Leitores do CientíficaMente, meu blog completa um ano de vida! Tem sido uma boa experiência manter um blog de ciência, apesar do meu pouco tempo livre. O contato com outras pessoas e a troca de idéias é algo essencial para mim (por isso, sempre comentem!). Queria avisar que nessas férias me dedicarei a outras atividades, e provavelmente não conseguirei postar. Ano que vem estaremos de volta! Aguardem! E muito obrigada pelos que seguem meu blog.
É com muito prazer que publico a entrevista que fiz com o professor Fernando César Capovilla, do Instituto de Psicologia da USP. Ele se formou psicólogo em 1982 e mestre em Psicologia da Aprendizagem e do Desenvolvimento pela Universidade de Brasília em 1984. É Ph. D. em Psicologia Experimental pela Temple University of Philadelphia (1989), e livre docente em Neuropsicologia pelo Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo (2000).Admiro o professor Capovilla por várias razões, mas talvez o que mais sintetize a minha opinião sobre ele seja o seguinte: quando penso em um bom psicólogo, penso nele. Quando penso em um bom profissional, em alguém que tenho orgulho de apresentar como colega de profissão, em alguém que faz da psicologia um instrumento de ajuda real, penso nele. Admiro sua valorização da pesquisa, principalmente como forma de saber se o que se está fazendo tem resultado (talvez os que não façam tenham medo dos possíveis resultados!), sua inteligência, e sua capacidade de tornar a psicologia algo científico e prático ao mesmo tempo, mostrando que não se pode separar a ajuda a pessoas da base da ciência. Isso não significa que eu ...
O Laboratório de Estudos sobre a Intolerância da Universidade de São Paulo (LEI-USP) e o Instituto de Estudos Avançados (IEA) convidam a todos a comparecer no Seminário de Debates "Direitos dos Animais: faces da intolerância".Data: dias 6 e 7 de novembroHorário: das 10h. às 18h.Local: Anfiteatro da História - Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).Contato: (11) 3091 2441Entrada franca e certificado de participação aos interessadosPROGRAMAÇÃO DO EVENTO:Quinta-feira, 06/11:10:00 às 12:00: Mesa Redonda "História da intolerância em relação aos animais"Zilda Marcia Grícoli Iokoi (professora livre docente história/USP e diretora LEI)Rodrigo Medina Zagni (professor da Univ. Cruzeiro do Sul e pesquisador LEI)Juliana Prado da Silva (graduanda em história/USP)Intervalo para almoço.14:00 às 15:45: Mesa Redonda "Pode o direito eliminar a intolerância??"Paulo Santos de Almeida (graduado em direito e professor doutor EACH/USP)Vânia Rall Daró (graduada em direito/USP, tradutora pública e intérprete comercial)Artur Matuck (graduado em comunicação e professor livre docente ECA/USP)15:45 às 16:00: coffee break16:00 às 18:00: Mesa Redonda "Somos todos primatas"César Ades (graduado em psicologia, professor titular IP/USP)Heron José de Santana Gordilho (promotor de ...
Você pode não estar ciente disso, mas nesse exato momento várias espécies convivem com você numa relação muito íntima. Estima-se que haja por volta de 100 trilhões de microorganismos em todo o nosso corpo: estômago, pele, intestino, axilas, boca, entre outros. A convivência com outros seres é parte da vida humana, sejam as relações harmônicas ou desarmônicas. Mais uma ligação entre humanos e outras espécies, que nem sempre é vista pelo ângulo das relações entre diferentes seres vivos, remonta há milhares de anos. Trata-se da relação entre os humanos e todos os animais domesticados, alguns visando à produção de leite e consumo de carne, por exemplo, e outros para a companhia, como os animais de estimação. Criar animais de estimação é uma atividade muito comum entre nós, e costumamos gastar muita afeição e dinheiro com eles. Existem indícios de que a associação dos humanos com os cães, os mais populares dentre os pets, tenha começado há aproximadamente 12.000 anos. Fornecer tantos recursos a outra espécie não é tão freqüente no reino animal. Sendo assim, por que os humanos fazem isso com seus cachorros? ...
