Blogs de Ciência

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Archive for the Concepções de educação

A MISTELA DO EDUQUÊS

Texto gentilmente enviado por Guilherme Valente ao De Rerum Natura, saído no semanário Expresso de hoje.

«Os que negam a razão não podem ser conquistados por ela.» A. R.
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1. Só há um grande problema em Portugal, todos os outros derivam dele, serão resolvidos por acréscimo: a educação. O nosso défice público maior. No entanto, a solução desse problema fundador foi deixada a um grupo de pessoas de duvidosa formação, chocante insensatez, gritante incapacidade de gestão, desígnio ideológico inconfessável. Durante mais de trinta anos. Sobrevivendo a todas as mudanças de governo. Com uma continuidade como nunca se verificou noutra área governativa. Sem terem sido eleitas. Sem o seu programa ter sido votado pelos Portugueses. Impedindo a construção da escola do conhecimento e da exigência, que redistribuiria a cultura e qualificaria os Portugueses, esse grupo dos «especialistas» controla todo o sistema educativo, das estruturas de poder do Ministério à formação de professores. Recrutaram em todos os partidos, colocaram fiéis ou têm instrumentos nas Presidências da República. Na expectativa de eleições, preparam já a troca de cadeiras nos lugares mais visíveis no Ministério da Educação. À espera do próximo convertido ou «idiota útil» mais provável para ministro. Ninguém pode ambicionar uma carreira na educação sem aceitar o seu jugo. Uma «União Nacional».
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2. Confrontados com a tragédia dos resultados, que não os deixámos continuar a esconder, justificam o insucesso atribuindo-o a «cedências», «desvios» e «recuos» na realização do seu projecto. Devem ser assim interpretadas divergências recentes. E chegou a «justificação» mais sinistra: «Precisamos de mais tempo». Perante a sucessiva descida das notas de matemática, os responsáveis pelo Plano de Acção para a Matemática (os mesmos que causaram o descalabro) disseram… precisarem de mais anos (Expresso de 3/6/10, p. 18). Não chegaram trinta anos de experiência, um longo cortejo de vítimas? Pseudo-argumento, inverificável, fanático, que se conhece da História. No registo da política, como no da ciência, quando não se aceita a prova da realidade - neste caso o fracasso verificadíssimo da anti-escola imposta ao País - entra-se no reino das «ciências» ocultas. Também nesse sentido o eduquês é uma seita. Uma história conhecida ilustra a natureza irracional da falácia: Envenenado pela mistela do curandeiro, o doente acaba por ir ao médico. Levado o charlatão a tribunal, o que diz em sua defesa? «Se tivesse continuado a beber o meu remédio… acabaria por melhorar.» Até quando? Até morrer mesmo, pois não era remédio, mas

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Universidade de Boston, Mestrados e Ensino


“Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústria, modas, maneiras, pilhérias, tudo vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssimo, como os direitos de Alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas…” (Eça de Queiroz, 1845-1900).

Pelo interesse de que se reveste, transcrevo três excertos de prosa de um extenso artigo, saído no Público (06/08/2010), titulado “Educação injusta”, da autoria do professor universitário Luís Campo e Cunha. Escreve ele:

1. “A educação – outro problema calamitoso [referindo-se à justiça] – também não deu boas notícias com a perspectiva do fim das reprovações. Há uns meses, numa conferência em S. Francisco da Califórnia, um professor americano já reformado, que escreveu muito sobre Espanha e também sobre Portugal, perguntou-me qual a razão dos maus resultados do ensino nacional. Depois de uma longa conversa em que mostrei que os recursos financeiros, humanos e materiais eram dos melhores da Europa, os resultados brilhavam pela ausência. A finalizar disse-lhe que boa parte da culpa também era deles, americanos. Perante a surpresa expliquei-lhe que no final dos anos sessenta (ou princípios de setenta) um ministro da Educação tivera a ingenuidade de mandar uma dezena de pessoas estudar “ciências da educação” nos Estados Unidos. Ele interrompeu-me perguntando: não me diga que foram para Boston. Exactamente, disse-lhe. O meu amigo respirou fundo e calmamente concluiu: então caso é mesmo muito grave… E é, de facto, muito grave. A filosofia das escolas de educação está patente há muitos anos na abordagem ao ensino em Portugal e os resultados estão à vista.”

