Em poucas áreas se mente tanto…

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, exames nacionais
“... em poucas áreas se mente tanto como na política educacional e escolar”. D. Schwanitz, 2004. Noutro texto afirmei que a facilidade, ou o facilitismo, dos exames nacionais, promovido pelos responsáveis por políticas e medidas educativas, não é um cenário exclusivo do nosso país, estando descrito na literatura internacional. Um leitor lembrou que o assunto deveria ser desenvolvido. “Confesso”, escreveu ele, “que estou farto de ler conversa fiada sobre o assunto e se há trabalhos que identificam e caracterizam o problema, o melhor é ler esses trabalhos e tirar deles conclusões mais precisas.Acontece que a época do ano lectivo não é propícia a uma revisão desses trabalhos para, com base neles, escrever um texto síntese que já se vai exigindo na reflexão sobre a avaliação externa que se faz no nosso país. Prometendo voltar ao assunto, com outros fundamentos, aqui deixo a observação de D. Schwanitz (2004, 26-28) sobre a situação na Alemanha, que, não sendo igual à nossa, muito tem a ver com ela, particularmente neste momento em que, de modo supeito, as médias dos exames de matemática sobem cerca de 75%, como o Carlos Fiolhais assinalou no texto hoje ...

O “muito” de Ingrid

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Carácter, Ciência Geral
Do carácter de Ingrid Betancourt se pode dizer que "há quem tenha além do pouco muito". Ela faz diferença. Por isso, com um poema de Jorge de Sena, é justo que também aqui se assinale o dia da sua libertação e, creio, do seu renascimento.O pouco ou muitoO pouco ou muito a diferença é poucaTodos temos pouco e só há quem tenhaalém do pouco muito.São poucos esses e a pouco e pouco inexoravelmente são mais poucosante os muitos muitos.E a diferença sendo pouca é muita.Todos temos pouco muito então,além do muito pouco.Jorge de Sena (28 de Maio de 1966) in Visão Perpétua

Exame sem erros, porém erróneos

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, avaliação do ensino, exames nacionais
Recapitulemos a questão mais polémica em torno dos exames nacionais recentemente realizados: políticos, associações científicas, especialistas, professores, encarregados de educação, e até alunos consideram-nos descaradamente acessíveis. A comunicação social interessou-se pelo assunto e deu-lhe destaque. Num debate ocorrido na RTP.N, registei a posição do Director do Gabinete de Avaliação Educacional: peritos indicados pela Sociedade Portuguesa de Matemática (S.P.M.) auditaram as provas de matemática antes da sua aplicação, pelo que as actuais críticas dessa Sociedade ao grau de dificuldade das mesmas são, no mínimo, caricatas. O representante da S.P.M. presente no debate, Filipe Oliveira, sublinhou que erros científicos e grau de dificuldade são coisas distintas. Demonstrou ainda – lendo o ofício enviado pelo Gabinete de Avaliação Educacional (G.A.V.E.) requerendo a peritagem – que aos especialistas da S.P.M. apenas foi solicitado que auditassem o primeiro aspecto.Concentremo-nos então na seguinte interrogação: será possível que uma prova esteja correcta cientificamente mas apresente um grau de dificuldade errado? Indo mais longe, o grau de dificuldade que se imprime a uma prova de exame pode estar certo ou errado?De modo propedêutico a este texto, publiquei neste blogue outro, onde afirmei que uma das funções ...

Para que serve a avaliação?

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, avaliação da aprendizagem, exames
Em comentário ao texto – Basta de exames fáceis, dizem eles!–, aqui publicado, interroga-se um leitor sobre qual será a finalidade de uma prova de avaliação.Trata-se de uma excelente questão que, parecendo de resposta óbvia, tem desencadeado bastante discussão no campo da pedagogia.Sendo o conceito de avaliação escolar muito amplo, restrinjo-me, neste texto, à avaliação que é feita ao desempenho dos alunos, através de testes, provas, ou exames, para verificar as suas aquisições académicas.Mesmo sem entrar em deambulações históricas, devo referir que a avaliação - o modo de aferir se o que se pretende ensinar está a ser aprendido e em que medida o está - vem de tão longa data que se perde no tempo, mas foi a democratização da escolaridade que contribuiu para a sua formalização e lhe imputou muitas das regras pelas quais ainda hoje se rege.O facto de muitos alunos passarem a acorrer às escolas requereu uma nova estratégia organizativa que assentava, essencialmente, em dois aspectos: (1) a sua distribuição por classes ou grupos homogéneos (a partir de critérios como a idade, o nível de conhecimento, o ritmo ...

