"As leis mal feitas constituem a pior forma de tirania" (Edmund Burke, 1729-1797). .
De um anónimo recebi um comentário (9 Agosto; 09:12) ao meu último post, Diploma Estrangeiros e Equivalências Nacionais, que, pelo interesse das questões levantadas, transcrevo na íntegra:
“É aquilo que se sabe há tanto tempo e a pergunta nunca formulada por inconveniência: para quando o separar de águas de politécnicos e universidades? cada qual com o seu sistema e cursos próprios? É desmazelo, é interesses? Quantas mais décadas andaremos a suster o sistema politécnico que de técnico tem muito pouco?”
Pois bem. A separação entre o ensino universitário e o ensino politécnico sofre do pecado original da legislação que lhes traça as competências ser confuso quanto baste. Assim, a Lei n.º 46/86, de 14 de Outubro (Lei de Bases do Sistema Educativo - LBSE) estabelece, ela própria, um imbróglio em que é difícil separar águas entre estes dois subsistemas do ensino superior. Transcrevo os respectivos formulários:
- “0 ensino universitário visa assegurar uma sólida formação científica e cultural e proporcionar uma formação técnica que habilite para o exercício de actividades profissionais e culturais e fomente o desenvolvimento das capacidades de concepção, de inovação e de análise crítica” (ponto 3, do artigo 11.º da LBSE).
- “O ensino politécnico visa proporcionar uma sólida formação cultural e técnica de nível superior, desenvolver a capacidade de inovação e análise crítica e ministrar conhecimentos científicos de índole teórica e prática e suas aplicações com vista ao exercício de actividades profissionais" (ponto 4, ibid).
Nestes dois textos, as finalidades do ensino universitário e do ensino politécnico parecem-me não diferir muito, exceptuando a ordem ocupada pelas palavras. E se, como escreveu Charles Pierce, “uma boa linguagem é a própria essência do pensamento”, geram-se, com isso, desnecessárias dificuldades nas respectivas interpretações.
Todavia, existe neles uma diferença digna de registo: o ensino politécnico “ministra conhecimentos científicos de índole teórica e prática", sendo o texto omisso no que respeita ao conhecimento prático dos universitários. Serão estes, apenas, futuros homens de laboratório de bata branca, ratos de biblioteca e técnicos de fato e gravata?
Entretanto, é dada ênfase
“à sólida formação cultural e técnica ‘de nível superior’ do ensino politécnico". Redundância desnecessária: o ponto 1, do artº 11.º da LBSE determina que
“o ensino superior compreende o ensino universitário e o ensino politécnico”. Logo, a formação ministrada neste último subsistema do ensino superior nunca poderia ser “
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Rui Baptista @ De Rerum Natura
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[A educação] “é um desastre completo. Nem daqui a 30 ou 40 anos nos livramos dos erros que andamos a fazer hoje” – Silva Lopes.
Um comentário, datado do passado dia 7 de Agosto, ao meu
post “Boston, Mestrados e Ensino” tece considerações nos dois parágrafos iniciais que se transcrevem:
1.º §:
“ Agora começamos a puxar o fio à meada e saber de onde vem essa gente, Portugal é um país tão provinciano que qualquer diploma no estrangeiro, mesmo em universidades duvidosas vale mais que ouro cá no burgo!”
2.º§;
“Creio que qualquer jardineiro que tire um curso profissional em qualquer país do mundo, mas sobretudo Inglaterra ou Estados Unidos, têm equivalência automática a um mestrado de arquitectura paisagista cá em Portugal!”
Este deslumbramento pelas novidades que nos chegam do estrangeiro tem raízes profundas em Portugal. O próprio Eça, no século XIX, o reconheceu:
“Portugal é um país traduzido do francês em calão”.Antes deste verdadeiro bodo aos pobres em reconhecer diplomas universitários anglo-saxónicos (e não só) sem crédito que os recomende minimamente é uma novidade de anos recentes. Tempos houve, de parcimónia extrema (aliás, idiossincrasia bem nacional de passar de um extremo ao outro), em que graus académicos alcançados em universidades estrangeiras, por vezes de maior mérito do que as portuguesas, fazia andar de Herodes para Pilatos os seus detentores para obterem o seu reconhecimento oficial. De há escassos anos para cá foi o que se viu. O próprio Estado português enviou os seus dilectos filhos tirar uma espécie de cursos de Verão em Boston (a que forem concedidas equivalências aos mestrados universitários portugueses) para a docência de professor adjunto das escolas superiores de educação que proliferaram em terreno húmido que torna exaustiva a sua enumeração. A primeira escola superior de educação que abriu foi a de Viseu com a publicação da Portaria n.º 250/83.,de 4 de Março, era então ministro da Educação Fraústo da Silva.
