência parece sacudir todos os dias, de maneira invisível e silenciosa, os colégios e escolas secundárias de grande parte da Europa e dos Estados Unidos, e Portugal não é excepção.

Que podemos fazer para melhor entendermos o que se passa?

O Bullying é um processo de abuso e intimidação sistemática de uma criança sobre outra (apoiada por um grupo), geralmente nas escolas, e cujas consequências podem ser devastadoras, se não forem travadas a tempo.

ESTE LIVRO É FUNDAMENTAL PARA PAIS E EDUCADORES PODEREM EVITAR SEQUELAS IRREVERSÍVEIS.

Com exemplos da vida real, a autora propõe diversas chaves da solução para o problema.

Uma edição Sinais de Fogo que pode ser adquirida aqui com 25% de desconto.Continue a ler BULLYING, Guerra na Escola

Latim – uma chave para o sucesso

Em Inglaterra, várias escolas básicas desenvolvem actividades relacionadas com o ensino do latim a crianças. Professores, Especialistas e Directores de escolas enumeram as vantagens desta aprendizagem precoce a nível cognitivo, atitudinal e instrumental.

O latim aparece como um modo de imprimir sucesso a aprendizagens futuras. As crianças parecem ficar fascinadas com histórias de heróis longínquos e o seu nível de desempenho torna-se verdadeiramente superior a nível linguístico. Assim, o elitismo em que parecia consistir o ensino do latim democratiza-se, permitindo o alargamento de horizontes.

Assistam aqui .Continue a ler Latim – uma chave para o sucesso

Decisão certa ou errada?

Constava há algum tempo que o programa de Língua Portuguesa para Ensino Básico, aprovado e publicado em 2009, seria, mais dia menos dia, suspenso ou adiado, em virtude de se estar a desenhar mais uma reorganização curricular para este nível de ensino (a última data de 2001).

Porém, as acções de formação (da responsabilidade do Ministério da Educação e de editoras de manuais escolares) destinadas a preparar os professores para o usarem continuavam e, ao que sei, ainda não terminaram.

Uma notícia do jornal Público de ontem, da autoria de Bárbara Wong, veio tirar dúvidas que restassem: por decisão do Ministério da Educação,o programa não entra em vigor no próximo ano lectivo.

A questão que se pode pôr é a seguinte: estamos perante uma decisão certa ou errada? Uma resposta, que congrega diversos olhares, é dada por Ana Soares aqui.Continue a ler Decisão certa ou errada?

O papel da memória nas aprendizagens escolares


«Sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto» (José Cardoso Pires, 1925-1998).

Mais adiante se saberá porque transcrevo este brevíssimo excerto de uma entrevista concedida por Vitorino Magalhães Godinho, antigo Ministro da Educação e da Cultura durante escassos meses do ano de 1974.

Segundo ele, “dispensou-se a memorização da tabuada ou das regras da gramática, como das datas mais importantes da história de Portugal. E de modo geral receia-se que recorrer à memória afecte os frágeis cérebros infantis ou juvenis” ("Problemas da Institucionalização das Ciências Sociais e Humanas em Portugal", Revista da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Lisboa, 1989).

E por se tratar da complexa “maquinaria da memória”, refiro o acontecido com José Cardoso Pires, “escritor que veio do branco, da angústia, de um isolamento sem nome, sem assinatura e sem memória”(João Lobo Antunes, “Memórias de Nova Iorque e Outros Ensaios", Gradiva, Janeiro 2003, p. 212), na altura de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) de que foi vítima.

Relata-o António Guerreiro, da forma seguinte: “Todos os acontecimentos têm uma data e um local precisos. Este deu-se em ‘Janeiro de 1995, quinta-feira’ , quando o José Cardoso Pires, ele mesmo, à mesa do pequeno-almoço, se começa a sentir mal e faz uma pergunta estranha à mulher –‘Como é que tu te chamas?’, que lhe responde devolvendo-lhe a pergunta: 'Eu Edite. E tu?’. Resposta: ‘Parece que é Cardoso Pires’" (Expresso, 24/05/1997).

A recuperação de José Cardoso Pires, na opinião do neurocirurgião João Lobo Antunes, ficou-se a dever ao facto de “a área que temporariamente ‘deixou à sede e à fome, e pela qual falava, lia e escrevia, tudo funções em que é exímio’, era mais musculada que a do comum dos mortais”. Um ano antes da sua morte, escreveu o livro autobiográficoDe Profundis, Valsa Lenta”, em que relata a sua “memória de uma desmemóriasobre o sofrimento atroz que a perda de memória lhe trouxe.