Basta de exames fáceis!

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, exames nacionais
Nas entrevistas que se fazem aos alunos à saída dos exames nacionais, sejam elas para a televisão ou para os jornais, ressalta uma coisa surpreendente: a maioria, para não arriscar a totalidade, acha-os fáceis ou muito fáceis; e, mesmo, os que reconhecem não ter estudado ou ter estudado pouco, acham-nos acessíveis.Este estranho "fenómeno" pode ter inúmeras explicações: uma é que, sem se darem conta, os jornalistas escolhem os alunos mais aplicados e conscientes; outra é que os alunos estudam muitíssimo e conseguem aceder a um grau de excelência que sustenta a confiança que evidenciam; outra é que o seu optimismo aumenta paralelamente ao pessimismo dos professores…Mas há outra explicação em que algumas associações de professores e especialistas teimam: os exames são, de facto, fáceis. E são fáceis para se obterem resultados “agradáveis” e, assim, acreditemos que a qualidade do nosso sistema de ensino melhora, quando, na verdade, piora. Eu própria, cada vez que analiso um exame nacional, tendo a corroborá-la. Mas a tutela desmente-a sempre, alegando que provém de vozes suspeitas, que denotam má vontade, vozes que procuram uma conspiração onde tudo é transparência. É certo que os argumentos de que a tutela se socorre não ...

O valor do Montagnana de Suggia

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral
"A melhor maneira de o conservar é tocá-lo (…). É muito especial pelo valor que tem e pela antiguidade, por ter pertencido a Guilhermina Suggia, possivelmente a primeira grande figura da música erudita portuguesa com grande projecção no mundo (…). Tem sido uma semana bastante esquisita, porque é uma oportunidade única de tocar um instrumento como este." Bruno Borralhinho “Eu, Guilhermina Augusta Xavier de Medim Suggia Carteado Mena, viúva, violoncelista, residente na Rua da Alegria, número seiscentos e sessenta e cinco, desta cidade do Porto, encontrando-me no uso pleno das minhas faculdades e livre de qualquer coacção, faço por este meio e meu testamento e disposições de última vontade, para que se cumpram e respeitem tais como passo e enunciar:- O meu violoncelo Stradivarius juntamente com dois arcos, um Tourte e outro Voirin, que se encontram na posse da Embaixada Inglesa em Lisboa, será enviado pelo nosso Embaixador à casa Hills de Londres, a fim de ser por ela adquirido ou vendido pelo melhor preço que se obtenha e o seu produto entregue à Royal Academy of Music, que o aplicará, segundo o melhor critério, ...

Publicidade de “boas maneiras”

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, publicidade, relação escola-comunidade
No meu dia, Dia da Criança, gostava que me levassem ao [nome de um centro comercial] para ver o espectáculo musical [designação do grupo musical].Um beijinho,[espaço para a criança escrever o seu nome]Estas são as palavras de um bilhete com design agradável que me chegou às mãos, via escola, pouco tempo antes de 1 de Junho.A estratégia que aqui está subjacente não é nova, já a descobri há alguns anos, mas parece-me que tem vindo a ganhar terreno e a tornar-se comum.Refiro-me, muito concretamente, a certas ligações que empresas e marcas estabelecem com escolas: financiam projectos, obras, materiais, ou, simplesmente, propõem-se ilustrar, apoiar a leccionação de temáticas curriculares nas mais diversas áreas como a saúde, a cidadania, a cultura...Sem ter feito qualquer investigação para perceber em profundidade as características e extensão de tais ligações, baseando-me apenas e só na constatação que o quotidiano permite, darei exemplos, que fui guardando, daquilo que refiro.- Escolas do Ensino Básico promovem um concurso de desenho. O vencedor vê o trabalho impresso em sacos de supermercado com o seu nome e da instituição a ...