Possuir animais de estimação é uma atividade muito comum entre os humanos, e as pessoas dedicam muita afeição e dinheiro a eles. Vários exemplos como oferecer recompensas quando eles são perdidos, pagar por cuidados médicos, comprar-lhe presentes, alimentá-los e até mesmo disputar sua guarda judicialmente mostram a importância do apego emocional dos donos com seus animais de estimação (Archer, 1996). Há poucos estudos sobre a relação humanos e animais de estimação em termos de apego, um conceito elaborado por Bowlby e usualmente aplicado para relações próximas entre membros da mesma espécie, incluindo humanos. O apego remete à formação do vínculo com as pessoas e às características das interações sociais vivenciadas entre elas. Katcher e colaboradores (1983, citado em Archer, 1996) construíram um questionário contendo sentenças que indicavam um possível apego com um cachorro de estimação, como, por exemplo, carregar a fotografia do cachorro, deixá-lo dormir em sua cama, freqüentemente falar e interagir com ele, e defini-lo como um membro da família. Os dados indicaram altos níveis de apego entre donos e seus cachorros. Quase a metade definia seu cachorro ...
Os estudos modernos com gêmeos demonstram que aqueles que foram separados no nascimento ou pouco depois dele são mais semelhantes do que os que foram criados juntos ou separados com uma idade mais avançada. Como isso pode ser explicado? O estudo com gêmeos é muito importante para a psicologia, pois se trata de uma situação natural que parece ter sido bolada por cientistas: pessoas com carga genética idêntica (no caso dos monozigóticos), que tanto podem ter a mesma criação, quando criadas juntas, como criações totalmente diferentes, quando são separadas no nascimento. O debate nature versus nurture ou natureza versus criação se enriquece através de estudos empíricos com esse grupo de pessoas. Até a década de 70 os estudos com gêmeos não eram confiáveis, pois envolviam invenção de dados, falta de ética etc. Hoje, a maioria dos estudos com gêmeos são realizados com mais cuidados, e são comuns principalmente na disciplina conhecida como genética do comportamento. Entre humanos, aproximadamente 1 em cada 250 nascimentos é de gêmeos idênticos e muitos das pesquisas são feitas em países escandinavos, onde os ...
Meninos gostam de carrinhos, meninas gostam de bonecas. Esses gostos são facilmente explicáveis pela cultura; afinal, desde que nascem as crianças são estimuladas pela sociedade a adotarem o comportamento típico de seu gênero. Será então que as meninas brincam de boneca e os meninos de carrinho porque são dados a eles esses brinquedos? Se eles vivessem em um mundo sem diferenciação, em que pais não estimulassem seus filhos a brincar de certas formas e com determinados brinquedos, o que aconteceria? Antes de responder à questão, gostaríamos que você imaginasse o seguinte experimento. Suponha que pesquisadores dessem a macacos fêmeas e machos brinquedos humanos, tais quais bonecas, carrinhos e livros. O que você acha que aconteceria?Esse experimento foi feito. Pesquisadores deram esses brinquedos a 44 macacos-vervet machos e 44 fêmeas e depois avaliaram as suas preferências por cada brinquedo, medindo quanto tempo passavam com cada um. As análises estatísticas demonstraram que os machos mostraram um interesse significativamente maior pelos brinquedos considerados masculinos e as fêmeas, pelos femininos. E os dois sexos não demonstraram ...
Quem acha que abandonei meu blog está muito enganado!Pessoal, estou em um período breve de afastamento, devido ao excesso de compromissos acadêmicos do fim do semestre. Aguardem, logo voltarei a postar...Abraços e forças a todos que precisam nessá época caótica de desfecho de semestre!
