Mentira política

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Política
O excelente post da Palmira põe a nu o estado de mentira política em que vivemos, e é este aspecto que vejo nitidamente no caso do aquecimento global e de muitos outros.Num texto excelente que infelizmente não foi incluído na recente antologia que preparei para a Antígona, Orwell analisa cuidadosamente as razões que tem para pensar que a Terra é redonda. E descobre que não tem assim tantas.O que está em causa é o problema da divisão social do conhecimento. Ao longo da história, as pessoas, na sua maior parte, nunca souberam praticamente coisa alguma excepto o que é estritamente necessário para a sua vida quotidiana e para alimentar a sua actividade favorita: a mexeriquice. Mas hoje mesmo quem procura conhecer as coisas não pode saber realmente mais do que uma pequeníssima parte; no resto, tem de confiar em especialistas. Isto é maravilhoso, porque exibe a nossa profunda dependência mútua: o conhecimento está socialmente distribuído e eu preciso dos conhecimentos que outros têm, e eles dos meus.Mas é também politicamente perigoso, pois dá origem a perversões terríveis. Uma dessas perversões é a manipulação da verdade. A publicidade, ...

A biologia da espiritualidade

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência, Ciência Geral, Religião
No artigo "Flesh Made Soul", Sandra Blakesless explica as últimas investigações sobre as bases biológicas das experiências místicas, começando por descrever a sua própria experiência.

Debates quentes

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, climatologia
Lomborg apresenta algumas ideias sensatas sobre o aquecimento global e o que devemos fazer quanto a isso aqui, Yohe discorda aqui, mas não me convenceu.

Crença dogmática na razão

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, razão
Há uma tendência para fazer críticas à "razão" ou à "razão lógica". Muitas vezes, essas críticas são meros disparates. Vejamos porquê.O racionalismo não é uma crença absoluta na “razão lógica”; na verdade, a expressão “razão lógica” nada quer dizer. Quem não conhece a lógica, por exemplo, não faz a mínima ideia de como é possível pensar sem usar o princípio do terceiro excluído, ou da não contradição. Para saber como se faz essas coisas é preciso estudar lógica. Além disso, a avaliação crítica e cuidadosa de todas as ideias é precisamente o que se faz quando não deixamos adormecer o intelecto por palermices tonitruantes, pelo que é absurdo pensar que alguém que seja racional aceita a racionalidade sem nada se perguntar sobre o que ela é ou quais os seus limites. Se alguém quiser estudar a racionalidade e os seus limites tem uma ampla bibliografia à sua disposição, mas quem escreve essa bibliografia não são gurus que exigem dos discípulos apenas a repetição acrítica de mantras.Ninguém provavelmente alguma vez defendeu que tudo é explicável pelos seres humanos, pela simples razão de que é evidente que somos tolos e muitíssimo limitados. Mas nenhuma conversa sobre os limites ...

Lugar-comum

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral
Os lugares-comuns são uma das coisas mais tristes, pois impede as pessoas de olhar à sua volta e ver a realidade, que muitas vezes refuta completamente os lugares-comuns.É um lugar-comum falar-se da falta de apetência dos jovens pela cultura, pela ciência, pelo pensamento; mas quem alimenta a televisão, a publicidade, os shoppings, os jipes, os bares e as tolices que se lêem nos jornais e revistas não são pessoas assim tão jovens. Não me parece haver razões para pensar que nos jovens há mais estupidez e frivolidade do que nos menos jovens. Infelizmente, a palermice é um dos bens mais amplamente distribuídos pela humanidade.

Divulgação, ensino e sociedade

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, divulgação da ciência
Penso que a divulgação da ciência, da história, da filosofia, da literatura é importante, pelo menos por duas razões.Em primeiro lugar, porque muitas vezes o ensino formal é muito mau. Lembro-me de aulas de ciências absolutamente mentecaptas, mas lembro-me também de excelentes livros de divulgação científica, como os de Carl Sagan, Jorge Buescu, Carlos Fiolhais, ou Nuno Crato. Por outro lado, as pessoas passam por vezes pela escola numa altura em que não têm ainda apetência para certas coisas, a que mais tarde darão mais valor. É importante satisfazer a curiosidade dessas pessoas, formá-las e informá-las.Em segundo lugar, porque toda a escolha baseada no desconhecimento é na realidade uma mentira. As pessoas não escolhem geralmente a homeopatia ou a astrologia; apenas não têm a mínima noção do que distingue a ciência do estupro intelectual. Não fazem ideia do que é investigar as coisas seriamente, por contraste com fingir que é verdade o que gostaríamos que fosse verdade. É importante fazer divulgação porque é importante dar liberdade de escolha às pessoas.Pessoalmente, não me afecta muito se a generalidade da população acredita ou deixa de acreditar na alquimia, na numerologia, no exorcismo, na astrologia, no criacionismo ...

