Blogs de Ciência

Blogs de Ciência – Divulgação de todos os blogs em Português que versam a ciência. Parte do Projecto Divulgar a Ciência(.com)

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O QUE É E O QUE NÃO É A CIÊNCIA


Trecho do meu livro "A Coisa Mais Preciosa que temos" (Gradiva), que está esgotado:

Embora se possa dizer sumariamente que a ciência é a “busca do erro” definir a ciência é pano que dá para muitas mangas. Decerto que haverá unanimidade se se disser que a arte ou a religião, apesar de serem dos mais notáveis empreendimentos humanos, não são actividades científicas. Por outro lado, ninguém duvida que tanto a matemática como a física são ciências, apesar de terem metodologias e critérios de validação muito diferentes. Mas, por exemplo, as chamadas ciências jurídicas ou as ciências da comunicação serão ciências?

Na matemática ou na física existem alvos precisos a atingir (o rigor lógico-formal e a descrição correcta das leis da Natureza) e sobre eles fazem os matemáticos e os físicos esforçada pontaria. Mas, nas ciências jurídicas ou nas ciências da comunicação, só para continuar com os mesmos dois exemplos, vemos que muita gente atira para qualquer lado e por vezes de qualquer maneira. Depois pintam o alvo à volta dos locais de impacto dos seus projécteis.

Cientista é aquele homem ou mulher que admite que falhou a pontaria. Se um jurista ou um teórico da comunicação estiverem prontos a admitir que as suas respostas a uma qualquer questão estão erradas e devem, portanto, ser substituídas por outras, do próprio ou de outrem, estarão de pleno direito na comunidade dos cientistas. Claro que esta definição remete para outra, a definição de erro. Mas, por mais difícil ou controversa que seja a definição de erro, um matemático ou um físico sabem reconhecer quando se lhes aponta um erro (há excepções, claro, que só servem para confirmar a regra). Mas nem sempre outros profissionais admitem os erros com a mesma rapidez, com o mesmo ou pelo menos semelhante desprendimento.

Como é que os cientistas evitam a publicação e a conveniente disseminação de erros? É uma questão de cuidado. Tomam todos os cuidados e mais alguns. Esta porfiada preocupação por evitar o erro é uma das marcas maiores da actividade científica, que pode evidentemente ser aplicada aos mais variados tipos de estudos: os objectos podem ser os números e as formas, os átomos e o seu movimento, ou ainda as leis humanas ou os meios como os humanos comunicam. Por outras palavras, abrange tanto as ciências exactas e naturais como as ciências sociais e humanas. A metodologia científica

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O CHEIRO DOS RICOS


Minha crónica no semanário "Sol" de hoje:

A estação central de comboios da cidade alemã de Colónia é dominado pela publicidade à água de Colónia 4711, que é, aí como noutros lados, denominada “autêntica”. Ora essa publicidade, como tantas outras, é bastante enganosa, pois a água original de Colónia é quase um século mais velha, remontando a 1709, o ano em que, em Portugal, Bartolomeu de Gusmão fazia subir, perante o rei D. João V, a sua Passarola.

Com efeito, foi nesse ano que o comerciante italiano Giovanni Maria Farina inventou e passou a vender uma “água milagrosa” que ele próprio descreveu nestes termos: "Encontrei um cheiro que me lembra uma manhã na Itália, narcisos da montanha e folhas de laranja depois da chuva. Ele me refresca e fortalece os meus sentidos e a minha fantasia.” Em homenagem à cidade onde foi inventada, passou a ser anunciada como “água de Colónia”.

Aconteceu à água de Colónia o mesmo que, mais tarde, aconteceu à Gilette, isto é, passou a designar-se todo um tipo de produtos com o mesmo nome do produto inicial. Embora de fórmulas químicas diferentes, a 4711 e a Farina são ambas águas de Colónia, isto é, são uma mistura de óleos essenciais de plantas, em concentração inferior a sete por cento, com álcool (etanol) diluído em água. A 4711 será talvez a água de Colónia mais famosa em todo o mundo, pese embora a história da sua pretensão à autenticidade ser um pouco recambolesca: o alemão que criou, também em Colónia, o sucedâneo convidou para sócio da sua empresa um Farina que não tinha nada a ver com a família do perfumista com o mesmo nome, só para que as duas águas pudessem ser confundidas. As leis da propriedade industrial ainda não tinham sido feitas!