Esta semana conversei um pouco com o professor Marcelo Afonso Ribeiro, do departamento de Psicologia Social e do Trabalho da USP, sobre a carreira do psicólogo. Bom, acabamos falando de outras coisas também, como a representação social da psicologia. Confira!CientíficaMente - O que é Psicologia?Eu acho que a psicologia é uma área de saber que vem do cotidiano, da filosofia, e que se dedica, com coragem e ousadia, a tentar entender o comportamento humano. A psicologia, de alguma maneira, tem como objetivo estudar o que acontece na relação entre o corpo biológico e uma sociedade constituída, entender a relação indivíduo e mundo social e construir teorias que possam dar conta de ajudar também. Pensando na parte mais prática, ajudar as pessoas com as suas questões, com os seus conflitos nessa relação.CientíficaMente – Professor, você acha que as pessoas, em geral, sabem o que é a psicologia?Eu acho que tem um estereótipo do que é o psicólogo, muito via mídia: o psicólogo clínico, aquele que atende problemas, que faz diagnóstico, com quem você vai conversar porque tem um problema. Essa é uma das ...
Confundir terapia cognitiva com psicologia cognitiva é comum. Apesar de terem algumas semelhanças, elas não são sinônimas. A terapia cognitiva (TC) foi desenvolvida por Aaron Beck no início da década de 60, na Universidade da Pensilvânia, EUA. Nessa época, Beck tinha como objetivo investigar os mecanismos inconscientes propostos pela psicanálise para explicação da depressão a partir de estudos empíricos e observações clínicas sistemáticas. Os resultados de suas investigações não se mostraram compatíveis com as pressuposições psicanalíticas, levando-o a buscar outros construtos que explicassem mais satisfatoriamente os dados empíricos observados. Sua preocupação era oferecer um modelo abrangente do funcionamento cognitivo (inicialmente de depressivos), que apresentasse coerência interna e compatibilidade com as observações clínicas, possibilitando que novas intervenções psicoterápicas pudessem ser desenvolvidas. A terapia de Beck foi então concebida como uma psicoterapia breve, estruturada, orientada para o presente, direcionada para a resolução de problemas atuais e para modificar comportamentos disfuncionais. Desde então, Beck e seus seguidores vêm adaptando com sucesso essa terapia para um conjunto surpreendentemente diverso de populações e desordens psiquiátricas, como depressão, fobias, transtorno obsessivo-compulsivo etc. Logo depois houve uma ...
A Etologia é uma ciência recente com origem na Europa por volta de 1930, cujos fundadores são Konrad Lorenz e Nico Tinbergen. Em 1973 os dois receberam o prêmio Nobel de Medicina por suas descobertas e pressupostos para explicar o comportamento animal. Porém, bem antes disso, Darwin foi um etólogo antes mesmo da palavra ter sido inventada. Uma preocupação básica da Etologia é a evolução do comportamento através do processo de seleção natural, e Darwin, em seu livro A origem das Espécies, dedica um capítulo ao instinto, em que formula a hipótese de que “todos os instintos mais complexos e maravilhosos” se originaram através do processo de seleção natural, tendo preservado as variações continuamente acumuladas que são biologicamente vantajosas. Darwin acreditava que não apenas os órgãos evoluíam, mas que aquisições mentais gradativas também ocorriam. O termo ethos deriva do grego e significa “da natureza da coisa”. A Etologia é a ciência das relações comparadas do comportamento animal, o que inclui também os humanos. Tem como princípio a concepção de que, assim como órgãos e outras estruturas corporais, o comportamento é ...