A força do milagre

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Humor

O carcereiro libertário

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Filosofia
A minha habitual crónica das terças-feiras do Público está publicada aqui.

Epistemologia de mestre-escola

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência, Ciência Geral, Criacionismo, Epistemologia, Filosofia
Um dos aspectos mais importantes de um livro que já recomendei várias vezes, Sobre a Liberdade, de Mill, é chamar a atenção para a importância de refutar publicamente ideias falsas:"Por pouco disposta que esteja uma pessoa que tem uma opinião forte a admitir a possibilidade de que a sua opinião seja falsa, tem de ser tocada pela consideração de que por mais verdadeira que seja, se não for frequentemente discutida por inteiro e sem medos, será mantida como um dogma morto, e não como uma verdade viva.""Há um grupo de pessoas (...) que acham suficiente que alguém concorde com aquilo que consideram verdadeiro, sem duvidar, ainda que não tenha qualquer conhecimento dos fundamentos da opinião, e não pudesse fazer uma defesa sustentável dessa posição contra as mais superficiais objecções. A partir do momento em que o seu credo lhes foi ensinado por uma autoridade, pensam naturalmente que não resulta qualquer bem — e até resultará algum mal — de se permitir que seja questionado. Onde a sua influência prevalece, tornam praticamente impossível que a opinião dominante seja rejeitada de modo sábio e ponderado, embora possa, ainda assim, ser rejeitada de modo precipitado e ignorante; porque impedir ...

Clima e gerações futuras

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Filosofia, climatologia
No meu post “Debate Quente Sobre o Aquecimento” comentei que há um aspecto filosófico curioso sempre que se fala de clima: o facto de se presumir sem discussão que temos deveres para com as gerações vindouras. Mas não expliquei por que razão acho isso curioso e algumas pessoas poderão ter ficado a pensar coisas estranhas. O que considero curioso é o desconhecimento do que implica aceitar que temos deveres para com as gerações vindouras.Em primeiro lugar, implica o abandono da ideia de que o egoísmo pode ser a base da ética. Alguns filósofos defenderam esta posição no passado e por algum motivo as ideias filosóficas das pessoas costumam andar desfasadas umas valentes décadas, e às vezes séculos, em relação ao trabalho que hoje se faz em filosofia. É um pouco como se, no caso da física, fôssemos todos ainda newtonianos, ignorando alegremente Einstein. Se o egoísmo for a base da ética, como explicar a aparência de altruísmo no comportamento e nas instituições humanas? Recorrendo à ideia de contrato social: decidimos fazer contratos entre nós que cheiram a altruísmo, parecem altruísmo, sabem a altruísmo, mas na verdade são meros acertos matemáticos de interesses próprios, mero calculismo amoral. Esta ...

Debate quente sobre o aquecimento

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Filosofia, climatologia
O debate sobre o aquecimento global tem mantido a sua elevada temperatura. Será que há alterações climáticas graves provocadas pelas actividades humanas? A resposta a esta pergunta não é fácil por duas razões.Primeiro, porque não se sabe muito sobre o clima nem sobre a história do clima.Segundo, porque o debate fica em grande parte envolvido em ideologias e interesses.De um lado, os catastrofistas que se dizem ecológicos e que estão desejosos de provar que o modo de vida "capitalista" é um desastre. A motivação destas pessoas é inteiramente política e o meio ambiente é apenas instrumentalizado para fazer avançar os seus interesses.Do outro, as pessoas que querem ganhar muito dinheiro independentemente dos custos ambientais.Neste clima (perdoe-se-me o trocadilho), a procura cuidadosa e isenta da verdade torna-se difícil. Para ajudar a esclarecer o leitor, Denis Dutton, autor do célebre Aldaily, montou um novo site: http://climatedebatedaily.com/. Vale a pena visitar.Uma última nota: do ponto de vista filosófico, este debate é curioso porque se pressupõe sempre sem discussão que temos obrigações para com as gerações vindouras. Isto é interessante porque é dificilmente compatível com teorias contratualistas da ética e ...