A 4711 (nome que deriva do número de porta da loja, na Rua dos Sinos, Glockengasse, no tempo em que os números diziam respeito a toda a cidade e não apenas à rua) tem uma relação com o nosso país: toda uma linha dos seus produtos de perfumaria se intitula Portugal. Porquê? Acontece que um dos óleos essenciais usados para preparar esses produtos é feito com casca de uma laranja azeda, proveniente dos países do Sul da Europa. A associação de Portugal com a produção

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O MOTOR CAÍDO DOS CÉUS


Não, a peça mais surpreendente do Museu Romano-Germânico, mesmo ao lado da catedral de Colónia, na Alemanha, não é o belíssimo chão de mosaico de Dionísio, que foi encontrado "in situ" quando se escavava durante a Segunda Guerra Mundial um abrigo anti-aéreo (e que consegue superar os de Conímbriga). O que mais me surpreendeu foi encontrar, no meio de tantos e tão ricos fundos romanos e pré-romanos, um motor enferrujado, dificilmente reconhecível, de um avião-caça da Luftwaffe que caiu em Enger-Pödinghausen, Herford, no estado de Nordrhein-Westfalen, em Novembro de 1944, e que, ao fim de 66 anos, foi encontrado por acaso numa escavação arqueológica.

Estava enterrado no solo a 4,5 metros de profundidade, tal foi a violência da queda. Mas foi ainda possível encontrar testemunhas oculares da queda, alemães que se lembram de ter recolhido o piloto, ejectado de páraquedas (uma sua pistola e um seu crucifixo foram também escavados por arqueólogos e são mostrados junto ao motor no segundo piso do museu). O avião era um Messerschmitt Bf 109 G 6/Y e o motor era Daimler-Benz,

Dois anos antes, mais precisamente a 30 de Maio de 1942, tinha havido um dos primeiros grandes ataques aéreos da história, com 1100 caças bombardeiros da Royal Air Force a semear a esmo bombas sobre a cidade. O burgo ficou quase arrasado, como mostram alguns postais ilustrados (embora a preto e branco) que os turistas hoje gostam de comprar. Num mar de ruínas ergue-se, solitária e altiva, a catedral. Que os pilotos tenham conseguido poupar uma das jóias da arquitectura gótica que demorou mais de 600 anos a construir mas que poderia ter sido destruída em poucas horas só mostra a sua perícia. Perícia que é comprovada pelo facto de a defesa antiaaérea alemã só ter conseguido abater 43 aviões dos 1100 que enxamearam o céu sobre o rio Reno (uma perda de cerca de quatro por cento!). Nenhum destes aviões britânicos apareceu ainda em escavações arqueológicas, mas isso pode ainda vir a acontecer.

E o que não poderão dizer, se existirem, os arqueólogos daqui a milhares de anos quando descobrirem motores do século XX à mistura com pedras medievais?Continue a ler O MOTOR CAÍDO DOS CÉUS

Água de Colónia: a "original" versus a "autêntica"














Ir a Colónia e não trazer água de Colónia é como ir a Roma e não ver o papa, ou melhor, ir a Colónia e não ver a catedral. Mas, em Colónia, fiquei indeciso entre a "original", associada ao nome do italiano Giovanni Maria Farina, e a "autêntica", que usa o nome de 4711, do antigo número de porta da casa onde era fabricada. O segundo perfume é talvez mais conhecido até porque se vende mais. Mas o perfume mais antigo foi criado na cidade de Colónia pelo italiano em 1709, portanto há mais de 300 anos. O "4711", que tem uma fórmula química diferente (as duas são um segredo bem guardado!), só viu a luz do dia em 1804, graças a um comerciante alemão de seu nome Wilhelm Muehlens, não chegando por isso aos 200 anos. Seria uma história complicada contar como Muehlens tentou por todos os meios usar o nome de Farina, incluindo a compra do nome a um Farina que não era da família original e que não teve escrúpulos de o vender a dezenas de outros perfumistas... Ao contrário de Farina, o nome de "água de Colónia" é hoje uma designação genérica, com vários fabricantes em vários sítios do mundo, que desenvolvem campanhas de marketing agressivas. É curioso notar que o escritor francês Honoré de Balzac escreveu um romance onde descreve lutas entre perfumistas na Paris do século XIX, antecedendo no tema o alemão Patrick Sueskind, autor de "O Perfume".

