O renascimento do anti-intelectualismo – II


Amanda Gefter, a editora de opinião da New Scientist que referi a propósito do prémio Templeton 2008, assistiu igualmente a uma sessão de Expelled. A sua apreciação do filme é breve (tão breve quanto o «sumo» do filme, aparentemente pouco mais de um longo reductio ad Hitlerum). Mais interessante e longa é a sua apreciação do que se passou durante a parte de perguntas&respostas em que um dos espectadores que se atreveu a fazer perguntas incómodas ia sendo expulso da sala.

No artigo em que retomei o tema anti-intelectualismo, transcrevi uma sinopse do último livro de Susan Jacoby, que aponta o que acontece quando este se traduz na arena política. De facto, é quase impossível dissociar o anti-intelectualismo da sua consequência política, o populismo. É fácil reconhecer o populismo no discurso político pela substituição de ideologias, significados, razões e aquelas coisas racionais a que o Iluminismo nos habituou por apelos aos sentimentos e emoções - algo que todos têm e é, portanto, mais «democrático», e que simultaneamente é mais difícil de questionar.

Normalmente não refiro a Wikipedia mas em relação ao tema em apreço tem uma descrição de que gosto pela sua simplicidade e completude: «O anti-intelectualismo descreve um sentimento de hostilidade ou desconfiança em relação a intelectuais ou aos seus objectos de investigação. Os anti-intelectuais apresentam-se como os paladinos das pessoas comuns e do igualitarismo contra o elitismo, especialmente o elitismo académico. Estes críticos argumentam que as pessoas com maior grau de instrução constituem um grupo social isolado que tende a dominar o discurso político e o ensino superior (a academia)».

O anti-intelectualismo não é um fenómeno novo, na realidade aparece periodicamente em todas as sociedades, normalmente associado a períodos conturbados na história, como ilustrado pela foto à esquerda, tirada em Berlim num dos períodos mais negros da história da Humanidade. Há mais exemplos que permitem constatar que os pontos altos do anti-intelectualismo correspondem normalmente a regimes totalitários ou pelo menos autoritários.

Por exemplo, na China, os intelectuais foram activamente perseguidos durante a Revolução Cultural. As universidades permaneceram fechadas por praticamente dez anos. Também o Khmer Rouge de Pol Pot considerava os intelectuais o expoente do mal e devotou-se à tarefa de assassinar todos os intelectuais cambojanos. De igual forma, a União Soviética promoveu a classe trabalhadora em relação aos inúteis intelectuais e, especialmente sob Estaline, devotou-se a perseguir e a enviar para Gulags sortidos todos os intelectuais que lucubravam sobre temas capitalistas, decadentes, burgueses ou mesmo fascistas como a genética, anátema na URSS até 1964.

Nos Estados Unidos, a história do anti-intelectualismo está bem documentada pelo historiador Richard Hofstadter no seu livro de 1963 Anti-Intellectualism in American Life. Hofstadter, perturbado pelo desprezo por intelectuais da era McCarthy, investigou as raízes históricas de uma onda que varria na altura (como agora) o país da costa leste à costa oeste. Hofstadter descobriu que «o nosso anti-intelectualismo é, de facto, anterior à nossa identidade nacional», citando, entre outros, o puritano John Cotton. Este escreveu em 1642, «The more learned and witty you bee, the more fit to act for Satan will you bee» (Quanto mais instruído e inteligente fores mais apto a agir por Satanás serás).

Hofstadter cita ainda Baynard R. Hall, que indiciou em 1843 o que Jacoby afirma em 2008 em relação aos políticos: «Nós sempre preferimos um homem mau (politicamente) e ignorante a um talentoso e por isso as tentativas de atacar o carácter moral de um candidato inteligente; infelizmente esperteza e maldade estão acopladas aos olhos do povo assim como incompetência e bondade».

No entanto, de acordo com o historiador Lawrence W. Levine, o analfabeto Jim Bridger, um dos mais famosos batedores do Velho Oeste, recitava longas passagens de Shakespeare, que decorara contratando alguém para lhe ler as obras. Alexis de Tocqueville depois de uma viagem pela América no início da década de 1830 disse mesmo: «Não há praticamente nenhuma cabana de pioneiros que não contenha alguns volumes de Shakespeare».

Isto é, tal como na URSS comunista parece que os americanos sempre prezaram os «intelectuais de pé descalço», isto é, gente do povo sem educação formal, mas apresentavam uma hostilidade não disfarçada em relação às suas elites intelectuais.