Ciência e poder

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência, Ciência Geral
A minha habitual crónica das terças-feiras do Público:O último livro de Nuno Crato, A Matemática das Coisas (Gradiva, 2008), é um prodígio de clareza e lê-se com o fresco entusiasmo da descoberta que terão todos os seres humanos adultos que não se esqueceram do prazer de descobrir. Nuno Crato alcançou um raro poder de síntese e clareza, tornando a divulgação da ciência uma arte. Como Carlos Fiolhais, Jorge Buescu e outros cientistas portugueses, Crato faz divulgação científica ao nível do melhor que se faz no mundo. E este facto é curioso, dado que as coisas eram muito diferentes há meros vinte anos.Nessa altura, ciências como a física, matemática ou biologia eram em parte intrujices de mestre-escola, enredadas em palavreado que ninguém compreendia — e ainda bem, pois assim reservava-se tal coisa aos eleitos. Salvo Rómulo de Carvalho (o poeta António Gedeão), mais tarde o grande António Manuel Baptista, e poucos mais, os universitários viam com maus olhos a divulgação científica. Quando a Gradiva começou a publicar em Portugal bons livros estrangeiros de divulgação científica, a reacção académica tonta não se fez esperar: diziam que aquilo não era verdadeira ciência, ...

Os calores de Bruno

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência, Ciência Geral, Criacionismo, Filosofia
Vale a pena ler a recensão de Marc Kaufman à biografia de Giordano Bruno, a publicar este mês, da autoria de Ingrid D. Rowland, com o título Giordano Bruno: Philosopher & Heretic (Farrar Straus Giroux).Bruno foi condenado por heresia pela Inquisição, tendo sido queimado vivo. Crime? Ideias, em parte inspiradas pelos atomistas gregos, que nunca foram queimados vivos por elas. Que ideias? Que o universo é infinito no espaço e no tempo, que há outros planetas que poderão ter vida como na Terra, que Deus é imanente ao próprio universo. Eram estas ideias assim tão perigosas? Não, a questão era meramente política: a Igreja Católica queria afirmar o seu controlo sobre a sociedade. Bruno não era menos honestamente crente do que as bestas que o condenaram, e era muito provavelmente mais.Entre outras razões, o caso de Bruno é interessante por causa do paralelo com o debate actual sobre o criacionismo. Não acredito que os criacionistas estão realmente interessados em ideias; penso que fazem do criacionismo um cavalo de Tróia político, apenas, como a Igreja Católica fez com Bruno. E é particularmente risível que o Steven Fuller, um sociólogo que dá ...

A ciência contra a religião

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência, Ciência Geral, Criacionismo, Filosofia
Vale a pena ler esta recensão de Sahotra Sarkar do livro Science vs. Religion? Intelligent Design and the Problem of Evolution, de Steve Fuller, um polémico sociólogo da ciência.

Casmurro, casmurro e meio

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência, Ciência Geral, Filosofia
Na sequência dos meus posts “Dogmatismo, Mas de Quem?” e “O Que Fazer com os Dons Casmurros?” vamos fazer um passatempo sugerido pelo leitor Medina Carreira. Oferecemos dois exemplares do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, às duas melhores respostas e comentários a esta pergunta:O que podemos fazer para potenciar a inovação académica, sem com isso abrir as portas ao puro disparate?Contam as respostas que tenham data até terça-feira, às 23:59. O que conta é a data e hora que surge no próprio comentário, por isso fique atento à diferença entre essa data e a data do país em que vive.Bom trabalho!

O que fazer com os Dons Casmurros?

