Blogs de Ciência

Blogs de Ciência – Divulgação de todos os blogs em Português que versam a ciência. Parte do Projecto Divulgar a Ciência(.com)

Archive for the África do Sul

Enquanto isto na África do Sul

Oi gente! Como alguns de vocês sabem minha esposa, a professora Adriana Rosa Carvalho tem um projeto aprovado no edital Pró-África do CNPq e por isto estamos aqui na maravilhosa Cape Town para que o projeto com os pescadores do estuário do Rio Olifants possa seguir em frente. Se quiser ler mais sobre o projeto clique [...]
Continue a ler Enquanto isto na África do Sul

Os Monstros: nossos maiores amigos

Para a geração que chega agora nos 40, poucos filmes foram tão impressionantes na adolescência como Tubarão de Steven Spielberg. Longe dos monumentais efeitos computadorizados de hoje, o aclamado diretor conseguia manejar muito bem a câmera, colocando os espectadores, hora como vítima, outra como predador, fazendo-os, por assim dizer, sentirem-se como ambos. Tudo isto ao som daquela “musiquinha”: tundundun-dundun-tundun… mais aterrorizante talvez apenas, os gritos agudos no chuveiro de Hitchcock, em Psicose, conhecido e traduzido em Portugal como O Filho que era Mãe (parece piada, mas é pura verdade, perguntem pro Ruy Castro).

A cena de abertura do filme é clássica: a garota, num luau com os amigos transviados, vai nadar nua, no oceano tranqüilo. E então, tundundun… na poltrona da cidade do interior (longe do mar) já sabíamos o que ia ocorrer, mas nos aterrorizávamos mesmo assim. Depois vem a caçada ao grande bicho -“assassino”, que mostra toda a sua força, até ser explodido em zil pedaços. Politicamente incorreto? Então que tal lembrar do cultuado Moby Dick, romance de Hermam Melville, sob a direção de John Huston? No filme, Ahab, o capitão, exala ódio da baleia branca. A obsessão do perna-de-pau em matá-la é tamanha que, alude à luta de um homem para atingir sagazmente seus objetivos, enfrentando a natureza indomada. Numa palavra: clássico. É claro, o filme de Huston, que colocou lindos olhos de cavalo na baleia franca, enxota Tubarão para a “sessão da tarde”, pois é um clássico nascido de outro, combinação que nem sempre dá certo.

Se filmado hoje, o Pequot (nome do navio de Melville) seria um baleeiro japonês, com um capitão defendendo sua “cultura” de comer baleias, argumentando que apenas as espécies de baleias piscívoras consomem pelo mundo, de 54 à 88 milhões de toneladas de peixe, o que representa 60-100% da pesca marítima mundial. E os heróis japoneses, estariam, por assim dizer, reduzindo o número de nossos competidores pelo mesmo recurso (o peixe). Porém, esta é uma avaliação muito simplista. Nem sempre os chamados efeitos da cascata trófica, são assim tão diretos, isto é, tirar o predador, pode não ser a melhor coisa para a presa. Os efeitos são muitas vezes, contra-intuitivos. Por exemplo, um predador, beneficia a população de presas, quando consome indivíduos idosos e doentes (mais fáceis de caçar), e então reduz a competição entre…

Continue a ler Os Monstros: nossos maiores amigos

Laduma

Soccer

Laduma” é uma expressão Zulu que pode significar “ficar famoso”, “trovejar” ou mesmo “fazer barulho” e é usada pelos narradores de futebol da África do Sul depois do gol. Aliás, o campeonato nacional nunca é narrado em inglês, pois as TVs preferem uma das outras 10 línguas oficiais do país. O esquisito é que durante a transmissão, alguns repórteres falam em inglês, outros em africâner (a língua da identidade nacional) e o narrador numa terceira (Xhosa, Suthu, Zulu. Há muitos sul-africanos que também não entendem estas línguas).

Enquanto estava na África do Sul, assisti ao jogo Brasil x Portugal. A cada 10 minutos os locutores se revezavam, um em inglês o outro numa outra língua que não consegui identificar. Ainda bem que o futebol tem sua linguagem própria e deu pra entender direitinho: o Brasil continua mal, correndo atrás da bola.

Quando Carlos Alberto Parreira aportou na África do Sul. Sua missão foi tentar ser um Laduma, ou mais modestamente, fazer com que os torcedores do Bafana Bafana, como é chamada a seleção local, voltem aos estádios.

