Blogs de Ciência

Blogs de Ciência – Divulgação de todos os blogs em Português que versam a ciência. Parte do Projecto Divulgar a Ciência(.com)

Archive for the Ciência e Literatura

B Fachada, o músico em ascensão que trocou o estudo da Física pelas aulas de Literatura

(c) Foto de Vera Marmelo

Em entrevista publicada na edição de Dezembro da revista Aula Magna, o músico da Flor Caveira explica por que razão abdicou de uma Licenciatura em Física para poder dedicar-se ao estudo da Literatura. As razões são mais de ordem afectiva e B Fachada até sustenta que a sua passagem pela universidade não tem em vista uma profissão, mas ainda assim vale a pena conferir o que diz sobre o assunto um dos mais promissores músicos da nova vaga nacional.

«Por que razão escolheste o curso de Literatura?
Estive em Física primeiro, no Instituto Superior Técnico, e só mudei para Literatura, já na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, passados dois anos e meio.

Foi uma mudança drástica.
Era o que fazia sentido. E devia ter ido para Literatura desde o início. Mas acabei por decidir só a meio. Escolhi a Universidade Nova de Lisboa por causa do [poeta e ensaísta] Alberto Pimenta.

Como foi a experiência de física?
Curta, mas boa. Estar numa universidade a sério, que funciona bem, em que nunca se está mais de 10 minutos na fila para a secretaria, ter colegas que percebem do que se está a estudar, é algo que nunca se esquece. É uma experiência que se deve ter pelo menos uma vez na vida.

O que te interessou inicialmente na física?
Segui Ciências [no secundário] e dentro dessa área a única coisa que fazia sentido para mim era Física, sobretudo a parte experimental e de laboratório. Era algo de que gostava muito. Na altura a minha perspectiva era estudar por estudar e, nesse sentido, fui para Física. A minha passagem pela universidade nunca teve em vista uma profissão. O mesmo se passa agora com a licenciatura em Literatura. Apenas quero passar uns tempos a estudar e esticar esse período o mais possível.»

Publicado por Sílvio Mendes

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Ciência e Literatura (10): O Delfim, José Cardoso Pires e a Ciência na Gafeira


«(…)
«Marido e Mulher discutem Domingos, o criado. Não é apenas o mestiço ágil que eu tinha visto a manobrar os cães no terreiro da igreja, mas – como vou saber dentro de instantes – o homem que gastara a infância no cais do Mindelo, conduzindo marinheiros americanos com a sua voz branda e amável. Isso era o passado, declara o Engenheiro. A inteligência de que a natureza o dotou para sobreviver.
«E o passado não conta nas pessoas?», pergunta Maria das Mercês. «Pois olhe, eu acho que basta um tipo ter sido criado numa ilha para ganhar uma maneira de ser especial. Pelo menos precisa de imaginação para suportar aquela pasmaceira.»
Tomás Manuel pisca-me o olho:
«Influência do factor geográfico no comportamento das espécies.»
«Oh, não goze», implora ela, pegando no tricot.
E o marido, uma vez mais para mim:
«É isto. A sociologia chegou à Gafeira.»
(…)»

O Delifm, José Cardoso Pires, Publicações Dom Quixote (1987)

Publicado por Sílvio Mendes

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Ciência e Literatura (9): Almada Negreiros em Nome de Guerra

Capa original da 2ªedição de "Nome de Guerra"

“O leitor há-de ver já a seguir que o autor não é forte em ciência, de modo que tudo quanto ficar escrito não terá absolutamente nada de científico. Será exactamente nem científico nem falso, ao mesmo tempo.”

José de Almada Negreiros, “Nome de Guerra”

Publicado por Pedro Falcão

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Ciência e Literatura (8): Raul Brandão, Pascoaes e Jesus Cristo em Lisboa

O excerto que hoje reproduzimos até traz consigo um dos grandes clichés da ciência, quando colocada em oposição rígida absoluta com a religião, mas seria grave deixar em claro neste blogue a referência escrita a duas mãos neste magnífico texto dramatúrgico do início do século XX.

É a reacção de um coro de descontentes após Jesus – que decidira espalhar o seu apelo à humildade e à pobreza em nova visita à humanidade, em Lisboa, no começo do século passado – ter sido novamente crucificado.

«VOZES
Negámos-te como Deus, porque não podemos viver contigo.

OUTRAS VOZES
Obrigaste-nos a olhar para cima, quando tudo nos força a olhar para baixo.

UMA MULHER
Neguei-te, porque deixaste morrer nos meus braços uma filha de três anos. Se tu ouvisses os gritos que ela dava! Qual foi o seu pecado para um castigo tão horrível? Responde-me tu que és Deus! Como é que tu permites que uma criança inocente morra nos braços de sua mãe?

UM RAPAZ
Porque levantaste as ondas do mar, contra o barco que tripulava meu pai? Fiquei na orfandade com cinco irmãos ainda pequenos!

OUTRO HOMEM
Tu que és Deus, responde porque é que eu só posso viver matando? Porque é que viver é matar?

JUDEU
Neguei-te, porque quiseste destruir a riqueza do mundo.