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência, Ciência Geral, Filosofia
Um leitor anónimo, a propósito do meu post anterior, levanta a questão de saber o que podemos fazer perante os casmurros, que entopem os sistemas académicos, impedindo a criatividade e a inovação. E faz algumas sugestões com as quais concordo. Mas há dois aspectos que importa sublinhar.Primeiro, o que eu descrevi não se aplica apenas à ciência, mas a qualquer actividade cognitiva — história, filosofia, economia, matemática, etc. Há uma tendência, sempre que se fala em peer-review, de pensar apenas em ciências como a física ou a biologia, e isto é de um provincianismo atroz. O mesmo sistema de peer-review existe em filosofia — bem ou mal feito, mais a fingir ou mais genuíno real, mas existe. Até há poucos anos, tal coisa era relativamente desconhecida em Portugal, nos meios filosóficos, quando ajudei a fundar a revista Disputatio. Mas hoje já nem em Portugal isso é desconhecido nesses meios, e é certamente bem conhecido no Brasil, onde agora trabalho.Segundo, um aspecto crucial do sistema é... haver vários sistemas. É crucial que haja várias agências de apoio à investigação, várias universidades, vários grupos de trabalho. Esta diversidade é crucial e ...

O Que Dizem os Filósofos

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Filosofia, Livros
Acaba de ser lançado em Portugal o livro Que Diria Sócrates?, org. por Alexander George, com tradução de Cristina Carvalho e revisão científica de Aires Almeida, na colecção Filosofia Aberta, da Gradiva. Este livro colige algumas das perguntas e respostas mais interessantes que surgiram no site askphilosophers.org e mostra bem como reagem os filósofos de hoje às perguntas que as pessoas comuns lhes fazem. Da morte à arte, da ética à ao sexo, do terrorismo à liberdade, vários temas de interesse comum são abordados por vários filósofos neste original livro.

Crítica no blog

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Filosofia
Está já disponível um novo blog de filosofia, associado à revista Crítica. É aqui.

Dogmatismo, mas de quem?

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência, Ciência Geral, Filosofia
Reagindo à minha última crónica do Público, um leitor queixa-se do dogmatismo de muitos cientistas, que impedem assim o trabalho criativo dos cientistas jovens. Isto é sem dúvida verdade, e é verdade em todas as áreas: nas artes, nas ciências, na filosofia. Em todas estas actividades se depende de praticantes mais velhos dessas mesmas disciplinas que decidem que apoios se dá a quem, o que é e o que não é publicado, quem é e quem não é aprovado para fazer um doutoramento ou um pós-doutoramento ou um projecto de investigação. Evidentemente, não há outra maneira de fazer as coisas, dado que não há recursos para aceitar tudo o que qualquer pessoa queira fazer. Alguém tem de decidir e as melhores pessoas para decidir isso têm de ser as pessoas que são da própria área, ao invés de burocratas ou políticos ou algo desse género. Chama-se a isto “peer-review”, em inglês, e eu não sei como se diz em português.Como a democracia, nenhum sistema de peer-review é perfeito — porque as pessoas não são perfeitas. Muitas pessoas são obstinadas, dogmáticas, retrógradas, motivadas por ódios e amores pessoais, tolas, pouco profissionais, com ...

Supressão de provas

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Lógica
A minha habitual crónica das terças-feiras do Público:A falácia da supressão de provas ou indícios é de tal modo grave que um biólogo, físico ou químico apanhado a fazer tal coisa perderá muito provavelmente o emprego, além de se tornar alvo da merecida reprovação por parte dos colegas. Suprimir provas ou indícios permite fingir que se prova seja o que for. Por exemplo, imagine-se que quero provar que lavar os pés com água do mar previne a calvície. Armo-me em cientista de faz-de-conta e concebo uma série de experiências para provar a minha tese. Como sou careca e uma besta, limito-me a fechar os olhos sempre que a realidade contraria a minha tese, e anoto cuidadosamente os casos em que a realidade parece estar de acordo com ela. Ao fim de algum tempo, concluo triunfante que a minha tese está correcta.Se pensa que esta falácia é demasiado tola para que um adulto caia nela, desengane-se. Partes importantes da vida humana dependem dela, porque nem sempre é óbvia. Nas incorrectamente chamadas humanidades, por exemplo, não só muita da investigação que se faz nas universidades é uma imensa falácia de supressão de provas, como é precisamente isso que ...