Não, não darei 10 dicas de como acabar com o sofrimento. Se você conhece meu blog, sabe que não sou adepta desse tipo de coisa. Quero é pensar um pouco em como temos encarado o sofrimento. Acho que sei como começar. Certa vez estava eu em uma determinada aula, de uma professora X, que disse o seguinte: “Só com o sofrimento é que nós crescemos” e continuou a referida aula sustentando esse discurso. Trata-se de uma noção corrente, bem popular, eu diria. E que, à primeira vista, não tem nada de errado, e até soa bonito. É algo bem legal de se dizer a alguém que está passando por maus bocados: “pelo menos isso vai te deixar mais forte, vai te fazer crescer...”. A minha primeira pergunta é o que significa ser mais forte e crescer. Já vimos em postagem anterior que um bom jeito de não se dizer nada ou de ludibriar alguém é não definir bem os termos, usar conceitos vagos. Vou tentar uma definição: vou considerar que ser mais forte e crescer é ter mais experiência de vida, saber lidar com mais situações, ...
Preconceito: pré-conceito, juízo preconcebido, conceito formado antecipadamente. Tenha reparado que a palavra preconceito está na moda. Praticamente tudo é preconceito. Agora não temos mais direito ao conceito, só ao pré-conceito. Vou dar um exemplo da psicologia, porque é minha área. Ouvi alguém fazendo um comentário sobre o behaviorismo, dizendo que sente horror ao ler os textos dessa linha, porque acha que são muito frios, considerando que o ser humano funciona como um robô. A outra pessoa então retrucou: Mas que preconceito! Tem muito preconceito com o behaviorismo! E assim temos considerado várias outras coisas: se não gostamos de algo, logo, a atitude é preconceituosa. Essa classificação generalizada pressupõe um absurdo: que, se realmente conhecêssemos aquilo (e assim sairíamos do preconceito e chegaríamos ao conceito) gostaríamos daquilo. Ou seja, temos que gostar e aceitar tudo, porque do contrário, é preconceito. E quando teremos direito a não gostar ou aceitar algo mesmo conhecendo bem o assunto, ou a coisa? Quem disse que aquela pessoa que falou que não gosta do behaviorismo, não o conhece direito? E se conhecer? Não terá direito ...
É com muito orgulho que falo da nova revista científica, a TransFormações em Psicologia. Ela nasceu principalmente do esforço dos editores, Carina e Daniel, graduandos em psicologia na USP. Agora o grupo está aumentando, e eu sou um dos membros do corpo editorial. Estamos inaugurando uma revista feita por estudantes de psicologia, seja da graduação ou da pós-graduação. A Revista TransFormações em Psicologia é uma publicação científica semestral produzida por estudantes de psicologia destinada a fundar um espaço de discussão e reflexão sobre temas relacionados à pesquisa na sua interface com a formação em psicologia.Ela destina-se a não ser apenas um veículo de difusão científica, mas uma reflexão crítica sobre a pesquisa e o ensino de psicologia. Seu objetivo, portanto, não é a divulgação de dados, mas a melhora das condições da prática científica através do questionamento sobre sua própria realização. Aspira, nesse sentido, consolidar um espaço de reflexões e diálogos já realizados pelos estudantes, mas que nem sempre são absorvidos pelas revistas científicas existentes. Pretende, também, operar como um meio facilitador deste diálogo entre os estudantes das diversas universidades e centros de ...
Ainda dentro da linha de informar as pessoas sobre o que é a psicologia, resolvi falar um pouco mais sobre áreas pouco conhecidas e/ou entendidas dessa profissão. Estive conversando com o professor Klaus Bruno Tiedemann, que leciona a matéria Psicologia Sensorial e parte da matéria Percepção e Cognição para a graduação de psicologia na USP, e resolvi fazer uma pequena entrevista com ele. Costumeiramente ele dá uma perguntinha ao final de suas aulas, e em uma delas, quando eu era sua aluna, a pergunta foi “Porque os alunos de psicologia não gostam de estudar percepção?”. É, realmente essa não costuma ser uma matéria popular entre os alunos, e estive refletindo sobre o porquê disso. Primeiro vamos ver o que professor Klaus me falou sobre o assunto:Científica Mente - Professor, quando alguém te pergunta o que você é, qual a sua resposta?Klaus – Eu digo que sou psicólogo.Científica Mente - Você leciona duas matérias aqui na USP sobre percepção. Porque não se considera um psicólogo da percepção? Existe esse nome?Klaus – Não, me considero um psicólogo especializado em comportamento, de modo geral, e o comportamento ...