Destinavam-se estas escolas a formar, unicamente, professores do 1.º ciclo do básico e educadores de infância com o grau de bacharel, o que seria uma evolução em termos “académicos” relativamente às escolas de ensino médio do magistério primário que lhe serviram de berço com um passado de mérito. Com as escolas superiores de educação ocorreu que os respectivos alunos passaram a sair com mochilas repletas de teorias pedagógicas e órfãos de competências para o ensino do LEC (ler, escrever
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Rui Baptista @ De Rerum Natura
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“Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústria, modas, maneiras, pilhérias, tudo vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssimo, como os direitos de Alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas…” (Eça de Queiroz, 1845-1900).
Pelo interesse de que se reveste, transcrevo três excertos de prosa de um extenso artigo, saído no Público (06/08/2010), titulado “Educação injusta”, da autoria do professor universitário Luís Campo e Cunha. Escreve ele:
1. “A educação – outro problema calamitoso [referindo-se à justiça] – também não deu boas notícias com a perspectiva do fim das reprovações. Há uns meses, numa conferência em S. Francisco da Califórnia, um professor americano já reformado, que escreveu muito sobre Espanha e também sobre Portugal, perguntou-me qual a razão dos maus resultados do ensino nacional. Depois de uma longa conversa em que mostrei que os recursos financeiros, humanos e materiais eram dos melhores da Europa, os resultados brilhavam pela ausência. A finalizar disse-lhe que boa parte da culpa também era deles, americanos. Perante a surpresa expliquei-lhe que no final dos anos sessenta (ou princípios de setenta) um ministro da Educação tivera a ingenuidade de mandar uma dezena de pessoas estudar “ciências da educação” nos Estados Unidos. Ele interrompeu-me perguntando: não me diga que foram para Boston. Exactamente, disse-lhe. O meu amigo respirou fundo e calmamente concluiu: então caso é mesmo muito grave… E é, de facto, muito grave. A filosofia das escolas de educação está patente há muitos anos na abordagem ao ensino em Portugal e os resultados estão à vista.”
Começo por uma rectificação de somenos importância: os mestrados de Boston para o alcance do lugar de professor adjunto das escolas superiores de educação tiveram lugar em finais de 80. Sendo, por vezes, as questões da educação condicionadas pelas força políticas regionais, a primeira escola superior deste género a ser criada foi em Viseu, em 1983, quando seria de esperar terem sido contempladas, em primeiro lugar, as cidades de Lisboa, Porto e Coimbra, com longa e cimentada tradição na formação de professores do ensino primário. Já tem importância saber-se que um dos “felizes contemplados” com um mestrado pela Universidade de Boston foi Valter Lemos, professor da antiga Escola do Magistério Primário de Castelo Branco e antigo secretário de Estado da Educação, na vigência da pasta da Educação de Maria de Lurdes Rodrigues.
Igualmente, é detentora
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Rui Baptista @ De Rerum Natura
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“Deixemos no bengaleiro a nossa perpétua inclinação nacional de escutar odes- e entremos só com a tendência humana de resolver problemas” (Eça de Queiroz, 1845-1900).
Sem meias tintas, que o tempo não é de palavras mas de acção, comecemos por encarar a realidade do nosso ensino em que, segundo Carlos Fiolhais, “por força de um atraso ancestral, a necessidade de uma escola qualificada que dê lugar a uma sociedade desenvolvida não está suficientemente clara na mente das pessoas. A escola, a boa escola, não ocupa ainda o lugar a que tem direito”.
Em contra-mão com a vox populi que nos avisa que se a palavra é de prata o silêncio é de ouro, surge o optimismo de uma extensa entrevista, com chamada na primeira página, da Ministra da Educação (“Expresso”, (31/07/2010), intitulada “Isabel Alçada quer acabar com chumbos”, criando, com isso, uma espécie de fait-divers para os inúmeros problemas que afectam o sistema educativo nacional.
Se não fosse trágico, seria interessante o burburinho causado por esta entrevista no que se refere aos chumbos por ser o anúncio do que se iria passar no nosso ensino como se já não fosse o que se passa de há dezenas de anos para cá perante a passividade ou mesmo a água da pia baptismal das diversas tutelas do Ministério da Educação, que fingem nada ver e nada saberdas passagens de ano, escandalosamente facilitadas, no ensino básico com finalidades estatísticas de sucesso escolar.
