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Há 100 anos

Há cem anos, um jornal de uma das nossa vilas - Fafe - dava uma notícia que era na altura comum em final de ano lectivo: o sucesso em exames de estudantes do ensino liceal e universitário.

"Fez exame de todas as cadeiras do 1.º anno de direito, na Universidade de Coimbra, em que ficou approvado, o distincto academico snr. Leopoldo Martins de Freitas, filho do vereado da camara snr. José Alves de Freitas.
Ao nosso amigo, que já se encontra entre nós, reiteramos as nossas felicitações e as mesmas endereçamos a sua ex.ma família.
Concluiu o 1.º anno de direito, na Universidade de Coimbra, o snr João Ribeiro Vieira de Castro e Freitas.
Também concluiu o 2.º anno da mesma faculdade o snr João Leite da Silva, de Medello.
Fizeram exames do 5.º anno do curso dos lyceus os snrs. Gervásio Martins Campos de Carvalho e Amadeu d`Oliveira, d`esta villa.
Os nossos parabens."

Felizmente, este tipo de notícia deixou de o ser, sinal de que muitos têm acesso ao ensino superior e que todos têm acesso ao ensino secundário, além do básico, claro.

Trata-se de uma grande responsabilidade esta que assumimos, de ensinar, segundo os padrões que temos por mais elevados, tantas crianças, jovens e adultos. E é uma responsabilidade que nos tem de mobilizar.Continue a ler Há 100 anos

O prazer de avaliar vem dos infernos?!

Não foi só nesta semana, nem há dois anos, nem há trinta, nem há cem, que a avaliação escolar, os seus resultados e consequências foram postos em causa. Podemos afirmar que o debate em torno destes aspectos acompanha a avaliação desde a sua "invenção".

De entre os diversos argumentos invocados, num passado próximo, para a contestar destaca-se a "perversidade dos professores", avançada e defendida por diversas correntes mais ideológicas do que pedagógicas. Afirmavam tais correntes que os professores se agarravam à avaliação como forma de preservar o seu poder, único argumento que justificaria a sua manutenção.

Trata-se de um argumento do qual discordo que não tenho ouvido nestes últimos tempos - preferindo-se o argumento do acompanhamento diferenciado dos alunos para que possam aceder ao sucesso -, ainda assim tem interesse perceber até que ponto os discursos se podem radicalizar nesta como noutras matérias educativas:

“Os professores sabem que as notas não são fiáveis, que não dariam a mesma nota ao mesmo trabalho se lho apresentassem algumas semanas mais tarde e que os seus colegas dariam notas diferentes a esse mesmo trabalho. Eles sabem que são incapazes de precisar, mesmo para si mesmos, os objectivos e critérios de notação. Eles sabem que não sabem em que consiste o «nível» mínimo que permite «passar». Sabem que escapar à média é absurdo. Conhecem os efeitos da esteriotipia e de halo. Sabem mas não querem saber que sabem. Sabem insconscientemente. E é por isso que podem em boa fé falar da sua consciência profissional. Ela é, de facto, inocente: trata-se sim do inconsciente!
Mas porquê? O que é que eles defendem com esta resistência? (...) Defendem um prazer. Um prazer de má qualidade mas seguro, garantido, quotidiano. Um prazer que se tem de disfarçar para ser vivido sem culpabilidade (...). Esse prazer, é o prazer do Poder com P maiúsculo. O professor é o mestre absoluto das suas notas. Ninguém, nem o seu director, nem o seu inspector, nem mesmo o seu ministro, podem fazer nada quanto às notas que ele deu. Pois foi de acordo com o seu carácter e a sua consciência que ele as deu. Com o seu diploma, foi-lhe reconhecida a competência de avaliar (o que não deixa de ter graça!). A sua consciência profissional é inatacável. Na sua tarefa de avaliador, ele é omnipotente. E esse domínio significa poder

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A cultura nacional?

Sobre as retenções, reprovações, chumbos no sistema educativo, é também interessante ouvir a opinião de João Grancho, representante da Associação Nacional de Professores.