Por Isabella Bertelli Cabral dos Santos e Marco Antônio Corrêa VarellaO senso comum é todo um complexo bem entrosado de argumentações populares e cotidianas normalmente voltado para soluções práticas. A maioria do nosso raciocínio do dia a dia é pautada pelo senso comum. Ele tem ajudado muito nossa espécie a lidar com os desafios de nossa existência e a acumular conhecimento útil. Entretanto, essa hegemonia ao mesmo tempo que é nossa força, por sua praticidade milenar, pode ser uma fraqueza, por nos deixar muito vulnerável a manipulações. Séculos de estudos filosóficos permitiram a identificação de algumas das armadilhas do senso comum, o que nos possibilita adotarmos três posturas possíveis:A) podemos adquirir alguma imunidade crítica de modo a não nos deixar ser manipulados e a desmascarar aqueles enganadores sociais, o que dá muito trabalho e fama de chato, de cricri ou mesmo cético;B) ou podemos nós mesmos atuar como enganadores sociais, e enriquecer com artimanhas nos aproveitarmos das fraquezas argumentativas alheias, pena que o mercado já está muito saturado e concorrido, vide todo o discurso político, místico, propagandístico, fantástico entre outros;C) ou então podemos nos tornar enganados ...
Na última sexta-feira, dia 14 de março de 2008, estive no programa Web Divã*, da allTV. Renata Antonelli, a apresentadora, foi super simpática como sempre. Ela leu minha matéria na revista Psique, "Vergonha na Cara", que foi a capa da edição de janeiro e me convidou para ir ao seu programa. Postei no meu blog um texto adaptado do original publicado na revista (Afinal, por que temos vergonha?).Foi muito legal, o chat estava super animado. Queria agradecer novamente à Renata pelo convite e ao meu namorado Marco, pela filmagem (Ver vídeo 1). *O programa Web Divã vai ao ar no site da allTV todas as sextas-feiras, das 20h às 21h e trata de temas diversos da psicologia. Trata-se de um programa interativo, em que os internautas podem entrar no chat e participar, enviando comentários e perguntas aos entrevistados e à apresentadora. Vale a pena conhecer!
Na postagem anterior (O que é ciência?), comecei com um pequeno exercício de pensar em palavras que estivessem relacionadas à ciência. Poderia fazer a mesma coisa aqui, mas talvez caia melhor algo diferente. Vamos lá: quando você pensa em um psicólogo, que figura lhe vem à mente? Aposto que a figura do psicólogo clínico, algo à “la Freud”, com seu divã e sua feição séria foi a mais recorrente. Pois é, não só os não psicólogos como os próprios estudantes de psicologia muitas vezes identificam a própria psicologia com uma de suas possíveis áreas de atuação, que é a psicologia clínica, e ainda mais especificamente, aquela realizada individualmente no consultório particular. Com esse pequeno e modesto texto, não pretendo esgotar o assunto, que pode ser abordado de mil e uma maneiras. Já ficaria feliz, se, ao final dele, você não achasse que psicólogo e psicanalista clínico tradicional são sinônimos. Definir psicologia é um desafio porque na verdade não existe psicologia. Luis Cláudio Figueiredo (2003) diz que a psicologia, longe ...