Este facto coloca-nos a anos-luz da preocupação de Platão (427-347 aC.) com a educação da juventude ateniense. Quando confrontado com a incapacidade de as crianças contarem ou distinguirem os números pares dos números ímpares, manifestou o seu muito desagrado e não menor desalento: “Quanto a mim, parecemo-nos mais com porcos do que com Homens, e sinto-me não só envergonhado de mim, mas de todos os gregos”. Justiça seja feita a Vasco Graça Moura, por idêntica preocupação mais de dois milénios depois: “A escola que temos não exige a muitos jovens qualquer aproveitamento útil ou qualquer respeito ou disciplina. Passa o tempo a pôr-lhes pó de talco e a mudar-lhes as fraldas até aos 17 anos. (…) Vão para a universidade mal sabendo ler e escrever e muitas vezes sem sequer conhecerem as quatro operações” .
Para acabar com os chumbos, em provas de aferição (em 2010) de Matemática do 6.º ano de escolaridade
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Rui Baptista @ De Rerum Natura
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Comentários no meu post, “José Hermano Saraiva ‘versus’ José Saramago” (25/07/2010), sobre o apelido de pessoas com consoantes dobradas, sugerem-me este pequeno texto sobre nomes próprios que criam, por vezes, situações embaraçosas. Senão vejamos:
Uma Sofia ignorante? É uma questão de antonímia!
Ana é um doce nome de mulher. Perde a musicalidade com o casamento: senhora D. Ana. É uma questão de estado civil!
Uma feia Anabela, não se livra do comentário. “Anabela? Hum! Ana…feia! É uma questão de genética!
Minha Mãe teve uma amiga, de sua graça Felisbela que, de quando em quando, pondo os olhos em alvo, em longo e inconformado suspiro, dizia: “Bela não direi que não, agora feliz?!” Em boa verdade, era muito, mas mesmo muito, infeliz. Tanto como uma desgraçada nubente a quem o noivo foge, com a sua melhor e bela amiga, na véspera da boda. Mas essa não a sua desdita maior: era bem mais feia do que infeliz! Feia como as coisas feias. Apesar de tudo, tivera sorte. Ninguém se chama Infelizfeia! É uma questão de bom senso!
Há também aquela história verídica de um pai que à pergunta do funcionário da Conservatória do Registo Civil sobre o nome a registar à filha, respondeu: “Prante-lhe Ana”! E ela ficou “Prantelhana”. É uma questão de um regionalismo desconhecido do funcionário e de cacofonia!
Para terminar, agora, uma questão de apelido embaraçoso. Acerca de uma polémica, recordo-me de uma verrinosa resposta de Camilo a um literato brasileiro – cito de memória, sem garantir a exactidão dos nomes - que, de terras de Santa Cruz, encarregou alguém de Portugal de tirar um desforço físico do violento polemista de São Miguel de Seide. Sabedor do caso, respondeu Camilo no mesmo jornal: “O senhor António da Silva Filho deputa e delega no senhor fulano de tal a incumbência de me espancar". É uma questão de filiação!
Outros exemplo há, mas que normas da boa educação desaconselham a referência...
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Rui Baptista @ De Rerum Natura
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“Uma boa linguagem é a própria essência do pensamento” (Charles Peirce, 1839-1914).
Se as coisas fossem simples, a ponto de não haver “
uma necessidade premente de mostrar a sua complexidade” (Marcel Proust), não seria obrigado a preocupar-me com simples opiniões que por aqui aparecem sob vestes sagradas em que cada palavra me obriga a procurar o seu significado lexical. Esta situação muito se agrava porque
“tão pobres somos que as mesmas palavras servem para exprimir a mentira e a verdade”, na opinião de Florbela Espanca.
Vem agora à baila o conceito de Universidade e seus objectivos. E cá me acho eu novamente a procurar referências num dicionário. Universidade: “Instituição de ensino e pesquisa constituída por um conjunto de faculdades e escolas destinadas a promover a formação profissional e científica de pessoal de nível superior, e a realizar pesquisa teórica e prática nas principais áreas do saber humanístico, tecnológico e artístico e a divulgação dos seus resultados à comunidade científica mais ampla”(Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, tomo XVIII, p. 8.025).