Começo por uma rectificação de somenos importância: os mestrados de Boston para o alcance do lugar de professor adjunto das escolas superiores de educação tiveram lugar em finais de 80. Sendo, por vezes, as questões da educação condicionadas pelas força políticas regionais, a primeira escola superior deste género a ser criada foi em Viseu, em 1983, quando seria de esperar terem sido contempladas, em primeiro lugar, as cidades de Lisboa, Porto e Coimbra, com longa e cimentada tradição na formação de professores do ensino primário. Já tem importância saber-se que um dos “felizes contemplados” com um mestrado pela Universidade de Boston foi Valter Lemos, professor da antiga Escola do Magistério Primário de Castelo Branco e antigo secretário de Estado da Educação, na vigência da pasta da Educação de Maria de Lurdes Rodrigues.

Igualmente, é detentora

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"Dicionário Histórico das Ordens e Instituições Afins" e Ordem dos Professores (2)

De Herodes para Pilatos prosseguiu o SNPL a sua acção constante e concertada, de que dei notícia, na então minha qualidade de presidente da respectiva Assembleia Geral (de que me demiti aquando da entrada deste organismo sindical na chamada Plataforma de Sindicatos em comunhão com a Fenprof e mais de uma dezena de sindicatos), num artigo, a página inteira, publicado no Jornal de Notícias, de 8 de Março de 2006, intitulado “Ordem dos Professores e AR”, que transcrevo na íntegra:

"O exercício da política pode ser definido com uma só palavra dissimulação"- Benjamim Disraelli.

Em 17 de Julho de 92, noticiavam os jornais a conferência de Imprensa dada pelo Sindicato Nacional dos Professores Licenciados (SNPL) para a criação de uma Ordem dos Professores (OP). Anos depois (20 de Junho de 1996) é entregue pelo SNPL na Assembleia da República uma pequena brochura contendo uma Proposta de Estatutos da Ordem dos Professores. Em 25 de Fevereiro de 2004, apresenta a supracitada organização sindical, também aí, uma petição com 7857 assinaturas para a criação da OP. Finalmente, em 2 de Dezembro do ano passado, foi debatida, na Assembleia da República, a petição n.º 74/IX (2.ª) do SNPL e outros.

No referido debate, a própria deputada do PCP, Luísa Mesquita, não se escusa em reconhecer: "Hoje, havendo condições para a inversão deste processo, a verdade é que, até hoje, apesar dos momentos críticos, mesmo de crise, na educação - e, sobretudo, no seio dos profissionais, os professores -, nunca se procedeu à codificação formal de regras deontológicas e para a tal formulação de uma ordem e de um código, considero que outros são os caminhos que os professores terão de percorrer para garantir, e mesmo exigir, a dignidade da função que exercem".

O deputado do Bloco de Esquerda João Teixeira Lopes, numa intervenção blasé de cábula que não se dignou fazer os trabalhos de casa marcados por um professor demasiado permissivo ou até banazola, apresentou como motivo impeditivo para a criação da OP este esfarrapado argumento: "A docência é um serviço público e, como tal, compete ao Estado, antes de mais, definir os critérios de acesso à profissão, bem como os códigos ético e deontológico". Exemplo acabado de um atestado de menoridade passado aos professores pela incapacidade de se auto-regularem como o fazem outras profissões com o estatuto de serviço público como a dos médicos, por exemplo!

Por seu turno, declarou o deputado João

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A Sexualidade dos Adolescentes

Informação chegada ao De Rerum Natura.