Considerando que há questões educativas a debater mais prementes do que esta, concorda com a Senhora Ministra da Educação que é um debate que tem de ser feito. A dado passo afirma este professor:

"Nós temos uma cultura nacional que não aceita bem esta questão da não retenção, nós vivemos e convivemos há muito tempo ideologicamente no plano da educação com a ideia de que a retenção funciona como um incentivo – eu não concordo com isto, mas a ideia que exista é esta – para que o aluno entenda esta repreensão moral para depois se dedicar e dar também mais tempo para adquirir os conhecimentos que são necessários (…), mas muitas vezes funciona ao contrário."
Não, a avaliação sumativa, final, classificativa com fins de decisão burocrática e institucional - pois é dessa avaliação que falamos -, não é uma questão situada numa só cultura - no caso, a nossa -, nem existe e subsiste devido a factores ideológicos.

Essa avaliação, como hoje a concebemos, decorreu da organização dos sistemas educativos modernos - modernos, apesar de falarmos em séculos - fazendo parte integrante dela. Mexer na avaliação implicaria mexer na própria estrutura dos sistemas educativos.

Acresce que os sistemas educativos modernos se estruturaram em função do princípio louvável de proporcionar educação escolar a muitos e, depois, a todos. Princípio esse que, desde cedo, exigiu a formação de turmas, grupos, classes mais ou menos homogéneos de modo a rentabilizar escassos recursos e tempos. Assim, se percebe que tal avaliação, não tivesse sido inventada com fins de repreensão moral, mas com fins pragmáticos de controlo da aquisição de conhecimentos e objectivos de aprendizagem, de distribuição dos alunos por patamares de escolaridade, e de atribuição de certificados, diplomas.

Cedo, porém se percebeu que se trata de uma avaliação que pode mobilizar os alunos para o estudo - e dizem-nos estudos credíveis que mobiliza - e que os seus resultados podem ser objecto de aplauso ou de repreensão social e individual.

Pode também funcionar de modo contrário? Sim, pode. Alunos há que, para fazerem frente à escola, à família, à sociedade, se recusam a estudar para provas, exames, testes; outros há que, por razões

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Gradualmente

A Senhora Ministra de Educação concedeu ontem uma entrevista à estação de televisão SIC que incidiu nas suas polémicas declarações à última edição do semanário Expresso. Se as suas palavras pretendiam esclarecer, não esclareceram, confundiram: São os professores, os pais e as escolas que devem estabelecer o modelo de avaliação da aprendizagem que terá lugar no sistema educativo? E, neste caso, ignora-se o conhecimento científico de que dispomos acerca desta questão pedagógica? A retenção só existe em Portugal? Devemos melhorar os resultados escolares ou a aprendizagem?

Dada a importância que essa entrevista nos parecer ter, tomámos a liberdade de transcrever a primeira parte dela.

“Quer ou não acabar com os chumbos? É que a sua declaração inicial parece agora menos clara…

Eu proponho que os alunos se dediquem mais intensamente a obter bons resultados e que a escola ofereça condições de apoio e diversidade de propostas para que todos possam avançar e que não nos conformemos com a situação de que muitos alunos chumbem…

Senhora Ministra (…) a pergunta é clara, peço-lhe que a resposta seja também clara: vai ou não quer acabar com os chumbos no ensino?

Não de uma forma administrativa, se é essa a pergunta, com um decreto que o Ministério apresentasse, uma reforma unilateral, não é de forma nenhuma essa a intenção. A nossa forma de trabalhar é com os nossos parceiros, nós achamos que é importante que haja um debate sério sobre esta questão, que olhemos para o que se passa noutros países que têm melhores resultados do que os nossos, porque nós precisamos que o nosso país tenha melhores resultados (…)

Eu percebo nas suas palavras uma contradição: na entrevista que deu ao Expresso (…) quando lhe perguntam: está disposta a lançar o debate para acabar com os chumbos, a sua resposta é: “sem dúvida”.

Sem dúvida, o debate…

Para acabar com os chumbos…

Para acabar com os chumbos, para que cada vez haja menos chumbos e que possamos caminhar no sentido em que as crianças têm soluções diversificadas e que a resposta que o sistema educativo dá àquelas que não obtém resultado não seja permaneceram um ano, dois anos, às vezes três anos no mesmo ano de escolaridade, sem que daí advenha um resultado favorável para a aprendizagem dessa criança (…)

Mas continuo com esta dúvida, e peço desculpa, mas acho que é um ponto decisivo e é importante ficar claro: quer acabar

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É desconcertante!