Em comentários ao meu post ,“Ainda a Polémica sobre o Historiador José Hermano Saraiva” (26/07/2010), são feitos o ataque e a defesa do papel da Universidade em Portugal. A sua defesa começa, começa bem, em minha opinião, pela crítica a raciocínios simplistas sem destaque para o balanço positivo do que de bom, ou mesmo de muito bom, tem sido feito pela universidade portuguesa, com reconhecimento em fronteiras exteriores “sobretudo na biotecnologia, genética e engenharia”. Balanço que me parece pecar em não anunciar outras áreas do conhecimento científico.
Mas ataques à instituição universitária nada me espantam depois de, numa carta ao director, um leitor do “Diário de Coimbra” (1996), com uma licenciatura universitária, segundo ele próprio, se ter lamentado em não ter obtido a sua licenciatura numa escola superior de educação por os seus pares “terem deixado, lamentavelmente, morrer muito do bom que a Reforma do Sistema Educativo aportava”. Apesar de eu desconhecer a que "muito de bom", ele se refere, sublinho, apenas, a carga que o advérbio [lamentavelmente] trouxe ao texto, numa atitude de perverso orgulho de quem se passa para o lado de lá, e de que a história é pródiga em exemplos.
Concordo que a Universidade não deve ser uma instituição do tipo napoleónico, anquilosada por ataques de artrite por imobilismo de adaptação ao
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Rui Baptista @ De Rerum Natura
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Transcrevo o artigo publicado no Jornal de Letras, n.º 1039 (saído hoje), p. 17, da autoria de Eugénio Lisboa, intitulado Cantigas de Amigo:“O homem que viaja em busca de um amigo, percorre o mais longo caminho possível” (Ali-Ibn-Abi-Tali).
"Na madrugada do dia 27 de Agosto de 2007, está agora a fazer três anos, faleceu, num hospital londrino, o poeta Alberto de Lacerda (AL) que, cinquenta e seis anos antes, para ali fora viver, ido de Lisboa, onde estivera sediado cinco anos, oriundo de Moçambique. Exílio se chamou, muito apropriadamente, um dos seus belos livros de poesia. Foi encontrado por um amigo inglês, caído no corredor do seu minúsculo e atravancado apartamento, em
Battersea, frente ao parque com o mesmo nome, em coma, e rodeado de livros, jornais, papeis, discos, quadros, objectos, apagando-se, em suma, como sempre quisera viver: no meio das suas “coisas”, tão preciosas quão desarrumadas.
No testamento, deixou tudo o que tinha – e não era pouco - a Luís Amorim de Sousa (LAS), seu amigo de longa data: tinham-se conhecido em meados de 1959, quando este se transferiu de Lourenço Marques para a capital britânica. O gesto – entregar todo um espólio valiosíssimo, material e culturalmente falando, ao que, jovem, o fora, em 1959, procurar em Londres, pela única razão de que, ainda em Lourenço Marques, a leitura dos
"77Poems" o tinha deslumbrado – correspondia a um acto de confiança, gratidão, justiça e amizade. Uma amizade, a vários títulos – e nos dois sentidos – única.
Já alguém disse que as velhas amizades se improvisam. Eu creio, antes, que se constroem, com lentidão, atenção, minúcia, devoção e continuada paciência. Mas, como esta, com esta dimensão e duração, não se constroem muitas vezes. De resto, basta lançar um breve olhar ao “manual de construção” que é o belo poema
“Bellini e Pablo Também” , com que LAS quis “fechar” o seu livro acabado de publicar,
"Às Sete no Sa Tortuga – um retrato de Alberto de Lacerda (2010)", para se ter uma vívida noção dos píncaros a que pode ascender o conceito de amizade. O poema, aliás, dera já o título a um belo livro de poesia que LAS não há muito publicou: servir de título a um livro e de fecho comovido às memórias de uma amizade sublinha bem o valor emotivo e simbólico que o autor lhe atribui – ao poema e ao que ele celebra.
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Rui Baptista @ De Rerum Natura
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“Pois a opinião impõe-se como as posturas da Câmara Municipal? Pois haverá cartilha para as nossas opiniões históricas?” (Eça de Queiroz, 1845-1900).
De um anónimo, recebi um comentário ao meu post de ontem, “José Hermano Saraiva ‘versus’ José Saramago”, que, no essencial, dizia: “José Hermano Saraiva é tanto historiador como eu sou padre ou médico”. E apresentava, como razão, os factos de a historiografia só ter dado os primeiros vagidos em Portugal depois de 25 de Abril e de José Hermano Saraiva ser um pobre diabo, ou mesmo um enjeitado dessa ciência.