Sobre esta temática, recupero um post da minha autoria que, pela actualidade de que penso revestir-se, transcrevo na íntegra:

A memória e a aprendizagem

“- V. Ex.ª tem boa memória, sr. Maia?
- Tenho uma razoável memória.
- Inapreciável bem de que goza!”
Eça de Queirós
(“Os Maias”)

O cérebro e a memória são matérias para mim particularmente gratas. Existe uma má

Continue a ler O papel da memória nas aprendizagens escolares

A nova ministra e o “eduquês”

Um dos méritos da nova ministra da Educação, Isabel Alçada, é, sem dúvida, a sua capacidade para escrever claro. Essa capacidade é demonstrada pela extraordinária adesão dos jovens à colecção de livros que escreveu com Ana Maria Magalhães. Por isso pergunto: terá a ministra vontade e capacidade de impor a regra de escrita clara num Ministério que só tem conseguido exprimir-se em "eduquês"?Continue a ler A nova ministra e o “eduquês”

Amor, felicidade e liberdade

Summerhill foi uma obra de Neill, mas também da sua época
Hemmings, 1975, 12.

Em texto antes publicado no De Rerum Natura - A crença no mundo de Peter Pan - Rui Marques Veloso referiu-se ao impacto que as ideias do Movimento da Educação Nova (corporizadas em finais do século XIX, ainda que com raízes mais antigas) tiveram no nosso país depois da Revolução de 1974, por razões que são por demais conhecidas. Não podemos esquecer que também por cá esta década foi especialmente marcada por inúmeras reivindicações de libertação e emancipação, tudo revestido por um apelativo pós-modernismo que se instalava em todos os sectores da sociedade, destacando os mais diversos subjectivismos e relativismos.

Assim, um pouco como por todo o mundo ocidental, rendemo-nos a exemplos de escolas como a de Bonneuil, fundada por J. Lacan em 1969, nos arredores de Paris, ou de Summerhill fundada por A. Neill, em Inglaterra, em que a criatividade da criança se pensava espontânea, assim como a sua orientação para o bem, o belo, a harmonia, a felicidade, a liberdade...

Acerca dos princípios como o destas duas escolas de fundamentação psicanalítica, e de muitas outras, que se apelidaram de Escolas Modernas, podemos dizer que se "tomaram os desejos por realidade". Para se compreender melhor esta ideia, deixo o leitor com o texto de um pedagogo espanhol que se tem destacado, entre outras coisas, pela crítica ao entendimento da escola e da educação influenciado pelo movimento acima referido.

"Summerhill é uma escola nas quais «as emoções antecedem o intelecto», explica um dos seis antigos alunos, a «sua filosofia básica é que, se um jovem se sente amado e animado a fazer o que lhe agrada – desde que não seja perigoso para si nem prejudique os outros –, converter-se-á num adulto mais feliz e amadurecido» (Popenoe, 1973, 43) (…) podemos já fazer uma ideia do como Summerhill se encaixa tão bem com a sensibilidade naturalista da actualidade (…).

Como se sabe, é uma escola inglesa atípica, que acolhe em regime de internato alunos de ambos os sexos, com idades compreendidas entre os seis e os dezasseis anos. Neill (…) partindo do pressuposto de que as neuroses se devem às repressões,

Continue a ler Amor, felicidade e liberdade

A crença no mundo de Peter Pan

O contacto entre estudantes de Ciências da Educação e educadores experientes é decerto uma mais-valia para a formação dos primeiros. A entrevista que se segue surgiu e tem sentido nesse quadro.
O entrevistado é Rui Marques Veloso, licenciado em Filologia Clássica com o Curso de Ciências Pedagógicas, que lhe deu acesso profissional à docência. Foi professor de Liceu e do Ensino Superior, na área da formação de professores. Com obra reconhecida na área da literatura para a infância e juventude é, no presente, colaborador do Plano Nacional de Leitura.

P: Nos debates sobre o ensino surgem concepções de educação que tanto ancoram no designado "modelo tradicional" como no designado "modelo novo". Como se posiciona em relação a este dualismo, a partir da sua vasta experiência como professor, formador e investigador?

R: Devo começar por dizer que sou um produto dos anos 60. A sala 17 de Abril deste Departamento de Matemática, onde estamos, deixa-me imensas recordações de um tempo revolucionário sob diversos pontos de vista, inclusive o da educação. Este é o 40.º ano que lecciono. Quando terminei o meu curso, em 1967, tinha 20 anos, era menor de idade e foi preciso uma autorização especial para começar a exercer a docência e, assim, fui o mais jovem professor do ensino liceal. A partir de 1978 comecei a trabalhar na formação de professores, mais tarde integrei-me na supervisão de estágios… Perceberão que, ao longo destes anos, passei por muitos tipos de ensino, eu próprio tive várias ideias e ideais acerca do ensino… Ao olhar para o meu percurso sobretudo como formador, posso dizer que tenho uma sensação um pouco contraditória: por um lado, sinto que fiz qualquer coisa, mas, por outro lado, sinto que falhei.

Sinto que fiz qualquer coisa porque penso ter conseguido transmitir aos meus formandos a noção de exigência e a consciência de que ser professor é a melhor coisa que há. Sinto que falhei por não ter sido tão exigente como devia, particularmente ao nível da avaliação. Muitas vezes penso que sou responsável pela certificação profissional de pessoas que eu sei que não são bons professores. Por muita intuição que se tenha, não há nada que substitua uma sólida formação científica e uma sólida formação pedagógica e didáctica.

Entendo que estes são os pilares fundamentais da formação. As lacunas existentes vêem-se no estágio e são muitas.