Como referi em texto anterior foi com manifesto desagrado que ontem os diversos partidos políticos acolheram as palavras da ministra da Educação sobre a avaliação do desempenho escolar dos alunos. Assim, a ministra, em declarações à imprensa de hoje, propôs-se lançar num futuro próximo um debate à escala nacional sobre o assunto, no qual possam intervir os diversos parceiros educativos.

O que num dia se toma como certo, defendendo-se a sua bondade até às últimas consequências, no dia seguinte é posto em causa com base em dúvidas que antes eram certezas, avançando-se novas certezas que daqui a dois ou três dias se tornarão dúvidas...

Nada de novo se vislumbra neste cenário. Apenas nos recorda o funcionamento do sistema educativo, que já temos por tradicional: sem linhas condutoras claras e seguras, definidas em função do direito que os alunos têm de aprender e do dever que os professores têm de ensinar.

E isto com base em argumentos incoerentes e mal explicados, emergentes de tendências política momentâneas e do agrado e conveniência social, que abusivamente se chamam “pedagógicos”.

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Três comentários

A leitura da entrevista realizada por Isabel Leiria à ministra da Educação e publicada no jornal Expresso de hoje incide em três aspectos de fundamental importância no nosso sistema educativo: reorganização da rede escolar, metas de aprendizagem e avaliação das aprendizagens académicas.

No que diz respeito a este último aspecto, apesar de algumas frases dessa entrevista serem pouco explícitas e outras equívocas, do seu conjunto ressalta a ideia, nada inovadora, de que os alunos devem transitar sempre de ano de escolaridade, visto que daí resultam mais benefícios para eles próprios do que a retenção. Este foi, aliás, o entendimento dos jornalistas que se debruçaram sobre a dita entrevista e dos políticos, da esquerda à direita, que em declarações, a jornais e canais de televisão, se mostraram frontalmente contra a possibilidade de concretização dessa ideia.

Entendo que se trata duma ideia com um forte pendor político e económico, mas não é por essas vertentes que pretendo comentá-la, mas sim pela vertente pedagógica.

Um primeiro comentário que teço incide na comparação que a ministra fez entre a avaliação que tem lugar nos sistemas educativos do sul e do norte da Europa. Ora, apesar de se aplaudir a contextualização das decisões educativas, neste assunto tal exercício falha redondamente. E falha porque a importância que se atribui à escola e ao conhecimento que ela veicula é muito diferente nestes dois contextos, em desfavor dos países do sul, com destaque para o nosso. Quando a sociedade, as famílias, os professores valorizam a escola e o conhecimento que ela veicula, é “natural” que transmitam essa atitude às suas crianças e jovens e que os incentivem a aprender, sendo que este incentivo faz toda a diferença.

Por outro lado, não é verdade que nos países nórdicos não exista retenção. A taxa de retenção é muito baixa mas, como a ministra referiu, ela existe. E ainda bem que o referiu, porque a verdade é só uma: ainda que tenhamos como objectivo - um objectivo louvável, aliás - de ter as crianças e jovens na escola, não sabemos, ou não sabemos ainda, como “ensinar tudo a todos”. Esta expressão de Coménio (1592-1670) tem sido, efectivamente, a grande ambição dos pedagogos, ambição que, apesar do conhecimento de que hoje dispomos, ainda não conseguimos concretizar.

Um segundo comentário prende-se com as extrapolações que se fazem dos dados de estudos científicos. Vejamos: no caso, estamos a falar daquilo que

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(Próximas) medidas para a avaliação da aprendizagem

Isabel Leiria jornalista do Expresso, entrevistou a senhora Ministra da Educação. O texto saiu hoje no Primeiro Caderno deste semanário (página 16). Sobre a avaliação das aprendizagem ficou registado o que se segue:

Países nórdicos não chumbam. É possível reter um aluno, mas acontece muito raramente. Na Finlândia, Suécia, Noruega e Dinamarca, a retenção atinge 1%. Quando acontece deve-se habitualmente a ausências prolongadas por doença, por exemplo. Em vez de chumbar, os alunos com mais dificuldade têm apoio extra.