Em Colónia, vale a pena ver o Museu do Perfume na casa onde trabalhou o italiano Farina, que continua de posse da mesma família, oito gerações depois, em frente à praça de Juelich, muito perto do magnífico Museu Wallraff-Richartz e da velha Rathaus (Câmara Municipal), e relativamente perto da Catedral, a única coisa que em Colónia é mais famosa do que a água de Colónia. O original sempre é o original. E aprende-se lá que Napoleão, querendo estar sempre bem-cheiroso, usava um frasco inteiro de água de Colónia por dia. Mais modernamente, e embora em menor quantidade, eram dados frascos aos marinheiros dos submarinos alemães na Segunda Guerra Mundial. Consta que eles, em vez de os usarem, os traziam para oferecer às namoradas ou esposas, uma vez que o perfume, de aroma suave, é unisexo...Continue a ler Água de Colónia: a "original" versus a "autêntica"

O SEGREDO DO DISCO ASTRONÓMICO


De férias na Alemanha, leio na imprensa alemã uma interessante notícia sobre o disco de Nebra (já referido neste blogue), cuja descoberta no lugar de Nebra, na província da Saxónia-Anhalt tem levantado grande discussão desde há dez anos.

Investigadores das Universidades de Mainz e de Halle (cidade em cujo museu arqueológico o disco está guardado) pretendem ter encontrado uma explicação para o enterramento do disco, há 3600 anos, em plena Idade do Bronze. Nessa época, as cinzas de um vulcão na ilha de Santorini, no Mediterrâneo, terão causado um obscurecimento dos céus da Europa durante um período de cerca de 20 anos (um fenómeno um pouco parecido com o que se passou recentemente com a erupção de um vulcão islandês). O instrumento foi posto de lado e enterrado no local onde foi descoberto porque a sua utilização como calendário astronómico se tornou assim inútil. A notícia acrescenta que na mesma época terá também cessado a utilização astronómica do sítio de Stonehenge, na Inglaterra?

E porque é que a descoberta do disco foi tão polémica? O achado foi feito por arqueólogos amadores que o tentaram vender no mercado negro, mas a polícia acabou por os apanhar numa operação digna de um filme no Hotel Hilton de Basileia, na Suíça. Alguns arqueólogos duvidaram na altura da autenticidade do disco que representa, além do Sol e da Lua, as Pleiades, mas estas dúvidas dissiparam-se depois de uma cuidadosa análise do disco de 32 centímetros de diâmetro cuja massa é de cerca de dois quilogramas. Trata-se, sem dúvida, do mais antigo instrumento astronómico conhecido até hoje.Continue a ler O SEGREDO DO DISCO ASTRONÓMICO

COMO EVITAR OS ERROS

Há erros que são absolutamente intoleráveis. Ocorre o exemplo recente dos erros médicos na clínica oftalmológica I-Q Med de Lagoa, no Algarve, que levaram vários pacientes à cegueira em casos que eram, aparentemente, de rotina. Como evitar esses e outros erros semelhantes?

Os erros numa prática profissional como a médica podem acontecer por desconhecimento das boas práticas ou porque as práticas não são boas, apesar de haver conhecimento delas. No primeiro caso, pouco há a fazer a não ser retirar a licença profissional aos responsáveis (nunca a deveriam ter obtido!). No segundo caso, deve-se melhorar as práticas de modo a evitar os erros que se sabe acontecerem mais frequentemente do que seria desejável. São mesmo inevitáveis, pois como diziam os antigos “errare humanum est". Porém, um erro significa sempre uma oportunidade de aprendizagem no sentido da sua correcção.

Acaba de ser publicado, pela editora Lua de Papel, do grupo Leya, um livro que ensina como evitar erros médicos ou outros. O título é elucidativo - “O Efeito Checklist” - assim como o subtítulo - “Como aumentar a eficácia”. Quer dizer, para evitar erros em situações de alguma complexidade não há nada como seguir uma lista de verificação ou de controlo e colocar um V item após item. Se acaso acontecer um erro novo, correspondente a uma violação de uma regra que não estava na lista, a solução é simples: tem de se aumentar a lista, para que o mesmo erro possa ser prevenido.