Com a isenção de não ser atingido nos meus brios profissionais de historiador, que não sou, “nem padre ou médico”, naquele meu post tive José Hermano Saraiva como historiador. Atrevimento o meu. Imperdoável atrevimento o meu, repito! Para me libertar de uma nódoa que podia alastrar como gordura em fato novo, nada como procurar em fontes fidedignas o significado da palavra historiador. Assim: 1) “Historiador aquele que faz pesquisa, que escreve acerca da história” (“Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira”, tomo III, p.297); 2) “Que ou aquele que se especializou em ou que escreve sobre história” (“Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa”, p. 4.428).
Indultado da acusação de não ser conhecedor do uso de simples palavras correntes (por não ler os dicionários com a avidez com que os jovens e as jovens de tempos idos devoravam os livros de Emílio Salgari ou de Corin Tellado?), parti mais afoito para a consulta de alguns dados biográficos de José Hermano Saraiva sem ser o das histórias contadas por qualquer avô a seus netos em noites de inverno aquecidas pelas lareiras. Deparei-me com sete Orações Académicas, proferidas depois de 1976, ou seja, sem serem escoradas por um cargo ministerial, editadas pela Academia de Ciências de Lisboa da qual é membro. E já que falo de instituições culturais a que pertence, acrescento os nomes da Academia Portuguesa de História, da Academia da Marinha e Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (Brasil). Desobrigo-me, por ter como desnecessário ou mesmo fastidioso para o leitor, de enumerar as várias obras de que é autor, como, por exemplo, os três volumes da ”História de Portugal” (1981).
Tendo enviado ao Prof. José Hermano Saraiva o meu artigo de opinião saído no Diário de Coimbra e transcrito neste blogue com o título (intencionalmente) polémico, “José Hermano Saraiva ‘versus’ José Saramago”,
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Rui Baptista @ De Rerum Natura
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"Temos como futuro o esquecimento" - José Luis Borges.
Num comentário ao post “Uma carta de Eugénio Lisboa enviada à direcção da ‘Árvore’ ” (24/07/2010)”, foi escrito por um anónimo: "A obra literária de Saramago (sem discutir, sequer, o seu valor) não deve ser divorciada dos seus deveres de cidadão" diz alguém acima. Mas já se deve divorciar no caso de José Hermano Saraiva que merece todas as homenagens por ser um bom comunicador!! Vá a gente entender a mente humana”.
Por ser eu o autor deste breve texto, embora não sentindo a necessidade de me sujeitar a uma sessão de psicanálise, nem sequer estar para aí virado, para desvendar o que me vai na mente, basta-me esclarecer a minha posição. E, para isso, nada melhor do que transcrever um artigo de opinião que escrevi no Diário de Coimbra, em 4 de Agosto de 2005, intitulado “O Historiador José Hermano Saraiva”:
“Os desvairados impropérios dirigidos ao Prof. José Hermano Saraiva pelo senhor Acácio Barradas, nas colunas de 'Cartas ao Director' (Público, 26/Julho/2005), espelham bem a sentença de Buffon: “O estilo é o próprio homem!”. E toda essa raiva , porquê? Pelo frisson que lhe parece ter causado a reportagem, datada de 24/Julho/2005, da autoria do jornalista do Público, Adelino Gomes, com o testemunho de personalidades (de entre elas, José Hermano Saraiva) dos mais variados espectros políticos sobre a ordem do falecido Prof. Rui Grácio, à época secretário de Estado de Orientação Pedagógica, para que fossem destruídos pelo fogo livros de índole “fascista” (ao tempo, revolucionários houve que tiveram os Lusíadas nesse rol) que fazem parte de um espólio secular de um país em que o mau uso da liberdade passou a ser desculpa para todos os desmandos.
Num momento pouco agradável de uma vida vítima de torpeza, apraz-me a oportunidade que me é dada de dizer que, em fins da década de 40, tive a honra de ser aluno de liceu do Prof. José Hermano Saraiva. E dele me recordo a dar as aulas da disciplina de História com o mesmo entusiasmo e aplauso que desperta na legião de pessoas que o escutam e o vêem nos seus programas televisivos por se tratar de um pedagogo que em nada se assemelha aos 'pedabobos' a quem os ventos da revolução trouxeram uma mudança radical nas suas 'convicções políticas anteriores', e que pululam por esse Portugal fora arrastando-o para o lugar de
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Rui Baptista @ De Rerum Natura
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