Vergonha é…

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Carácter, Ciência Geral, Desenvolvimento moral
O que a gente fazÉ por debaixo dos panoPra ninguém saberNey Matogrosso“Vergonha é… roubar e ser apanhado”. Subjacente a este dito irónico está subjacente a ideia de que o mal não é propriamente a prevaricação, mas alguém descobrir a prevaricação.Qualquer pessoa adulta, nascida e criada neste lado do mundo, por menos instrução que tenha, percebe que não é assim, que, salvo raras excepções, o mal está, efectivamente, na prevaricação e que a vergonha decorre do facto de se ter prevaricado.Pois é… mas quando passamos para o plano da acção a coisa torna-se um bocado diferente. Agir de acordo com os preceitos morais que advogamos nem sempre joga a nosso favor, que é como quem diz, a favor das nossas conveniências, comodidades, dos nossos pequenos ou grande interesses e vícios.Os entendidos numa área de estudo da Psicologia que se designa por Desenvolvimento Moral, cedo identificaram este curioso fenómeno, não conseguindo, contudo, explicá-lo inteiramente. E, portanto, continuamos sem perceber porque é que, em muitas circunstâncias, não nos comportamos de acordo com os preceitos axiológicos que advogamos.Há quem defenda tratar-se de ...

Doutoramento em quê!?

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Ensino Superior
Leia-se o seguinte texto num registo em que se combinam ironia, perplexidade e alguma inquietação.A propósito do meu post Mestrado em quê!?, referem leitores deste blogue que têm conhecimento de cursos de nível superior com designações e objectos de estudo mais estranhos do que este – Mestrado em Gestão e Manutenção de Campos de Golfe.Pensei no assunto e dei conta que também conheço. Por dever profissional, nos últimos tempos tenho passado os olhos e, às vezes, mais do que isso, trabalhado nos currículos de primeiro, segundo e terceiro ciclos de Bolonha e não é raro deter-me nas designações de “unidades curriculares” – como agora se diz, em substituição de “disciplinas” ou “cadeiras” –, cursos, áreas, especializações oferecidas por essa Europa, por as achar estranhas, peculiares… E quando isso acontece dificilmente consigo atingir os objectos de estudo…ou, se os atinjo, fico na dúvida se eles são ou não aceitáveis.Mas, neste esforço de compreensão, não posso deixar de pensar se serão essas designações e objectos de saber que eu estranho, um sinal de modernidade. Faço esta pergunta já há alguns anos, mais precisamente desde que, em 2001, li um artigo ...

Quero que preste atenção aos padrões

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência, Ciência Geral, Observação, Poesia
Richard Feynman, o físico teórico premiado, o inventor perspicaz, o professor talentoso, o divulgador de ciência, o músico amador, também escreveu poesia, desenhou e pintou.Podemos perguntar, o que há de comum em todas estas actividades, que se afiguram como distintas? A resposta pode ser: observar com precisão e tentar compreender, sem excluir a imaginação, claro. Feynman reconheceu que devia essas aprendizagens, em primeiro lugar, ao pai."Conta-se que, quando a minha mãe estava grávida — não tive conhecimento directo da conversa, bem entendido —, meu pai disse um dia: «Se for rapaz, será cientista. Como é que ele conseguiu isto? Nunca me disse que devia ser cientista». De facto, meu pai não era cientista, era um homem de negócios, chefe de vendas de um armazém de uniformes militares. No entanto, lia e tinha uma verdadeira paixão pela ciência. Quando era miúdo — a primeira história que conheço —, quando ainda comia numa cadeira de bebé, meu pai, depois do jantar, costumava brincar comigo um jogo. Tinha trazido vários azulejos rectangulares de casa de banho de um lugar qualquer da cidade de Long Island. Colocávamo-los de pé, um após outro, todos ...

“E ela dança”

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Poesia, dança, pintura
“Às vezes, quando a casa estava adormecida à noite, ela dançava pela sala fora (…). E ela dançará. Ao longo das sílabas dos poemas, como dançava na minha infância.” Miguel Sousa Tavares No dia de hoje, em que se comemora essa arte magnífica que é a da dança, lembro-me de um poema - Por delicadeza - e de um quadro - O baile - de duas senhoras que representam duas outras artes magníficas: Sophia de Mello Breyner Anderson e Paula Rego.Bailarina fuiMas nunca danceiEm frente das gradesSó três passos deiTão breve o começoTão cedo negado Dancei no avessoDo tempo bailadoDançarina fuiMas nunca baileiDeixei-me ficarNa prisão do reiOnde o mar abertoE o tempo lavado?Perdi-me tão pertoDo jardim buscadoBailarina fuiMas nunca baileiMinha vida todaComo cega erreiMinha vida atadaNunca a desateComo Rimbaud disseTambém eu direi:«Juventude ociosaPor tudo iludidaPor delicadezaPerdi a minha vida»(Citação de Miguel SousaTavares in Jornal Público, 12 de Junho ...

Mestrado em quê!?