Definir ciência não é tão simples quanto parece. Vamos começar com um exercício: pense em cinco palavras que lhe vêm à mente quando pensa em ciência.Pronto? Bom, talvez tenham aparecido coisas como: verdade – conhecimento – rígido – correto – comprovado. Eu teria pensado em palavras assim algum tempo atrás, antes de entrar na faculdade. Depois disso, percebi que o que é ciência é uma grande discussão, com definições múltiplas e nada de consenso. O que não significa que ela não tenha algo de próprio que a caracterizaria. Por isso, nesse pequeno texto não pretendo, exatamente, responder e esgotar o título que eu mesma escolhi, mas sim levantar alguns pontos, a partir de alguns autores, para estimular a reflexão sobre o assunto. Não irei falar da história da ciência, deixo para outro texto, só lembro que falo da ciência moderna (início no século XVIII). Ernst Nagel levanta alguns aspectos da ciência, que, lembrando, podem ser alvo de críticas por outros autores. Optei por falar um pouco de suas idéias tanto por ser uma figura importante na filosofia da ciência do século XX, quanto ...
A resposta é óbvia. Ou não. Como estudante de psicologia esse é um assunto que me tira do sério!!! Vou me explicar melhor. Outro dia eu estava num ponto de ônibus quando algumas pessoas estavam comentando sobre o Big Brother (Ok, é só um exemplo, não estou defendendo esse tipo de programa ou algo assim). Falavam sobre um participante, que é psiquiatra, e havia dado algum tipo de “piti” no dia anterior, brigando com um outro participante. Uma mulher então disse: “Nossa, achei aquilo um absurdo. Como que um psiquiatra faz esse tipo de coisa?? Eu que não ia me tratar com ele! Quem tá doente é ele!”. Bom, esse tipo de pensamento é extremamente comum, e aplica-se normalmente a psicólogos e psiquiatras. Será que acham realmente que psicólogo não chora? Não sofre? Não fica bravo? Não se descontrola? Enfim, que não é humano? Sinto muito decepcionar, mas um curso de graduação não me tira a essência humana. Não me isenta de sofrer, não me imuniza contra qualquer tipo de problema a que os humanos estão sujeitos.Eu tenho algumas hipóteses para explicar esse fenômeno. ...
Quando nossas avós nos dizem “Aquele lá é um sem-vergonha...” já podemos esperar que o que se seguirá é uma série de reprovações e recomendações de cautela com relação ao sujeito. Parece, então, que a vergonha é uma virtude, e ser desavergonhado, algo nada bom. Mas o que diria aquela pessoa que treme só de pensar em falar em público, ou ir a uma festa, até mesmo em procurar emprego ou reclamar seus direitos de consumidor? Com certeza que a vergonha é um peso do qual gostaria de se livrar na primeira oportunidade. E como seria o mundo totalmente privado da vergonha?Primeiro é bom definir o que é a vergonha. Essa é uma emoção considerada autoconsciente ou social, porque ela nasce como conseqüência das relações sociais em que as pessoas não apenas interagem como também avaliam e julgam a si mesmas e aos outros. Ela é autoconsciente justamente porque desperta o indivíduo à consciência de si mesmo, e assim permite que regule seu comportamento.Alguns autores, como Lewis, falam que para sermos capazes de sentir uma emoção social quatro aquisições cognitivas são necessárias: a capacidade de distinguir normas, regras e objetivos; a capacidade ...
Apesar do nome sugerir um livro de poemas ou algo do gênero, logo o subtítulo ajuda a esclarecer: genes, natureza e experiência. Ainda ficou vago? Então vamos à primeira frase da contracapa: “O comportamento humano é produto da natureza (genes), ou da criação (ambiente)?” Ok, talvez você pense, “Ah, não, de novo esse assunto... todos já estão cansados de saber que não é nem uma coisa e nem outra, o ser humano é uma mistura complexa de genes e ambiente”. Mesmo que você seja esclarecido disso (até porque os professores de Psicologia e áreas afins minimamente sensatos repetem esse discurso incessantemente) ainda assim você pode ganhar muito com essa leitura. Vamos lá!Matt Ridley, o autor, é um zoólogo que conduz muito bem os capítulos sempre com esse fio condutor: “não é mais uma questão de natureza versus criação, mas de natureza via criação" (Observação cabível: o título original do livro é “Nature via nurture”, um trocadilho que só faz sentido em inglês, pois nurture pode ser traduzido como “criação”). Por que me apaixonei pelo livro? Porque assim como muitos, também não agüentava mais ouvir a ladainha de “interação complexa entre ...