O autor de “O Efeito Checklist” é um medico norte-americano bastante mediático, de seu nome Atul Gawande. Ocupa um lugar de professor catedrático de Medicina na Universidade de Harvard, em Boston, escola onde ele também se formou e que costuma aparecer no topo dos “rankings” mundiais de universidades. Com uma extensa experiência em cirurgia geral, a sua especialidade é a remoção de glândulas endócrinas cancerosas, como, por exemplo, a tiróide. Para além da sua experiência clínica, o Doutor Gawande tem também experiência de escrita pois eé autor convidado na revista cultural “New Yorker” e tem uma coluna na prestigiada revista médica “New England Journal of Medicine”. Em português já é o terceiro título dele que sai do prelo da mesma editora: os outros títulos são “A mão que nos opera” e “Ser bom não chega”.

A tese do autor

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A FÍSICA DO FOGO


Minha crónica no "Sol" de hoje:

Para o filósofo grego Heráclito de Éfeso, que viveu nos séculos VI e V antes de Cristo, tudo provinha do fogo e tudo seria consumido pelo fogo. Mas o que é o fogo? Na Antiguidade era um dos quatro elementos. O conceito só ficou, porém, claro quando emergiram a física e a química. A meio do século XVIII, a Academia de Ciências de Paris anunciou um prémio para a melhor memória sobre a natureza do fogo. Embora o primeiro lugar tenha sido ganho pelo maior matemático da época, o suíço Leonhard Euler, aconteceu algo inédito: um escrito da autoria de uma mulher foi pela primeira vez galardoado pela Academia com a respectiva publicação. A autora de “Dissertação sobre a Natureza e a Propagação do Som” era a francesa Madame de Châtelet, amante do filósofo Voltaire, o qual, tendo também concorrido, viu o seu trabalho ser igualmente distinguido.

Para se perceber o que era uma combustão foi preciso, no entanto, esperar pelos trabalhos do químico francês Antoine-Laurent Lavoisier (muito ajudado por sua mulher, Marie-Anne), que identificou o oxigénio, quase ao mesmo tempo que dois outros cientistas. O oxigénio, esse sim, é que é um elemento químico, sem o qual o fogo não pode existir. Quando uma árvore arde, compostos de carbono das fibras da madeira combinam-se com o oxigénio da atmosfera, produzindo dióxido de carbono e água, numa reacção que liberta energia, manifesta pela emissão de calor e de luz. No século XIX, de posse dessa explicação, o inglês Michael Faraday já podia descrever “a história química de uma vela”, em conferências populares que procuravam tornar simples o que é um fenómeno extremamente complexo.

Um fogo é, portanto, química. Mas, mostrando que química e física andam juntam como duas irmãs siamesas, a propagação de um fogo só se consegue explicar com a ajuda da física. Tomemos um fogo florestal, esse mal infelizmente tão comum no nosso país em tempo de Verão. Para explicar o modo como progride um desses fogos, já temos de falar de fenómenos físicos como difusão, convecção, radiação, etc. Ora, se uma chamazinha de uma vela já é uma coisa muito complicada, o que dizer de um imenso e demorado braseiro como o que há poucos dias alastrou nas encostas da Serra da Gralheira, em S. Pedro do Sul? Os físicos são, porém, engenhosos:

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Uma Mina de Ciência


Recebi do geólogo Fernando Barriga esta excelente sugestão para uma viagem ao Alentejo durante as férias, que tenho todo o gosto em divulgar (logo que possa vou lá!):

"No passado dia 30 de Junho foi inaugurado o mais recente Centro da Rede Ciência Viva: a Mina de Ciência - Centro Ciência Viva do Lousal. Trata-se de um Centro moderno e fascinante, com conteúdos interactivos e espaços dedicados às Ciências Naturais e Exactas - Geologia, Biologia, Fisica, Química e Matemática - e às Ciências do Virtual e Computação Gráfica. Poderá descobrir o novo centro em http://www.lousal.cienciaviva.pt/home/.

Os conteúdos científicos disponibilizados neste Centro foram desenvolvidos por investigadores e docentes da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, Museu Nacional de História Natural e Museu de Ciência da Universidade de Lisboa, entre várias outras instituições. A equipa do Centro inclui monitores - licenciados e mestres - especialmente preparados nas áreas científicas em causa.

O Lousal é uma antiga aldeia mineira do Concelho de Grândola, situada apenas a 1.15h de Lisboa, cujo programa de reabilitação, verdadeiramente exemplar a vários níveis, inclui, para além do Centro Ciência Viva, várias outras iniciativas já concluídas, que incluem um Museu Mineiro, um Centro de Artesanato, uma moderna Albergaria e um excelente Restaurante Regional.