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Ensino Superior
Mestrado em Gestão e Manutenção de Campos de Golfein Diário da República, 2ª Série, nº51, 12 de Março de 2008E, se o leitor reparou, o Mestrado em causa confere duas especializações: "Gestão de Campos de Golfe" e "Manutenção de Campos de Golfe".Por outro lado, pela ordem natural das coisas, segue-se o Doutoramento...Para mais informações, consultar, por exemplo, o "Guia do estudante" do semanário Expresso.

Um homem da Liberdade

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Carácter, Ciência Geral
A data de hoje justifica que se recorde o encontro de dois homens de carácter que se admiravam mutuamente: Francisco Sousa Tavares e Salgueiro Maia. Encontro que é contado pelo jornalista António de Sousa Duarte, num livro que vale a pena ler: Salgueiro Maia, um homem da Liberdade."É neste momento que o advogado Francisco Sousa Tavares, a pedido de Salgueiro Maia, dirigindo-se à população, pedindo respeito pelos vencidos e anunciando a «libertação do jugo fascista». O ex-candidato no acto eleitoral de 1969 nas listas da depois extinta Comissão Eleitoral da Unidade Democrática trava aí uma amizade com o capitão Maia. Mais tarde, o velho democrata recordará:«Era um militar de bravura inigualável, mas também extremamente sensato e um homem de coração. Maia era um chefe nato e dele emanava a força serena dos homens habituados a dominarem-se e, sendo preciso, a dominar os outros. Foi assim que Salgueiro Maia, com os seus homens, dos quais a maioria sem qualquer experiência e praticamente sem instrução de tiro, venceu na Revolução e virou a página da História de Portugal.Dominou calmamente o terreiro do Paço, o tenente-coronel Ferrand de Almeida, dominou o ...

X FESTIVAL TEATRO DE TEMA CLÁSSICO

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral
Informação recebida do Instituto de Estudos Clássicos da Universidadede CoimbraEntre 29 de Abril e 20 de Junho decorre em várias localidades do país– Coimbra, Conímbriga, Odrinhas, Viseu, Braga, Fundão, Penela eSantiago da Guarda – , o X Festival Internacional de Teatro de TemaClássico (FESTEA). A Associação Cultural Thíasos, responsável poreste evento, incluiu nesta décima edição, os seguintes grupos: GrupoThíasos, do Instituto de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras deCoimbra, Grupo de Teatro Clássico da Universidade de Alicante, eGrupo de Teatro Clássico ESAD de Málaga.Além de reposições de “Agamémnon”, de Ésquilo, e d`“As Suplicantes”,de Eurípides –, o Grupo Thíasos estreia a pela “Vespas”, deAristófanes.A ENTRADA É LIVRE

Agamémnon, senhor da casa, senhor da guerra

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Cultura clássica
Informação recebida do Instituto de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra Vai realizar-se nos próximos dias 28 e 29 de Abril, no Anfiteatro IV da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, o Colóquio Internacional Agamémnon, senhor da casa, senhor da guerra. O mote é o seguinte:Agamémnon, o poderoso senhor da Casa dos Atridas, representa, por si, o núcleo em que se concentram conflitos e paradoxos extremos que se hão-de desdobrar, mediante a força narrativa que possuem e a inspiração neles encontrada por poetas, músicos, pintores, desde a Antiguidade. É sobre este mito que o convidamos a reflectir.A ENTRADA É LIVRE

O valor (des)educativo da publicidade

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, publicidade, teoria da educação
Vale a pena lerTítulo: O Valor (Des)Educativo da PublicidadeAutor: Carlos Francisco de Sousa ReisEdição: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2007Carlos de Sousa Reis é um filósofo de formação que tem por profissão o ensino numa área, tão mal amada hoje em dia, que é a Teoria da Educação.Quando decidiu fazer Mestrado, escolheu as Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e foi nesse âmbito académico que conjecturou e desenvolveu uma interessantíssima dissertação que originou o livro acima referido.Nele apresenta uma análise exaustiva que fez da publicidade televisiva, a qual lhe permitiu desmontar de modo consistente factores cognitivos, afectivos e sociais, bem como a realidade cultural e económica em que se organizam os media na actualidade.Esta investigação é sustentada por uma exploração teórica que Carlos de Sousa Reis enfrenta com grande segurança e à qual imprime grande solidez no plano dos fundamentos. Dessa exploração, apesar de abrangente, não ficam pontas soltas, na medida em que dela derivam sínteses claras, esclarecedoras das posições heurísticas que o autor adopta.Ao contrário do que é costume, nesta obra não se evitam ou desvalorizam ...