O alvo de críticas freqüentes é seu alto salário, mas a missão de Parreira não é das mais fáceis. Em novembro de 2006, os Bafanas venceram Zâmbia por 1 a 0, num jogo onde sobraram caneladas e maus tratos à bola. Parreira e Jairo Leal assistiram a partida e como vestiam pela segunda vez ternos pretos num jogo do Bafana, foram apelidados de “MIB - Homens de Preto” numa alusão a comédia dos agentes do FBI que são os policiais dos extra-terrestres na Terra.

Ao problema da falta de qualidade dos jogadores locais (bem longe de Camarões, Zâmbia ou Angola) soma-se o fato de que o embargo esportivo à África do Sul terminou apenas em 1992. O país do apartheid ficou 30 anos sem experiência em competições internacionais. Isto é, a nova geração não tem referencial de vitórias ou mesmo derrotas.

Parreira-BooksPelo mundo, há sérias dúvidas a respeito da competência de Parreira. A questão mais óbvia é que se ele conseguiu apenas jogar feio ao conduzir um time de estrelas na última Copa do Mundo, o que poderá fazer com jogadores inexperientes e sem a mesma qualidade técnica da brasileira?

Porém, Parreira pode ser

Continue a ler Laduma

Elefante, manejo pra proteger a memória

Be Happy Elefante

“Um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais…” era assim que começava uma musiqueta que cantávamos, quando crianças, para atormentar os adultos. Depois veio o Jotalhão, o elefante do Maurício de Souza que acabou virando extrato de tomate, com o lema “o mais amado do Brasil”, ou algo similar.

Na África do Sul, e na África de modo geral, os elefantes ainda incomodam muita gente, mas atraem turistas, exigindo cuidados especiais da direção dos Parques Nacionais e dos gerentes das reservas particulares (chamadas de “game farms”). Estas propriedades são um atrativo negócio em que o fazendeiro ao invés de criar animais para abate, os cria para serem vistos por turistas em preservadas paisagens naturais.

O problema com o “way of life” elefantino é que ele é um glutão. Diferente das girafas que ficam com as folhas e espinhos, os indivíduos da espécie Loxodonta africana, preferem a árvore ou o arbusto inteiros na época seca, pois na chuvosa o consumo é exclusivamente de gramíneas. Apesar disso, eles consomem por volta de 165 espécies de plantas, o que o transforma no melhor dispersor de sementes do continente.

elephant Sun Enquanto estava em Cape Town, num programa no canal 3 (em tempo, há apenas 5 canais de TV aberta na África do Sul) houve um debate sobre o impacto dos elefantes na vegetação ciliar de alguns rios ao leste do país. A provisão de água, para eles mesmos e também para outros animais, estaria seriamente ameaçada, já que a derrubada da mata de galeria acarreta o carreamento do solo e conseqüente assoreamento do rio. Não há consenso, sobre o que fazer, entre os especialistas. Uns pedem pra deixar como está, pois alguns morrerão e o ciclo da vida continuará; outros acham que os elefantes devem ser “conduzidos” para outras áreas ou mesmo mortos, já que temem os impactos da população acima da capacidade suporte das áreas, o que acarretaria prejuízos para todas as espécies animais.

Esta história já é relativamente documentada (ver referências abaixo). Por exemplo, num estudo conduzido durante três anos na savana do Kênia, houve uma redução de 16% no número de indivíduos de uma espécie de árvore do gênero Acacia sp. (o preferido dos grandes herbívoros). Os elefantes foram responsáveis por 40% da mortalidade, seguidos pelo rinoceronte negro (33%) e por

Continue a ler Elefante, manejo pra proteger a memória

Girafa: o mais simpático dos grandes mamíferos

O continente africano possui paisagens e flores magníficas, mas no quesito grandiosidade, alguns animais da África têm fama mundialmente inquestionável. As cinco espécies que recebem maior destaque são: rinoceronte, elefante, leão, búfalo e leopardo. O Rand, que é a moeda da África do Sul (7 Rands = 1 dólar), ostenta-os, respectivamente, em suas notas de R10, R20, R50, R100 e R200. Estranhou a lista? Cadê o hipopótamo, a chita, o gorila e a girafa? Na verdade, os chamados “big five” não são exatamente os “maiores”, mas sim os mais agressivos e perigosos ao homem.