França recordista de chumbos. No países da OCDE com mais repetência, 25% dos alunos de 15 anos já chumbaram pelo menos uma vez no 3.º Ciclo. Seguem-se Luxemburgo, Espanha e Portugal.

Medida ineficaz. Vários estudos demonstram a ineficácia dos chumbos. Na Finlândia, um dos países onde há menos repetência, só 1% dos alunos de 15 anos não têm competências básicas de leitura, o valor mais baixo da OCDE. Já em França em estudo de 2004 revelou que metade dos que chumbam no 1.º Ciclo abandona a escola sem nenhuma qualificação ou só com o básico concluído. A OCDE recomenda, por isso, aos países que reduzam o insucesso e adotem o exemplo nórdico.

Chumbos custam 600 milhões de euros. Não existem números oficiais, mas as contas ao custo dos chumbos, a partir da despesa anual por aluno, apontam para um gasto em Portugal de cerca de 600 milhões de euros por ano a essa questão: se os resultados não são consentâneos com as nossas expectativas, vamos focalizar a nossa atenção no que é essencial. Nesses países deu resultado.
(...)

Também vai definir metas qualitativas de sucesso a atingir os alunos? O que é importante é termos os instrumentos que permitam às escolas e aos professores perceber se estão a melhorar. Temos uma monitorização externa, com os exames e as provas de aferição, e temos a repetência, que é a fórmula aplicada sobretudo nos países do Sul da Europa e que não tem contribuído para a qualidade dos sistema. As crianças repetem o ano e essa repetição quase nunca é benéfica em termos de evolução da aprendizagem.

Qual é a alternativa? O que todos os países do Norte da Europa fazem. Se disser a um inglês que o seu filho passou, ele nem percebe do que está a falar. A alternativa é ter outras formas de apoio, que devem ser potencializadas para ajudar os que têm um ritmo diferenciado. E nós já temos muitas:

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Novas edições da Classica Digitalia

Informação recebida pelo de Rerum Natura.

O Conselho Editorial da biblioteca Classica Digitalia tem o gosto de anunciar 3 novos livros, um dos quais em co-edição com o Centro de Estudos Clássicos e o Centro de História da Universidade de Lisboa.

Conforme é prática dos Classica Digitalia, todos os volumes são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital de acesso livre.

Colecção Autores Gregos e Latinos – Série Textos Gregos
- José Luís Lopes Brandão: Plutarco. Vidas de Galba e Otão. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2010). 128 p. Hiperligação: PVP: 9 €
- Marta Várzeas: Plutarco. Vidas Paralelas – Demóstenes e Cícero. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2010). 199 p.Hiperligação: PVP: 12 €

Colecção Humanitas Supplementum (Estudos)
-
Maria Cristina de Sousa Pimentel e Nuno Simões Rodrigues (Coords.): Sociedade, Poder e Cultura no Tempo de Ovídio (Coimbra, Classica Digitalia/CECH/CEC/CH, 2010). 288 p.Hiperligação: PVP: 29 € [capas duras]Continue a ler Novas edições da Classica Digitalia

“O que mais lhe irá acontecer?"

O que se passa no sistema educativo português faz-me lembrar, com mais frequência do que eu gostaria, certas novelas, em versão “foto” e, depois, em versão “tele”, produzidas segundo a fórmula “puxar ao sentimento”, que há umas três para quatro décadas se tornaram o tema principal de conversa da nação.

Essas telenovelas de tão longas e por nelas se introduzirem tantas reviravoltas, a fim de agradar a todos, facilmente passavam para o domínio do incompreensível. Ainda assim, as pessoas continuavam alegremente a vê-las e a falar delas apaixonadamente, apesar de, às tantas, já não saberem explicar como é que a história havia começado, nem a mudança do enredo, nem quem era quem, ao que tinha entrado e que destino teria. Isto, aliás, não importava muito porque o que interessava às pessoas o entretenimento.