Durante as férias ou ao longo do próximo ano lectivo, convidamo-lo a divulgar ou a ponderar a possibilidade de planear uma visita pessoal, familiar ou com alunos ao Mina de Ciência - Centro Ciência Viva do Lousal .

Contactos para esclarecimentos e marcações de grupos deverão ser feitos através do número 269 508 160 (número provisório), ou do e-mail: info@lousal.cienciaviva.pt - contacto preferencial Dr.ª Mafalda Abrunhosa."Continue a ler Uma Mina de Ciência

A CIÊNCIA ABERTA E OS SEUS INIMIGOS


Excerto do meu livro (esgotado) "A Coisa Mais Preciosa que Temos" (Gradiva):

A ciência começou por ser espectáculo. A pedra-i que atraía metais e a água metamorfoseada em cristais de gelo foram, desde a Idade Média, mostrados nas feiras a um público boquiaberto. Em Portugal, não houve esse espectáculo, se descontarmos as breves exibições de ciência experimental no palácio real no século XVIII. E, infelizmente, muito menos houve ciência: é difícil encontrar algum cientista português no século XIX, quando a ciência era uma actividade reconhecida e praticada na Europa civilizada (em vão se vai, por exemplo, à “História de Portugal”, coordenada por José Mattoso e publicada pelo Círculo de Leitores, à procura de um cientista português oitocentista).

No século XIX o espectáculo da ciência alimentou a curiosidade de muitos espectadores a respeito do funcionamento do mundo, fazendo despertar vocações. Ficaram famosas, por exemplo, as conferências do químico inglês Sir Humphry Davy, na Royal Institution de Londres que atraíram um rapaz que, apesar de ter apenas a escola primária, se tornou o maior cientista do seu tempo, Michael Faraday. Mais tarde, Faraday, não esquecendo as suas origens, fez questão de proferir muitas conferências para jovens, acompanhadas de "shows" de demonstrações, e complementadas por livros de divulgação. A mensagem da ciência que recebeu foi transmitida a outros. Ainda hoje podemos assistir a conferências com demonstrações experimentais na Royal Institution, num teatro por cima do velho laboratório de Faraday. É graças à curiosidade dele sobre a relação dos magnetes com os fios eléctricos que hoje temos a electricidade doméstica, o motor eléctrico, e outros artefactos da civilização. Na procura incessante da unidade das leis físicas, Faraday também se interessou pela relação entre as forças eléctrica e gravítica, mas esse estudo não teve resultados palpáveis. O problema era difícil... Einstein, confiante no sonho de que "só há uma força", trabalhou longamente no assunto (foi o problema que mais tempo o ocupou) mas pouco adiantou. É um problema que foi legado aos cientistas de hoje e que parece legado aos cientistas de amanhã.

Repare-se que Faraday não andou a preencher papeis para nenhuma agência de investigação do tempo dele, para resolver o problema da iluminação das ruas de

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Papel de Epicuro


Transcrevo este trecho do poema "A Natureza das Coisas" (I. 62-79), de Lucrécio, que surge no livro recentemente reeditado "Romana. Antologia da Cultura Latina", 6.a edição aumentada organização e tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, Guimarães, 2010 (na advertência preliminar a autor declara ter utilizado a tradução de A. de Mendonça Falcão, "Da Natureza das Cousas", Imprensa da Universidade, 1890"):

"Quando, abjecta, a vida humana jazia aos olhos de todos
sobre a terra, oprimida pelo medo da crendice,
que das celestes regiões erguia a cabeça,
impendendo sobre os mortais com tremendo aspecto,
~um Homem Grego ousou, antes de todos,
contra ela erguer os seus olhos mortais
e contra ela foi o primeiro a opor resistência.
A ele não o deteve a fama dos deuses, nem coriscos.
nem o céu com estrondos minazes, mas mais lhe acicatou
do seu ânimo a acérrima força, para ambicionar ser o primeiro
a arrombar as trancadas portas do acesso à natureza.
ganhou, portanto, a vitória a vigorosa força do seu ânimo,
avançou muito para além das muralhas flamejantes do mundo,
e com a mente o espírito percorreu a intensidade;
daí regressa vitorioso, para nos ensinar o que pode ser
e o que não pode; enfim, de que maneira cada coisa
é sujeita a limites e bem enterrados os marcos que lhes põem termos.
Eis porque a crendice foi calcada aos pés, por sua vez,
e a vitória nos faz subir aos céus."Continue a ler Papel de Epicuro
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