Escola, igualdade e diferença

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, escola
Vale a pena lerTítulo: Escola, igualdade e diferençaAutor: Joaquim Pires ValentimEdição: Campo das Letras, 1997 (115 páginas)Há livros sobre educação que, pela importância das ideias que lhe servem de mote e pelo modo como são debatidas, devem ser lidos e relidos. O livro acima identificado, da autoria de Joaquim Pires Valentim, professor da Universidade de Coimbra, está nesse grupo.Apesar de ter sido publicado há onze anos, os quatro capítulos que o compõem, mantêm toda a actualidade. São eles: (1) O nascimento da escola obrigatória; ideologias e transformações culturais; (2) Modificações nos discursos científicos dominantes e explosão escolar; (3) Democratização do ensino: processos e representações; (4) A deslocação do tema da igualdade para o da diferença.A clareza da escrita e a discussão pouco convencional de ideias pedagógicas correntes faz deste pequeno livro um documento de referência para que se interessa pela identidade e funções da escola.Da conclusão deixo o seguinte excerto:“Temos pedido sempre muito à escola: que ajudasse a manter a ordem nas cidades, disciplinando os espíritos e os corpos; que permitisse a todos o ideal democrático da igualdade entre ...

“Dê-lhe contos de fadas”

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, adaptação de textos, literatura para a infância e juventude
Em Fevereiro passado, escrevemos para o De Rerum Natura um texto intitulado Ei, intelectuais! Deixem as crianças em paz!, sobre a Colecção de Clássicos da Literatura Portuguesa Contados às Crianças, que o semanário Sol e as Edições Quasi decidiram publicar em conjunto. Continuamos a reflexão que iniciámos nesse texto, pois entendemos que a adaptação de obras marcantes da literatura, pelas questões fundamentais que levanta, merece mais algumas considerações.Se atendermos à forma dos livros que compõem a dita colecção, inferimos que tais livros se destinam a crianças que dão os primeiros passos na leitura, senão vejamos: têm poucas páginas, os caracteres são muito grandes, as imagens são vastas e coloridas, a capa é dura, as folhas resistentes. O estilo da escrita vai, pelo menos em muitas passagens, no mesmo sentido. Por exemplo, n’ Os Maias a história começa assim: “Foi há muito tempo. Foi antes de tu nasceres, foi também antes de eu nascer, foi antes de os teus pais nascerem e mesmo antes de os teus avós nascerem. Foi no tempo em que as casas tinham nomes”.O que queremos discutir neste texto é se os livros adaptados, com o intuito ...

O carácter de Ingrid

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Carácter, Ciência Geral
“Chegada a este ponto, irão matar-me também? A minha relação com a morte é da mesma ordem da que o equilibrista mantém com ela: ambos praticamos uma actividade perigosa, avaliamos os riscos, mas o nosso amor pela perfeição vence invariavelmente o medo. Amo apaixonadamente a vida, não tenho medo de morrer. Tudo aquilo que construo na Colômbia é também para ter o prazer de aí envelhecer. Para ter o direito de aí viver, sem temer pela sorte daqueles que amo.”É com estas palavras inquietantes e envolventes que Ingrid Betancourt Pulecio termina o livro “Com raiva no coração”, dedicado aos seus dois filhos, Mélanie e Lorenzo.Trata-se de um relato apressado e detalhado das circunstâncias que justificam a luta de Ingrid, denotando, em cada passagem, que, quando o escreveu, estava consciente da importância de divulgar o seu testemunho antes de ser calada: “escrevo, obcecada pela necessidade de avançar, de salvar o que ainda pode ser salvo de verdade”, registou ela. E, mais adiante: “Tenho presente uma conferência de Hélène Carrère d’Encausse no Instituto de Ciências Políticas, em que ela explicava de forma pungente o modo como os regimes totalitários reescreviam ...

Uma cultura de verdade e qualidade

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Erro humano, avalição do desempenho
Post convidado de José Fragata, cirurgião cardíaco e professor na Universidade de Lisboa. A par do exercício da medicina, da investigação e do ensino nesta área, tem-se interessado pela avaliação do desempenho profissional, em particular pela análise dos erros humanos e sua gestão. A declaração do Luxemburgo de 5 de Abril de 2005 consagra o direito dos doentes no espaço europeu, à segurança nos cuidados de saúde. Com efeito, aos pilares fundamentais da qualidade descritos por Donabedian, que eram a estrutura, o processo e os resultados, foram acrescentadas outros, como o acesso, a reputação, a accountability e, não menos importante, a redução do risco, ou seja, a segurança dos doentes. O risco clínico depende, por um lado, da dificuldade do procedimento e, por outro lado, da performance de quem executa, que é determinada em função da dificuldade. Tomemos o exemplo do salto em barreiras, todos teremos uma boa performance no salto em barreiras, se a altura das barreiras for suficientemente baixa.Em saúde, há que contar, portanto, com eventos adversos que podem resultar em danos que não são causados pela doença mas por actos dos profissionais. Esses eventos podem ser ...

