O “muito” de Ingrid

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Carácter, Ciência Geral
Do carácter de Ingrid Betancourt se pode dizer que "há quem tenha além do pouco muito". Ela faz diferença. Por isso, com um poema de Jorge de Sena, é justo que também aqui se assinale o dia da sua libertação e, creio, do seu renascimento.O pouco ou muitoO pouco ou muito a diferença é poucaTodos temos pouco e só há quem tenhaalém do pouco muito.São poucos esses e a pouco e pouco inexoravelmente são mais poucosante os muitos muitos.E a diferença sendo pouca é muita.Todos temos pouco muito então,além do muito pouco.Jorge de Sena (28 de Maio de 1966) in Visão Perpétua

Vergonha é…

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Carácter, Ciência Geral, Desenvolvimento moral
O que a gente fazÉ por debaixo dos panoPra ninguém saberNey Matogrosso“Vergonha é… roubar e ser apanhado”. Subjacente a este dito irónico está subjacente a ideia de que o mal não é propriamente a prevaricação, mas alguém descobrir a prevaricação.Qualquer pessoa adulta, nascida e criada neste lado do mundo, por menos instrução que tenha, percebe que não é assim, que, salvo raras excepções, o mal está, efectivamente, na prevaricação e que a vergonha decorre do facto de se ter prevaricado.Pois é… mas quando passamos para o plano da acção a coisa torna-se um bocado diferente. Agir de acordo com os preceitos morais que advogamos nem sempre joga a nosso favor, que é como quem diz, a favor das nossas conveniências, comodidades, dos nossos pequenos ou grande interesses e vícios.Os entendidos numa área de estudo da Psicologia que se designa por Desenvolvimento Moral, cedo identificaram este curioso fenómeno, não conseguindo, contudo, explicá-lo inteiramente. E, portanto, continuamos sem perceber porque é que, em muitas circunstâncias, não nos comportamos de acordo com os preceitos axiológicos que advogamos.Há quem defenda tratar-se de ...

Um homem da Liberdade

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Carácter, Ciência Geral
A data de hoje justifica que se recorde o encontro de dois homens de carácter que se admiravam mutuamente: Francisco Sousa Tavares e Salgueiro Maia. Encontro que é contado pelo jornalista António de Sousa Duarte, num livro que vale a pena ler: Salgueiro Maia, um homem da Liberdade."É neste momento que o advogado Francisco Sousa Tavares, a pedido de Salgueiro Maia, dirigindo-se à população, pedindo respeito pelos vencidos e anunciando a «libertação do jugo fascista». O ex-candidato no acto eleitoral de 1969 nas listas da depois extinta Comissão Eleitoral da Unidade Democrática trava aí uma amizade com o capitão Maia. Mais tarde, o velho democrata recordará:«Era um militar de bravura inigualável, mas também extremamente sensato e um homem de coração. Maia era um chefe nato e dele emanava a força serena dos homens habituados a dominarem-se e, sendo preciso, a dominar os outros. Foi assim que Salgueiro Maia, com os seus homens, dos quais a maioria sem qualquer experiência e praticamente sem instrução de tiro, venceu na Revolução e virou a página da História de Portugal.Dominou calmamente o terreiro do Paço, o tenente-coronel Ferrand de Almeida, dominou o ...

O carácter de Ingrid

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Carácter, Ciência Geral
“Chegada a este ponto, irão matar-me também? A minha relação com a morte é da mesma ordem da que o equilibrista mantém com ela: ambos praticamos uma actividade perigosa, avaliamos os riscos, mas o nosso amor pela perfeição vence invariavelmente o medo. Amo apaixonadamente a vida, não tenho medo de morrer. Tudo aquilo que construo na Colômbia é também para ter o prazer de aí envelhecer. Para ter o direito de aí viver, sem temer pela sorte daqueles que amo.”É com estas palavras inquietantes e envolventes que Ingrid Betancourt Pulecio termina o livro “Com raiva no coração”, dedicado aos seus dois filhos, Mélanie e Lorenzo.Trata-se de um relato apressado e detalhado das circunstâncias que justificam a luta de Ingrid, denotando, em cada passagem, que, quando o escreveu, estava consciente da importância de divulgar o seu testemunho antes de ser calada: “escrevo, obcecada pela necessidade de avançar, de salvar o que ainda pode ser salvo de verdade”, registou ela. E, mais adiante: “Tenho presente uma conferência de Hélène Carrère d’Encausse no Instituto de Ciências Políticas, em que ela explicava de forma pungente o modo como os regimes totalitários reescreviam ...
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