Afinal a história não acabou

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Política
Fukuyama tornou-se famoso com o artigo, depois transformado em livro, "O Fim da História e o Último Homem". Além de defender a sua ideia hegeliana de um modo muitíssimo superficial, a própria ideia sempre me pareceu implausível e fundamentalmente sonhadora.Aparentemente outras pessoas pensam o mesmo e acaba agora de sair um livro de Kagan, com o título "O Regresso da História e o Fim dos Sonhos". Uma curta mas informativa recensão de James Kirchick (da excelente revista The New Republic) está aqui.

O que é a metafísica?

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, metafísica
Muitas pessoas tendem a pensar que a metafísica é uma espécie de ocultismo, ou uma espécie de física do sobrenatural. Isto acontece em grande parte porque quase não temos no nosso país bons livros introdutórios de filosofia. Mas quem está interessado em saber o que é a metafísica dispõe agora de uma série de traduções de Vítor Guerreiro, que publiquei recentemente na Crítica. São excertos de livros introdutórios de filosofia e dão ao leitor, de maneiras diferentes, uma excelente ideia do que é a metafísica. Os textos são os seguintes:Introdução à Metafísica, de Michael J. LouxA Natureza da Metafísica, de E. J. LoweO Que é a Metafísica?, de Earl ConeeDe todos, só o último é de acesso gratuito. E porquê? Porque a tradução destes três textos custou à Crítica mais de trezentos euros, e isto porque a Crítica paga as traduções a cerca de metade do preço normal. A única maneira de pagar ao tradutor é pedir ao leitor que pague se quiser ler.

Parabéns, Carlos!

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência, Ciência Geral
Notícia do Público de hoje:O físico Carlos Fiolhais é o cientista português com o artigo mais citado em todo o mundo. Ler o resto...

Liberdade e racionalidade

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Filosofia
A minha habitual crónica das terças-feiras do Público:Num livro que todas as pessoas deveriam estudar atentamente, Sobre a Liberdade (Edições 70, 2006), John Stuart Mill (1806–1873) defende a liberdade de discussão e expressão com argumentos epistémicos muitíssimo engenhosos e importantes. No coração da sua argumentação está uma banalidade epistémica: somos falíveis. Contudo, Mill mostra que apesar de qualquer pessoa aceitar em conversa prontamente que é falível, age depois como se não o fosse, e são essas pessoas precisamente que não conseguem compreender o valor fundamental da liberdade em geral e da liberdade de discussão em particular.Há uma tendência infeliz para se presumir que alguns seres humanos têm um acesso privilegiado à verdade. Isto é a negação directa da banalidade anterior, pois se fosse verdade que alguns seres humanos têm um acesso privilegiado à verdade, seria falso que somos todos falíveis. A ideia de que houve génios no passado (inspirados ou não pelo Espírito Santo) é uma encarnação da mesma ideia directamente contraditada pela banalidade que todos dizem aceitar. Daí que algumas pessoas dediquem anos de estudo dogmático à arqueologia do pensamento de um determinado autor, pois estão convencidas de que esse autor ...

Expresso, blog e filosofia

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Filosofia
O Expresso inaugurou recentemente um novo blog dedicado à filosofia, em colaboração com a Sociedade Portuguesa de Filosofia. Aqui.

O enigma da arte

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Filosofia da Arte
A minha habitual crónica das terças-feiras do Público:A arte pode ser estudada de muitos pontos de vista, além de poder obviamente ser pura e simplesmente fruída. No caso da filosofia, um dos problemas mais fundamentais é a questão de saber o que é afinal realmente a arte. Dois livros recentemente publicados dão aos leitores portugueses acesso a esta área fascinante da filosofia, e ambos têm o mesmo título: O Que é a Arte? Um deles foi publicado pela Bizâncio e é uma introdução elegante, clara e sintética, da autoria de Nigel Warburton, que tem o dom de escrever de modo absolutamente directo e claro. O outro é uma colectânea de textos organizada por Carmo D’Orey, uma das nossas mais eminentes especialistas em filosofia da arte e estética filosófica, e foi publicado pela Dinalivro. Em conjunto, dão ao leitor um acesso de ouro ao problema de saber o que raio é afinal a arte.Classicamente, definia-se a arte em termos miméticos: a arte é uma imitação da realidade. Esta definição hoje é tida como insustentável precisamente por ser sumamente difícil aplicá-la a coisas como a pintura abstracta. ...