Pedagógico & Saudável

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Pseudociência
Houve um tempo ainda recente em que muito daquilo que se fazia ou deixava de se fazer, era classificado, de imediato, segundo critérios (pretensamente) pedagógicos: a actuação da polícia, dos juízes, dos pais, dos médicos e, é claro, dos professores; os programas de televisão, os livros, as embalagens de cereais e, principalmente, os brinquedos, mas também as peças de teatro, os filmes, as exposições em museus, etc., etc., etc., podiam ser “pedagógicos” ou “anti-pedagógicos”.Esse tempo passou ou está a passar. E, sendo eu da área da pedagogia, devo dizer que felizmente assim é. As classificações dualistas e falsamente científicas são de evitar.Só que esse tempo está a ser substituído por outro que não sei se será mais ou menos preocupante: o tempo em que muito (ou tudo?) daquilo que se faz ou se deixa de fazer é apreciado em função de critérios (pretensamente) sanitários e de sanidade.São a higiene e a saúde que passam a ditar as regras do que acima referi e de mais, muito mais. Por exemplo, nunca ouvi dizer que adornar-se com piercings ou estar solteiro fosse anti-pedagógico…Vêm estas considerações a propósito ...

Amizades críticas… mas de longe da escola

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral
O Processo de Avaliação do Desempenho do Pessoal Docente, recentemente passado a letra de lei (Decreto Regulamentar n.º 2/2008 de 10 de Janeiro), estabelece duas dimensões, que se pretendem complementares: a auto-avaliação e a avaliação por colegas da mesma escola. Ora, esta determinação que, numa primeira abordagem, parece razoável, tem desencadeado inúmeras considerações por parte de especialistas em avaliação do ensino.Restringindo-me, de momento, à avaliação do professor por colegas da mesma escola, retomo, na sequência no meu post anterior, a análise realizada por Christopher Day, salientando que, ao contrário do que alguns discursos políticos querem fazer crer, esta dimensão está longe de ser sempre pacífica e profícua.Na verdade, encerra perigos e limitações várias, tanto mais acentuadas quanto as intenções de desenvolvimento profissional e de classificação se misturam, como é o caso do processo acima referido, e quando esta última intenção se afigura como central nesse mesmo processo.“(…) Smith (1984) revela que os adultos aprendem quando lhe são dadas oportunidades para uma reflexão orientada e contínua, como base ‘numa experiência vivida’. Sugere que os adultos (e os professores) aprendem ao fazer e beneficiam mais com as situações ...

“Mas, há uma questão que continua sem resposta”

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral
Uma infinidade de considerações poderia ser feita ao programa Pós e Contras – transmitido pela RTP 1 na passada segunda-feira, dia 25 de Fevereiro –, dedicado a questões fundamentais da e na actualidade educativa, tão abundante de conteúdo e polémica ele foi.É impossível, portanto, analisá-lo no seu todo, num modesto texto de blogue. Mas, neste espaço, pode pensar-se nele, em relação a aspectos particulares e muitos concretos, como, por exemplo, a essência do novo modelo de avaliação do desempenho do pessoal docente.Ora, a este propósito, lembrei-me de uma leitura que fiz há muito: trata-se de um artigo escrito por Christopher Day, professor da Universidade de Nottingham, publicado entre nós, em 1992, que três anos antes havia saído na revista Westminster Studies in Education (vol. 12). Um pouco antigo, portanto, esse documento, ou extraordinariamente actual?Partilho uma passagem do mesmo com o leitor, pois considero que ela elucida alguma coisa do que se foi dito. “O desenvolvimento de esquemas de avaliação nas escolas proporcionará novas oportunidades para aferir em que medida dois objectivos centrais – a responsabilização e o desenvolvimento profissional – podem ser concretizados. É certo que ...