Permitam-me outra proganda. Saiu no mês passado e ainda está nas bancas a edição especial da revista Psique sobre Psicologia Evolucionista. É legal para quem quer saber mais da área, como um primeiro contato. Eu e o pessoal do laboratório (PSE-Etologia-USP) escrevemos alguns dos textos, com temas variados, como: mal-entendidos comuns que ocorrem nessa abordagem, depressão pós-parto, amizade, desejo por variedade sexual, como fazemos escolhas, porque nos atraímos por características dos filhotes etc. Fica aí a dica.
Fui convidada por Renata Antonelli para ser entrevistada em seu programa Web Divã, na AllTV. A AllTV é empresa pioneira de TV da Internet, ganhadora do Prêmio Esso de Jornalismo, como o melhor site de notícias (2005), do Prêmio da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje), pela convergência de mídias (2002/2006) e Top Comm Award, no segmento IPTV, pelos Mistérios de Comunicações e de Ciência e Tecnologia (2006). "Web Divã" vai ao ar das 20 h às 21 horas, todas as sexta-feiras. O programa, apresentado pela psicóloga Renata Antonelli, aborda em psicologia todos os temas ligados a nossa subjetividade. O programa conta com a possibilidade interetiva de um chat ao vivo que permite que a conversa seja expandida às curiosidade dos que estiverem assitindo.Estive lá no dia 09 de novembro para falar sobre linguagem, já que Renata leu minha matéria na revista Psique (edição número 20, ano II - o texto adaptado está na postagem anterior). Foi muito legal, fui muito bem recebida e adorei conversar com a ...
“A linguagem humana se adquire por exposição a ela, não por treinamento. É exatamente como se aprende a respirar”. Essa frase, pronunciada em meados do século passado por Noam Chomsky, representa a revolução feita por ele na área da lingüística: o foco dos estudos deve ser a capacidade inata da linguagem, dizia.Chomsky é crítico da corrente dominante naquela época, que concebia a língua como algo externo ao homem e que é aprendida por imitação. Para ele, a linguagem é uma capacidade humana natural; temos um cérebro ativo que nos capacita a construir e a entender sentenças nunca antes pronunciadas, mesmo na ausência de instrução dirigida. A linguagem é uma das características humanas mais distintivas porque o homem é o único ser vivo que faz uso desde tipo de comunicação em ambiente natural. Por esse motivo, popularmente e na tradição das ciências humanas e sociais, a linguagem foi retirada do campo da Biologia. Ser capaz de, por meio de um número restrito de símbolos e sons articulados, produzir uma quantidade infinita de significados, dos mais concretos aos mais abstratos, que podem ser compreendidos por outra pessoa, parece uma habilidade admirável. ...
Imagine a seguinte situação: um físico experiente e seu filho de poucos meses no colo. Eles estão em um laboratório repleto de fios, parafusos, caixas e botões. No meio de tudo isso, há um tubo de raios X. Quando o pai e a criança olham para esse objeto, vêem a mesma coisa? Aparentemente é uma questão simples, mas por trás dela há toda uma discussão que envolve filosofia, e quem diria, até mesmo a ciência. Deixemos isso para mais à frente. Afinal, qual a importância disso para a vida das pessoas? O que interessa saber se um físico e um bebê olham a mesma coisa ou não? Não parece óbvio que sim?Esse exemplo foi dado por Hanson, importante filósofo do século XX, em seu texto “Observação e interpretação”. Ele responde à pergunta inicial da seguinte forma: sim e não. Sim, porque eles têm consciência visual do mesmo objeto. Não, pois o modo como têm essa consciência é profundamente diferente. A criança pode estar apreendendo exatamente os mesmos dados óticos, mas pode não estar observando nada em particular. Já o ...
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