Terrorismo Endeusado

Ronaldo Angelini @ Bafana Ciência Categorias: Artigos, Bafana Divulga, Ciência Geral, Dostoiévski, História, Livros, Política, Religião, crítica, terrorismo
O romance Os Demônios de Dostoiévski antecipou o modo de ação de terroristas e revolucionários de esquerda, mas a religiosidade do autor de Crime e Castigo o impediu de prever que um dia, os terroristas pudessem matar em nome do Onipotente. Vejamos por exemplo, o intelectual Sayyid Qutb. Com 42 anos saiu pela primeira vez do Egito em 1948 para estudar os currículos escolares norte-americanos, pois trabalhava no ministério da educação. Chegando lá, achou tudo muito ruim e degradante. Considerou as festas de igrejas protestantes americanas cheias de “sex-apple”. Também não gostava de mulher. O tipo esquisitão. Na volta ao Egito, Qutb foi preso por conspiração contra quem ajudara, via golpe de Estado, a chegar ao poder (Gamal Abdel Nasser). Ele queria uma “ditadura justa” na qual só os virtuosos, como ele, tivessem poder político. É a versão islâmica do “déspota esclarecido” de Sócrates. Como seu desejo ia dar em nada ou em coisa pior, acabou enforcado, mas não sem antes escrever uma obra volumosa, que ...

Ainda Os Demônios

Ronaldo Angelini @ Bafana Ciência Categorias: Artigos, Bafana Divulga, Ciência Geral, Dostoiévski, História, Livros, Os Demônios, crítica, fidel castro, saddam
Discuti na semana passada que “Os Demônios” de Dostoiévski, escrito em 1870, foi profético ao tratar do caráter (ou falta de) de revolucionários e niilistas. Daí o nome do livro que nas primeiras versões no idioma de Camões foi traduzido como “Os possessos”. Esta diferença é explicada pelo tradutor da Editora 34, Paulo Bezerra: “o título original é que significa demônios (biês no singular), bem diferente de odierjímie (possessos)”. Aqui uma pausa. Quando escrevo Dostoievski (sem acento agudo) o processador de texto do Word nada assinala, mas se uso o acento Dostoiévski, como nos livros da Editora 34, ele é sublinhado como palavra errada. Daí o acento no meu texto. Enfim, nesta mesma edição (2005, 697 p.), Paulo Bezerra faz uma resenha. Como não poderia deixar de ser, começa contando o caso Nietcháiev que motivou Dostoiévski a escrever um livro inovador, pois coloca na trama uma personagem menor que narra à posteriori, ou mesmo em simultaneidade, os acontecimentos, o que “leva o leitor a sentir a proximidade da história narrada e envolver-se com ela”. Joseph Frank afirma ...

Os Demônios entre nós…

Igor Pivomar @ Bafana Ciência Categorias: Artigos, Ciência Geral, Dostoiévski, História, Os Demônios, literatura, livro, russia
Não há dúvida entre os biógrafos de Dostoiévski (1821-1881) que seu “Os Demônios”, escrito entre 1870 e 1872, é um panfleto contra os radicais russos e mais precisamente contra o niilismo. Publicado primeiramente em capítulos no O Mensageiro Russo, o autor dos já consagrados, “Notas do Subterrâneo” (1864), “Crime e Castigo” (1866) e “O Jogador” (1867), paralisou seu trabalho “A Vida de um Grande Pecador” no final de 1869, para se dedicar, em suas próprias palavras, à “uma questão contemporânea mais importante”. Tratava-se das agitações políticas que começavam a abalar seriamente a Rússia dos anos 60 e 70 do século XIX. Lembremos que o próprio Dostoiévski esteve encrencado vinte anos antes (ver artigo anterior), mas agora a nova geração se radicalizara. Por exemplo, em abril de 1866, um estudante (Karalósov) atirou em Alexandre II, errando, porém, o alvo. Levado no ato à presença do czar, que pessoalmente lhe tomou a pistola, o estudante não mostrou nenhum arrependimento. Este episódio culminou numa série de atentados à liberdade de expressão. Coitado do Dostoiévski. Ex-condenado, ex-editor de sua revista (Época) recentemente fechada, pois desagradava o ...

Preparando-se para Os Demônios

Igor Pivomar @ Bafana Ciência Categorias: 1849, Artigos, Ciência Geral, Dostoiévski, História, Livros, Os Demônios, crítica, literatura, russia
Fiodor Dostoiévski Foi em abril de 1849 que Dostoiévski e outras 27 pessoas foram presas acusadas de conspiração contra o czar Nicolau I da Rússia. Sim, ele tinha lá sua culpa, pois um ano antes, o aclamado autor de Gente Pobre (1846), passara a se reunir na casa de Petrachévski para discutir temas censurados na imprensa russa: as recentes transformações liberais da Europa, a eficácia de alguns sistemas socialistas e o fim da servidão dos camponeses, este último, o assunto preferido de Dostoiévski. A eloqüência usada por Dostoiévski, quando se referia às “intoleráveis injustiças contra o povo russo”, fez com que Spechniev, também membro do círculo de Petrachévski, o convidasse para outras reuniões com o objetivo de organizar ações mais práticas na luta contra o autoritarismo. Dostoiévski empolgou-se com a fala, o cavalheirismo e o dinheiro emprestado de Spechniev, a quem chamou uma vez de “meu Mefistóteles”, e passou a integrar um grupo seleto para discutir tais “atitudes”. Foram presos três meses depois. Em 16 de novembro do mesmo ano, Dostoiévski e outros 14 foram condenados à execução por um pelotão de fuzilamento. ...
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