No seu livro, Hofstadter descreve os três pilares do anti-intelectualismo: a religião, empresas muito dirigidas a aspectos práticos e um estilo político que hoje designamos por populismo. Explica ainda como a II Guerra Mundial e a guerra fria que se seguiu mudou o estilo de vida americano, nomeadamente deu origem a um reconhecimento dos «crânios» nacionais. Mas esse reconhecimento e admiração de intelectuais restringia-se (e restringe-se) àqueles que se mantêm no «seu lugar», isto é, que se devotam nos seus laboratórios a melhorar a vida do cidadão comum com avanços na medicina, na informática e tecnologia, etc. e não «interferem» activamente na vida pública.

Isto é, se olharmos para a História, constatamos que a nossa cultura ocidental apoia investigação sistemática e disciplinada melhor que qualquer outra na história, mas mesmo assim há uma enorme hostilidade em relação aos intelectuais que a ela se dedicam por parte de pessoas que sentem que os seus valores e/ou crenças são ameaçados, consideram-na um desperdício de tempo e dinheiro que poderiam ser melhor utilizados para outros objectivos ou simplesmente se ressentem do estatuto dos intelectuais.

Um exemplo recente deste anti-intelectualismo no discurso político, neste caso de John McCain, o candidato republicano à presidência norte-americana, é analisado por Sean Carrol do departamento de Física do Caltech. No Cosmic Variance, Carrol explica como se enquadra em termos de anti-intelectualismo quer os arroubos populistas de indignação de McCain contra o desperdício de dinheiros públicos em ciência quer o eco que o criacionismo encontra em muitos norte-americanos.

De facto, numa altura em que o custo da guerra no Iraque, que McCain considera necessitar mais empenho (isto é, mais dinheiro), ultrapassa os 500 mil milhões de dólares, é completamente rídiculo vir falar no «desperdício» de 3 milhões dos dólares, gastos por «perdulários» cientistas do U.S. Geological Survey que tentam evitar a extinção do ueso grizzly. A não ser, claro, que os entendidos de marketing da sua campanha tenham decidido que esse é um ponto que lhe angariariará uns votos não despiciendos Novembro próximo.

John McCain apela ao anti-intelectualismo do cidadão comum não só no referido discurso como num anúncio muito difundido- pela passagem do qual nas televisões norte-americanas a campanha de McCain pagou provavelmente uma quantia comparável ao que o trabalho tão ofensivo custou.

O anti-intelectualismo, uma forma de demissão da cidadania, é ainda indissociável da nuvem poluente de irracionalidade que tem sido alvo de inúmeros posts no De Rerum Natura. Para que as velas de Sagan possam surtir efeito, é necessário olhar para as marés da História e perceber em que assenta o anti-intelectualismo da era moderna.

Os pilares do anti-intelectualismo identificados há mais de 30 anos por Hofstadter permanecem hoje em dia, mas acresce nos últimos tempos um privilegiar de actividades intelectuais normalmente orientadas para resultados práticos e imediatos - no caso da ciência, a «ciência dirigida a necessidades específicas» de que falava Lederberg. Outra contribuição importante foi abordada no post «Evolução e pós-modernismo», e tem a ver com a acção perniciosa de grupos de pressão pós-modernos que Diane Ravitch tão bem descreveu no livro «The Language Police».

Há uns meses, o filósofo Eduardo Subirats dizia a um jornalista do Estado de São Paulo:

«O que distingue intelectualmente uma elite não é o poder político ou institucional da classe que seja. O poder institucional define a burocracia, o intelectual orgânico ou a estrela literária.

O que distingue uma elite intelectual em um sentido estrito não é o poder político, mas a capacidade de desenvolver uma crítica, de criar uma forma de ver, de pensar e de ser, reside na força reformadora e transformadora das linguagens e a consciência de uma sociedade.

Nesse sentido, hoje vivemos em uma era anti-elitista, um anti-elitismo que se crê democrático, mas na realidade recolhe o pior da herança anti-intelectual dos velhos fascismos. Vivemos em uma era na qual o papel educador e orientador dessas elites intelectuais tem sido tomado e monopolizado pelo burocrata acadêmico, pela estrela da mídia, pelo agente editorial, pelo administrador político.»

Acho que não conseguiria resumir melhor o tema!

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