Título: A Sexualidade dos Adolescentes Contada por eles Próprios
Autor: Didier Dumas
Editora: Bizâncio

Instalado que está o modelo médico na educação sexual que deve ter lugar em contexto escolar (assente na explicação da reprodução e nos riscos inerentes à sexualidade), são bem vindos contributos que abram perspectivas complementares, que se detenham, por exemplo, em aspectos da ordem dos sentimentos (De Rerum Natura).

Sobre o livro: Em matéria de sexualidade, apesar de tudo ter mudado, nada se alterou na educação dos jovens. Embora a nossa sociedade se considere livre e a sexualidade já não seja considerada tabu, os pais de hoje silenciam tanto o assunto como os pais de antigamente. A explosão das técnicas da imagem, porém, faz com que os jovens se confrontem cedo demais com a pornografia. Este paradoxo entre o exibicionismo vulgar, por um lado, e o silêncio parental, por outro, surge como a causa mais importante da angústia dos adolescentes.

Sobre o autor: Didier Dumas dá-lhes a palavra, e os jovens, dos 14 aos 22 anos, confiam-lhe as suas experiências, problemas e medos, exprimindo-se com todo o à-vontade, sem tabus, sobre este assunto delicado e íntimo. Para que os nossos adolescentes e os das gerações vindouras possam ter uma vida sexual mais equilibrada, é urgente ensiná-los a falar de sexualidade. Porém, ao contrário do que se pensa, tal não se resume a explicar a reprodução e os diferentes riscos que correm. Pressupõe que se possa falar de amor e de desejo, desde a mais tenra idade. Um livro essencial que alternadamente dá a palavra aos jovens e ao adulto.Continue a ler A Sexualidade dos Adolescentes

Num tom de humor (?)

Continuando num tom de humor (negro), aqui reproduzimos uma crónica de Henrique Raposo, recentemente publicada no Expresso, que incide no (suposto) humor do nosso Ministério da Educação e que tão bem sintetiza questões em que temos insistido no De Rerum Natura.

I. Nas últimas semanas, o humor do ministério da educação começou no grau de exigência das provas de final de ano. Numa prova do 6.º ano, os alunos foram confrontados com este desafio brutal: ordenar palavras por ordem alfabética. Repito: a prova era para o 6.º ano.

Uma prova de matemática, também do 6.º ano, tinha perguntas complicadas como esta: "quantos são 5 + 2?". Tal como disse a Sociedade Portuguesa de Matemática, 14 perguntas deste teste de aferição do 6.º ano poderiam ter sido respondidas por alunos da primária. Em nome das suas estatísticas, os pedagogos da 5 de Outubro estão a destruir qualquer noção de empenho e rigor. Isto até seria cómico, se não fosse realmente grave.

II. Há dias, o humor chegou à própria arquitectura das escolas. Um génio da Parque Escolar decidiu que a sala de aula já não pode ser o centro da escola, porque isso representa o passado, porque isso representa um ensino centrado, imaginem, no professor. A Parque Escolar quer "uma escola descentrada da sala de aula, em que os alunos se espalham por espaços informais, com os seus computadores portáteis, cruzando-se com os professores na biblioteca e discutindo projectos". Alguém tem de explicar à Parque Escolar que uma escola não é um campo de férias. Alguém tem de explicar à Parque Escolar que o centro da escola é mesmo o professor. O aluno está na escola para aprender.

III. Já agora, aproveitando esta onda de humor involuntário produzida pela pedagogia pós-moderna, eu queria deixar uma proposta à Parque Escolar e ao ministério: que tal acabar de vez com o professor? Que tal substituir o professor por babysitters? Porque nesta escola moderna os professores são isso mesmo: babysitters.