Continue a ler A crença no mundo de Peter Pan

Pode a Educação Especial deixar de ser especial?

É comum supor-se que as pessoas da pedagogia (e das ciências da educação em geral) comunicam nessa “linguagem perigosa” a que o Prof. Marçal Grilo chamou «eduquês» e que muito bem definiu como uma “trepadeira de palavras um pouco sem sentido”. É comum pensar-se também que, em termos epistemológicos, tais pessoas se acomodam na linha dura do pós-modernismo, sendo, nessa medida, avessas a qualquer raciocínio científico (o raciocínio que se baseia na lógica e na evidência empírica para se chegar à verdade objectiva), escudando-se numa estranha ideologia, onde se misturam opiniões mal urdidas do senso-comum, tendências políticas e reivindicações sociais.

Entendo que este retrato está longe de abarcar a totalidade do real. E explico porquê: ainda que se aplique a algumas pessoas que trabalham e opinam na área da educação, não se aplica a outras que adoptam as regras de pensamento que a ciência tem por necessárias.

Chega-me às mãos um livro coordenado por duas destas pessoas: uma portuguesa - João A. Lopes, da Universidade do Minho - e outra americana - James Kauffman, da Universidade da Virgínia -, onde o «politicamente correcto» e as «ideias correntes» só são contempladas para serem devidamente desmistificadas.

De facto, neste livro, que tem por título Pode a Educação Especial deixar de ser especial? e está escrito de forma admiravelmente compreensível, os autores, além de tratarem científicamente e no quadro dos saberes actuais a questão da educação especial, explicam em pormenor os gravíssimos erros em que os sistemas de ensino têm incorrido ao adoptar para esta área tão crítica um enquadramento pós-moderno, de teor marcadamente acientífico.

São as palavras do prefácio, de João Lopes, que melhor explicam o espírito da obra, pouco comum no nosso panorama educativo:

"Este livro tem como objectivo apresentar uma perspectiva da educação especial que, no entender dos seus autores, veicula a melhor evidência científica disponível relativamente aos assuntos que nele são abordados. É importante salientar este aspecto, porque (…) o denominado relativismo pós-moderno tem impregnado a educação especial com ideias e concepções que não só não têm em consideração a investigação desenvolvida nesta área, como a reduzem à condição de «opiniões entre opiniões». Neste contexto, aquilo que é característico da ciência (como por exemplo o valor da prova ou evidência) é frequentemente apresentado como inútil, quando não nefasto.

Continue a ler Pode a Educação Especial deixar de ser especial?

PARA UM DEBATE SOBRE TELEMÓVEIS NA ESCOLA


Com a data do passado dia 23 de Novembro, de Tiago Videira, professor de Música e estudante de PhD em Digital Media, foi recebido um mail que, satisfazendo o pedido do seu subscritor, me foi endossado. Sem dúvida, tarefa ingrata me espera mas mãos à obra.

Começa o referido mail desta forma:

Exmos Srs., em especial Rui Baptista:

Escrevi esta reflexão que gostaria de lançar como repto, provocação, ou ponto de partida para um debate neste sentido a ser lançado no vosso blogue, se assim for entendido como pertinente.”

Claro que no Rerum considerou-se o debate “pertinente". Aliás como qualquer debate que tenha interesse público. E porque assim é transcrevo-o parcialmente (apenas, por questões espaciais). Escreveu Tiago Videira:

“Na sociedade actual é impossível escamotear a nova realidade que se vive: os meios digitais transportáveis já são um prolongamento da identidade dos jovens. Um mero telemóvel não é um mero telemóvel. Não é um acessório dispensável. Não. É um instrumento que prolonga os sentidos, as disponibilidades e a mente de quem o controla. É parte do jovem, é um órgão artificial, mas tão concreto como os outros. Indispensáveis para comunicar e partilhar. Será uma remediação de boca, de olhos, de ouvidos. E nele se contêm memórias e músicas e fotos. É também uma remediação de memória cerebral. E faz parte do indivíduo, da sua identidade, de quem ele é”. E mais adiante, acrescentou: “Por isso, a escola, a sala de aula onde os alunos deverão permanecer atentos e imóveis e destelemobilizados é um atentado à sua identidade. Se todas as razões e mais algumas haveria a levantar contra o actual sistema de ensino (claustrofóbico, sedentário), mais uma se levanta: auto-destruidor da identidade, amputador dos membros digitais dos jovens”.

Nem de propósito, dois dias depois é publicada no Correio da Manhã esta notícia:

“A carta de uma turma do último ano do secundário, no liceu Jean-Lurçat, de Paris, à respectiva professora de Inglês provocou uma mini-revolução. Os alunos contestaram a autoridade da mestre que proibia telemóveis na aula e o corpo docente reagiu em bloco e recusa dar aulas à turma rebelde. O ministro da Educação, Luc Chatel, mandou inspectores ao liceu averiguar e castigar os alunos indisciplinados. Quando eles quiseram ter palavra no caso, recusou: ‘De modo

Continue a ler PARA UM DEBATE SOBRE TELEMÓVEIS NA ESCOLA
  • Arquivos