Desconcerto curricular no ensino da música

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, currículo, educação musical
Na sequência do texto do Carlos, intitulado “Desconcerto educativo”, afixado no De Rerum Natura no passado dia 15 de Fevereiro, e para que se perceba qual o lugar da música no Ensino Básico, bem como a sua substância, aqui sistematizo, praticamente transcrevendo, o que é prescrito nos documentos que estabelecem o currículo nesse nível de ensino em Portugal: Decreto-Lei n.º 6/2001 de 18 de Janeiro; Currículo Nacional do Ensino Básico: Competências Essenciais datado de 2001; Decreto-Lei n.º 209/2002 de 17 de Outubro. “A música é um elemento importante na construção de outros olhares e sentidos em relação ao saber e às competências, sempre individuais e transitórias, porque se situa entre pólos aparentemente opostos e contraditórios, entre razão e intuição, racionalidade e emoção, simplicidade e complexidade, entre passado, presente e futuro.”(Currículo Nacional do Ensino Básico, página 165).Com a citação acima destacada, constante no Currículo Nacional do Ensino Básico, inicia-se a explicação do que é a Literacia Musical, uma competência global que os alunos devem adquirir, ao longo dos nove anos que compõem o dito nível de ensino. Segue-se o esclarecimento da relação entre as competências musicais mais específicas ...

A excelência é rara

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, avaliação do ensino
Na passada semana, ao ligar a televisão, ouvi a responsável máxima pela Pasta da Educação Pré-Escolar e Ensinos Básico e Secundário dizer uma coisa extraordinária em relação à qualidade do desempenho profissional, em geral, e do desempenho docente, em particular. Tão extraordinária se me afigurou, que pensei ter compreendido mal e resolvi ver a repetição do programa. Confirmei o que antes tinha escutado.O que a senhora Ministra Maria de Lurdes Rodrigues disse foi mais ou menos o seguinte: a avaliação do desempenho docente enquadra-se na política de avaliação da função pública, e no ensino, tal como nas restantes profissões da função pública, a excelência, como todos sabemos, é rara. Não temos 70 % de pessoas excelentes e 30 % de pessoas normais. O que temos, infelizmente, é o contrário.Interpretei tal afirmação do seguinte modo: antes de se realizar a avaliação do ensino e de se apurarem os resultados da mesma, a senhora Ministra da Educação já sabe, e lamenta, que tenhamos uma minoria de professores excelentes. Em números redondos: trinta por cento.Se desse azo ao meu raciocínio perguntaria a mim própria, porque foi legislado um novo ...

“E assim vamos erguendo o monumento da camelice!”

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, literatura para a infância e juventude
Em comentário ao texto “Ei, intelectuais! Deixem as crianças em paz!”, publicado neste blogue, um leitor recordou uma reflexão de Eça de Queiroz, publicada no livro Cartas de Inglaterra, sobre a literatura para a infância e juventude. Agradecendo a intervenção, aqui reproduzimos uma parte significativa dessa reflexão, salientando, com as palavras do leitor, que passados 130 anos parece que, em certos aspectos, continuamos na mesma.“Em Inglaterra existe uma verdadeira literatura para crianças, que tem os seus clássicos e os seus inovadores, um movimento e um mercado, editores e génios – em nada inferior à nossa literatura de homens sisudos. Aqui apenas o bebé começa a soletrar, possui logo os seus livros especiais: são obras adoráveis, que não contém mais de dez ou doze páginas, intercaladas de estampas, impressas em tipo enorme, e de um raro gosto de edição. Ordinariamente o assunto é um história, em seis ou sete frases, e decerto menos complicada e dramática que O Conde de Monte-Cristo ou Nana; mas enfim tem os seus personagens, o seu enredo, a sua moral, e a sua catástrofe.Tal é, para dar exemplo, a lamentável tragédia dos Três velhos ...

Ei, intelectuais! Deixem as crianças em paz!

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, adaptação de textos, literatura
A propósito da “Colecção de Clássicos da Literatura Portuguesa Contados às Crianças”, uma publicação conjunta do semanário Sol e das Quasi Edições.O título deste texto, praticamente decalcado de uma famosa canção do álbum The Wall dos Pink Floyd, pretende denunciar a tendência de alguns intelectuais se intrometerem entre as crianças e os livros, porque supõem que as crianças de hoje não gostam de ler ou que, de facto, não lêem.Antes de mais, esta suposição é muitíssimo discutível, pois não temos dados precisos sobre os gostos e a quantidade de leitura das crianças de hoje. Por outro lado, não temos, mesmo, dados sobre os gostos e a quantidade de leitura das crianças de outros tempos, de modo que não podemos proceder a qualquer comparação objectiva entre gerações.Ainda que sem fundamento científico, a dita suposição tem justificado o recurso a uma estratégia que se vai instalado, progressiva e confortavelmente, entre nós: em vez de se passarem para as mãos das crianças obras originais, passam-se-lhes extractos breves e adaptações ligeiras das mesmas, em que se nota um cuidado cirúrgico em extrair ou substituir toda e qualquer palavra ou frase supostamente mais ...