Uma salva de palmas para a 5 de Outubro.
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O triunfo do “eduquês” – 1

Ninguém sabe ao certo

- o que é o "eduquês", pois as afirmações que o traduzem além de ilegíveis admitem sempre o seu contrário, pelo que as tentativas de esclarecimento redundam invariavelmente em sínteses confusas,

- de onde surgiu e quais são os seus pressupostos, apesar de podemos invocar um rol de teorias filosóficas, sociológicas, pedagógicas, psicológicas… onde, eventualmente, terá adquirido forma e substância,

- nem porque é que surgiu, apesar de termos bastas razões para duvidar da bondade das suas conjecturas e propostas, ou daquilo que entendemos delas,

- nem quem são os seus verdadeiros mentores, apesar de conhecermos bem os seus executores,

- nem para onde nos conduz, apesar de temermos seriamente os resultados das práticas que ele impõe.

Podemos conjecturar em torno destas questões, mas não conseguimos responder-lhes sem margem para dúvidas.

Na verdade, o "eduquês" tem uma existência fluida, insinuante, difusa, que por pode até aparentar uma não-existência. O facto de alguém – Marçal Grilo – lhe ter atribuído uma designação, conferiu-lhe substância, permitiu reconhecê-lo, ou pelo menos, evitar a sua negação.

Ainda assim, o "eduquês" tem-se implantado nos sistemas educativos ao ponto de os dominar, em particular nos mais uniformes e frágeis sob o ponto de vista do conhecimento, como é o caso do nosso. E isto sem resistências de maior por parte de académicos, de intelectuais, e da sociedade, em geral.

Paulatina e determinadamente o "eduquês" tem avançado, desprezando dados da investigação científica, resultados de provas de exame credíveis, vozes que interrogam... tudo deixa pelo caminho.

Não há secretários de estado, nem ministros que, nessas qualidades, lhe resistam, antes se lhe submetem. Mais até: legitimam-no, tranformam-no em letra de lei.

O "eduquês" tem vencido, e infelizmente continuará a vencer, reconheçamo-lo.
(Continua)
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A educação a nu

Texto de João Boavida antes publicado no diário As Beiras.

Segundo parece «em Mirandela não se fala noutra coisa», dizem as televisões do escândalo, salivando de gula. Pudera!

É a história da professora do 1.º Ciclo, ou seja, de crianças, que posou nua para a Playboy, pelo que foi suspensa das suas funções. Não tardou que se organizasse uma multidão de defensores, via Net, clamando contra a “perseguição”, a “repressão” e a mentalidade retrógrada dos provincianos, etc. e tal.

Já, porém, se disse e escreveu que não poderia ser outra a atitude de qualquer responsável educativo, fosse de uma escola, em Mirandela, ou do Colégio Moderno, em Lisboa. E fosse em Portugal ou no estrangeiro. E porquê? Porque não podia ser.

Saberão estes cavaleiros do direito individual por cima de toda a folha o que é a educação? É certo que há um processo poderosíssimo de sexualização (e até de pornocratização) da sociedade levado a efeito por dois princípios. Um, libertador, dos “preconceitos”, outro comercializador, seja do que for. O sexo, como se sabe, é mercadoria privilegiada e negócio seguro. Mas, não tenhamos ilusões – Freud explicou-o e nem seria preciso que o explicasse – o sexo sempre foi bastante controlado, isto é, sempre criou as suas regras, nem sempre sensatas, é certo, mas em todo o lado as criou, e tudo indica que vai continuar assim. Por outro lado, como toda a sociedade tem normas (sociais, psico-afectivas, morais), apesar de um capitalismo ganancioso que tudo explora e de tudo faz tábua rasa, ainda há quem pense que deve reagir, que sente ser sua obrigação fazê-lo.

Uma professora que vende a sua nudez – para uma revista que é ponta de icebergue de um submundo onde ninguém inteligente e sensível acha que as crianças devam ser integradas – pôs-se a jeito. Ou seja, uma professora que não tem consciência da dimensão sociocultural da educação, do lugar onde está, do que a sociedade lhe pede e da contradição em que cai, não deve ser professora. Demonstrou ipso factu que não está preparada, que lhe falta tanto ou mais que a indispensável competência científica e cultural. Como se quisesse ensinar música sem saber o que é uma pauta.