UM SÁBIO
Nego-te em nome da ciência.
»

Raul Brandão, Teixeira de Pascoaes, “Jesus Cristo em Lisboa – tragicomédia em sete actos” (Assírio e Alvim, 2007)

Publicado por Sílvio Mendes

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Ciência e Literatura (7): “Confissão”, de Bulhão Pato


«Fui na infância católico exaltado;
Tudo era para mim edificante,
Ver o altar, ver o trono cintilante,
Ouvir na igreja a voz do órgão sagrado!

Foi-se apagando o amor arrebatado,
E a ciência levou-me num instante,
Com o sopro glacial e penetrante,
O edifício de luz do meu passado!

Deitei-me aos pés dos grandes missionários,
Na eloquência e na fé extraordinários;
Nenhum deles me deu sombras d’esp’rança!

Ó crenças infantis, talvez agora,
Volteis a mim, ardentes como outrora:
Diz-se que um velho torna a ser criança!… »

Bulhão Pato — Bilbau, Espanha, 1829-1912

Publicado por Pedro Falcão
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Ciência e Literatura (6): Alberto Caeiro e a metafísica


«Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso eu do mundo?
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho eu sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é o mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.

Mas que melhor metafísica que a delas
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber o que não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentando, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.»

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos / V

Publicado por Pedro Falcão
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Ciência e Literatura (5): Miguel Torga e o progresso da medicina


«Coimbra, 6 de Março de 1953 – Piorei da saúde. A máquina, à medida que os anos passam, vai pondo à mostra o desgaste dos rodízios. O caruncho começa a esfarelar o travejamento do corpo. Os inevitáveis sinais duma velhice que se aproxima, e de que tenho um terror que só ela sabe… Mas ao averiguar esta manhã o grau de mazelas que me roem, confesso que não foi o meu caso em si o que mais me interessou. Embora habituado, por ofício, a análises e radiografias, impressionou-me sobretudo o aspecto impessoal do problema. Época diabólica esta, em que podemos assistir num laboratório ao doseamento da energia que nos resta!

Dantes, a morte parecia-nos vir de fora, num ataque bruto e frontal. Agora, não. Agora conseguimos vê-la crescer em nós, milimetricamente, insidiosamente, como uma semente na terra ou um afecto no coração.

A olhar tubos de reacção alinhados e coloridos, onde uma subtil turvação é uma sentença sem apelo, até me esqueci de que o sangue era meu, empolgado como fiquei pelo progresso metódico de uma ciência universal, inexorável, que vai devassando esta última intimidade do mundo que era a vida. Abdiquei do meu próprio terror, encadeado pelo brilho da alquimia. Mais uns passos, e seremos transparentes como cristal. Transparentes à semelhança dos relógios, garantidos por um determinado tempo. Ao lado da data de nascimento, da altura e da cor dos olhos, teremos no cartão de identidade mais esta indicação preciosa: o dia prefixo do óbito.»

Miguel Torga, Diário VI, Coimbra, 1953, p. 178 e 179

Publicado por Sílvio Mendes
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Ciência e Literatura (2): Alice Vieira


elreitadinhoO livro “Graças e Desgraças da Corte de E-Rei Tadinho – Monarca Iluminado do Reino das Cem Janelas” é uma deliciosa explosão de fantasia que, a ter que ocupar uma prateleira, merece honras de lugar cativo bem próximo do genial “Aventuras de João Sem Medo”, de José Gomes Ferreira.

Adiante, no Reino das Cem Janelas, liderado por El-Rei Tadinho, Alice Vieira não se esquece de também adicionar ciência (através da figura de um físico) à barafunda que habita transversalmente o imaginário do livro. Aqui fica o registo:

«Diziam os grandes livros de leis do Reino das Cem Janelas que a crise, quando nascia, era para todos. Ou seja: se faltava comida na mesa do ferreiro, também faltava na mesa do juiz; se entrava água em casa do pedreiro, também entrava em casa do físico da corte.»

«Ao fim de meia hora de guinadas, a cabeça já lhe doía tanto que el-rei não teve outro remédio senão chamar o físico da corte, coisa que ele geralmente só fazia em casos desesperados.
(…)
- Então esse físico quando é que vem?
- Estou aqui, majestade, estou aqui – ouviu-se a voz do físico.
- Já não era sem tempo! Julgas que sou doente da caixa para esperar por ti este tempo todo?
O físico examinou el-rei com todo o cuidado. E depois perguntou:
- Haveis tomado o chá de mandrágora como vos receitei?
O rei disse que sim.
- Haveis dado todas as noites três voltas a pé-coxinho à sala do trono, como vos prescrevi?
O rei disse que sim.
- Haveis dormido de janela aberta como vos recomendei?
O rei disse que sim.
(…)
- Tendes pago a horas, ao dragão, a vossa conta de electricidade?
O rei voltou a dizer que sim.
Então o físico suspirou e acabou por declarar:
- Então não sei que vos faça, majestade. Deveis ter doença rara que ainda não aprendi a curar. De qualquer modo vou consultar os meus livros e pode ser que por lá encontre a cura do vosso mal.
- Vai, vai, que bem precisas de estudar um bocado – disse el-rei, que nunca tinha confiado muito na ciência do seu físico.»

Alice Vieira, in “Graças e Desgraças da Corte de E-Rei Tadinho – Monarca Iluminado do Reino das Cem Janelas”

Publicado por Sílvio Mendes
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