Ninguém lhe dá cavaco

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Política
O presidente Cavaco Silva promulgou o acordo ortográfico (notícia do Público). Felizmente, tanto no Brasil como em Portugal, é previsível que a generalidade das pessoas não irá adoptar a nova ortografia. Como já referi, há três razões principais contra este acordo ortográfico.A primeira é que qualquer legislação sobre a ortografia é tão absurda como legislar sobre a gramática ou o léxico. Imaginem o que seria uma besta de um político determinar que palavras são ou não são portuguesas.A segunda é que este acordo ortográfico em particular é uma mentira política: apresenta-se como unificador da língua portuguesa, mas não o é, pois passamos a escrever de maneira diferente o que antes no Brasil e em Portugal se escrevia igual (os outros países de língua portuguesa sempre seguiram a ortografia e a gramática de Portugal).A terceira é que a reforma ortográfica proposta é incoerente, introduzindo vez mais elementos ilógicos na língua. Só a título de exemplo: o princípio organizador das mudanças ortográficas é fonético e é por isso que no Brasil se continuaria a escrever "aspecto", porque pronunciam o "c", ao passo que em Portugal as pessoas seriam obrigadas a escrever "aspeto", porque não pronunciam ...

Naomi arrasada

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Política
"She is conscientious enough to provide readers with facts that blow her thesis to smithereens, yet at the same time she is deluded enough not to notice the rubble of her thinking on the floor", escreve Jonathan Chait na sua minuciosa recensão do último livro de Naomi Klein, The Shock Doctrine. Vale a pena ler...

Ensinar a fingir

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Ensino
Mais uma das minhas crónicas de terça-feira do Público, esta publicada dia 10 de Junho de 2008.Ensinar é difícil. Exige virtudes que poucos seres humanos têm: paciência, humildade, curiosidade científica, sensibilidade pedagógica e didáctica, gosto em dar a saber a quem sabe menos, gosto pelo contacto humano com os estudantes. Acresce que não há métodos automáticos que garantam a excelência do ensino, tal como não há métodos automáticos que garantam a excelência da investigação. Exige-se perspicácia, maturidade, inteligência, criatividade, vistas largas.A excelência do ensino depende exclusivamente dos professores. Algumas medidas do governo central podem potenciar ou estimular a excelência educativa, mas não podem criá-la por decreto. De modo que toda a intervenção do ensino que vise a excelência educativa tem de ser sobretudo um estímulo aos professores para fazer melhor. E os professores não podem fazer melhor se não estudarem, pois o aspecto central da nossa falta de qualidade educativa é a pura falta de conhecimentos fundamentais que deviam ser solidamente dominados pelos professores.A mentalidade portuguesa não facilita as coisas. Mal se tenta corrigir um colega, isso é encarado como arrogância, e não como um gesto de partilha. Mal se procura divulgar bibliografias adequadas, ...

Ensino elitista

Desidério Murcho @ De Rerum Natura Categorias: Ciência Geral, Ensino
A minha crónica de hoje do Público:O ensino público português não está a cumprir o seu papel social de dar oportunidades aos estudantes oriundos de famílias culturalmente carenciadas. Isto acontece porque as políticas do Ministério da Educação têm tido o efeito de dificultar cada vez mais a aprendizagem desses estudantes. Vejamos porquê.A convicção que tem orientado as políticas educativas dos últimos anos é a seguinte: os estudantes culturalmente carenciados não são realmente ensináveis, nem podem ter qualquer interesse em física, medicina ou geografia, porque são cognitivamente deficientes: só os filhos das famílias culturalmente privilegiadas são ensináveis, porque não são cognitivamente deficientes, e por isso só eles podem ter interesse nas matérias “elitistas”. Esta convicção não só é uma aberração biológica, como põe o mundo de pernas para o ar: o elitismo é precisamente a crença de que a física quântica, por exemplo, ou o piano, é só para certos estudantes privilegiados, ao passo que para aos outros só pode interessar o surf. Esta atitude é parecida ao racismo, porque em vez de ver os estudantes individualmente como seres humanos, vê os estudantes apenas como membros de classes sociais, e presume que os estudantes culturalmente carenciados o ...
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