É claro que a sociedade dá sinais contraditórios e a “inocente” Bruna devia andar confusa entre a promoção de uma sexualização, que “liberta” e facilita, segundo dizem, a entrada no estrelato, e os sentimentos e

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A fórmula “divertido-lúdico-pedagógico”

Uma das ideias "pseudo-pedagógicas" mais vulgares nos documentos curriculares vigentes, nos discursos de muitos teóricos e investigadores (onde me incluo), de professores (onde também me incluo), e na opinião do público, em geral, é que o "divertido", o "lúdico" deve ser constantemente chamado à sala de aula, para, assim, se envolverem os alunos na aprendizagem, os interessar, os"motivar". Também se argumenta que isso contribui para o seu bom comportamento.

Acresce que essa chamada deve ser feita de tal modo que os alunos, divertindo-se, não percebam que estão a aprender conteúdos disciplinares (esta ideia é muito antiga e tem autor, pelo que, em texto posterior, a explicarei melhor), nem que se estão a comportar como devem.

Os conteúdos disciplinares são, assim, introduzidos subliminarmente, quase à má-fé (na expressão de um colega de profissão, autor do texto que cito a seguir), na crença (errada, profundamente errada) de que todos os alunos os lhe têm aversão. Está bem de ver que, e pondo a questão de outra maneira, se os alunos rejeitam aprender e/ou se têm um comportamento desadequado é porque o professor não usou a fórmula “divertido-lúdico-pedagógico".

O De Rerum Natura tem-se debruçado sobre este assunto (por exemplo, aqui, aqui e aqui), mas vale a pena insistir pela voz de João Lopes, especialista em Psicologia da Educação:
"Os adultos responsáveis pelo sistema educativo (…) fazem prodigiosos esforços por tornar «divertido» e «lúdico» aquilo que o não é e que não tem de o ser.
Esforçam-se por isso e demonstram que a ciência é divertida, que a gramática pode ser divertida e que, se a divisão de orações não é divertida, pode acabar-se com ela. Os adultos parecem apavorar-se com a possibilidade de os alunos não gostarem de uma matéria ou de uma unidade curricular, quando a verdade é que muitas dessas unidades só podem ser apreciadas por um número restrito de sujeitos. Os restantes poderão realizá-la, ou não, mas sem gosto ou até mesmo a contra-gosto, não sendo isso um drama nem um problema. De facto, há múltiplas actividades, tarefas, exercícios, ao longo do percurso escolar, que não só muito dificilmente serão realizados com gosto e ainda assim por muito poucos.
Os esforços para tornar a escola divertida têm com grande probabilidade efeitos contra-producentes quanto aos resultados académicos e relativamente ao papel que os alunos esperam para a escola e para si próprios enquanto alunos. Por um lado,

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Bons professores e regras morais contra a sociedade liquefeita

Com a devida vénia e porque aborda temas que aqui têm sido discutidos transcrevemos o artigo do sociólogo e escritor italiano Francesco Alberoni (na imagem) que foi publicado no jornal I em 6 de Abril passado:

"Os sociólogos estão sempre a repetir-nos que o nosso sistema social está cada vez mais desestruturado. Passámos da sociedade industrial para a pós-industrial, depois para a pós-moderna e por fim para a sociedade que Bauman designa por líquida, por não ter regras nem laços fortes. Contudo, para mim, as fases de desestruturação são seguidas de fases de reconstrução, e essa nova fase reconstrutiva já começou. Vejamos o campo do ensino. Há 50 anos, do encontro entre Dewey, a psicanálise e o vulgar marxismo, nasceu uma pedagogia segundo a qual não devem impor-se regras, mas apenas dar indicações. As crianças não devem decorar a tabuada, poemas, nomes das terras, datas da história, não devem estudar gramática nem análise lógica. Também não devem aceitar a autoridade dos pais e dos professores. Esses pedagogos achavam que, se o indivíduo fosse mais livre para criar, o florescimento cultural seria assombroso. Pelo contrário, gerou-se um vazio que foi preenchido pela cultura mediática.