Ciência e poesia

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência, Ciência Geral, Poesia
Tigre, tigre, chama puraNas florestas, noite escura,Que olho ou mão imortal criaTua terrível simetria?De que abismo ou céu distanteVem tal fogo coruscante?Que asas ousa nesse jogo?E que mão se atreve ao fogo?(…)O Tigre, magnífico poema de William Blake (1757-1827), de que acima reproduzi o princípio, talvez tenha prendido demoradamente a atenção de Jacob Bronowski. Por alguma razão, imagino-o a deter-se nele, a lê-lo várias vezes, a decorá-lo.... Na verdade, a força da escrita do poeta-artista inglês impressionou o matemático-filósofo ao ponto de lhe ter dedicado, tanto quanto sei, dois livros (um datado de 1944 – William Blake. A Man Without a Mask – e outro de 1958 – Selections from William Blake).A convivência, quando era ainda muito jovem, com as obras de escritores como Blake, Goethe ou Dickens despertou em Bronowsky uma enorme curiosidade pela literatura e, em particular, pela poesia. A natureza destas formas artísticas era, no seu entender, perfeitamente conciliável com a natureza da ciência, porquanto ambas as actividades decorrem da imaginação e da capacidade de construção do saber que, como humanos, possuímos. O modo como ...

Uma sugestão de leitura

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Poesia
Os sonetos a Orfeu e Elegias a DuínoDe Rainer Maria RilkeTradução de Vasco Graça MouraEdição: Bertrand (2007).Rilke (1875-1926) nasceu, cresceu, fez estudos universitários e escreveu os seus primeiros poemas em Praga. Jovem, com vinte anos, rumou à cosmopolita Munique, onde se embrenhou num novo e fascinante mundo de arte. Nesse mundo, por influência de uma paixão, a bela e impetuosa Lou Andreas-Salomé, mudou o nome de Réne para Rainer e passou a dedicar-se inteiramente à escrita.Entre as suas obras mais marcantes contam-se Elegias a Duíno, iniciada em 1912 e terminada uma década depois, no ano em que escreveu Os Sonetos a Orfeu. Vasco Graça Moura traduziu ambas as obras para a nossa língua, que se reuniram num só livro, em edição bilingue.No prefácio desse livro, João Barreno escreveu o seguinte sobre este trabalho de tradução: “O que o leitor d´Os Sonetos a Orfeu e das Elegias de Duíno reterá de Vasco Graça Moura, para além do pormenor, é um conjunto notável que veste estes dois ciclos de Rilke como uma segunda pele. A pele visível, e a mais actual, de Rilke em português. ...

“Horas felizes”

Helena Damião @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, privacidade
Em pleno Dezembro, o jornal Público pediu aos seus leitores que mostrassem e narrassem os acontecimentos mais marcantes do ano que findava. Anunciava a iniciativa da seguinte maneira: “2007, o ano dos leitores”Os leitores corresponderam e na edição do passado dia trinta, na revista dos domingos, foram publicadas setenta e cinco fotografias. Em mais de cinquenta aparecem pessoas sozinhas ou acompanhadas. A maior parte delas, sorri. Em dezassete estão retratados lugares. Numa vê-se um bolo de aniversário, noutra um diospireiro, noutra uma mesa com copos e bebidas, noutra um cantor famoso, noutra, ainda, um cão e um periquito.São fotografias agradáveis, que deixam perpassar uma ideia: são “horas felizes” que os ditos leitores viveram nos trezentos e sessenta e cinco dias que ficaram para trás. Os comentários confirmam essa ideia, pois muitos incluem expressões como: “A minha felicidade”; “viver com efusiante alegria”; “acontecimento feliz”; “o momento mais feliz”.Mesmo aquelas fotografias, e respectivos comentários, que remetem em primeiro plano para uma ocorrência triste, acabam por pontuar a alegria: duas expõem a mágoa da morte que chegou a familiar próximo, mas que, no entanto, algo ou alguém suaviza; uma explica que ...
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