Numa paródia a essas novelas, o actor Nicolau Breyner, como um sotaque abrasileirado, repetia no final de cada episódio: “o que mais lhe irá acontecer?”. Fala que hoje já não teria grande sentido porque, entretanto, quer gostemos do género ou não, temos de reconhecer que as histórias, os desempenhos, as técnicas melhoraram muitíssimo. Eu arricaria dizer: ao contrário do sistema educativo, onde a impressão de tudo se repetir, não se conseguindo sair do mesmo estado, é uma contante...

Este pensamento foi o que me ocorreu ao ler uma notícia sobre a (mais uma) revisão do Estatuto do Aluno do Ensino Básico e Secundário. Um pensamento nada edificante de quem, como eu, trabalha na área da Pedagogia, mas que outro pensamento se pode ter perante tanta instabilidade, tanta confusão, tanta opinião?

Lembram-se os leitores, sobretudo aqueles que fazem um esforço (é esta a palavra certa) para estarem a par das medidas para a educação, quantas versões desse Estatuto surgiram num passado próximo? Qual era o texto de cada uma? Que alterações sofreram, com que argumentos e defendidos por quem?

Eu que as li todas, e com intenção de estudo, dou a mão à palmatória: não me lembro. Até porque o Estatuto da Carreira Docente também sofreu alterações várias, o mesmo aconteceu com a Avaliação do Desempenho Docente, etc, etc, etc.

Pode até ser que as alterações agora introduzidas no Estatuto do Aluno estejam correctas, mas, entretanto, perdeu-se o sentido do todo: nem professores e outros educadores, nem pais/encarregados de educação, nem alunos, nem sociedade em geral, conhecem, neste momento, o seu conteúdo em pormenor sem terem dúvidas

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O nacionalmasoquismo

Novo texto de João Boavida, na sequência de outros sobre Jorge de Sena, já publicados no De Rerum Natura.

"Sabe de Hegel, de Sartre, de fenomenologia
mas andou na Rua da Sofia.

É inteligente, arguto, viajado
mas vive sempre com a aldeia ao lado.

Que há nestes portugueses que é como um sarro azedo,
um cheiro de vinagre ou carrascão de medo,
a que se agarram quais lapas ao Penedo

da Saudade? Não há filosofia
que salve quem andou na Rua da Sofia"

Este é um poema de Jorge de Sena, aparecido há pouco numas Dedicácias (Guerra e Paz) e “dedicado” a alguém de Coimbra. É muito interessante porque tem várias contradições, muito à moda de Sena, mordaz para tudo o que é português. Tal como todos nós.

Jorge de Sena, já o disse aqui, é um dos grandes vultos da literatura e da cultura do nosso século XX. Talento multiforme, riquíssimo, mas de verbo violento e ácido, algo truculento, às vezes mesmo caótico, apoiado numa energia imensa e numa capacidade intelectual fora do vulgar. É curioso que não tenha resistido a lançar a sua ferroada a Coimbra, servindo-se de alguém que «é inteligente, arguto e viajado», mas que, apesar disto, tem o grande defeito de viver «sempre com a aldeia ao lado». E mais, que «sabe de Hegel, de Sartre, de fenomenologia» mas, olha que azar, «andou na rua da Sofia». Nada a fazer, portanto.

Bem gostava de saber quem lhe teria inspirado o poema. Algum amigo, professor de filosofia – domínio que Sena expressamente admirava e lamentava não possuir, ele que tinha muitos talentos e que tanto gostava de os atirar à cara dos outros.

Mas, por que razão é que alguém, «arguto, culto e viajado» não se salva só porque tem a aldeia ao lado? Sena, que andou por várias cidades do mundo com livralhada e filharada às costas, à procura de uma cátedra de literatura portuguesa, não nos perdoava, pelos vistos, o vivermos (alguns) na Rua da Sofia, digamos assim. Mesmo que viajados e filhos de um povo que anda, e sempre andou, pelo mundo inteiro, esgravatando pela vida.

Talvez que o problema seja desse alguém ter a “sorte” de ter uma cátedra aqui, em Coimbra, e ele não (embora tenha estado perto disso, diga-se). Ou de ser versado em Hegel, fenomenologia e outras filosofias, coisa que ele admirava e invejava. Os humanos, mesmo os superiores, têm destes ressentimentos.

E por que não a

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