MapinguariPor que a diversidade de grandes animais só é alta no continente africano? A resposta mais correta é o fator histórico-evolutivo, pois há 20 mil anos atrás, o continente americano também contava com mamíferos quase gigantescos: tatus, ursos, veados (com galhadas de mais 10 metros de largura) e o mais famoso deles, a preguiça gigante, que depois virou lenda na Amazônia com o nome de Mapinguari (tem até pesquisador atrás dela). Então, há cerca de 13 mil anos, o bicho-homem atravessou o estreito de Behring e caminhando (8 km/ano) até a Patagônia foi dizimando estas belas espécies.

O episódio é conhecido como overkill (supermatança) e ninguém tem dúvida que ocorreu, pois todas as outras hipóteses, em especial as climáticas, levantadas para explicar a rápida extinção, foram descartadas. Assim, apesar do tamanho enorme, estes bichos não tinham nenhum instinto evoluído para evitar o homem e representavam uma importante fonte de proteína para nossos ancestrais.

Isto é basicamente provado pelo fato de que, na África, as extinções nesta mesma época foram menores, pois como é o berço de nossa espécie, os animais já haviam sido selecionados para evitar aquele bípede cabeçudo que atuava em grupo.

A girafa (Giraffa camelopardallis) é um destes animais que aprendeu a conviver com a presença humana e se a fragmentação mais recente do habitat africano ainda não acarretou especiações propriamente ditas, permitiu variações de cor e padrões de manchas distinguíveis para os pesquisadores, que então descrevem 9 subespécies de girafas (nem todos concordam com este número). Diga-se de passagem, que aparentemente a coloração ajuda a confundir os predadores (foto abaixo).

Girafa na Aquila Reserve

Independente da subespécie, as girafas, em geral vivem em grupos de 9 a 10 indivíduos que normalmente se reduzem na estação seca para em torno de 6. Não

Continue a ler Girafa: o mais simpático dos grandes mamíferos

Namíbia. Um país que por causa da costa, caminha pra frente!

Um rápido olhar no mapa da África e é possível identificar países que destoam pelo desenho de suas fronteiras. A Namíbia, ao sul do continente, é um deles, pois sua fronteira leste, com Botswana e África do Sul, é uma linha reta na vertical (veja o mapa abaixo).

Mapa da Namíbia

Pode-se achar estranho, mas quem só vê o mapa não viu nada ainda. Que tal saber que até 1990 a Namíbia era colônia da África do Sul? Isto contrariava até mesmo a Corte Internacional de Justiça que em 1971 já havia declarado que o controle sul-africano era ilegal. Em 1990, os altos custos da ocupação (50 mil soldados), as pressões internacionais de dentro e de fora do continente, e a bancarrota interna do governo do apartheid, fizeram com que a então chamada, África do Sudoeste (South-West Africa), voltasse a ser Namíbia.

Mas isto ainda não é tudo de curioso neste país: os apenas 2 milhões de habitantes falam 45 línguas (!). Ainda bem que a língua inglesa unifica a nação, já que a alfabetização atinge 85% da população e as aulas do idioma de Sua Majestade são diárias. Bom pra eles, pois os alunos e professores da única universidade (Universidade da Namíbia na capital Windhoek) podem aproveitar mais facilmente a literatura científica, toda em inglês, e ainda viajar aos grandes centros mundiais e aprender novas técnicas sem o obstáculo do idioma (como eu, por exemplo).

Porém, estranho mesmo na Namíbia é sua costa. Com uma extensão de 1570 km e largura variando de 80 a 150 km, é um imenso deserto que cobre 15% de todo país. Praticamente não cai uma gota de água da chuva o ano todo, mesmo sendo à beira do mar. Por quê?

Via de regra nuvens de chuva se formam, em zonas de baixa pressão, com movimentos ascendentes da camada de ar. Ocorre que esta faixa do Atlântico é uma área de alta pressão atmosférica, que funciona como um anticiclone, trazendo vento seco descendente. Soma-se a isto, a corrente marítima fria que sobe a costa africana e esfria a superfície da água e o ar que, mais frio e consequentemente mais denso, torna-se incapaz de subir para formar nuvens. Em determinadas épocas um denso nevoeiro se forma (há relatos de inúmeros naufrágios na região) e avança ao

Continue a ler Namíbia. Um país que por causa da costa, caminha pra frente!
  • Arquivos