As crianças não sabem poemas mas conhecem canções, não seguem os mandamentos morais, mas sim "o que dizem os colegas", não conhecem os clássicos, mas sabe o que dizem as personagens televisivas. Na verdade, a pedagogia que nivela tudo por baixo no intuito de esbater as diferenças teve como consequência tornar ignorantes milhões de pessoas e privilegiar aqueles que podiam ir para a universidade e para escolas de excelência com professores respeitados e programas rigorosos. É por essa razão que há cada vez mais pessoas a quererem uma escola mais séria, mais rigorosa, com professores preparados e mais respeitados. Mas também começam a perceber que é essencial que existam normas morais básicas interiorizadas, aprendidas até ao fim da infância.

Não se deve esperar que as crianças aprendam sozinhas que não devem roubar ou atormentar os colegas. Temos de as ensinar e fazer com que isso lhes fique gravado na mente, se torne um hábito. Por fim, também estamos a perceber que a nossa ordem social se baseia num mandamento fundamental: "Faz ao outro o que gostarias que ele te fizesse a ti." É um mandamento

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O máximo de criatividade

A criatividade é uma capacidade humana, como o são a retenção de dados na memória, a compreensão, a elaboração de juízos, ou a invocação de conhecimentos prévios para tomar decisões ou agir. Quando nascemos, todas estas capacidades se encontram em potência e, nessa medida, para se revelarem precisam de ser ensinadas e aprendidas. Falhas nestes dois processos comprometem a inteligência, que se constitui numa articulação, ainda não completamente esclarecida, entre estas capacidades e outras não aqui referidas.

Porém, num certo discurso, que está longe de poder ser corroborado pela Pedagogia (que se rege pelo modo de pensar aceite pelas comunidades científicas), insiste-se nas seguintes ideias:
(1) certas capacidades dispensam a estimulação, porque a criança, por si só, consegue desenvolvê-las;
(2) a estimulação dessas capacidades por adultos, a ser feita, tem efeitos contraproducentes: inibe a sua livre expressão;
(3) assim sendo, certas capacidades dispensam a estimulação de outras, pois estas podem destruir aquelas.

São três ideias que emergem imediatamente quando, nesse tipo de discurso, se invoca a criatividade. Assim, no plano da educação escolar, sublinha-se que:
(1) as crianças são naturalmente criativas e, quando não constrangidas, são capazes de fazer desabrochar e concretizar essa vertente no seu maior explendor;
(2) nessa medida, os professores devem, apenas e só, criar as condições para tanto;
(3) e devem, abster-se de trabalhar a memorização, porque esta abafará todo e qualquer laivo de criatividade.

Trata-se de ideias que, além de erradas, são perigosas. A criatividade é uma capacidade abstracta e complexa, requendo, para se desenvolver, outras que lhe são propedêuticas, como é o caso da memória. Não se trata de duas capacidades antagónicas, mas de duas capacidades complementares. A falta de estimulação duma prejudica a outra.

Tais ideias não estão, infelizmente, apenas patentes em discursos teóricos, elas perpassam os doumentos curriculares vigentes. Reproduzo, de seguida, um extracto do Programa de Educação Visual e Tecnológica para o 2.º Ciclo do Ensino Básico, que ilustra na perfeição o que acima afirmei:

“A investigação deve ser orientada para a autonomia dos alunos e a criação de hábitos de pesquisa, tanto relativamente aos interesses dos alunos como às formas de registo, de exploração das respostas e de apresentação das ideias, no sentido de permitir o máximo desenvolvimento da criatividade. Ao professor caberá essencialmente estimular a procura do maior número de respostas, animar a recolha de dados, promover a reflexão…”
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